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terça-feira, 11 de agosto de 2009

X-Men Origens: Wolverine – Sobre heróis, dólares e faíscas

wolverine  X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009).

De: Gavin Hood.

Com: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Danny Huston, Lynn Collins, Taylor Kitsch, Dominic Monaghan, Ryan Reynolds.

107 minutos.

Filmes de super-heróis percorreram um longo e tortuoso caminho desde que se tornaram a próxima nova grande mania no final dos anos 1980, quando o Batman de Tim Burton tornou todos os envolvidos em milionários e consagrou o Paladino de Gotham como o maior dos representantes cinematográficos dos vigilantes criados para os quadrinhos. Ironicamente, acabou que o filme de Burton e suas continuações foram casos isolados de sucessos em um lote equivocado de adaptações apressadas que se tornaram fracassos retumbantes de bilheteria e crítica. Como todo o baque é sentido em forma de catástrofe para Hollywood, foi preciso mais de uma década para que o gênero fosse ressuscitado em uma operação surpreendente da Marvel, que colocou o arrebatador X-Men nas salas de exibição e saiu-se 200 milhões de dólares mais rica apenas em solo americano. Foi aí que o domínio da editora, até então menos bem-sucedida frente a concorrente DC no campo cinematográfico, redefiniu o rumo das adaptações de quadrinhos empreendidas pela máquina milionária hollywoodiana. Com muitos acertos (Homem-Aranha), poucos erros (Elektra) e respeito ao material original, entregando-o a diretores e roteiristas com competência certificada, a Marvel se tornou não apenas o maior símbolo da invasão dos filmes de quadrinhos, mas uma das grandes forças criativas e financeiras de uma capital do cinema que berra mais alto a cada ano o quanto precisa de novos ares. Nesse sentido, 2008 foi um ano mais do que definitivo para o gênero, entregando aos fãs o primeiro filme da Marvel agora incorporada como estúdio, Homem de Ferro, e ainda dando luz a sua primeira grande obra-prima, o sombrio furacão de O Cavaleiro das Trevas, vindo direto da concorrência da DC, que andava um pouco quieta demais nos anos anteriores. Tendo em mente esse historio em constante evolução e vislumbrando um futuro de seqüências e novos heróis aportando nos cinemas todos os anos, não tem como evitar ver Wolverine como uma regressão. O que não significa, em absoluto, que seja um filme ruim, apenas menos notável em frente a grandes revoluções do gênero, um filme que segue uma linha narrativa convencional e não demonstra tanto cuidado aos pequenos detalhes quanto seus companheiros de gênero mais festejados. De certa forma, é uma decepção ver um novo capítulo de uma série tão realista e política quanto X-Men, especialmente nos dois primeiros dirigidos por Bryan Singer (Operação Valquíria), seguir um caminho tão sem personalidade e brilho próprio quanto nessa nova aventura de origem assinada pelo sul-africano Gavin Hood, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pelo drama Infância Roubada e escolhido do astro e produtor Hugh Jackman (Austrália) para trazer a interação fantástica entre personagens da denúncia social de sua obra anterior para a trama movimentada por conflitos que marca essa narração da origem misteriosa do até então desmemoriado Logan, interpretado pelo mesmo Jackman nos filmes anteriores da série. Indestrutível, dono de instintos de lobo e garras de osso que saem por suas mãos, o Wolverine que conhecemos aqui é outro, mais convencional e talvez justamente por isso menos interessante do que aquele que abrilhantava as cenas da trilogia original, seja sob a direção de Singer ou de Brett Ratner (A Hora do Rush), que assumiu bem a câmera da série no terceiro e derradeiro capítulo. O mais grave, porém, é que, se não se conecta com o clima realista e político da série dos mutantes, como obra original e independente que claramente pretende ser, esse Wolverine não tem tanto para oferecer quanto era de esperar com tantos talentos envolvidos. Literalmente, é um filme divertido como Homem de Ferro, mas sem o tempero da personalidade de um Tony Stark. Para usar a expressão certa: absolutamente sem sal.

Os notórios e seguidos escorregões ao conduzir a trama soam ainda mais estranhos nas mãos de alguém com um histórico tão bom quanto o de David Benioff, autor dos textos de filmes díspares, mas sempre contundentes, como O Caçador de Pipas e A Passagem, ambos levados as telas pelo amigo e cineasta Marc Forster. Preso em uma trama já bem delimitada e com pouco espaço para inovar no relacionamento entre personagens que, no final das contas, já estão bem definidos aos olhos do público, ele não consegue pôr muito de seu habitual brilho num texto focado em um par de protagonistas que não se lembra de dar aos coadjuvantes uma motivação de verdade. Encarregado da parte mais fácil da missão, o co-autor do roteiro Skip Woods (Hitman) se sai quase ileso ao criar seqüências de ação interessantes e eficazes, mesmo que quase nunca inovadoras ou de fato empolgantes. Os diálogos conseguem soar verdadeiros, e a personalidade do par de personagens centrais cria uma interação que solta faíscas em duas atuações fascinantes, mas o restante do elenco se vê quase sem opções, perdendo a vantagem da surpresa em pouco tempo e não conseguindo ir além de um par de momentos carismáticos, mais por culpa do roteiro que os deixa jogados ao vento em meio a uma jornada intensa do que por falta de talento dos atores. A cena inicial se passa em pleno século XIX, quando o jovem James Howlett descobre possuir poder de cura, instintos de lobo e garras saindo de suas mãos ao mesmo tempo em que vê seu mundo virar de cabeça para baixo ao saber que o homem que o criou não é seu pai e que o filho do caseiro, o selvagem Victor Creed, é seu meio-irmão. Em seguida a montagem de abertura, muito bem-feita, mostra os dois lado a lado lutando em praticamente todas as guerras da humanidade da Civil Americana a do Vietnã, onde já adultos são recrutados pelo Coronel William Stryker para um grupo de mutantes que viaja ao mundo cumprindo missões para “servir seu país”. Para não estragar nenhuma surpresa, basta dizer que Logan (Hugh Jackman) se cansa de toda a violência praticada pelo grupo e se refugia em uma vida simples no interior canadense por três longos anos antes de se ver acossado por Stryker (Danny Huston) e seu irmão Victor (Liev Schreiber), que parece obcecado em matar todos os antigos integrantes da equipe e acaba encontrando Silverfox (Lynn Collins), a mulher que acompanha o irmão na vida “normal”, pelo caminho. Motivos estabelecidos e sede de vingança despertada no animal reprimido dentro do corpo humano do mutante, nada pode impedi-lo de se unir mais uma vez a Stryker e se tornar a cobaia da experiência da qual os fãs dos filmes ou dos quadrinhos sabem muito bem o desfecho. É claro, o filme vai bem além disso, amarrando com elegância as pontas entre a origem do herói e a trama dos três outros filmes da série mas nunca acrescentando muito ao ícone sólido que o herói se tornou nos últimos oito anos, desde o lançamento do primeiro X-Men, o grande divisor de águas para os super-heróis cinematográficos do novo século. Enfim, não coloque Wolverine para rodar esperando por inovações ou grandes surpresas, ou a natural decepção pode se tornar ainda maior. O que temos aqui é um objeto de estudo interessante para quem gosta de conflitos familiares com um pouco de diversão, não o filme que pretende mudar a visão que temos sobre uma franquia que pode ou não ter um novo capítulo nos cinemas em breve.

Como coração da trama que são, porém, é impossível negar que o grande motivo para assistir Wolverine é mesmo o duelo de atuações entre o já experimentado em assuntos mutantes Hugh Jackman e o novato no universo Liev Schreiber, conhecido por papéis secundários em filmes como o remake de A Profecia e o suspense A Soma de Todos os Medos. O primeiro, voltando ao papel que o tornou um dos mais estimados atores da atualidade tanto entre o público quanto entre a crítica, aparece bem confortável na pele do mutante instintivo e imprevisível que é Wolverine. Adequado bem ao papel, ele leva com a mesma naturalidade as cenas que exigem acessos de fúria e os poucos momentos românticos e dramáticos de uma trama quase desembalada entre cenas de ação cheias de impacto. Seja se utilizando do sarcasmo que marca o personagem ou tentando processar a informação de uma mentira das grandes que ataca direto em seus sentimentos e os vira de cabeça para baixo, Jackman é uma explosão em tela a cada segundo, e segura bem os momentos em que precisa levar o filme nas costas. Indiscutível, porém, que o ladrão de cenas de verdade aqui é Schreiber, atuando com puro instinto em um papel que poderia cair em mais do mesmo nas mãos de um ator mais desleixado. Quando é ele encarnando o irmão que abraça o lado feroz de sua natureza, porém, o que vemos é um vilão mais complexo do que se pode imaginar por baixo da superfície sólida que segue os passos tradicionais de composição de um bom antagonista e ganha pontos por ser conduzido por um ator que sabe controlar os próprios exageros como Schreiber. Ele é selvagem, é um assassino frio, mas no final das contas acaba sendo apenas um homem querendo provar que está certo. Nas mãos do ator, a mistura brilha intensamente. Uma pena que, a mais desses dois incendiários da tela, o restante do elenco tem pouco a fazer com seus personagens mal-desenvolvidos. Danny Huston (30 Dias de Noite) chega a dar sinais da criação de um Stryker interessante, mas se perde no meio do caminho para se encontrar apenas perto do final, quando as coisas já estão bem resolvidas e não há mais muito o que fazer. Sua performance na primeira cena em que aparece chega a superar a dos dois protagonistas, mas daí em diante Stryker é jogado tão para escanteio que fica difícil ver um pouco de brilho novamente em sua atuação. Quem se dá melhor é Taylor Kitsch, um dos jogadores da série Friday Night Lights, que sai daqui direto para o estrelato com o papel principal de John Carter of Mars quase garantido. Nada mais merecido para o ator carismático que ele demonstra ser ao encarnar o estiloso Gambit, que grita por mais tempo em tela a cada frame e dá sinais de render um filme solo com facilidade, mesmo quando é mandado para uma missão que simplesmente não faz sentido perto do final do filme. O elenco extenso ainda conta com uma inexpressiva Lynn Collins (O Número 23) e com o dabochadamente carismático Dominic Monaghan, o Charlie de Lost, que bem poderia estrelar um filme sozinho também. Assumindo a missão de risco de uma super-produção pela primeira vez em sua carreira e apenas em sua segunda investida em terras americanas, o diretor Gavin Hood não faz um mau trabalho, mostrando desenvoltura ao lidar com cenas de ação e não se metendo na frente de seus atores quando eles pedem por um pouco de brilho próprio, o que acaba realçando, para completar a faca de dois gumes, a fragilidade do texto. Se alguém tem mesmo tudo para comemorar na dança de franquias proposta por Wolverine, porém, esse alguém é Ryan Reynolds, que faz um par de cenas introdutórias para o todo seu Deadpool, que deve aportar nos cinemas nos próximos anos. Afinal, dólares são mesmo tudo no mundo cruel de Hollywood.

Nota: 6,0

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Bom, pessoal, e por hoje é isso… Vi esse filme no cinema, mas tive que ver de novo em DVD para ter minha impressão completa, vocês sabem como é… Enfim, quanto ao Boletim Cinéfilo, novo modelo, eu estou pensando em dividir ele em três edições espalhadas pela semana, mas como já estamos na terça-feira isso começaria semana que vem. Seriam os rumores na segunda, os trailers na quarta e os posters na sexta, certo? Bom, então os melhores filmes para todos vocês e até mais! Ah, e apróxima Lista da Década vem ainda nesse mês, preparem-se!

domingo, 26 de julho de 2009

Coração de Tinta – Magia dos dois lados da tela

ink

Coração de Tinta (Inkheart, Alemanha/Inglaterra/EUA, 2008).

De: Iain Softley.

Com: Brendan Fraser, Eliza Bennett, Paul Bettany, Andy Serkis, Helen Mirren, Jim Broadbent, Sienna Guillory, Jennifer Connelly.

106 minutos.

Os leitores vorazes que por ventura estiverem passando os olhos por essas linhas devem concordar comigo que não raro há um gosto especial nos mundos que surgem em nossa mente durante a leitura. Tão especial que, muitas vezes, mesmo que por breves instantes, desejamos com todas as nossas forças viver aquela história por nós mesmos. O mundo de papel pode ser muito mais atraente que o de carne e osso que vemos e vivemos todos os dias, e cada criação humana e tão única em suas palavras que é impossível evitar um desejo, por mais secreto que seja, de que tudo aquilo se torne em verdade. Mesmo preso no mesmo mundo da ficção do qual tira personagens bem familiares ao espectador e ao leitor, Coração de Tinta deve a maior parte do envolvimento e fascinação que causa a esse antigo e arraigado sonho humano, romantizado pela escritora alemã Cornelia Funke na novela infanto-juvenil de fantasia e aventura homônima lançada em meados de 2003, tudo por meio do esperto e de certa forma antigo conceito de “Língua de Prata”, espécie de rara habilidade nata que leva as pessoas a materializar aquilo que lêem em voz alta. Sempre cuidadosa com a própria escrita, Funke construiu em papel uma ode a literatura e uma deliciosa aventura cheia de encantamento e povoada por personagens construídos com esmero digno da apreciação de qualquer crítico exigente ao mesmo tempo em que a fez movimentada por um ritmo dinâmico e peculiar capaz de prender o leitor mais casual. Em meio a tudo isso, ainda ganhávamos de graça uma leitura lúdica, quase escapista, que usava uma premissa por si só interessante para explorar criações próprias de uma forma no mínimo incomum. Mesmo quando eram tirados de um “livro dentro do livro”, os personagens de Funke tinham alma, vida própria e, portanto, não deixavam dúvida ao leitor de sua capacidade de sair do mundo da ficção. Feito meia década depois de o livro explodir mundo afora e até ganhar uma continuação, Coração de Tinta, o filme, prefere um caminho mais arriscado e mais visual ao transformar esses mesmos personagens em caricaturas que povoam um mundo mais do que real e podem se provar tão perigosas quanto as ameaças das quais fugimos ruas afora. A força da palavra escrita ainda é o cerne da trama, mas de alguma forma a tradução visual das peculiaridades do material original pediu adaptações que podem ou não agradar aqueles que viveram a experiência literária de forma mais marcante. No final das contas, porém, o filme deixa intacto o caráter escapista e a fascinação natural que a trama tem, criando um universo que tem brilho próprio e apoiando-se em um elenco sólido para representar bem aqueles personagens que estavam nas palavras de Funke, enquanto o roteiro se preocupa mais em dar ao espectador a sensação de estar embarcando em uma aventura tão verdadeira quanto fantástica. O equilíbrio é complicado, de fato, mas Coração de Tinta consegue se aventurar entre o humano e o ficcional com competência notável e acaba sendo acima da média para as recentes investidas cinematográficas no terreno da fantasia. Real ou não, aqui estamos nós diante de mais um mundo que merece nossa atenção, seja em papel ou em imagens.

Obviamente, quando falamos na criação de um mundo atraente e o assunto é cinema, a imensa maioria dos créditos deve ir ao roteiro, que precisa buscar o equilíbrio entre a caracterização do cenário e a relação entre os personagens, sempre quesito fundamental em qualquer trama que ambicione envolver seu espectador. No comando desse barco, é admirável a audácia do americano David Lindsay-Abaire, mais conhecido pelo texto da animação Robôs e futuro autor do roteiro de Homem-Aranha 4, que escolhe a rota mais turbulenta para administrar tão complexa gerência e se aproveita do tempo limitado de que dispõe para focar em um grupo concentrado de protagonistas e torná-los no símbolo quase vivo daquele conceito arraigado que se torna em magia na trama. Os coadjuvantes são meras caricaturas, cuja ficção está naturalmente estampada em seus rostos, mas de alguma forma se tornam ingredientes indispensáveis para uma receita ousada que prova dar certo em meio a soluções bem-armadas de roteiro. São eles, as caricaturas, que formam a sólida base e muitas vezes fazem o papel de alavanca para que um trio inusitado de protagonistas venha a se tornar justamente o tipo de personagem que desejamos mais profundamente que se tornem em realidade. Ironicamente, o texto de Abaire faz de tudo para que por breves instantes eles sejam, criando diálogos que soam reais sem precisar recorrer ao caminho fácil do exagero melodramático e montando situações que colocam sob uma perspectiva diferente o caráter e os objetivos que movem cada um desses personagens. A mistura resulta em um texto de profundidade rara no gênero a que pertence. É a pura magia que está incutida na trama sendo transferida para o espectador, e de alguma forma é nessa inesperada transferência que o texto de Abaire prova que, ao menos dessa vez, a rota mais arriscada pode ser a correta, triunfando em um clímax que consegue emocionar, liberar adrenalina e gerenciar com cuidado o destino de cada um dos personagens, substituindo a surpresa baseada em um único conceito que movimentava a novela pela de um final que pouca gente espera nos dias cínicos por que Hollywood está passando. Sim, aqui estamos nós diante de um fim de conto de fadas, mas de certa forma esse conceito tão ultrapassado serve como uma luva para o mundo de tinta que se tornou em imagem pelo texto de Abaire, uma espécie completamente diferente do de Funke, e não por isso menos encantador. Coração de Tinta, o filme, é centrado em Mortimer “Mo” Folchart, um encadernador com a rara habilidade de trazer ao mundo real os personagens dos livros que lê em voz alta. Como tudo nessa vida tem um preço, em uma noite sua esposa é levada para o mundo da obra de fantasia que dá nome ao filme, enquanto os vilões da história saem das páginas para o mundo real. Quando finalmente encontra um cópia do raro livro e se prepara para trazê-la de volta, porém, ele é encontrado por Dedo Empoeirado, um maleável cuspidor de fogo que também foi arrancado do mundo de ficção e é capaz de tudo para retornar para sua família e sua mulher, inclusive se reunir ao vilão Capricórnio, líder de uma enorme rede de capangas, que por sua vez não tem interesse nenhum em voltar a sua vida medíocre do livro e vai atrás de Mo e de sua filha, Meggie, para obrigá-lo a trazer tesouros para ele das obras de ficção.

Para uma trama que a bem da verdade vai muito além disso em ramificações e pequenas surpresas, Coração de Tinta conta bastante com o elenco para segurar as pontas e dar mais força aos momentos-chave, levando muitas vezes a decisão ousada do roteiro nas costas e fazendo-o funcionar infinitamente melhor. Começando, é claro, por Brendan Fraser, um pouco fora de seu estereótipo aventureiro de A Múmia para incorporar o personagem que, segundo a própria autora do livro, foi escrito com sua atuação em mente. Ele não tem tanto espaço para exercitar seu poder dramático, mas não chega a decepcionar quem conhece seu talento na construção lenta e elaborada de personagens levados por carisma, transformando Mo em um protagonista complexo, humano, falho e encantador a um único tempo, trabalhando bem sua voz, elemento fundamental na trama, e usando-a aliada com a força de uma interpretação segura para corresponder a todas as expectativas nas cenas em que o dom do personagem é exigido. Por sua vez, a jovem Eliza Bennett, que já havia mostrado talento interpretativo na ação O Agente, segue acima da média e atua na pele de uma Meggie consideravelmente mais dotada de personalidade do que aquela do livro, concedendo a segunda protagonista da trama um pouco mais do que o puro simbolismo dos “olhos do espectador” e estrelando alguns dos momentos mais encantadores e mais aflitivos do roteiro com competência invejável. Por fim, o trio de protagonistas é fechado por um excepcional Paul Bettany, conhecido como o albino Silas da adaptação de O Código da Vinci, que encarna com fidelidade todo o mistério que envolve Dedo Empoeirado no livro e ainda concede a ele o rosto ambíguo e fascinante de um homem com um objetivo que não deixa nada nem ninguém, sejam vilões ou heróis, entrarem em seu caminho. Em última instância, Bettany o torna em um relutante anti-herói numa transição suave da dúvida para uma quase certeza, já que de claro mesmo só há paixão daquele homem, daquela aberração, pelo seu mundo. Isso Bettany sabe traduzir perfeitamente, seja por puro talento ou pela sábia escolha de Jennifer Connelly (O Dia em que a Terra Parou), esposa do ator na vida real, para interpretar sua Roxanne, a mulher do personagem, em um par de cenas idílicas. É claro que a escolha de elenco não para por aí, e ainda temos uma Helen Mirren estranhamente adorável na pele de Elinor, a tia-avó de Meggie que relutantemente se envolve na trama após sua amada biblioteca ser destruída pelos capangas de Capricórnio. Pode parecer estranho para uma atriz de tamanho potencial dramático se tornar um alívio cômico, mas versátil como é, ela faz o trabalho com gosto e justamente por isso surpreende o próprio espectador. Quem faz papel semelhante é Jim Broadbent, que se encontra mais no papel pitoresco do escritor do Coração de Tinta ficcional do que na recente parte que tomou na série Harry Potter, tornando Fenoglio a espécie de mais do mesmo que, nas mãos de um bom ator, se torna o mesmo com um pouco a mais. Por fim, os destaques se fecham com Andy Serkis, o homem por trás do Gollum de Senhor dos Anéis, que faz de Capricórnio uma caricatura ao mesmo tempo repulsiva e compreensível, exagerando quando o exagero lhe é exigido pelo roteiro e fazendo-se mais realista nos momentos finais, quando o verdadeiro e mais arraigado medo de seu personagem é exposto de forma espetacular. Sua atuação é essencial, para a trama e para o clímax, mas é mesmo o trabalho do diretor Iain Softley, mais conhecido por trabalhos conceituais, como o drama de ficção K-PAX, que faz do universo de Coração de Tinta algo tão atraente e realista quanto o descrito por Funke. Sua câmera é equilibrada, sabe quando se servir de alguma histeria e quando acalmar as coisas com cortes elegantes, seu trabalho com os atores é exemplar e a forma como conduz as cenas repletas de efeitos especiais é notável pela fluidez, sem precisar de cortes e ângulos múltiplos para usar a pirotecnia a seu favor e criando um ritmo crescente que agrada aos olhos e a interpretação a cada minuto mais instintiva do espectador. Curto em seus 106 minutos mas bem-amarrado o bastante para não parecer apressado, Coração de Tinta chega a seu final como um dos mais notáveis exemplares de fantasia dos últimos tempos, fora do esquema das grandes séries, e ainda consegue trazer-nos integralmente a sensação de realidade fantástica que, mais do que nunca, cai como uma luva para personagens de mentira que parecem tão reais. Uma pena que os créditos tenham que vir para acabar com a festa, mas a memória vai ficar por muito mais do que meras duas horas de diversão.

Nota: 7,5

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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe – Luz e trevas, morte e vida… fã e espectador de um fenômeno que começa o fim de sua jornada

Harry Potter e O Enigma do Príncipe (Harry Potter and The Half-Blood Prince, Inglaterra/EUA, 2009).

De: David Yates.

Com: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Ganbon, Tom Felton, Bonnie Wright, Jim Broadbent, Alan Rickman, Jessie Cave, Evanna Lynch, Helena Bonham-Carter.

153 minutos.

Se vocês me permitirem o intrometimento e talvez até a repetição, adoraria poder lhes contar uma pequena e simplória história sobre o nascimento de um fã. O ano era 2002, e este escriba que voz fala ainda não havia descoberto nem sequer todas as belezas da sétima arte, que dirá o maravilhoso mundo da informação virtual. Quando aquele garoto entrou no cinema em 22 de Novembro para ver Harry Potter a Câmara Secreta, porém, não podia imaginar que daquele dia nasceria uma paixão que me levaria, sem sombra de dúvida, até onde estou hoje. O segundo filme da série, mais uma vez dirigido por Chris Columbus (Esqueceram de Mim), era uma aventura de andamento próprio, único e não menos do que encantador, carregada por uma trama de suspense apoiada por evidências sutis, apresentadas de forma quase ao acaso. Embora eu com certeza não tenha notado na época, era quase como assistir a uma adaptação de Agatha Christie com uma boa dose a mais de diversão, pirotecnia hollywoodiana e, a longo prazo, personagens que de uma forma ou de outra marcariam para sempre a memória e o coração de muita gente. A partir do momento que eu saí daquele cinema, havia me tornado muita coisa que não era quando entrei. Era um cinéfilo agora, era mais um entre muitos fãs do maior fenômeno literário jovem do século e me tornaria também um leitor por prazer, como imagino que muitos mais se tornaram após a intervenção da britânica Rowling, autora desses livros que misturavam aventura, magia literal e mistério dos mais envolventes para produzir, como em uma produtiva aula de poções a cada página, a pura essência do encantamento. Rowling trouxe a sutileza de volta a voga na literatura, e pelo menos nas duas primeiras investidas cinematográficas da sua criação, parecia que faria o mesmo com o cinema. É claro, a partir daquele momento uma sessão de qualquer Harry Potter para mim e penso que para muitos outros, era uma experiência dividida entre a visão de cinéfilo que podia entender certas escolhas de roteiro e direção, e a de fã, que era capaz de gritar de revolta ao ver sua obra preferida mutilada. Eu sei que parece egoísta, mas quem é fã deve saber bem do que eu estou falando, porque para começar quem verdadeiramente ama esse trio de ouro que compõe o trivial de qualquer aventura da série, não há filme perfeito e não há adaptação que não seja passível de uma ou outra correção. É em momentos como esses, sentado confortavelmente em uma sala de cinema sem conseguir evitar de ver cada cena de minha série preferida com uma lente de aumento, que renovam a fé de que a imaginação humana é mesmo algo único e misterioso da forma como deveria ser. Na tela nada ou quase nada acontece da forma como nossa mente projetou ao ler as frases do livro, e de alguma forma impossível de evitar aquela nova visão, a do diretor ou do roteirista, cai como uma luva ligeiramente apertada ou folgada demais. Por melhor que seja a cena, e somos capazes de notar isso apesar dos que dizem os críticos mais entendidos, não é da forma como queríamos, e nunca será. O filme é produto conjunto de mentes e pensamentos que não são os nossos, e quando nossa imaginação projeta algo que marca tão profundamente em nossa memória e sentimento, não há como não sentir uma espécie de revolta, mesmo que culpada. Sexta e antepenúltima aventura em terras cinematográficas dos bruxos, Harry Potter e o Enigma do Príncipe soa como um produto de cinema válido, quase notável, mas é simplesmente impossível de digerir de forma completa para quem foi apresentado ao tratamento único da autora dos livros a um tempo de névoa e guerra que marca o mundo dos bruxos e dos humanos “normais” na sexta aventura em papel. A sutileza é jogada para o alto em favor da brutalidade, e talvez seja isso mesmo que sirva melhor ao cinema do novo século, mas não poderia ter havido pecado maior para um fã do que esse.

De fato, é quase admirável as mudanças e esforços empreendidos pelos produtores para tentar recuperar a confiança dos fãs de longa data desses personagens, ainda mais a luz da chuva de críticas que desceu sobre Michael Goldenberg (Peter Pan) quando o inglês estreou na batuta do roteiro da série em A Ordem da Fênix já deixando de fora diálogos considerados sagrados pelos fãs e de fato essenciais para o desenvolvimento de uma então subtrama que se tornaria mais do que essencial no decorrer da aventura dos livros posteriores. Para o novo filme a Warner tornou a chamar Steve Kloves, o inconstante responsável pelos quatro filmes anteriores e pelo aplaudido texto da dramédia Garotos Incríveis, dessa vez na adaptação de uma trama extrema e perigosamente pessoal para os fãs, ansiosos para assistir o já noticiado primeiro namoro de seu herói e as complicações nos romances entre os personagens que todos tanto amam. Eliminado o elemento surpresa que impregna todo o sexto livro da série nas palavras sempre acertadas de Rowling, a missão de Kloves era ainda mais complicada ao corresponder as expectativas de pelo menos duas platéias. Uma, fanática pelos livros que queria fidelidade e sentir aquele arrepio correr pela espinha nos momentos mais grandiosos, especialmente no clímax da trama, o mais emocionante da série até então, e outra, de críticos empolgados com todo o clima político do quinto filme, que queriam mesmo é ver a guerra entre o lado negro e o lado iluminado da magia explodir em tela antes da hora. O resultado de tanta pressão, ainda mais ao lado da expectativa acumulada devido a polêmica decisão do estúdio em adiar em quase um ano a estréia do novo filme, é um texto que não agrada integralmente a nenhum dos lados, mas tem seus acertos e sua soluções inteligentes. De forma muito mais notável no começo do filme, Kloves consegue montar a guerra já esperada sem com isso irritar os fãs, gerando interesse em ambos os lados da batalha, resumidos com sabedoria em uma série de cenas rápidas e impressionantes. Porém, quando decide deixar para trás certos momentos decisivos para o desenvolvimento da personalidade de alguns personagens cujos traços seriam reforçados no sétimo livro, já anunciadamente dividido em dois filmes a serem lançados em 2010 e 2011, Kloves erra e produz cenas que não marcam tanto quanto as descritas pelas palavras da autora. No clímax, aliás, sem querer estragar um par de surpresas, é mais do que oportuno observar que o roteiro corta pelo menos duas das frases mais marcantes de toda a série em favor de um par de efeitos especiais impressionantes que, apesar da maestria técnica da super-produção, não conseguem emocionar e envolver da forma como fariam estudos tão intensos de dois personagens que se tornarão elementos-chave na trama derradeira. Mais uma vez a trama nos leva de volta a Escola de Magia de Hogwarts, não antes de deixar bem claro que o mundo dos humanos “normais” também não está imune a guerra que começa a se desenrolar nos domínios bruxos. Nesse clima de paranóia e opressão somos levados de novo ao mundo de magia que a série sempre ofereceu ao espectador, dessa vez com um clima de suspense mais acentuado e focado no até então apenas irritante Draco Malfoy (Tom Felton), que finalmente recebe sua Marca Negra e uma missão perigosa para desempenhar a mando do bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos. Enquanto isso, temos Rony Weasley (Rupert Grint) ganhando seu lugar na equipe de quadribol e arranjando uma namorada que rende momentos bem engraçados, Lilá Brown (Jessie Cave). É curioso que, para o filme que antecede uma trama tão focada em seu principal personagem quanto Relíquias da Morte, essa sexta aventura tem poucas cenas de fato marcantes para Harry, mais uma vez interpretado por Daniel Radcliffe. É bem verdade que temos a primeira namorada do herói, Gina Weasley (Bonnie Wright), mas a forma como o roteiro trata o romance é tão menos focada que a do livro que de envolvimento de verdade temos muito pouco enquanto o passado do vilão Lord Voldemort nos é revelado de forma fascinante por meio de lembranças bem mixadas ao restante da trama, nas aulas particulares do protagonista do o diretor Dumbledore (Michael Ganbon), mais sábio e importante do que nunca no contexto da trama.

Com tantos erros e acertos pesados em uma trama que deveria e termina sendo quase espontaneamente tão marcante, é fato que não raro o elenco de peso reunido pela série precisa segurar as pontas das cenas mais indecisas. Da parte jovem da lista temos um Daniel Radcliffe um tanto perdido em meio a um foco tão fraco no personagem que interpreta, tentando segurar as pontas e conseguindo dar a Harry a sensação de deriva e confusão que impregna todos os pensamentos do protagonista no livro. Se Radcliffe se mostra desenvolto mesmo em meio a alguns erros, seu par não pode ser parabenizado da mesma forma. Pela primeira vez mais destacada na pele de Gina Weasley, a graciosa Bonnie Wright não consegue evidenciar toda a personalidade que marcou a personagem nos livros e acaba criando mais um par quase inexpressivo para um protagonista que, sem ter no que se apoiar, acaba soltado ao vento em algumas cenas. Ao menos temos um ponto a favor das garotas com Emma Watson, que dá seu maior show na série até agora tendo que lidar com as primeiras evidências mais claras de uma paixão pelo amigo Rony e injetando bastante emoção a pelo menos um trio de cenas que poderiam passar quase despercebidas. No final, numa das mais bonitas e marcantes cenas criadas com precisão cirúrgica por Kloves, a câmera em um close na interpretação de Emma resume tudo aquilo que cada espectador deve estar sentindo naquele momento. Quem também sai ganhando é Evanna Lynch, mais uma vez a encarnação quase literal da excentricidade de Luna Lovegood e uma das mais carismáticas e marcantes figuras do filme, ainda mais quando salva o herói de uma situação complicada no início e o acompanha em um dos momentos mais engraçados do filme, quase na metade da projeção. Luna e Evanna são a dupla perfeita que, não raro, concedem um pouco de alma e ingenuidade a uma trama de tamanho perigo, suspense e expectativa. Isso ao lado de Rupert Grint, carismático da cabeça aos pés ao encarar algumas das mais marcantes e divertidas cenas do filme, seja lidando com não uma, mas duas tramas de romance, seja segurando bem as pontas nos momentos cômicos e dramáticos de Rony, que cresce muito ao olho do espectador no novo filme. Aliás, no extremo oposto da trama mas também num momento de puro crescimento está Tom Felton e seu juvenil vilão Draco Malfoy, que passa sem escalas de adolescente irritante para ameaça mais do que sólida e se torna um personagem de complexidade impressionante na atuação que não raro é a que mais arranca sentimentos de verdade do espectador comum. Isso porque, é claro, há todo um novo sabor no Dumbledore de Michael Ganbon para quem conhece a importância do personagem na série e na trama, e o ator não decepciona, finalmente encarnando de verdade o diretor da escola mais famosa do mundo da magia e se tornando o elo emocional mais forte com o espectador. Mais por causa dele do que pelo roteiro ou pela direção, o final é aterrador, triste e faz a realidade cair como uma pedra na mente e no sentimento do espectador. Guerra é morte, e se há uma encarnação para ela em Enigma do Príncipe essa encarnação é Belatriz Lestrange, levada com sabedoria por Helena Bonham-Carter em uma interpretação acertadíssima que vai além da loucura demonstrada nas poucas cenas do quinto filme para se tornar o puro símbolo da maldade que a bruxa má é nos livros. De novidade mesmo só o Horácio Slughorn de Jim Boradbent (Moulin Rouge!), dono de pelo menos uma cena impressionante, mas que não cumpre a promessa de ladrão de cenas que carregava das palavras de Rowling e dos produtores do filme. Quem rouba o show mesmo é Alan Rickman, mais uma vez a encarnação literal e magnífica de Snape e a única razão pela qual o corte de uma das frases mais marcantes do personagem (“Não me chame de covarde!”) não fazer assim tanta falta. Atuação, aliás, que só deixa mais forte o trabalho sólido de câmera empreendido por David Yates, o homem por trás do visual mais sombrio e realista que a série já teve, que já assinou contrato para as duas partes derradeiras da série. Ele sabe quando ser detalhista e filma as melhores e piores cenas do roteiro de Kloves com sabedoria e clima variável, num trabalho daqueles de se admirar pela adequação de gênero. Em meio a ângulos acertados, palavras que nem sempre soam como deveriam e um elenco muito mais do que essencial, porém, Enigma do Príncipe é um competente interlúdio para a guerra de verdade, sombria e alucinante, a ser assistida no fim da série. Por enquanto, é o bastante de Harry e sua turma. Até o ano que vem.

Nota: 8,0

terça-feira, 9 de junho de 2009

Anjos & Demônios – Há males que vem para o bem… conspiração, superação e suspense em pleno Vaticano

Anjos & Demônios (Angels & Demons, EUA, 2009).

De: Ron Howard.

Com: Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer, Armin Mueller-Stahl, Stellan Skarsgard.

138 minutos

Cinema não é feito para passar informação, apesar de não raro ter uma mensagem atrelada as suas imagens. Por mais que um filme pretenda retratar uma situação que facilmente poderia figurar na realidade ou de fato o tenha, por mais que seja a vontade de realizar uma obra realista, não são informações jogadas ao vento e ao acaso que serão o fato decisivo para envolver uma platéia, o espectador. Isso porque cinema não é, nem nunca será, realidade, por mais que as imagens em movimento possam repercutir com força nela. Informação pura e simples, nua e crua, sem nenhum contexto emocional ou uma competente ambientação de entretenimento, não passa de minutos desperdiçados para descobrir coisas que serão esquecidas minutos depois. Talvez esse tenha sido o maior erro de O Código da Vinci, adaptação cinematográfica produzida em 2006 para o mega-best-seller do americano Dan Brown. A história do simbologista Robert Langdon descobrindo um segredo milenar ao lado de uma agente do governo francês e um milionário britânico funcionava perfeitamente como leitura rápida, densa e fascinante no papel. Mas isso porque havia espaço o bastante para a quantidade mesmerizante de informações na prosa do autor e para o desenvolvimento de personagens que chegavam as últimas palavras como velhos conhecidos. Na adaptação, porém, a informação foi prezada muito acima do contexto emocional dos protagonistas, criando uma jornada orgânica que pouco conseguia instigar ou entreter com sua narrativa arrastada e congestionada de curiosidades facilmente esquecíveis. Nem mesmo o talento de um ator do nível de Tom Hanks (Náufrago) foi capaz de transformar Langdon em um homem de verdade em meio a tanta confusão e a uma jornada tão mística. De fato, muitos dos coadjuvantes terminaram mais familiares do que a dupla de protagonistas, completada por uma perdida Audrey Tatou (O Fabuloso Destino de Amélie Poulin). Pois bem, cá estamos, três anos, mais de 700 milhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo e muita expectativa depois, para atestar mais uma vez que erros servem para alguma coisa, no final das contas. Anjos & Demônios ainda não de forma alguma um filme perfeito, mas é impossível negar que talentos renasceram das cinzas para dar uma forma muito mais acertada a essa segunda investida de Langdon nas telas. Afinal, se ainda continuamos a caminhar é porque um dia já tropeçamos. Todos nós erramos, faz parte do que nos faz cada vez melhores. Seja você cínico ou inocente, não custa nada dar uma nova chance a Ron Howard, Hanks e companhia. Mesmo que a Igreja diga o contrário.

Polêmicas, permissões de filmagem e tramas heréticas a parte, a verdade é que a adição de mais um nome na elaboração do roteiro de Anjos & Demônios talvez seja a mudança mais acertada na criação progressiva de um novo rumo para a franquia estrelada pelo professor mais famoso do nosso século. Dessa vez, temos o sempre competente Akiva Goldsman (Uma Mente Brilhante), que havia escorregado no filme anterior, em pleno domínio de sua eficiente condução de trama, levando o personagem por uma jornada que consegue ser linear, convencional, impactante e surpreendente a um único tempo. Um trabalho infinitamente superior ao predecessor, mas talvez boa parte do crédito deva ir para o versátil David Koepp (O Quarto do Pânico), que injeta suspense, energia e um andamento mais corrido a um roteiro que não se esquece de parar para contemplar aos poucos os dilemas de seu protagonista. Aqui, Langdon ganha em humanidade ao ser confrontado por um conflito interior extremo enquanto se envolve, como sempre, em uma das maiores conspirações da história da humanidade. De certa forma, trata-se de um processo inverso ao que ocorreu em Da Vinci. Em Anjos & Demônios, o foco é tão concentrado no professor de Harvard que de certa forma os coadjuvantes se tornam figuras borradas que circulam em torno de Langdon, um caçador de furacões que não tem culpa de estar presente em momentos tão cruciais. Dessa vez, os ventos fortes nos quais Langdon se perde miram seu olho para o pequeno mundo da cidade do Vaticano, sede-maior da administração da Igreja católica, um país dentro de uma cidade e, como bem observa um dos coadjuvantes no início, “um pesadelo de jurisdição”. O papa morreu, o Conclave dos cardeais para decidir o sucessor do falecido está prestes a começar e a polícia do Vaticano recebe uma ameaça sem precedentes. Os quatro prefiriti, os favoritos para serem eleitos Sumo Pontífice, foram seqüestrados pelos Illuminatti, lendários inimigos dos atrasos da Igreja Católica, e o seqüestrador promete matar um por um, em praça pública, até a meia-noite, quando uma bomba escondida em algum lugar nos raio de quilômetros consumiria toda a cidade. É aí que entram Robert Langdon, chamado por um capitão da polícia para desvendar as mensagens da ameaça, e Vittoria Vetra, uma bióloga marinha que se viu envolvida no assassinato de um físico do laboratório mais avançado no mundo, na Suíça. O local em questão, não por acaso, registrou o roubo de um tubo de antimatéria, o material mais delicado e explosivo conhecido pelo homem, produzido pela primeira vez em pequena escala pelo acelerador de partículas do local. O elemento final é o Camarlengo Patrick McKenna, ex-secretário pessoal do papa falecido que se vê no cargo de poder maior dentro da Igreja enquanto os cardeais não saírem de sua clausura. Resta ligar os pontos, tarefa que o roteiro escrito a quatro competentes mãos faz com desenvoltura impressionante para quem se lembra da confusão de Da Vinci.

Se o pecado maior do roteiro foi consertado com a simples adesão de mais um elemento para tornar a fórmula vitoriosa, a mesma sorte não teve o diretor Ron Howard, que saiu da nominação ao Oscar pelo verbal Frost/Nixon direto para uma superprodução cheia de impacto visual e estilo muito menos sutil que o equilíbrio de forças da entrevista do ex-presidente americano. A verdade é que Howard, apesar de todas as objeções dos críticos de plantão, é um bom diretor. Mesmo nas tomadas mais equivocadas de Da Vinci, sua câmera fazia o que podia para se confrontar com o roteiro apressado, imprimindo um pouco de elegância aos cortes e movimentos, ainda que o visual soasse equivocado a todo o momento. Aqui, a história é outra, mesmo porque a mudança de cenário é quase nula perto do tour pela Europa que a aventura anterior promovia. Filmando em um único ambiente e na maioria das vezes em “locações camufladas”, Howard manipula o ambiente com competência impressionante, seja ao coordenar a épica seqüencia da multidão na praça de São Pedro ou imprimindo um filtro sufocante na bem montada seqüencia em que Langdon fica preso sem oxigênio nos arquivos do Vaticano. Se controlando a ambientação Howard faz um trabalho exemplar, porém, é impossível negar que dessa vez sua câmera está menos inspirada e até repetitiva. Em alguns momentos chega a irritar e atrapalhar o envolvimento a forma como o diretor parece ter adquirido uma fascinação incurável por giros, deslizes e suportes. Até mesmo nos momentos íntimos, raros e ainda assim competentes por parte do roteiro, Howard dá a impressão de estar filmando a um mundo desabar. Não que de certa forma ele não esteja, é claro, mas tamanha convicção em apenas um estilo de direção é capaz de cansar e quebrar a concentração até do espectador mais compenetrado. Os movimentos são tão persistentes que até entram na frente dos atores de quando em quando. E não dá para negar que eles estejam bem melhores com um bom roteiro para guiá-los. Tom Hanks mostra mais uma vez que é capaz de construir uma atuação notável mesmo quando ofuscado por uma trama de escopo global. Seu Langdon aqui está mais forte do que no primeiro filme, mais definido e muito mais interessante. Crédito tanto para o roteiro quanto para a atuação concentrada e detalhista do astro. A israelense Ayelet Zurer (Ponto de Vista) pode não ser tão boa e significativa companhia quando Audrey Tatou em Da Vinci, mas faz o que pode com seu pouco tempo de tela. Também desse mal da pouca significância sofre Armin Mueller-Stahl (Senhores do Crime) na pele do cardeal mais velho, mas o veterano ainda consegue se destacar com uma interpretação a altura dos mestres a manipulação de massas. O mesmo pode se dizer do sueco Stellan Skarsgard (Piratas do Caribe) ao encarnar o comandante-maior da polícia vaticana, um suspeito a primeira vista que o ator tira de letra com a desenvoltura de sempre. A bem da verdade, porém, o show é todo de Ewan McGregor (A Ilha), um barril de pólvora manso prestes a estourar a cada cena, uma atuação que chega ao limite para nunca mais fazer o caminho de volta e uma construção de personagem no nível de atores veteranos e consagrados. Seu Camarlengo é a força, o combustível e a figura mais fascinante em um filme que, no final de seus 138 minutos, deixa na lembrança o quão fraca pode ser a índole humana. E, é claro, são duas horas de entretenimento de primeira. Cá entre nós, muito mais do que Da Vinci teve para nos oferecer.

Nota: 7,5

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Austrália – A nova viagem encantadora de Baz Luhrmann

 

Austrália (Australia, Austrália/EUA, 2008)

De: Baz Luhrmann.

Com: Nicole Kidman, Hugh  Jackman, David Wenham, Brandon Walters.

165 minutos

Realizar uma obra-prima, por incrível que pareça, pode não ser um bom investimento a longo prazo para o cineasta responsável por sua orquestração. Já que nossa percepção de cinema é toda baseada em expecatativas e como elas se comparam ao resultado real, uma obra-prima enterrada anos no passado pode voltar para assombrar um diretor que, afinal, pode não estar querendo repetir o feito. Mas nossos olhos não vêem intenções, e a interpretação das imagens que vemos na tela pode não ser tudo o que esperávamos. Ousado, ambicioso e genial, o australiano Baz Luhrmann foi elevado a uma categoria acima da enorme maioria dos outros diretores em 2001, quando sua estilizada e emocionante história de amor em forma de musical encantou ao mundo inteiro e levantou polêmica entre críticos e admiradores. “Moulin Rouge”, o filme em questão, poderia ser exagerado, pretensioso e cheio de excessos e heresias na visão de alguns, mas difícil mesmo era negar a genialidade visual de Luhrmann e segurar as lágrimas diante do final trágico de uma obra que essencialmente envolvia por não querer falar sobre nada além do amor. Pode parecer ingênuo, mas fez todo o sentido diante da câmera de Luhrmann e da interpretação icônica de Nicole Kidman. Praticamente deixado de lado no Oscar 2002, a revelia da opinião da maioria dos críticos de cinema, Baz Luhrmann seguiu o trabalho magistral de “Moulin Rouge” com seu habitual intervalo ao estilo Kubrick. Durante sete anos ele amadureceu uma idéia que poderia amplificar a um nível estratosférico a ambição que marcou a sua carreira e ainda lhe dar a oportunidade de homenagear sua terra natal no que ele chamou de “...E o Vento Levou da Austrália”. O resultado da idéia chegou aos cinemas com uma expectativa tão grande e uma mobilização tão intensa que foi impossível evitar aquele tipo de espectador que entrava no cinema esperando ver os mesmos tons fortes e cortes rápidos da última obra do diretor. E se há algum filme de que “Austrália” passa realmente longe, esse filme é “Moulin Rouge”. O que não significa que um dos dois filmes precise ser ruim. Não há aqui a dramatização exagerada e o romantismo inocente que encantava no filme de anos atrás, muito menos a montagem teatral dos cenários ou as luzes que coalhavam a Paris do musical. Cada um ao seu nível e no que pretendem, ambos são filmes vitoriosos que envolvem o espectador em uma jornada encantadora. Ainda assim, poucos arriscariam, sem saber, que se tratam de dois filmes dirigidos pela mesma pessoa. E é quando um diretor se confunde com sua obra que a genialidade se torna incontestável.

Baz Luhrmann é um mago da imagem, um homem capaz de transformar cada tomada, por mais banal que seja, em uma obra de arte. E se há uma lição clara que ele tenta passar com a imagem em “Austrália” é que ousadia nem sempre é a resposta. Luhrmann não tenta inovar nos movimentos pela paisagem de seu país e nem nos ângulos de câmera que usa para contar a história a que se propõe. Mas de alguma forma indecifrável, a imagem que ele cria com seus cortes e movimentos de certa forma convencionais é milhares de vezes mais deslumbrante do que qualquer coisa produzida por Hollywood nos últimos tempos. Suas panorâmicas pelas paisagens são quadros pintados com agilidade de um artista que sabe o que faz, e a climatização que sua câmera impõe nos momentos de adrenalina não poderia ser mais perfeita e emocionante para o espectador. Mesmo quando se concentra no âmago de seus personagens, Luhrmann revela uma grandiosidade surpreendente, filmando interpretações como se cada detalhe se integrasse ao cenário e fazendo de cada movimento um novo elemento de encantamento. Em resumo, se há alguém para ser aplaudido de pé em “Austrália”, esse alguém é sem dúvida nenhuma Baz Luhrmann. Idealizador de sua própria história, o diretor contou com uma dupla de roteiristas ao seu lado para criar os acontecimentos que movimentam o filme. Com Stuart Beattie (“30 Dias de Noite”) e Ronald Harwood (“O Escafandro e a Borboleta”) prestando assistência, Luhrmann construiu uma história vibrante e movimentada a cada segundo que nunca deixa cair a atenção do espectador, mas também se mostra um tanto quanto esquizofrênica em sua concepção. Ao retratar a vida de uma lady inglesa ao país que dá nome a obra a beira da Segunda Grande Guerra, Luhrmann passeia por drama, comédia e aventura sem nunca deixar perder de vista as proporções épicas que transparecem a cada take de “Austrália”. De uma difícil e fatal travessia a uma dolorosa separação e o final triunfante movimentado pela chegada da Segunda Guerra ao continente, passando por relações complexas entre os personagens que tratam de preencher o âmbito emocional da trama, o roteiro é conduzido com habilidade, mas nunca deixa esquecer o quanto pretende. Isso pode ser uma virtude ou um malefício para uma obra cinematográfica. Mas acima de tudo demonstra um dos poucos lampejos de ousadia de um filme tecnicamente perfeito.

A trama encontra seu ponto inicial logo após a entrada dos EUA na Segunda Guerra, com os japoneses avançando pelo Pacífico em todas as direções e se aproximando perigosamente das ilhas da Oceania. Nesse panorama mundial, não há nada que deixe transparecer a tensão por que passa a Austrália habitada por nativos, fazendeiros poderosos e inescrupulosos, damas mimadas e vaqueiros grosseiros. É com esse cenário da grande cidade de Darwin que a lady inglesa Sarah Ashley (Nicole Kidman) ao desembarcar na ilha visando convencer o marido fazendeiro a vender seu pedaço de terra no Sul. O que ela descobre rapidamente é que Faraway Downs, a fazenda em questão, é a única da região que não é dominada por um poderoso fazendeiro, e que seu marido foi morto por um dos homens desse magnata inescrupuloso. A trama se estende por anos a fio mesclando todos os gêneros imagináveis e ainda discutindo origens, preconceito, honra e vingança sob uma ótica bem clara e agressiva, tomando por linha-mestra o amor de Sarah pelo vaqueiro Drover (Hugh Jackman) e seu relacionamento fraternal com o garoto nativo Nullah (Brandon Walters), narrador de toda a história e ponto de referência para o clímax excepcionalmente bem montado. Mas se a trama evolui através das épocas, é responsabilidade dos atores retratarem o amadurecimento de seus personagens. Não por acaso, o seleto elenco de “Austrália” cumpre muito bem a função. Nicole Kidman, repetindo a parceria com Luhrmann, ainda é uma das atrizes mais transparentes e eficientes na hora de transmitir emoções e compor personagens. Com seu retrato sutil da lady inglesa que protagoniza o filme, Nicole mostra que sabe mesclar carisma, detalhismo, tiradas cômicas quase despropositais e uma caracterização não menos do que perfeita. Mas se a desenvoltura de Nicole já era esperada, o talento desavisado de Hugh Jackman (“X-Men”) surpreende. Além de demonstrar o mesmo carisma de astro que o sustentou pela carreira, o ator adiciona um tempero emocional e racional a seu personagem que o torna quase magnético na tela. Drover é simplista, não raro o tipo de personagem que irritaria pela falta de princípios, mas nas mãos de Jackman cresce em personalidade e identificação. Pouco o que fazer tem David Wenham (“Van Helsing”) além de encarnar o típico vilão nada sutil que de uma hora para outra se torna um oponente a ser batido nos debates verbais. Wenham tem o porte e a prepotência que o papel exige, mas não vai além disso e é facilmente ofuscado por seus companheiros de cena. Não que isso realmente influa no resultado final, é claro. “Austrália” é, de uma forma ou de outra, uma viagem de misticismo, paixão, paisagens deslumbrantes e seres humanos inesquecíveis. Ponto para Luhrmann, sorte a nossa. Assista sem medo.

Nota: 8,5

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hellboy II: O Exército Dourado - Diversão de primeira no inferno de Del Toro

Hellboy II: O Exército Dourado (Hellboy II - The Golden Army, EUA/Alemanha, 2008)

De: Guillermo Del Toro

Com: Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Luke Goss, Anna Walton.

120 minutos




Quando Guillermo Del Toro fez um estudo fantástico e emocionante sobre a brutalidade dos homens e o meio de escape pela fantasia em "O Labirinto do Fauno", ele estava tentando provar para o mundo que por trás das frases cool e das cenas de ação estilizadas de "Blade II" estava um artista. Missão cumprida, como provam os três merecidos Oscar ganhos pelo filme. Agora era a hora de Del Toro se divertir fazendo o que ele mais gosta: filmes visualmente impressionantes, com roteiros interessantes e monstros bizarros. "Hellboy II: O Exército Dourado" é ao mesmo tempo o retorno do mexicano quarentão ao campo da aventura fantástica e o primeiro fruto do passe livre que o diretor ganhou nos grandes estúdios hollywoodianos. E se não bastasse tudo isso, "Hellboy II" é ainda a seqüência mais improvável da década. O primeiro filme do demônio de chifres cerrados que combatia ameaças sobrenaturais por meio de uma organização secreta do governo americano não foi exatamente um grande sucesso. De fato, os menos de 100 milhões de dólares arrecadados por "Hellboy" ficaram minúsculos perto dos mais de 700 de "Homem-Aranha 2", lançado no mesmo mês. Pensar na seqüência de um filme que mal conseguiu pagar seu orçamento é quase uma blasfêmia em Hollywood. O fato de tal blasfêmia não ter apenas sido lançada, mas com um orçamento ainda maior do que o do primeiro filme e ainda ter feito nas bilheterias americanas o mesmo que o antecessor havia conseguido no mundo inteiro é apenas a primeira demonstração da influência de Del Toro em Hollywood. Isso sem contar que é um filme bom demais.

E a única razão por "O Exército Dourado" realmente funcionar e não cair no limbo dos filmes “legais, mas descartáveis” é Del Toro. A começar pelo roteiro, que joga para segundo plano a trama absurda e prefere estudar com cuidado seus personagens, humanizando de uma forma peculiar e fascinante as criaturas que povoam ambos os lados da tradicional luta do bem contra o mal. Ou talvez não seja tão tradicinal assim. Na forma como Del Toro nos impõe a “oposição”, é quase impossível não se questionar qual dos dois lados merece a vitória. O Príncipe Nuada (Luke Goss) não deixa de ter sua prcela de razão na raiva pelos seres humanos em geral, que massacraram e oprimiram a raça de qual faz parte, habitantes originais do planeta Terra. Mesmo contra a vontade de seu pai, o soberano de tal raça, ele planeja reunir as quatro partes de uma coroa dourada que lhe dá poder sobre o exército dourado do título, construído na época da guerra entre as duas espécies e cuja crueldade foi causadora da trégua quebrada pelos humanos. Como é possível não dar alguma razão para um homem que luta pela preservação de sua raça, e pensando melhor, como não perceber que somos nós as verdadeiras ameaças para o planeta? É claro que Hellboy (Ron Perlman) não exatamente um homem de questionamentos filosóficos, mas Del Toro consegue incutir alguns conflitos no personagem sem descaracterizá-lo. Hellboy é mais parecido com aqueles que combate do que com aqueles que protege. Outro que ganha mais personalidade é Abe Sapien (Doug Jones), que acaba se apaixonando pela irmã do vilão, Princesa Nuala (Anna Walton), e encontra dificuldades e conflitos pela primeira vez na vida.

Mas não pense, de forma nenhuma, que "O Exército Dourado" é uma enrolação sem dó. As cenas de ação são criativas, o visual é estourado, imprevisível e fascinante, somos bombardeados com as bizarrices típicas de Del Toro a cada segundo e os efeitos especiais são arrebatadores, mas o filme consegue impressionar em todos esses aspectos sem perder o foco em seus personagens. O elenco talvez seja o único ponto em que "O Exército Dourado" não consiga alcançar um nível acima das produções hollywoodianas convencionais. Ron Perlman continua icônico como Hellboy, mas quando ele e Doug Jones precisam encarar as cenas mais densas, o desempenho de ambos não passa do morno. A Liz Sherman de Selma Blair talvez seja a mais bem representada de todo o filme. A atriz incorpora bem a insegurança contida de Liz, na interpretação mais interessante do filme. Luke Goss e Anna Walton pouco podem fazer escondidos por trás da maquiagem. Mas para além da pouca inspiração do elenco, Del Toro demonstra desavisada familiaridade com efeitos especiais e conduz as cenas de ação com habilidade e inteligência. Afinal, como resistir a um filme que coloca o filho do demônio e um anfíbio intelectual bêbados para discutir as peculiaridades de um relacionamento ao som de “Can’t Smile Without You”? Mais um acerto infernal de Guillermo Del Toro.

Nota: 8,0