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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Quantum of Solace – A polêmica vingança de Bond. James Bond.

007 – Quantum of Solace (Inglaterra/EUA, 2008)

De: Marc Forster

Com: Daniel Craig, Judi Dench, Olga Kurylenko, Mathieu Almaric

106 minutos

James Bond é invencível. Na ativa a quarenta e sete anos, desde que o mundo conheceu sua classe de lord inglês com a face e a interpretação impecável de Sean Connery (“A Liga Extraordinária”) no clássico “Dr. No”, o espião inglês do MI-6 faz parte daquele rol de personagens atemporais e eternos, cujos estigmas são capazes de se adaptar a qualquer realidade limitada e encantar qualquer geração. Afinal, a beleza do mistério e da adrenalina sempre foram uma atração inevitável para o homem. Astros vão e vem, ídolos passam e envelhecem, mas Bond é uma constante irremovível que simplesmente não pode deixar de existir porque sobrevive no inconsciente coletivo mundial. É uma daquelas coisas que conhecemos sem conhecer e nos fascinamos quando olhamos mais de perto. Testemunhar um filme de James Bond se realizando é, sem exageros, como assistir a um evento histórico de perto e posição privilegiada. Não é uma má bilheteria ou críticas duras que vão derrubar alguma coisa assim. Personagens tão eternos não desaparecem da noite para o dia e não importa o quanto lhe digam mal, ninguém vai deixar para trás a oportunidade de ver um filme de James Bond. Reflexões e fatos a parte, toda a repulsão da crítica por “Quantum of Solace”, nova investida do espião em terreno cinematográfico e guardião de uma série de inovações para a franquia, foi extremamente exagerada. Talvez fosse a expectativa alta que o elogiado Cassino Royale havia deixado em 2005, mas “Quantum of Solace” passa longe de ser um filme ruim, que dirá o pior filme da história de Bond. O espião já passou por fases bem mais negras e nem por isso perdeu prestígio ou expectativa dos fãs e curiosos. Que o filme, que prometia revolucionar como a primeira continuação direta de um filme de 007, deixa a dever para quem esperava ansioso não há dúvida. Ao contrário de seu predecessor, que resolveu reinventar o personagem e rendeu uma trama essencialmente emocional, “Quantum of Solace” é mais brutal e direto, tentando sempre criar adrenalina e saindo-se bem na m aioria das vezes. Mas, acima de tudo, o novo filme de Bond é sobre vingança. A vingança de um espião frio e elegante que não sabe até onde é capaz de ir e não mede esforços ou escrúpulos para conseguir o que deseja. Ver o espião na busca por retaliação pode não ser a viagem mais recompensadora da série, e muito menos a mais divertida, mas pelo menos não se afoga na própria ambição. Pecado do qual, diga-se de passagem, “Cassino Royale” passou raspando.

Da última aventura do espião, além do elenco, o único denominador comum é o trio de roteiristas, que triunfaram ao renovar o protagonista e trazê-lo para uma realidade mais atual e agora tentam estabilizá-lo em um nível um pouco mais ambicioso, como a própria trama exigia. É bom saber que, ao contrário da maioria dos filmes do espião, não seria nada prejudicial dar uma revisada em “Cassino Royale” antes de conferir “Quantum of Solace”. Isso porque, habilidosa e oportunamente, os escritores escolheram dar continuidade as conseqüências finais da última aventura para construir toda uma nova jornada. A bem da verdade, basta lembrar que Vesper Lynd (Eva Green), a única mulher que James Bond jamais amou de verdade, foi assassinada por uma organização incógnita responsável também pela morte do vilão do filme, Le Chiffre (Mads Mikkelsen). Nos últimos minutos de “Cassino Royale”, Bond não hesita em desferir um tiro na perna de Mr. White (Jesper Christensen), executor e espião da tal organização. Quando “Quantum of Solace” começa, Bond está sendo perseguido com White preso no porta-malas, rumo a cidade italiana de Siena, onde o agente se encontra com M (Judi Dench) apenas para descobrir que a organização tem homens infiltrados onde menos se espera. A partir daí, começa uma interminável caçada que tem como figuras centrais Dominic Greene (Mathieu Almaric), um bem-feitor de fala mansa que comanda na surdina operações anti-democráticas em países na América do Sul, e Camille (Olga Kurylenko), a ambígua amante do vilão, que logo se revela com motivos mais interessantes e se une a Bond na busca por uma vingança comum. Mesmo com a identificação inevitável que há entre os dois, o roteiro de Paul Haggis (“Crash – No Limite”) ao lado da dupla Neal Purvis & Robert Wade (“Johnny English”) é habilidoso ao deixar mais do que claro que, mesmo ausente, Vesper ainda é naquele momento a mulher da vida de Bond. Para além desse e de outros acertos na sutileza, nem sempre o script funciona, especialmente nos momentos mais práticos da trama, e ainda que a tensão seja imposta a todo tempo e a linha narrativa seja carregada com perícia, em alguns momentos o roteiro de “Quantum of Solace” carece de ritmo e regularidade. Não por acaso, tais momentos menos inspirados acabam influenciando na direção do alemão Marc Forster (“Mais Estranho Que a Ficção”), que só consegue sair aprovado de sua primeira experiência com um filme de ação porque possui um domínio narrativo impressionante, talvez igualado na Hollywood de hoje apenas por Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”).

Outro elemento que contribui bastante para “Quantum of Solace” funcionar apesar dos erros é a surpreendente familiaridade com que Daniel Craig (“Invasores”) encara o protagonista já pela segunda vez. Nas mãos do inglês, conhecido por papéis em filmes britânicos com mais conversa do que ação como o confuso “Nem Tudo é o Que Parece”, Bond ganha uma espécie de classe ambígua que acrescenta ao personagem uma estranheza inédita na interpretação dos outros astros da série ao longo das décadas. Craig tem a aristocracia que o personagem exige, mas sabe como se tornar brutal e inflexível quando é exigido, ou seja, durante boa parte do tempo em “Quantum of Solace”. Aqui, Bond não é o agente submisso que passou pelas telas tantas vezes e tampouco o conquistador desenfreado que aprendemos a observar. Seus diálogos com M são de igual para igual e a batalha de interpretações entre Craig e Dench é empolgante de se observar. Não são poucas as vezes em que não há como apontar um vitorioso. Isso porque, do alto de seus 75 anos, Dench não se deixa ficar para trás e parece tão habituada a encarnar a chefe do espião que se tornou parte indissociável de sua aparência e personalidade. Com ela em cena, M deixa de ser uma alegoria para se tornar alguém que vale a pena observar e um acontecimento quase sobrenatural que se mostra na tela maior do que na memória. Em resumo, Dench dá um show de atuação que é capaz até mesmo de ofuscar a boa encarnação de Olga Kurylenko (“Hitman”) para a nova e obsessiva bondgirl. Presente por boa parte da projeção, Camille em algum momento deixa de ser coadjuvante para se tornar protagonista de sua própria história e a atriz encanta tanto pela beleza quanto pela determinação com que encarna esse papel. Ela faz da história de Camille uma que valha a pena ser ouvida. Completando o quarteto principal, o francês Mathieu Almaric (“Munique”) absorve com gosto cada traço da personalidade de Dominic Greene e o joga na tela como um retrato vibrante que brilha desde o segundo inicial até o último momento de glória antes de ser jogado em meio a adrenalina eficiente do clímax. Pode ser que nem todas as cenas de ação convençam e pode ser que os clichês tenham sido usados com ênfase demais, mas a verdade é que “Quantum of Solace” tem qualidades e acertos o bastante para valer a pena ser visto. Não que James Bond precise, disso, é claro. Afinal, elegante ou não, é sempre bom se divertir um pouco com um terno de agente secreto. Até a próxima, Bond.

Nota: 7,5

quinta-feira, 19 de março de 2009

Corrida Mortal – Surpresas com Paul Anderson e a beleza da destruição

Corrida Mortal (Death Race, EUA/UK, 2008)

De: Paul W.S. Anderson

Com: Jason Statham, Joan Allen, Tyrese Gibson

111 minutos

 

 

 

 

 

 

Talvez seja paixão nerd em excesso ou mesmo falta de juízo, mas o fato incontestável é que Paul W.S. Anderson não consegue passar muito tempo longe de um projeto com tudo para dar errado. Primeiro, foi a adaptação vigiadíssima do jogo eletrônico “Mortal Kombat”, um clássico intocável para muita gente que acabou sendo mal-julgado em sua época e entrou para nosso século na lista de adaptações de games mais razoáveis já feitas. A mesma coisa com “Resident Evil”, sete anos depois, que pode não ser uma adaptação fiel do cultuado material original, mas consegue criar tensão e entreter como poucos filmes de terror de sua época. Com “Alien VS Predador” ele não teve a mesma sorte, descontruindo duas lendas do cinema de ficção científica em uma batalha capenga e cheia de momentos arrastados, memória que não foi nem um pouco melhorada com a horrorosa continuação lançada três anos depois. Enquanto via seus filmes criar franquias nos últimos anos, Anderson ficou quieto em seu canto, eventualmente dando uma força na produção de algum filme de ação B, inveriavelmente lançados direto em vídeo no Brasil. Quatro anos depois do desastre mais grave de sua carreira e bem-casado com a beldade Milla Jovovich, protagonista de seu “Resident Evil”, o homem chega com o bombástico projeto de refilmar “Ano 2000 – A Corrida da Morte”. Ficou um pouco perdido? Provavelmente você não deve se interessar muito pelo cinema de ação subversivo que surgiu nos anos 1970, mas o fato é que o filme em questão, dirigido pelo sempre alternativo Paul Bartel (“Cannonball – A Corrida do Século”), é até hoje um daqueles filmes cult presentes no inconsciente coletivo do mundo todo. Aposto que você já ouviu algo sobre uma corrida onde atropelar pedestres acumulava pontos para o competidor e todo o tipo de trapaça, de armas pesadas a tanques extras de gasolina, eram o tipo de coisa não apenas permitida, mas esperada pelos milhões de pessoas que assistiam ao show ao vivo pela TV. Estrelado pelo icônico David Carradine (“Kill Bill”), “Ano 2000” se tornou um clássico alternativo instantâneo e um fracasso de bilhteria que triunfou como nenhum outro em adentrar a cultura pop global. Pelo básico resumo acima, é possível ter um mero esboço do tamanho da responsabilidade que Anderson estava assumindo ao se arriscar a transportar um filme como esse para a audiência atual. A parte ruim? Para quem viu o original (admito que não sou um deles), seu Corrida Mortal pode ser uma decepção gigantesca, já que boa parte dos lances subversivos mais graves do original foram limados em função de uma classificação etária mais leve. Por outro lado, para quem não tem problemas com refilmagens ou simplesmente não tem idéia do conteúdo do filme de 1975, o que Anderson contruiu foi um triunfo do cinema de ação realista que pouco se nota na artificialidade da Hollywood atual. É brutal, é assustador em alguns momentos e seria se um tremendo mau-gosto... se não fosse a prova final de que a destruição é deslumbrante.

Vamos aos fatos: é impossível fingir que o roteiro de “Corrida Mortal” é uma obra-prima, e tampouco seria adequado chamá-lo de supra-sumo do entretenimento. O que sob nenhuma circunstância arranca o mérito de uma narrativa razoavelmente crível para encobrir os absurdos realizados pelos carros que, pensando bem, nem são tão absurdos assim. Quando desafia os próprios limites em junção com uma máquina, o homem é capaz de coisas inacreditáveis e feitos impressionantes, explorados ao máximo pelo roteiro do próprio diretor, que se orgulha de dizer em todas as entrevistas que deu para promover “Corrida Mortal” que não usou um pingo de CGI para realizar as eletrizantes cenas de ação. Embora o conflito sofrido pelo protagonista seja simplista e até previsível em alguns momentos, Anderson mostra perícia ao fazer algo que deveria provocar repulsão ressoar com força o bastante nas percepções do espectador para envolvê-lo na história e levá-lo ao inevitável encantamento com os momentos de adrenalina. Como poucos filmes nos últimos anos, “Corrida Mortal” guarda em todos seus 111 minutos de projeção a capacidade de deixar o público com um sorriso empolgado estampado no rosto. Até mesmo a trama, atualizada do filme da década de 70 e modificada para soar um pouco mais profunda em algumas questões, impressiona pela simplicidade e o controverso realismo que permeia toda a história de Jensen Ames (Jason Statham). Ele vê sua vida de minerador virar de cabeça para baixo quando sua mulher é assassinada e ele é acusado do crime. Preso em um dos lugares mais rígidos do país, a Terminal Island, um presídio localizado em uma enorme ilha onde acontece um dos eventos televisivos mais esperados e vistos do mundo, a corrida mortal do título. Os presidiários guiam os carros mais brutais que possam montar e não se furtam de trapaça e assassinato para conseguir ganhar cinco corridas e ser libertado do lugar. Jensen entra na história com a pressão da diretora da prisão, Warden Hennessey (Joan Allen), que promete o devolver as ruas e a sua filha em apenas uma vitória, desde que ele tome o lugar do piloto mais célebre do evento, Frankenstein. Ele está morto, mas ela não pode suportar perder tanta audiência e dinheiro, especialmente na sociedade pós-industrial de uma economia americana em declínio.

A contextualização nova que Anderson deu a mesma trama básica não é menos que inteligente, trazendo paralelos para uma história que mesmo trinta anos atrás parecia vazia e sem propósito. Aqui, ele faz uma ode a adrenalina e a destruição ao mesmo tempo em que critica a frieza das grandes corporações e chega até mesmo a discutir tirania e preconceito. Surporeso com tanta relevância por parte dele? Pois saiba que no comando das câmeras ele não se sai tão bem quanto na elaboração do script. Não que ele inove nas cenas de ação e tire um raio-x de emoções a cada close, mas a forma de misturar linguagem documental com puras viagens de câmera e ainda exaltar as sensações provocadas pelas corridas é uma enorme evolução vindo de alguém que já nos entregou algo como “Alien VS Predador”. Especialmente nos momentos de maior tensão, digamos assim, política, sua forma de filmar se destaca pela habilidade de criar uma atmosfera intensa de perigo eminente. Verdade seja dita, aqui ele tem a ajuda de um elenco afiadíssimo. Jason Statham (“Carga Explosiva”) se confirma como o legítimo astro de ação do século XXI e, mais do que isso, como um dos atores mais carismáticos da atualidade. O inglês encarna com propriedade impressionante a personalidade de seu personagem e domina cada segundo de tela em que aparece trazendo a vida o protagonista perfeito para uma trama como esta, alguém por quem torcer e por quem sorrir no final da projeção. No mesmo nível dele está Joan Allen (“O Ultimato Bourne”), que usa e abusa da elegância natural para construir uma tirana categórica e fascinante, talvez o personagem mais marcante de um filme que não desperdiça coadjuvantes nem se limita a diversão vazia do costume hollywoodiano. Se foi um momento fugaz de inspiração ou uma virada definitiva na carreira de Paul W.S. Anderson, apenas “Spy Hunter”, marcado para estrear ainda esse ano, nos dirá. Por enquanto, fica a boa memória de uma surpresa e de um filme de ação que fez o que poucos haviam conseguidos nos últimos tempos: deixou um sorriso e um arrepio gravados na minha memória.

Nota: 7,5

quarta-feira, 18 de março de 2009

Max Payne – Vingança sem emoção no noir-falso de John Moore

Max Payne (Max Payne, Canadá/EUA, 2008)

De: John Moore

Com: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Olga Kurylenko

 

 

 

 

 

 

Um homem sem nada a perder e muito a lamentar, a procura da mais cruel das vinganças e sem absolutamente nenhum receio de encontrar a morte em seu caminho. Drogas, um submundo do crime riquíssimo e sujo até a mais profunda raiz. Uma cidade infestada de criminosos e o pior tipo de gente, cheia de sombras para se esconder e lugares sombrios em que coisas inacreditáveis acontecem. Corrupção, alucinações, emoções extremas e um final apoteótico, violento e regado de sangue. Ingredientes corretíssimos para realizar a magia do que se convencionou chamar de film-noir. Criado na época da Segunda Guerra Mundial por certos cineastas alemães que aos poucos chegavam a terra do cinema, o estilo sombrio de filmar e as tramas hediondas que poderiam ir do sobrenatural ao realista conquistaram o público americano sedento por grandes histórias para se desviar do horror que o mundo vivia. Influenciado pelo expressionismo germânico e seu representante maior, Fritz Lang (“M – O Vampiro de Dusseldorf”), o film-noir reinou absoluto como o entretenimento adulto mais garantido da época, se aliando espertamente ao gênero policial para criar grandes clássicos do cinema como “O Falcão Maltês” e “Floresta Petrificada”. Em comum, eles tinham os elementos secundários das tramas, alguns arquétipos de personagem e principalmente o estilo de filmagem baseado no contraste do preto e branco da época. Quase duas décadas depois de um reinado absoluto, o noir caiu em desuso conforme as tecnologias do cinema iam se aprofundando e a limitação a histórias mais violentas ia se tornar mais frouxas. Não era mais preciso se prender a um gênero para contar uma trama com os elementos descritos acima, e o público estava, é claro, cansado da analógica falta de cores nas obras dos diretores. Foram precisos trinta anos da ponderação hollywoodiana e de testes discretos com alguns diretores autorais para que se nascesse o que hoje chamamos de neo-noir, carregado pelas habilidosas mãos de Robert Rodriguez (“Sin City”) e Christopher Nolan (“Insônia”) e sustentado por primazia técnica combinada com o deslumbramento visual em favor da trama que o estilo sempre pregou. Sim, estilo é importante, pelo menos se você realmente quiser fazer a platéia embarcar na jornada que seu filme se propõe. Mesmo para o realismo de alguns dramas, a estética precisa ser bem definida, calculada, ponderada. Estilo, seja ele noir ou qualquer outro nome que você possa querer dar, não é exagero, e sim sutileza. É necessária uma impressionante parcimônia ao lidar com contrastes para que o resultado final não acabe tomando a proporção inversa do que se pretendia. Quando isso acontece, o resultado é um filme visualmente desagradável e excessivo, que bloqueia do espectador a concentração na trama e acaba por prejudicar seriamente as sensações que a obra pretende passar para seu espectador. Em resumo, o que acontece é “Max Payne”.

Não sou um daqueles críticos nerds que costumam massacrar qualquer filme baseado em um jogo de vídeo-game. Pelo contrário, até compreendo que o cinema almeje provocar a mesma experiência de imersão que alguns jogos alcançam, e qualquer um que tenha jogado ou ouvido falar de “Max Payne”, o vídeo-game, sabia que aquela história era feita para ser contada no cinema. Primeiro, porque resgatava toda a estética do noir clássico de sessenta anos atrás. Depois, porque possuía uma trama visceral e repleta de pequenos detalhes que muitas vezes passavam despercebidos por quem tivesse uma visão unilateral dos fatos. O formato cinematográfico poderia facilmente resolver essa questão e ainda trazer de volta com toda a força um dos momentos mais marcantes de sua história. Poderia, se não tivesse caído nas mãos de John Moore (“Atrás das Linhas Inimigas”) realizar tal feito. O irlandês, conhecido pela excelência ao dirigir momentos de adrenalina, não deu conta de todo o recado e acabou escorregando feio ao criar uma estética que pretende ser noir mas passa dos limites e encontra uma espécie de hibridismo estranho e sem sentido que desvia a atenção do espectador. Embora não escorregue nunca nos momentos de ação e tampouco cometa algum grave erro em relação aos ângulos de sua câmera, o mundo criado por ele para seu personagem soa tão artificial e repulsivo que acaba contaminando os diálogos pronunciados pelos atores e dissolvendo o impacto emocional que o roteiro poderia causar. Face a face com tamanho descaminho visual, é quase desumano julgar o trabalho do estreante Beau Thorne ao adaptar o vídeo-game de Sam Lake. A sua versão para o atormentado policial até conegue superar as dificuldades e ressoar forte em algumas passagens mais intensas, mas não encontra repercussão mais significativa graças ao trabalho terrrivelmente equivocado do diretor. Seus diálogos passam perto demais do clichê em alguns momentos e a solução do conflito não é a melhor que se poderia esperar com sua surpresa estapafúrdia, mas ainda assim não resultaria em uma peça de cinema tão desprezível se não fosse o massacre de digitalização presente em cada minuto e o clima tão mal-trabalhado dos ambientes. Sem preconceitos contra a indústria de Hollywood, mas esse é indiscutivelmente o calcanhar de Aquiles dos cenários criados artificialmente: sem a demonstração real, nenhum diretor é capaz de prever como uma tomada pode parecer ou soar antes da pós-produção, quando será tarde demais para corrigir os erros. Um defeito que Rodriguez superou com méritos em sua adaptação de quadrinhos, mas que Moore se vê incapaz de lidar depois de dois pares de filmes de ação e suspense que surpreenderam na bilheteria mas não agradaram a crítica em geral.

De qualquer forma, a trama não soa das mais criativas, embora tenha funcionado as mil maravilhas nos games: Max Payne (Mark Wahlberg) é um amargurado policial que teve sua família assassinada há mais de três anos e continua obcecado em encontrar o assassino. Quando a ambígua femme fatale Natasha Sax (Olga Kurylenko) é encontrada morta logo após um jogo de sedução com o policial, frustrado graças a sua fidelidade a finada esposa, novas pistas acabam surgindo e um inferno astral é desencadeado para o protagonista, que passa por perseguição policial, desconfiança extrema e alucinações demoníacas. A mistura de tudo isso com tráfico de drogas e traição inesperada deu certo para quem mergulhava na experiência do jogo para computador, mas acaba saindo pela culatra quando o jogador não é capaz de controlar o personagem. E a situação piora, é claro, quando atores pouco inspirados tomam a linha de frente. Para ser sincero, Wahlberg (“Atirador”) faz o que pode, mas se vê preso nas limitações do personagem construído pelo roteiro, sutilmente distinto daquele que povoava a obra original e ainda assiste a interpretação esforçada ser jogada de escanteio no final, que pretende impressionar com seu primeiro raio de sol em 100 minutos de projeção e erra ao dar um tom impessoal ao acontecimento. A ucraniana Olga Kurylenko, mais conhecida como a bondgirl de “Quantum of Solace”, tem pouco tempo de tela mesmo para impressionar pela beleza, que dirá pelo talento interpretativo que demonstrou no filme do espião inglês. Também ucraniana, Mila Kunis (“That’s 70s Show”) se junta ao restante do elenco com pouco a fazer como meros coadjuvantes da jornada do protagonista, que deveria ser emocionante com sua metáfora final e a realização do profundo desejo de vingança de um personagem atormentado. Mas não é. Por mais que se esforce (ou não), “Max Payne” passa pelo espectador tão frio quanto a neve digital que cai eternamente pela cidade de pixels construída pelos melhores efeitos de Hollywood.

Nota: 3,0

quarta-feira, 11 de março de 2009

RocknRolla: A Grande Roubada – Guy Ritchie está de volta, e com cara de franquia

RocknRolla: A Grande Roubada (RocknRolla, Inglaterra, 2008)

De: Guy Ritchie

Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Mark Strong, Toby Kebbell

114 minutos.

 

 

 

 

  Sexo, drogas e rock n’roll. Receita bem-sucedida (pelo menos comercialmente) de tantos filmes que é impossível citar todos em um único texto sem se arriscar a soar como alguém no mínimo obsessivo. Para dar um exemplo relativamente recente e elogiado pelos críticos, talvez seja melhor resumir a ladainha toda em “Quase Famosos”. Primeiro filme do diretor Cameron Crowe após o sucesso definitivo de “Jerry Maguire”, o musical rocker conquistou público e crítica, pagando o próprio custo (com uma margem apertada, é verdade) e figurando anos depois nas listas de filmes mais importantes do começo do nosso século. A história de uma banda underground que ascendia a fama com rapidez vertiginosa e descia de volta ao poço na mesma levada contava com as tiradas pop de sempre do diretor para conquistar o espectador e levá-lo em uma viagem recompensadora por ritmos, sensações e imagens. Em resumo, utilizava a música como pretexto para cinema de primeira. Deu certo naquela oportunidade e em algumas outras (“The Commitments”, “Fama”), e desde então se estabeleceu um padrão para os filmes que por ventura quisessem tratar do mesmo assunto. Não é difícil imaginar o que se passava nas cabeças dos produtores “espertos” espalhados pela terra do cinema: um subgênero bem-sucedido a mais para explorar, sem riscos. Como de costume, Hollywood não foi menos do que cega e estúpida ao prender os filmes do estilo a uma forma que foi cansando com rapidez impressionante. Afinal, quem procurou por “Quase Famosos” quando este foi lançado buscava um pouco mais do que simplesmente um filme ordinário, clamava por inovação, originalidade, entretenimento diferente do usual. Embora tenha sido uma grata surpresa para muita gente, não é preciso pensar muito para perceber porque “RocknRolla”, novo filme do britânico Guy Ritchie (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”), não foi apenas a anunciada ressurreição do diretor, mas um ar completamente novo para o gênero que põe em prática a tríade sagrada que figura na primeira frase deste texto. E isso sem precisar apelar para a cantoria maçante em nenhum momento. A verdade é que, sob muitos aspectos, “RocknRolla” é diametralmente oposto a “Quase Famosos”. Ritchie não utiliza um contexto musical para fazer cinema, mas o ritmo de uma trilha-sonora excepcionalmente bem selecionada para dar levada, alma e inovação a um filme que poderia cair em outro estigma caso não possuísse esse diferencial. Embora sempre proporcione momentos interessantes, o gênero de gângsteres, criminosos e afins já anda esgotado há algum tempo. Com a música e os toques de humor do roteiro do próprio Ritchie, esse esgotamento é preenchido com folga e dá mais levada a trama bem intrincada que consegue passar por todos os 114 minutos de “RocknRolla” sem deixar o interesse cair um minuto sequer. O que o diretor fez foi combinar inteligentemente elementos de dois gêneros mal-vistos, adicionar uma dose cavalar de diversão e piadas que vão do sarcástico ao grosseito, tudo para criar um filme que não cai em nenhum dos estigmas que poderia e ainda deixa uma continuação engatada. A esperteza e o talento para orquestrar tramas, pelo menos, Ritchie não perdeu com o passar dos anos.

Como sempre autor do próprio roteiro, ele faz um trabalho notável ao dar brilho e sofisticação a cada frase proferida por seus personagens, arrancando alguns momentos de puro brilhantismo cômico e ainda fazendo subir aquele arrepio inconfundível pela espinha do espectador. Em certo ponto de seu filme, quando o mafioso Lenny Cole (Tom Wilkinson) toma uma lição de brutalidade de seu “concorrente”, é impossível não se emocionar, contra todas as expectativas, ao ouvir a perfeitamente sincronizada reflexão do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell). Não é fácil para um roteirista fazer duas cenas paralelas possuírem uma ligação tão lógica e forte, mas Ritchie o faz com maestria. O protagonista aqui é One Two (Gerard Butler), um ladrão barato que tem aceitado alguns trabalhos oferecidos pela insinuante contadora Stella (Thandie Newton), que age em nome do russo Uri Omovich (Karel Roden), que por sua vez é o concorrente mais sério de Cole, um mafioso a moda antiga, com seus segredos e manias, incluindo a existência de Johnny, um roqueiro irresponsável que ele tomou por filho adotivo assim que sua esposa, mãe do garoto, morreu. O problema é que ele, para desespero dos empresários e furor da imprensa, sumiu do mapa pela quarta vez em um ano, levando consigo uma preciocidade que pode colocar o padrasto em apuros: o “quadro da sorte” emprestado justamente de Uri, com quem ele tentava firmar um acordo pelo domínio da cidade. A primeira vista, pode soar como uma história banal, mas é aí que reside a habilidade de Ritchie ao redigir o roteiro. Embora não seja uma trama de grandiosidade, “RocknRolla” encanta pela proporção intimamente fundamental em que se desenrola a história, estudando as conseqüências de um ato impensado ao mesmo tempo que não se esquece de proporcionar diversão das boas recheada com o melhor do estiloso modo de filmar do diretor. Embora predominantemente use câmeras estáticas e cortes em certa medida previsíveis, a câmera de Ritchie de alguma forma consegue agradar aos olhos sem distrair os ouvidos de cada palavras que sai da boca dos personagens. É como a combinação perfeita entre visual e conteúdo: o roteiro é o astro principal, mas isso não impede que as luzes da cidade e os bizarros comportamentos de gente igualmente pouco usual não promovam duas horas da boa e velha diversão.

Talvez por isso Gerard Butler pareça tão adequado, adjetivo que nunca exatamente se encaixou nas interpretações caricatas do escocês revelado em “O Fantasma da Ópera” e elevado ao patamar de astro pelo Rei Leônidas de “300”. Aqui, ele é deixado a vontade para exercitar a canastrice e o carisma que essa forma de atuar traz atrelada pode surpreender muita gente que nunca se indentificou muito com as interpretações do ator. Como One Two, Butler encontra o personagem perfeito para seu (relativo) talento, agindo mais como peça atuante do que como centro de todos os acontecimentos. Esse posto é ocupado com competência por Toby Kebell, o “RocknRolla” do título, um termo que só pode ser descrito nas palavras de Ritchie (brilhantes demais para serem descritas nesse humilde texto). O que importa é que o ator, conhecido pelo trabalho como coadjuvante em filmes como “Alexandre” e “Controle”, traduz a perfeição a genialidade contida entre as paredes das drogas que Johnny Quid representa. Ele é um touro indomável, um rebelde convicto, um homem que de muitas formas foi conduzido para onde está, mas acima de tudo um ser humano complexo, cativante e um dos anti-herói mais perfeitos que já figuraram no cinema. Ele brilha mesmo ao lado de uma interpretação tão marcante quanto a de Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”), colocando a caricatura para funcionar (no melhor dos sentidos) e contruindo uma figura única para o mafioso, confirmando-se como um dos melhores atores em atividade. Mas quem realmente impressiona é Mark Strong (“Stardust – O Mistério da Estrela”), fundando os alicerces de um personagem que ainda pode render muito mais conforme a familiaridade do público aumentar. Archie, o “capanga” do mafioso, é sem sombra de dúvida a maios fonte de brilho de um filme que não carece dele. Guy Ritchie está de volta dos mortos, e pronto para abalar as estruturas da terra do cinema mais uma vez com o vindouro “Sherlock Holmes”. Mais um filme com a marca do frescor de um cineasta que nunca se torna ultrapassado. E que tem muito o que ensinar a Hollywood.

Nota: 8,5

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Outlander: Guerreiro VS Predador – Injustiças de Hollywood e a surpresa do ano

Outlander – Guerreiro VS Predador (Outlander, EUA/Alemanha, 2008).

De: Howard McCain.

Com: James Caviezel, Sophia Myles, Jack Huston, John Hurt, Ron Perlman.

115 minutos.

 

 

 

Uma das características mais encantadoras e únicas dessa representação de nossos tormentos que chamamos de arte é sua capacidade de surpreender, não importa o quanto as circunstâncias soprem contra essa surpresa. E acho que falo por todos os críticos amadores ou não mundo afora quando digo que é sempre maravilhoso ser pego de surpresa pela qualidade incontestável de um filme que tinha tudo para dar errado. Nadar contra a maré sempre foi a especialidade do cinema, lutar contra as desvantagens para construir uma obra que valha a pena ser vista. A premissa de “Outlander” não soava nada bem para os cinéfilos, especialmente com a memória recente do equivocadíssimo “Desbravadores”. A única promessa que uma trama sobre uma nave alienígena desgovernada que encontrava seu destino na Dinamarca dominada pelo povo viking era uma violação terrível da fascinante cultura nórdica, personagens rasos e a dieta de efeitos especiais hollywoodianos de sempre. A mistura idealizada pelos roteiristas estreantes Howard McCain & Dirk Blackman (que posteriormente seriam responsáveis por “Anjos da Noite: A Rebelião”) soava como mais uma daquelas idéias estúpidas que inevitavelmente encontravam o caminho merecido para o Framboesa de Ouro. O trailer só piorou as expectativas, deixando a impressão de um filme de ação descerebrado, com batalhas filmadas de maneira manjada e fogo explodindo para todo o lado em um visual supostamente inovador. Enfim, todos os ventos sopravam para que “Outlander” se tornasse mais um engodo insuportável da terra do cinema, que só não seria uma decepção porque as expectativas já eram baixas demais. Quando foi lançado no cinema, pouca gente foi ver o resultado de tudo isso, fazendo o filme fechar a conta com míseros 128 mil dólares em terras americanas e adicionando mais um fracasso a já extensa lista da Weinstein Company, que teve seu pior ano em 2008. Quem foi não só constatou que o bicho não era tão feio afinal, como também saiu de sua sessão maravilhado com mais uma peça surpreendente de cinema.

São raros os filmes de ação na Hollywood de hoje, dominada pelo cinismo e pelos já banalizados efeitos especiais, que desenham um sorriso no rosto do espectador. Provocar tensão, talvez, mas há muito tempo que a adrenalina deixou de marcar tanto quanto na época de gente hoje renegada como John McTiernan (“Duro de Matar”) e John Frankenheimer (“Ronin”), mestres irretocáveis do cinema feito de impressões para os quais as portas se fecharam na terra do cinema. Pois bem, “Outlander” não só alcança esse feito, como o faz duas vezes. E são cenas tão diferentes que é impossível não se perguntar porque tanta gente sem criatividade continua empregada no espetáculo do cinema. A primeira, uma batalha selvagem travada com fogo e caos, filmada de forma grandiosa, dona de um impacto visual impressionante e senso de perigo que chega a alarmar o sentido mais primitivo do espectador. A segunda, uma sinfonia de suspense e um jogo de gato e rato empolgante que garante o visual graças ao elemento oposto que dá o ritmo ao filme, a água, e termina de forma trágica e triunfante a um tempo, nota dada com habilidade por uma câmera quase documental. Depois dessa descrição, é fácil perceber que, no mínimo, “Outlander” é um filme que supera de longe todas as expectativas. Talvez não seja uma obra-prima, mas cumpre bem o que se propõe e ainda não se perde na confusão de uma mistura que todas as chances diziam ser equivocadas. Por incrível que possa parecer, o roteiro de Howard McCain e Dirk Blackman é a maior virtude e ponto diferencial de “Outlander – Guerreiro VS Predador” (péssimo subtítulo, diga-se de passagem), que se desenvolve perfeitamente bem nas duas vertentes que se juntam na trama. O trabalho da dupla consegue ser um filme de monstro exemplar sem deixar de lado o encantamento da cultura nórdica, mostrada mais em detalhes fundamentais do que nos pontos já tão explorados por outras obras de competência variável. E o script ainda consegue ir além de tudo isso para versar, de maneira grosseira mas eficiente, sobre adaptação, adequação e a capacidade impressionante de se reconstruir do ser humano, independente da época em que vive.

Um tema universal e atemporal que cai perfeitamente bem para a jornada do Kainan (James Caviezel), o tal alienígena que cai na Terra dominada pelos guerreiros vikings trazendo com ele a desgraça de seu povo, uma criatura monstruosa e insaciável. Durante sua estadia em nosso mundo, ele aos poucos se integra a um vilarejo viking comandado por Rothgar (John Hurt), o primeiro reis do ano que ficaria conhecido posteriormente como “o ano dos três reis”. O próximo na linha de sucessão é Wulfric (Jack Huston), um jovem arrogante que nutre um ódio mortal por Gunnar (Ron Perlman), que ele acredita ter sido responsável pela morte de seu pai. Para completar o círculo principal, Freya (Sophia Myles) é a típica princesa que odeia o título e tenta provar seu valor como guerreira perante a aldeia. Esses personagens e todos os outros moradores do lugar se envolvem na inevitável caçada do monstro, cujos hábitos e peculiaridades apenas Kainan conhece, fato que o faz ganhar a confiança de todos. O dilema final pode ser previsível, mas há algum tempo que um filme não trata do sentimento de lar com tanta eficiência quanto “Outlander”. Além de construir o grande motivo de triunfo de seu filme, Howard McCain estréia também como diretor e faz um trabalho louvável, mostrando-se grande comandante nos momentos de adrenalina e utilizando os efeitos especiais mais como um acessório do que como algo fundamental. Não é difícil embarcar na jornada comandada por McCain, mesmo que o elenco seja no mínimo irregular. Jack Huston, mais conhecido pelo trabalho na recente versão televisiva de “Spartacus”, e Sophia Myles (“Tristão & Isolda”) sofrem um pouco com o estereótipo de seus personagens, os menos desenvolvidos da trama, mas ainda assim conseguem entregar um trabalho correto. O mesmo pode se dizer de John Hurt e Ron Perlman, se reencontrando depois da relação pai-e-filho em “Hellboy”, ambos com menos tempo de tela do que suas interpretações mereceriam, mas indiscutivelmente marcantes, ainda que o personagem de Perlman seja quase supérfulo para o andamento da trama. O protagonista James Caviezel faz o trabalho mais notável, despindo-se do sofrimento do furacão “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson para entregar a interpretação recheada de estranheza que o personagem merece. Para um filme que prometia muito instinto, pouco cérebro e duas horas perdidas da sua vida, “Outlander” acabou sendo uma das maiores surpresas despercebidas de um ano cheio das que acabaram vingando. Injusto? Essa é Hollywood, queridos. Nua, crua e cruel.

Nota: 7,5

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Busca Implacável – Vingança ou justiça? O clichê de Monseiur Besson

Busca Implacável (Taken, França, 2008)

De: Pierre Morel.

Com: Liam Neeson, Famke Jansen, Maggie Grace, Katie Cassidy.

96 minutos.

 

 

 

 

Vingança e justiça são conceitos tão espantosamente parecidos que às vezes é difícil entender porque a sociedade que construímos os tornou tão impossíveis de associar. As regras que seguimos dizem que a retaliação é um crime tão brutal e passível de punição quanto aquele que a causou. Radicalizando um pouco o conceito, não importa o mal que nos é infringido, não cabe a nós devolvê-lo ou fazê-lo notar. A vingança é um sentimento tão profundamente arraigado nos instintos humanos que muitas vezes nossa soberana e ultimamente incompetente justiça, a mãe de todas as convenções, não parece o bastante para punir crimes tão hediondos. Talvez tenha sido esse sentimento de frustração que lev ou o cinema, representação artística maior das angústias do homem e tantas vezes válvula de escape para a falta de realização pessoal em uma sociedade guiada pelo bem maior, tenha escolhido tantos anti-heróis em busca de vingança para estrelar filmes cuja qualidade é capaz de variar do inesquecível ao dispensável. Há pouco tempo, por exemplo, o mestre Steven Spielberg retornou ao Oscar com um tomo de vingança das mais brutais, e houve quem dissesse que “Munique” era o legítimo dono da estatueta principal. Perto da visão impactante de alguém como Spielberg, “Busca Implacável”, investida do decadente e multi-talentoso francês Luc Besson (“O Quinto Elemento”) no brutal subgênero passa longe de ser uma obra-prima. Em seu roteiro, Besson trata a vingança como algo natural, numa ingenuidade que simplesmente não casa bem com o nome do homem que revolucionou o cinema de ação nos anos 90 com “O Profissional” e um par de outras pequenas obras-primas. Seu tratamento, escrito na parceria habitual com Robert Mark Kamen (“Carga Explosiva”), carece de mais humanidade em meio a reações automáticas, irrealísticas e, nos piores momentos, vergonhosas. É triste ver um roteirista tão talentoso e marcante para toda uma geração de apreciadores de cinema chegar ao ponto de apelar para frases de efeito previsíveis, cenas absolutamente sem sentido e clichês a ponto de irritar o espectador. Há uma década ou mais atrás, o nome de Luc Besson nunca estaria na mesma frase que a expressão “repetição hollywoodiana”. Por incrível que pareça, não poderiam haver duas palavras melhores para definir “Busca Implacável”, um filme de ação europeu que erra o deixar de lado as peculiaridades da produção do continente e apostar em uma fórmula tão americanizada que às vezes soa como um tour de luxo pelo lado sujo de Paris.

Nada contra o cinema de ação americano, é claro, celeiro de talentos e filmes simplesmente tensos demais para ignorar, mas boa parte da análise de um filme tem a ver com expectativas, e do jeito que está, no meio do caminho entre Europa e EUA, “Busca Implacável” é um filme que vai decepcionar dois lados de uma mesma equação. Aqueles que embarcarem esperando um filme de ação mais inteligente, sofisticado mas ainda assim intenso, uma espécie de Bourne com o ritmo característico do cinema europeu, provavelmente vai encontrar pouco o que apreciar e ainda menos do que analisar. Do outro lado da moeda, quem quer de divertir com a dieta blockbusteriana de sempre vai encontrar dificuldades para acompanhar a equivocadamente ramificada trama e ainda sentir falta de um pouco mais de espetáculo, impressão, nos momentos de adrenalina. É impossível negar que Besson ainda é um dos escritores de ação mais talentosos por aí. Em “Busca Implacável”, pelo menos nesse ponto, ele acerta em ir contra as convenções do gênero, preferindo a climatização que a destruição, mas lidando bem com ela quando se mostra necessária. Viajar com o filme nos momentos de perseguição ou quando a vingança finalmente chega as vias de fato é fácil, mas no restante do filme o roteiro engata uma série de tropeços imperdoáveis, seja na construção estereotipada dos personagens ou na crueldade um tanto quanto repetina que surge em seu protagonista, quase doentia de tão determinada. Em alguns momentos mais desgovernados, o Bryan Mills em busca de vingança de Liam Neeson quase deixa de ser um anti-herói  para se tornar um vilão, tamanho é o sadismo que Besson impõe forçadamente a seu jogo de gato e rato pelas ruas marginais da cidade-luz. É lá que Kim (Maggie Grace) e Amanda (Katie Cassidy) são seqüestradas por um grupo de albaneses traficantes de mulheres. O que eles não sabiam era que Kim é filha de Bryan Mills (Liam Neeson), um agente aposentado da CIA que impôs uma série de condições aparentemente paranóicas para permitir que a filha viajasse com a amiga. Por um acaso infeliz para os seqüestradores, pai e filha estavam falando no telefone a ocasião do acontecimento, e Bryan não heistará um segundo em usar todas as suas habilidades enterradas para recuperar a rebenta, de quem estava começando a se aproximar após a aposentadoria.

Logo no início, o roteiro deixa claro que Bryan não só não hesitará em matar os seqüestradores, como toma essa como sua primeira diretriz, já no primeiro contato através do celular da filha. “Eu não sei quem vocês são, mas se vocês não deixarem minha filha ir agora, eu vou proculá-los, eu vou persegui-los, eu vou achá-los e eu vou matá-los”. Chega a ser curioso nos primeiros minutos após esse esclarecimento o quão repentinamente o raciocínio do personagem ligou o crime a vingança, mas o tempo passa e nada mais de interessante ou intigante é apresentado, o filme fica jogado a própria sorte e preso a própria trama genérica e previsível. Ainda para ajudar o diretor Pierre Morel (“B13 – 13º Distrito”) parece sem criatividade, movendo a câmera da forma óbvia, deixando de investir em seu elenco para apostar em takes mais amplos que tiram a força da brutalidade, elemento essencial de um filme como esse. Mesmo nas cenas de ação, impressionantes apenas no clímax e em uma explosiva perseguição em uma espécie de mina de carvão ou algo que o valha, Morel parece entediado ao guiar, construindo tomadas impactantes mas irritantemente óbvias. O elenco faz seu trabalho resignado, acorrentados pela própria falta de criatividade da trama. Liam Neeson, em seu primeiro papel mais interessante desde “Batman Begins”, parece entender bem o espírito de seu personagem, mas encontra pouco o que desenvolver em meio a uma brutalidade tão resoluta. A jovem Maggie Grace, recém-saída de “Lost” é a dona do úncio trabalho verdadeiramente digno de nota, que ultrapassa o morno mesmo com a mais experiente Famke Jansen (a Jean Grey de “X-Men”), que pouco tem a fazer a não ser exercitar sua coadjuvâncias de luxo nessa história de vingança que promete demais, cumpre de menos e cela a absoluta falta de criatividade um homem tão criativo quanto Luc Besson.

Nota: 5,0

Bom, pessoal, aí está a crítica nova para esse filme, eu tive que reescrever porque senti que a primeira não tinha capturado o espírito do filme e estava um pouco mal justificada. Espero que vocês entendam as neuroses de um crítico amador, mas de qualquer forma obrigado a todos que lêem o blog e mil perdões por essa troca tão repentina. Valeu, pessoal!