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domingo, 21 de junho de 2009

Filadélfia – Amor, contradição e emoção verdadeira em uma obra-prima importante e eterna.

phila 

Filadélfia (Philadelphia, EUA, 1993).

De: Jonathan Demme.

Com: Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Jason Robards, Joanne Woodward.

125 minutos.

Não é fácil nem mesmo falar sobre amor, que dirá criar um do nada. O sentimento mais nobre do ser humano é de uma complexidade e inconstância tremendas, impossíveis de se mapear, prever ou simular. Há um certo caráter único sobre cada tipo e cada espécie de amor que torna ainda mais árdua a tarefa dos que ousam tentar defini-lo, domá-lo ou, tão freqüentemente, usá-lo para enriquecer uma obra de ficção. Talvez por causa de tamanha complicação, histórias de amor dependem de momento, de intenção, de uma concordância quase cósmica entre quem estava atrás da câmera e quem está sentado na platéia, para funcionar em uma sala de projeção. É claro, nesse processo está envolvida muita ponderação, precisão mais do que cirúrgica, e as probabilidades de todas essas barreiras ficarem para trás quando gente talentosa está envolvida são infinitamente maiores. Filadélfia é uma história de amor, mas não uma convencional. É uma história de amor fraterno, de um afeto e um envolvimento construídos aos poucos por lados aparentemente antagônicos que se juntam por uma causa e, como num passe de mágica, desfazem as próprias contradições. É uma narrativa habilidosa, cheia de camadas e de emoção verdadeira impossível de descrever, que chega ao final e faz aflorar as lágrimas sinceras que qualquer outra história romântica sempre sonhou. É um triunfo, de cinema e de realidade, que tem algo a dizer para o mundo fora de sua encenação realista, mas não perde o foco nos personagens e nos seres humanos que eles precisam se tornar para envolver a platéia da forma necessária para que a mensagem seja passada e aquela trama deixe as marcas profundas que foi feita para deixar. Sim, Filadélfia é um filme com uma causa a defender, é parte do engajado cinema-denúncia que tantas vezes os críticos desprezam como “panfletagem inútil” ou qualquer outra expressão cínica que prefiram usar. Mas é também uma jornada de emoção verdadeira e andamento tão lento quanto a deterioração da doença que todos temiam no início da década de 1990, quando o filme foi lançado e a AIDS ainda era uma praga desconhecida que provocava medo e reações irracionais. Afinal, a vida de cada um estava em jogo, e não parecia antiético, ao menos naquele momento, discriminar alguém que, você pensava, poderia te condenar a uma lenta e dolorosa morte se chegasse perto demais. Quem sofria com isso, é claro, eram os atingidos pela síndrome, que tinha que lidar com uma população pouco informada sobre o mal que temiam e acabavam jogados de lado, descartados, isolados. Discriminados. Na época, não parecia preconceito, mas hoje talvez fosse um caso fácil de se resolver na justiça. Os tempos mudaram, mas como toda verdadeira obra-prima, Filadélfia continua grandiosa e tocante, resistindo bravamente ao tempo que mudou todas as circunstâncias de sua trama, que poderia até soar banal, distante dos dias de hoje, se não tivesse seres humanos de verdade envolvidos. É por eles, e não por uma causa, que derramamos todos nós nossas lágrimas.

Concentrar narrativas em personagens capazes de envolver o público sempre foi uma estratégia infalível para criar grandes obras, e é seguindo justamente esse caminho que Filadélfia encontra seu diferencial e seu ponto de decisão entre a emoção barata e a verdadeira. É notável, porém, imaginar o quão menos envolvente a mesma narrativa poderia soar nas mãos de um roteirista menos sutil e sensível que o inconstante Ron Nyswaner (O Despertar de Uma Paixão), encontrando o pico de sua carreira na história improvável de um homem que desafia o sistema e luta pela própria liberdade em um mundo que tem medo dele próprio. Sim, porque Andrew Beckett é um pioneiro, um obstinado explorador de novos caminhos que encontra uma causa própria para dedicar sua limitada, quem sabe até curta, vida. Andrew é o jovem e talentoso advogado que se torna a estrela em ascensão de uma conservadora firma, é presenteado com os casos mais importantes e apresenta sem medo suas opiniões ousadas ao chefe, encantando com seu talento. Isso até todos descobrirem que Andrew é homossexual e, ainda mais, é portador do vírus da AIDS. A desventura motivada pelo medo e pelo preconceito leva Beckett a buscar paz em um processo contra seus ex-empregados, criando um caso na justiça que nenhum outro advogado, em sã consciência, aceitaria. É na busca por um defensor da lei que o caminho de Beckett cruza com o de Joe Miller, advogado negro conhecido do povo americano graças a suas propagandas televisivas sobre direito do consumidor, um aventureiro capaz de correr riscos que, dizem, nenhum outro em sua área aceitaria. Justamente o que Beckett precisa, ou pelo menos é isso que parece até descobrirmos que Miller, além de não ter nenhuma informação concreta sobre a AIDS, é homofóbico. É de fato um grande passo a frente para um filme com esse tipo de trama que os dois simplesmente não se unam de uma vez, contrariando os próprios princípios no que seria chamado pelos críticos mais inocentes de “ímpeto de ousadia” ou “espírito de inovação”. Aqui, as coisas acontecem em seu ritmo natural, e a habilidade de Nyswaner ao conduzir a integração dos dois protagonistas, contradições íntimas em pessoa, é notável. As cenas de tribunal, então, são demonstrações do talento de um roteirista capaz de criar diálogos memoráveis e situações marcantes sem precisar tornar os personagens dentro delas bidimensionais. Ironicamente para um roteiro que trata e se utiliza tão bem de oposição de idéias e sentimentos, não há nenhum momento em que as ações de um personagem soem falsas, precipitadas ou atípicas. Tudo corre conforme deveria. De algum modo, soa como se tivesse acontecido de verdade, e esse nível de realismo muito influi no envolvimento que Filadélfia provoca no espectador. Enfim, é por causa da liga forte do roteiro de Nyswaner que cada um dos outros talentosíssimos elementos envolvidos em Filadélfia conseguem brilhar com tamanha intensidade, sem nunca ofuscar a importante, relevante e emocionante história que se passa na tela.

A começar por Jonathan Demme, um dos mais subestimados grandes mestres do cinema americano. Em um de seus momentos de maior glória na carreira, ele seguiu o suspense O Silêncio dos Inocentes, filme que lhe rendeu a estatueta da Academia de melhor direção, com esse épico dramático e polêmico que estreou prometendo trazer uma mensagem importante em um envoltório dramático que provocava medo entre os pouco chegados a um bom drama. No final, o Filadélfia construído por ele se mostrou uma obra capaz de transpassar gêneros e gostos para soar forte na razão e na emoção de qualquer um que fosse capaz de olhar a sua volta e ver alguma coisa. Com controle narrativo irretocável e uma câmera que se despiu de modismos para simplesmente vigiar uma trama que falava por si mesma, Demme faz um trabalho memorável observando desempenhos interpretativos espetaculares e construindo uma ambientação que muito merece de mérito pelo envolvimento que Filadélfia provoca no espectador. Em especial na cena do último depoimento de Beckett em corte, uma das mais aflitivas e opressoras da história do cinema, sua câmera é elemento fundamental para a compreensão absoluta do que ocorre em tela. É vigilante, é detalhista, é inteligente, mas acima de tudo é parte indissociável do cenário que compõe. Em suma, Demme é quase como os brilhantes olhos privilegiados do espectador, e realiza um trabalho que merecia mais destaque do que teve a época do lançamento do filme. A bem da verdade, porém, uma direção tão competente foi jogada de escanteio pela causa nobre da forte impressão que os atores em cena, mais especialmente a dupla de protagonistas, provocou no público. E eles são os culpados por traduzir um roteiro complexo em emoções simples e fascinantes que transparecem não em rostos de atores, mas em rostos de personagens. A começar pelo protagonista absoluto de Tom Hanks, aqui no papel que lhe rendeu o primeiro de dois Oscar seguidos, quebrando seu próprio paradigma de ator cômico para brilhar em uma performance completa, plena em cada segundo de tela e absolutamente dominante dos momentos em que a câmera de Demme se concentra em vigiá-la. Seu Andrew Beckett é carismático, luminoso, perseverante e adorável, mas tem um toque de amargura na voz e um brilho triste nos olhos que não se traduzem em palavras porque são complexos demais, mas reluzem na interpretação de Hanks. Muito se disse sobre a cena em que seu personagem recita uma passagem da ária “Andrea Chenier”, e de fato se trata de um desempenho apaixonado, entregue, não menos do que perfeito, cheio de emoção que atinge o espectador de uma forma que poucas outras produções, cinematográficas ou não, jamais conseguiram. Ao lado dele, é claro, Denzel Washington não deixa por menos em uma das numerosas e memoráveis performances que entregou ao seu público durante o começo da década de 1990. Na pele de Joe Miller, o ator faz jus ao roteiro e cria emoções autênticas, contidas, mas especialmente retumbantes, para representar um personagem que, nas mãos de outro qualquer, poderia ficar sob a sombra da grande e carismática figura de Beckett. Não é o caso na interpretação acertadíssima do grande ator que Washington sempre foi, aqui entregando fechamento e humor a um único tempo, fazendo de Miller tão protagonista quanto Beckett, da forma como foi idealizado no roteiro. Entre os coadjuvantes, vale destacar a presença cheia de classe de Jason Robards (O Dia Seguinte) no vilanesco papel do ex-chefe de Beckett e a galhardia competente de um jovem Antonio Banderas (A Lenda do Zorro) como o namorado latino do mesmo. Virtudes menores que tem pouco tempo para brilhar em um filme que concentra sua narrativa e encontra a mais pura das emoções, do triunfo ao remorso, do começo ao fim. Afinal, não é o amor a própria contradição?

Nota: 9,0

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Troca – O gosto amargo de um final incompleto

A Troca (Changeling, EUA, 2008).

De: Clint Eastwood.

Com: Angelina Jolie, Jeffrey Donovan, John Malkovich, Jason Butler Harner, Gattlin Griffith.

141 minutos.

O que te faria não desistir? Por que causa sua luta seria obstinada o bastante para atravessar a barreira do tempo e da própria organização da sociedade? A primeira vista, se trata de uma pergunta fácil de se responder, mas em tempos nos quais o supérfluo se tornou indispensável e vice-versa, nunca é demais relembrar o que temos de mais precioso de verdade. A verdadeira Christine Collins viveu em outros tempos, quando uma mulher comandando um departamento em seu ramo de trabalho era quase uma heresia e quando a polícia era bem mais soberana do que é hoje. Violência era a moeda de troca e corrupção era a renda diária. Havia quem lutasse contra a situação, sim, mas faltava coragem das vítimas desse regime inaceitável para reverter o jogo. Afinal, competição nenhuma é ganha com um pouco de falatório. Christine foi a jogadora que colocou as palavras de gente como o Reverendo Briegleb em ação e lutou obstinada para recuperar a base e o ponto de equilíbrio de sua vida movimentada. Christine perdeu o filho. O que você precisaria perder para fazer tudo o que ela fez e ainda sair vitorioso? A questão acaba de se tornar mais complexa, eu acho. Tão complexa que soa impossível de se resolver em meras duas horas e, ainda mais além, impossível de se transportar de forma fidedigna a uma encenação que, no final das contas, é essencialmente falsa. A Troca paga o preço pela ingratidão de sua missão, mas ao menos se sai tecnicamente impecável no caminho. É um drama respeitoso, feito por um diretor equilibrado que sabe dosar o ritmo hipnotizante de algumas cenas com um pouco mais de dinamismo quando a questão é mais prática do que emocional. O resultado é um bom filme, um bom produto cinematográfico e certamente uma peça de cinema autoral pronta para ser apreciada. Mas, previsivelmente, encontra fraqueza nas questões complexas da qual trata. A Troca não é um filme de respostas claras e muito menos de realismo exagerado. É uma fábula cruel e cheia de ambigüidade sobre uma mulher lutando contra o resto do mundo. Um filme que faz pensar e, apesar de toda a carga emocional, deixa um gosto amargo na boca no final de seus 141 minutos. Uma sensação de experiência incompleta que deixa exposta a constatação triste de que nem o melhor dos artistas é capaz de reproduzir a vida real. Ao menos não por inteiro.

Cinema é uma questão sensorial demais pra ser descrita perfeitamente, que dirá as emoções e sensações que uma obra é capaz de transmitir. De fato, pode ser que nada do que está escrito no parágrafo acima se aplique a uma análise fria e metódica dos fatores da equação bem arranjada de A Troca. Mas é inegável que, de algum ponto em diante, aquela história vai parar de fazer sentido. É um beco sem saída no qual o desafortunado J. Michael Straczynski se meteu em seu primeiro trabalho dramático para o cinema. Conhecido como criador da série de TV Babylon 5 e como renomado roteirista de quadrinhos, Straczynski faz um trabalho indiscutivelmente louvável ao transportar detalhes e nuances fundamentais da realidade para a ficção, mas se vê preso a condição de um simples escrivão, criando alguns diálogos memoráveis para personagens que não são seus e descrevendo com requinte cenas que aconteceram na realidade e tem carga emocional por si mesmas, sem a necessidade de um criador para lhes dar rumo. Para um escritor cuja maior qualidade é a criatividade, trata-se de uma missão ingrata e, vendo por esse ângulo, ele até se sai bem no que propõe, ainda que a falta de liberdade transpareça em cada palavra de seus diálogos e em cada expressão de seus personagens. A trama aqui é daquele tipo que começa comum para, de uma hora para outra, seguir por um caminho labiríntico e impossível de se prever. A história começa com Christine (Angelina Jolie) saindo para trabalhar em uma bela manhã de sábado. Ela é uma mulher moderna para sua época, dona da própria vida e mãe solteira para seu filho Walter (Gattlin Griffith). Tal característica de modernidade poderia ser melhor aproveitada pelo roteiro, mas acaba sendo tratado como um elemento a mais em uma história que, afinal, tem coisa demais a contar para explorar-se completamente no espaço limitado que é o cinematográfico. O que importa é que ela se torna o olho do furacão quando volta para casa e não encontra Walter. Meses e muita comoção pública depois, a polícia de Los Angeles diz ter encontrado o garoto e arranja um grande evento de imprensa para limpar a imagem do departamento com a opinião pública. O menino, no entanto, não é o filho de Christine, e embora ela reconheça o fato logo de cara, a polícia vai usar de todos os meios para não precisar se retratar. Começa assim uma luta que passa pelos corredores de um manicômio, pelas cadeiras de uma sala de julgamentos e encontra seu trágico e incerto final em uma pequena fazenda em algum lugar distante do território americano.

No comando de toda essa história cheia de impacto substancial, o nome de Clint Eastwood (Menina de Ouro) sai ileso de erros durante toda a projeção. Veja bem, não sou um daqueles críticos que aprecia qualquer coisa que o diretor produz, mas sei reconhecer quando um trabalho de direção combina classe e genialidade em uma só tomada. E em cada uma delas. Eastwood é dono de uma câmera estagnada, sim, mas uma câmera que sabe como observar e como explorar cada visual. Aliás, ao lado do diretor de fotografia Tom Stern (Coisas que Perdemos Pelo Caminho), ele cria toda uma identidade visual para A Troca que funciona o tempo todo, seja observado uma casa bem arrumada no subúrbio ou se deparando com os tons de cinza e negro de uma prisão cheia de sombras e assustadora em certa medida. O trabalho de Eastwood, porém, vai além de agradar aos olhos e chega a uma edição elegante e cheia de estilo que consegue ser classicista sem ser atrasada e ainda explora com genialidade os focos de luz que permeiam todo o tom contrastante do filme. Seja confinada em certa posição ou mudando de foco a cada momento, Eastwood faz as escolhas certas e muito do impacto de alguns momentos de A Troca se devem a sua precisão. O único momento de erro se dá durante o julgamento final da obra, que passa a sensação de editado as pressas e sem muita consideração com a própria compreensão do espectador. Mas as coisas terminam por se ajeitar, especialmente quando se tem uma estrela tão surpreendente quanto Angelina Jolie. Mais bela do que nunca, ela encarna o ponto de convergência de toda a trama com uma precisão quase comovente. Visivelmente envolvida com o papel, Jolie segura praticamente sozinha a maioria das cenas e se torna uma espécie de elemento humano, emocional e individual fortíssimo para uma história que muito diz sobre problemas da sociedade, seja no final dos anos 1920 ou nos dias de hoje. Uma atuação completa e acertadíssima que sem dúvida mereceu o reconhecimento da indicação ao Oscar, uma das três concedidas ao filme. É claro, A Troca não é só Jolie. Jeffrey Donovan (Burn Notice) consegue crescer a cada cena e criar uma persona tão realista e hipócrita que chega a se tornar uma das criaturas mais odiosas que o cinema já produziu. John Malkovich (Queime Depois de Ler) tem pouco a fazer em um papel estático e quase sem profundidade emocional, mas se sai com uma atuação digna de um ator de seu porte. Quem surpreende mesmo é Jason Butler Harner (O Vidente), que encarna o psicopata Gordon Northcott e deixa o espectador na dúvida até o último momento sobre sua inocência. Uma interpretação difícil que Harner domina de forma impressionante e que chega a percepção do espectador como algo quase tão real quanto grotesco e revoltante. Essa dúvida e essa ambigüidade, aliás, dominam A Troca durante boa parte de seus 141 minutos. Um filme fácil de se envolver e, talvez por isso mesmo, um tanto decepcionante em seu final. Mas vale a pena conferir, nem que seja apenas para descobrir o que já sabemos... todos precisamos de esperança.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Austrália – A nova viagem encantadora de Baz Luhrmann

 

Austrália (Australia, Austrália/EUA, 2008)

De: Baz Luhrmann.

Com: Nicole Kidman, Hugh  Jackman, David Wenham, Brandon Walters.

165 minutos

Realizar uma obra-prima, por incrível que pareça, pode não ser um bom investimento a longo prazo para o cineasta responsável por sua orquestração. Já que nossa percepção de cinema é toda baseada em expecatativas e como elas se comparam ao resultado real, uma obra-prima enterrada anos no passado pode voltar para assombrar um diretor que, afinal, pode não estar querendo repetir o feito. Mas nossos olhos não vêem intenções, e a interpretação das imagens que vemos na tela pode não ser tudo o que esperávamos. Ousado, ambicioso e genial, o australiano Baz Luhrmann foi elevado a uma categoria acima da enorme maioria dos outros diretores em 2001, quando sua estilizada e emocionante história de amor em forma de musical encantou ao mundo inteiro e levantou polêmica entre críticos e admiradores. “Moulin Rouge”, o filme em questão, poderia ser exagerado, pretensioso e cheio de excessos e heresias na visão de alguns, mas difícil mesmo era negar a genialidade visual de Luhrmann e segurar as lágrimas diante do final trágico de uma obra que essencialmente envolvia por não querer falar sobre nada além do amor. Pode parecer ingênuo, mas fez todo o sentido diante da câmera de Luhrmann e da interpretação icônica de Nicole Kidman. Praticamente deixado de lado no Oscar 2002, a revelia da opinião da maioria dos críticos de cinema, Baz Luhrmann seguiu o trabalho magistral de “Moulin Rouge” com seu habitual intervalo ao estilo Kubrick. Durante sete anos ele amadureceu uma idéia que poderia amplificar a um nível estratosférico a ambição que marcou a sua carreira e ainda lhe dar a oportunidade de homenagear sua terra natal no que ele chamou de “...E o Vento Levou da Austrália”. O resultado da idéia chegou aos cinemas com uma expectativa tão grande e uma mobilização tão intensa que foi impossível evitar aquele tipo de espectador que entrava no cinema esperando ver os mesmos tons fortes e cortes rápidos da última obra do diretor. E se há algum filme de que “Austrália” passa realmente longe, esse filme é “Moulin Rouge”. O que não significa que um dos dois filmes precise ser ruim. Não há aqui a dramatização exagerada e o romantismo inocente que encantava no filme de anos atrás, muito menos a montagem teatral dos cenários ou as luzes que coalhavam a Paris do musical. Cada um ao seu nível e no que pretendem, ambos são filmes vitoriosos que envolvem o espectador em uma jornada encantadora. Ainda assim, poucos arriscariam, sem saber, que se tratam de dois filmes dirigidos pela mesma pessoa. E é quando um diretor se confunde com sua obra que a genialidade se torna incontestável.

Baz Luhrmann é um mago da imagem, um homem capaz de transformar cada tomada, por mais banal que seja, em uma obra de arte. E se há uma lição clara que ele tenta passar com a imagem em “Austrália” é que ousadia nem sempre é a resposta. Luhrmann não tenta inovar nos movimentos pela paisagem de seu país e nem nos ângulos de câmera que usa para contar a história a que se propõe. Mas de alguma forma indecifrável, a imagem que ele cria com seus cortes e movimentos de certa forma convencionais é milhares de vezes mais deslumbrante do que qualquer coisa produzida por Hollywood nos últimos tempos. Suas panorâmicas pelas paisagens são quadros pintados com agilidade de um artista que sabe o que faz, e a climatização que sua câmera impõe nos momentos de adrenalina não poderia ser mais perfeita e emocionante para o espectador. Mesmo quando se concentra no âmago de seus personagens, Luhrmann revela uma grandiosidade surpreendente, filmando interpretações como se cada detalhe se integrasse ao cenário e fazendo de cada movimento um novo elemento de encantamento. Em resumo, se há alguém para ser aplaudido de pé em “Austrália”, esse alguém é sem dúvida nenhuma Baz Luhrmann. Idealizador de sua própria história, o diretor contou com uma dupla de roteiristas ao seu lado para criar os acontecimentos que movimentam o filme. Com Stuart Beattie (“30 Dias de Noite”) e Ronald Harwood (“O Escafandro e a Borboleta”) prestando assistência, Luhrmann construiu uma história vibrante e movimentada a cada segundo que nunca deixa cair a atenção do espectador, mas também se mostra um tanto quanto esquizofrênica em sua concepção. Ao retratar a vida de uma lady inglesa ao país que dá nome a obra a beira da Segunda Grande Guerra, Luhrmann passeia por drama, comédia e aventura sem nunca deixar perder de vista as proporções épicas que transparecem a cada take de “Austrália”. De uma difícil e fatal travessia a uma dolorosa separação e o final triunfante movimentado pela chegada da Segunda Guerra ao continente, passando por relações complexas entre os personagens que tratam de preencher o âmbito emocional da trama, o roteiro é conduzido com habilidade, mas nunca deixa esquecer o quanto pretende. Isso pode ser uma virtude ou um malefício para uma obra cinematográfica. Mas acima de tudo demonstra um dos poucos lampejos de ousadia de um filme tecnicamente perfeito.

A trama encontra seu ponto inicial logo após a entrada dos EUA na Segunda Guerra, com os japoneses avançando pelo Pacífico em todas as direções e se aproximando perigosamente das ilhas da Oceania. Nesse panorama mundial, não há nada que deixe transparecer a tensão por que passa a Austrália habitada por nativos, fazendeiros poderosos e inescrupulosos, damas mimadas e vaqueiros grosseiros. É com esse cenário da grande cidade de Darwin que a lady inglesa Sarah Ashley (Nicole Kidman) ao desembarcar na ilha visando convencer o marido fazendeiro a vender seu pedaço de terra no Sul. O que ela descobre rapidamente é que Faraway Downs, a fazenda em questão, é a única da região que não é dominada por um poderoso fazendeiro, e que seu marido foi morto por um dos homens desse magnata inescrupuloso. A trama se estende por anos a fio mesclando todos os gêneros imagináveis e ainda discutindo origens, preconceito, honra e vingança sob uma ótica bem clara e agressiva, tomando por linha-mestra o amor de Sarah pelo vaqueiro Drover (Hugh Jackman) e seu relacionamento fraternal com o garoto nativo Nullah (Brandon Walters), narrador de toda a história e ponto de referência para o clímax excepcionalmente bem montado. Mas se a trama evolui através das épocas, é responsabilidade dos atores retratarem o amadurecimento de seus personagens. Não por acaso, o seleto elenco de “Austrália” cumpre muito bem a função. Nicole Kidman, repetindo a parceria com Luhrmann, ainda é uma das atrizes mais transparentes e eficientes na hora de transmitir emoções e compor personagens. Com seu retrato sutil da lady inglesa que protagoniza o filme, Nicole mostra que sabe mesclar carisma, detalhismo, tiradas cômicas quase despropositais e uma caracterização não menos do que perfeita. Mas se a desenvoltura de Nicole já era esperada, o talento desavisado de Hugh Jackman (“X-Men”) surpreende. Além de demonstrar o mesmo carisma de astro que o sustentou pela carreira, o ator adiciona um tempero emocional e racional a seu personagem que o torna quase magnético na tela. Drover é simplista, não raro o tipo de personagem que irritaria pela falta de princípios, mas nas mãos de Jackman cresce em personalidade e identificação. Pouco o que fazer tem David Wenham (“Van Helsing”) além de encarnar o típico vilão nada sutil que de uma hora para outra se torna um oponente a ser batido nos debates verbais. Wenham tem o porte e a prepotência que o papel exige, mas não vai além disso e é facilmente ofuscado por seus companheiros de cena. Não que isso realmente influa no resultado final, é claro. “Austrália” é, de uma forma ou de outra, uma viagem de misticismo, paixão, paisagens deslumbrantes e seres humanos inesquecíveis. Ponto para Luhrmann, sorte a nossa. Assista sem medo.

Nota: 8,5

sábado, 4 de abril de 2009

Um Sonho de Liberdade – Aprenda a ter esperança

um sonho de Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, EUA, 1994)

De: Frank Darabont

Com: Tim Robbins, Morgan Freeman, James Whitmore

142 minutos

 

 

 

 

Vivemos todos em uma prisão. Por mais que tentemos negar, cada um dos limites que impomos a nós mesmo acirra mais essa vigilância e não demora muito em nossa vida para nos vermos sem ação a não ser tentar se sentir confortável naquele espaço limitado e naquele futuro medíocre que certamente não desejávamos de verdade. Resignação. Quando uma prisão de torna um lar? Se preferirmos permanecer em nosso mundo particular onde somos tudo o que podemos, e isso é o bastante, ao invés de partir em direção a um mundo que nos coloca como pequenas engrenagens somos desajustados? Lá fora tudo passa rápido demais, e aqui dentro é como se nada fosse tarde demais. Somos culpados ou inocentes? De alguma forma é possível fugir de toda essa prisão e viver como se deve no mundo liberto? “O medo pode lhe guardar prisioneiro. Esperança pode lhe libertar”. Pode soar como um slogan de efeito terrível, mas resume nas poucas e certas palavras tudo o que “Um Sonho de Liberdade” pretende e consegue passar ao espectador. Apesar de momentos dramáticos e quase aflitivos que se desenrolam através da projeção da obra de estréia Frank Darabont, trata-se de uma trama de otimismo ímpar e emoção a flor da pele que aflora a cada minuto com força extraordinária. É também um retrato fiel de uma prisão metafórica se desenrolando dentro de uma prisão concreta. Em Shawshank, ser prisioneiro não significa apenas estar entre os muros e guardas sem escrúpulos que cercam o lugar. Prisioneiro de verdade é aquele que se vê em estado de pura desolação, aquele que se vê sem a esperança de viver novamente lá fora. Para cada um daqueles prisioneiros, Shawshank era todo um novo mundo, um mundo em que significavam alguma coisa e tinham algo para buscar. O que fazer fora daqueles portões, agora que os anos se encarregaram de fazê-los esquecidos de uma sociedade que seguiu em frente? É desolador, mas é otimista. Porque se a esperança de um homem chegar para iluminar aquele ambiente, talvez a prisão deixe de ser lar relutante para ser o indesejável lugar que ficaria muito melhor vazio. Não se trata de dizer em alto e bom som que estar preso é a situação mais amarga que um homem pode encontrar em seu caminho. Não se trata de culpados ou inocentes. O ponto aqui é simplesmente viver com algum objetivo, ainda que tenha sido jogado naquele lugar como um delinqüente indigno do convívio da sociedade, seja lá porquê. “Um Sonho de Liberdade” é sobre o poder da esperança. Simples assim. Não um poder de nos levar a coisas grandiosas, mas simplesmente de nos encorajar a continuar em frente e, quem sabe, não hesitar se algo bom de verdade encontrar nosso caminho, mesmo que isso implique na quebra das grades que construímos para nós mesmos.

É deliciosamente surpreendente ficar sabendo que a história contada durante as mais de duas horas da obra veio da mente de Stephen King. Conhecido como o mestre do suspense e um dos autores mais largamente adaptados do nosso século, King mostra-se aqui um homem que vai além do assustador para encontrar na sensibilidade e na sutileza uma qualidade indispensável. É quando encontra uma premissa essencialmente dramática e joga nela pequenas pitadas de realidade saturada que o autor se mostra de uma vez por todas um mestre da escrita moderna, um homem que sabe combinar cada ingrediente de uma receita e trazer o resultado a nossos olhos como uma saborosa e inesquecível experiência. “Um Sonho de Liberdade” passa longe de ser uma fantasia, e de fato tem a dose de realidade perfeita, mas algo na narrativa do escritor adaptada pelo próprio Darabont nos envolve e aos poucos leva a um nível instintivo de entendimento que poucos filmes conseguem simular. É como um passeio em um mundo fantástico que diz muito mais sobre o nossa realidade íntima do que qualquer pretenso drama ultra-realista por aí. É fácil perceber que Darabont é essencialmente um roteirista quando seu texto consegue traduzir tudo isso para outra mídia e encher cada minuto com um detalhismo capaz de deixar qualquer fã do escritor com um sorriso no rosto. É um trabalho excepcional de roteiro e uma surpresa bem grande para quem conhecia Darabont como escritor de filmes de terror B como “A Mosca II”. Aqui, a trama acompanha Andy Dufresne (Tim Robbins), um contador que vai parar na terrível prisão de Shawshank condenado a três prisões perpétuas por ter assassinado a mulher e o amante. Habilidosamente, o roteiro não deixa claro se Dufresne é inocente ou culpado, e se o espectador acredita em sua alegação, é porque o instinto que logo dominará a tela dá seu primeiro suspiro. O fato é que, dentro da prisão, Dufresne faz amizade com Ellis “Red” Redding (Morgan Freeman), um carismático contrabandista de pequenos produtos para os presos que só passa sob a vista grossa do diretor Norton (Bob Gunton) porque conta com a ajuda do velho bibliotecário Brooks (James Whitmore). Não há uma linha narrativa rígida, mas sim uma cadeia lógica de acontecimentos que aos poucos vão se ligando para desembocar no final perfeitamente encenado e coalhado de emoções fortes. Não há uma cena descartável em “Um Sonho de Liberdade”, mesmo que a primeira vista alguns momentos soem gratuitos. Cada situação e cada acontecimento se encaixa no plano prático e no plano emocional da trama como a peça de um complexo e deslumbrante quebra-cabeça.

Se escrevendo Darabont só encontra triunfo a sua frente, sua estréia na direção também não deixa a desejar. Seus cortes são elegantes e, quando encontram grandiosidade, não caem no exagero. Movimentos desaparecem em meio a significância de cada tomada mas, mesmo sob uma análise mais fria, tudo se encaixa a perfeição entre roteiro e direção. Nada disso funcionaria, é claro, sem interpretações a altura para abrilhantar cada minuto dos longos, mas nunca cansativos, 142 de projeção. Tim Robbins (“Sobre Meninos e Lobos”) é o protagonista perfeito, carisma e competência a flor da pele para encarnar um personagem difícil e cheio de nuances e detalhes que, se medidos de forma errada, podem trazer toda a estrutura montada para a produção abaixo. Ainda bem, Dufresne encontrou um intérprete a altura para sua excentricidade tranqüila e seu desajuste visível em meio a todo o caos de Shawshank. Robbins é um respiro de calmaria em meio a tempestade e a representação perfeita do herói ambíguo que conquista pelos detalhes, e não pelo plano geral. Tão ou mais competente é Morgan Freeman (“O Cavaleiro das Trevas”) ao colocar toda a sinceridade de sua atuação para funcionar em função de um cativante narrador que chega a suplantar Dufresne em alguns momentos como protagonista da trama. Durante todo o decorrer da trama, Red é a linha-mestra que guia a narrativa e envolve de fato e espectador em torno da fascinação pela jornada daquele notável homem. Com tamanha responsabilidade, Freeman entregou uma atuação marcante e sincera que acaba por se tornar a ligação emocional e filosófica mais forte entre o espectador e o que se desenrola na tela. É o trabalho insinuante de um ator que se prova mais uma vez um talento indispensável da atual Hollywood. Os coadjuvantes também não deixam por menos e constroem todo um contexto fundamental para o desenrolar da trama. Em certo momento, a interpretação do veterano James Whitmore (“A Relíquia”) se torna tão pessoal que fica impossível não se emocionar, e a composição inflexível de Bob Gunton (“O Demolidor”) do diretor da prisão chega a ser odiosa de tão perfeita. Com tantas qualidades e precisão cirúrgica ao tratar de assuntos tão abstratos, não é a toa que “Um Sonho de Liberdade” figura em quase todas as listas de melhores filmes da história. Porque não é um filme que exige atenção extrema ou disposição do espectador que se arrisca. Assim como o slogan adianta, basta um pouco de esperança para acreditar.

Nota: 9,5

quinta-feira, 26 de março de 2009

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada – Sensibilidades de um filme surpreendente

dan in real life Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life, EUA, 2007)

De: Peter Hedges.

Com: Steve Carell, Juliette Binoche, Dane Cook.

98 minutos.

 

 

 

 

A vida real não é simples. Passa longe de ser fácil. E certamente não é uma utopia de felicidade eterna. Mas se existe um fato que ninguém discute sobre ela é que é não menos que maravilhosa. A cada minuto um gesto e a cada palavra um sentimento, uma riqueza de detalhes e uma plenitude de emoções que nenhum artista nesse mundo conseguiu ou conseguirá simular. É simplesmente complexo demais para apenas um ser humano representar. Como traduzir em palavras a sucessão de obstáculos que somos obrigados a ultrapassar dia após dia, que podem parecer privações naquele momento mas acabam por se tornar o mais puro orgulho mais tarde. Passamos por tudo isso para relembrar, tornar esses momentos eternos? A ambição do homem de terminar com fugacidade de cada minuto dessa experiência até hoje só conseguiu nos prender em mais e mais limitações, até que nos vemos com medo de viver algo porque podemos esquecer. Simplesmente não faz sentido. Afinal, a grande verdade é que a surpresa e a honestidade de emoções é o que há de mais recompensador desse mundo. Quando planos dão certo, o mundo sai melhor do entrou. Quando somos surpreendidos, somos nós mesmos que crescemos e aprendemos com cada sensação que desfrutamos, num fugaz momento, como se aquilo fosse eterno. Eventualmente, será. “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” é um filme que guarda tantas surpresas para quem se arriscar que é impossível não se apaixonar por cada palavra proferida por personagens tão reais, espetacularmente ordinários e uma trama que diz tudo que é preciso dizer sem precisar de grandes temas, redenção ou, a bem da verdade, qualquer um dos clichês ainda eficientes que enchem a terra do cinema. Para começar, é quase impossível rotular um filme como esse. A estrutura é de uma comédia romântica, mas há lances de drama tão competentes que é impossível deixar esse aspecto de lado  ao mesmo tempo que provoca risadas de qualidade simplesmente superior a boa parte da produção americana atual. “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” é inteligente, emocionante, intrigante e encantador, mas a despeito de todas essas qualidades, verdadeiramente triunfa simplesmente por ser o filme de ficção mais verdadeiro desde muito tempo.

Roteirista notável desde sua estréia em “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador”, o americano Peter Hedges é muito provavelmente o homem com maior sensibilidade para escrever diálogos que soem como pessoas reais e criar situações e pequenas brincadeiras contextuais que fujam do “complexo do extraordinário” da maioria dos escritores de cinema e caiam no lugar comum sem precisarem ser vulgares por isso. Para simplificar um pouco, o que Hedges faz é escrever tramas críveis para pessoas de verdade sem perder a localização e o senso de entretenimento. Dirigindo pela segunda vez aqui, ele demonstra habilidade para manipular a câmera de forma leve e pouco intrusiva, o que favorece a trama que passa por drama, comédia e romance sem perder o pique. O resultado são filmes que emocionam e ressoam com honestidade, que provocam uma experiência cinematográfica completa e ainda são capazes de divertir com situações que poderiam acontecer a qualquer momento de nossas vidas. “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” é assim, honesto, envolvente, comovente e divertido. Uma mistura que não apenas resulta em uma receita de cinema deliciosa como também representa melhor que muitos dramas os sabores e dissabores que experimentamos a cada dia. O roteiro não se prende a um sentimento, passando por cada um com ritmo simples e cadenciado que é capaz de levar o espectador em uma jornada que, se passa por alguns obstáculos, vale a pena no final. Dan Burns (Steve Carell) é um escritor e colunista de jornal que tenta voltar as boas com as três filhas depois da morte da esposa. Como ocorre todos os anos, os quatro partem em uma viagem para uma pacata fazenda no interior do país onda a numerosa família irá se encontrar. É em uma livraria que Dan conhece a encantadora Marie (Juliette Binoche) numa excepcional seqüência onde ele a ajuda a escolher um livro, pretendendo ser o atendente do lugar. Depois de uma longa conversa, Dan volta para casa apenas para descobrir, no jantar da família, que Marie é a nova namorada do irmão Mitch (Dane Cook), da qual todos estavam falando. Um conflito a primeira vista simplista mas que abre espaço para algumas cenas no mínimo geniais, pequenos detalhes fascinantes um debate de emoções impossível de se descrever em palavras.

Talvez seja essa a maior qualidade e o ponto de definição para “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”. Trata-se, assim como a vida real, de uma experiência impossível de ser colocada em palavras ou expressada de qualquer forma. É preciso ver, viver, sentir. É cinema puro, que provoca e envolve, uma pequena obra-prima que sem dúvida nenhuma merecia mais atenção do que recebeu. Especialmente se levarmos em conta as atuações dos dois protagonistas. A começar por Steve Carell, indiscutivelmente o homem mais competente em representar seres humanos de verdade do cinema atual. Se ele conseguiu fazer do atrapalhado Maxwell Smart alguém por quem se torcer em “Agente 86”, Dan Burns não é menos que um prato cheio servido a um grande ator. Assistir ao resultado disso é um prazer enorme. Carell tem a capacidade rara de transformar cada nuance de seu personagem em um detalhe indissociável de sua própria personalidade. Ele, o astro, some por trás da pele do personagem ao mesmo tempo em que cria uma conexão inestimável entre o protagonista e o público. Quando precisa demonstrar emoção mais intensa, ele o faz se valendo de cada detalhe e quando é jogado em uma situação cômica, assisti-lo atuar é como ver um predador em seu ambiente. A única diferença é que Carell provoca sorrisos, e dos mais sinceros que se podem esperar na hipocrisia de Hollywood. Se ele se dá bem, Juliette Binoche (“Invasão de Domicílio”) não deixa por menos e compõe uma Marie radiante, elegante, carismática e irresistível. Sua presença na tela é como um ímã que puxa o espectador para cada vez mais dentro da trama, funcionando quase como um regulador de emoções e o ponto de equilíbrio em uma história cheia de pequenas loucuras. Não que Marie seja alguém exatamente normal é claro, e isso sem dúvida faz parte de seu encanto, traduzido tão bem pela atriz. O elo fraco da corrente fica por conta de Dane Cook (“Maldita Sorte”) e seu retrato caricato de um personagem que poderia ter ganhado uma caracterização mais forte. Ainda bem, um erro menor frente as surpresas e pequenas delícias que se escondem por trás da sensibilidade e da realidade maravilhosa que “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” retrata com competência ímpar. Afinal, é sempre bom lembrar o quanto o mundo de verdade pode ser bom. Quem sabe assim a vida valha a pena? Veja e viva cada emoção.

Nota: 8,5

quarta-feira, 25 de março de 2009

Amor Além da Vida – O paraíso cinematográfico de Robin Williams

Amor Além da Vida (What Dreams May Come, EUA/NZ, 1998).

De: Vincent Ward.

Com: Robin Williams, Cuba Gooding Jr, Annabella Sciorra.

113 minutos

 

 

 

 

O que há depois da vida? Céu e inferno são conceitos considerados lúdicos e até pouco saudáveis por boa parte dos estudiosos e entendidos do assunto, mas a prova de que não são descartáveis é que eles sobrevivem até hoje como dogmas e crenças que gostamos de preservar. Não é muito incomum topar, principalmente na literatura, com a idéia de que todo fim é na verdade um novo começo. A idéia de infinito e de eternidade é tão antiga que é possível relacioná-la com o próprio surgimento da humanidade. Uma vida não é bastante para o que queremos fazer e nossas limitações da condição humana são por demais apertadas para que sequer possamos confundir sonho com realidade. No final das contas, o conceito de um lugar bom e um ruim onde colhemos o que plantamos em vida faz sentido. Vivemos sonhando com o que não podemos. Morremos para poder tudo o que sonharmos. Veio-lhe um sorriso no rosto? Talvez por causa dessa pequena utopia, extremamente agradável se pensarmos bem, que Amor Além da Vida funcione as mil maravilhas apesar de possuir tantos pequenos erros que poderiam fazer toda a diferença. A verdade é que é impossível não se apaixonar pela jornada de um homem que seria capaz de renunciar ao paraíso que mereceu em vida para passar a eternidade ao lado da mulher que amou. Ela está no inferno. É uma suicida, uma eterna culpada e uma condenada ao pior dos destinos, mas ele não suportaria passar um tempo tão excruciante longe dela. São almas gêmeas, um conceito tão antigo que simplesmente não soa mais como um clichê. É uma coisa natural, quase realista, quase crível no contexto. Amor Além da Vida é capaz de fazer brotar as lágrimas até no espectador mais frio, mas só alcança esse feito porque joga com definições que ao mesmo tempo em que extasiam os olhos e ouvidos, soam como uma temática tão enraizada que é impossível não se envolver. Numa análise fria, Amor Além da Vida não é de forma nenhuma um filme perfeito. Tropeça na ambição em alguns momentos e aos poucos vai se tornando um tanto quanto corriqueiro para quem busca uma experiência renovadora. Aproveita mal alguns personagens e usa-se demais de situações que podem cair fácil na definição de pieguice que os críticos tanto gostam de usar. Ainda assim, é um filme que vale a pena depois de seus 113 minutos de projeção. Às vezes, é só isso que importa.

Na época badalado por tramas românticas como O Casamento de Meu Melhor Amigo e A Nova Paixão de Stella, o californiano Ronald Bass de certa forma encontrou o gosto das críticas ao dar corpo a trama de Amor Além da Vida. Não que todo esse alarde tenha sido realmente justo, é claro. O que ele faz aqui é tecer uma jornada linear que, por si só, pouco diz sobre as perguntas levantadas no início deste texto. Ainda que careça de temas maiores e a significância que o tema prometia, sobra carga emocional e competência humana para Bass. Provando que existem personagens fascinantes sem precisarem ser complexos, ele constrói seres humanos simples que se encaixam excepcionalmente bem ao contexto e quase se tornam parte indispensável do cenário. Também é preciso dar-lhe crédito imaginativo por ter subvertido cada pequeno detalhe da nossa percepção sobre paraíso e inferno e ainda criar uma visão que agrada e cria expectativa a cada minuto. O que virá depois? Que outras cores, emoções e cenários? É sempre bom quando um filme deixa-nos com essas perguntas e as responde a altura. A jornada de Chris Nielsen (Robin Williams) começa com um choque de realidade e um estudo profundo da perda, sentimento que predomina durante toda a projeção de Amor Além da Vida. Ele e a mulher Annie Collins (Annabella Sciorra) perdem os filhos, entram em crise e lutam para se recuperar. Uma maratona de emoções depois, Nielsen sucumbe a um inesperado acidente de trânsito. Pronto. Começa uma quase voyeurística viagem por cores, texturas e visuais simplesmente fantásticos que como que por um milagre parecem se ajustar a cada detalhe da trama. Seja no paraíso pessoal de Nielsen, todo colorido como um quadro expressionista retratando uma paisagem de tirar o fôlego ou na teatral montagem da escadaria idealizada por outrem, cada minuto é de puro deslumbre visual. É quando Annie se suicida que começa a real busca pelo real objetivo da jornada. Chris não se importa com o que estaria perdendo do mundo que criara para si próprio, apenas quer estar perto de Annie novamente. Ultrapassa fronteira, viaja destemido e é assaltado por revelações bombásticas.

O espectador passa por cada uma dessas emoções ao lado do elenco, como se uma experiência assustadoramente real de repente tivesse sido transportada para a fantasia. Se essa sensação funciona a cada minuto, porém, a responsabilidade é em grande parte do neozelandês Vincent Ward (Navigator), hipnotizante a cada corte em seu primeiro e último grande filme americano. Em certos momentos, é a câmera dele e seu detalhismo que produzem, quase sozinhas, momentos verdadeiramente mágicos. Seu trabalho com as cores é louvável, imprimindo-as a cada frame de película e tornando a jornada da trama muito menos cansativa do que poderia ser. Como que contaminados pela sinceridade habitual do grande Robin Williams (O Som do Coração), o elenco todo desempenha seus papéis com propriedade e honestidade. O protagonista é defendido com gosto por ele, entregando a identificação irrevogável que se aprendeu a esperar do ator em uma interpretação que rompe barreiras de qualidade para marcar na memória em cada uma de suas nuances. Cuba Gooding (Jerry Maguire), quem diria, prova que pode soar místico na pele do guia do protagonista nas dependências além da vida. Annabella Sciorra (Família Soprano) é emoção em estado bruto e bem representado, enquanto Max Von Sidow (Pelle, o Conquistador) representa a mais pura categoria do mundo do cinema, a experiência valiosa para interpretar um papel que envolve, acima de tudo, classe. Com tanta gente talentosa envolvida e uma trama tão pessoal para cada um de nós, é impossível não se apaixonar por Amor Além da Vida... Afinal, até os erros ficam para trás no paraíso.

Nota: 8,0

domingo, 15 de março de 2009

Uma Vida Iluminada – O passado brilha para Elijah Wood

Uma Vida Iluminada (Everything is Illuminated, EUA, 2005)

De: Liev Schreiber

Com: Elijah Wood, Eugene Hutz, Boris Leskin

106 minutos

 

 

 

 

 

 

Tudo a nossa volta é iluminado, pulsa com uma luz eterna e ofuscante, capaz de trazer as memórias mais remotas de volta e buscar tudo o que já houve e haverá no distante tempo antes que possamos perceber, como algo que está ao alcance das nossas mãos. É de fato uma pena que nem sempre percebamos isso, com tudo o que nós mesmos construímos nos distraindo do que pode ser mais importante do que uma vida toda... em um único momento. Presos em nossa Matrix do mundo real, somos iludidos para seguir a vida como se não houvesse nada de especial nela, enquanto o mundo nos mostra o quanto coisas milagrosas podem acontecer a qualquer momento. Basta nos esforçarmos para enxergá-las e aproveitar cada segundo. Afinal, qualquer momento pode e deve ser único, incomparável nessa encantadora experiência que é a vida. É tudo isso que “Uma Vida Iluminada” vem para provar com sua narrativa lúdica e envolvente, seus personagens fascinantes e sua história que resgata o mais primitivo censo de apreciação não só do cinema, mas de qualquer forma de arte. “Uma Vida Iluminada” é um filme que quer ser lembrado, sobre pessoas que fizeram de tudo para realizar o mesmo em uma época que talvez fosse melhor ser esquecida. Mas mesmo no campo mais infértil é capaz de florescer a mais linda das flores, uma luz do passado capaz de iluminar o presente e, quem sabe, ser redescoberta no futuro. Aqui, estamos falando da Segunda Guerra Mundial, um dos momentos mais negros da história da humanidade, do bárbaro e repulsivo Holocausto infringido pelos nazistas aos judeus, tempo em que o ar cheirava a sangue e a humilhação era o cotidiano de milhões de pessoas espalhadas por toda a Europa oriental. Jonathan Safran Foer (Elijah Wood) não presenciou tudo isso, mas é um jovem que construiu todos os alicerces de sua vida apoiado no passado e na luz dos pequenos detalhes. Quando sua avó vem a falecer, ele fica de posse de uma foto antiga, retratando seu avô e outra mulher, anotada no verso como Augustine, ao lado do nome de uma aldeia ucraniana na época da invasão alemã. Procurando mais sobre seu iluminado passado, Jonathan decide buscar por essa mulher e por esse lugar, e para isso conta com a ajuda de Alex (Eugene Hutz), um guia ucraniano obcecado por tudo que tem relação com a América e seu avô (Boris Leskin), um homem amargurado que não demora a desenterrar o próprio passado  na longa viagem. Sim, Uma Vida Iluminada é sem sombra de dúvida um road-movie, mas não é um road-movie normal. É único. Exatamente como seu protagonista e como todo o mundo que o cerca.

Ator em tempo integral, é encantador presenciar a imensa habilidade com que Liev Schreiber (”Sob o Domínio do Mal”) constrói situações detalhistas e intimistas que revelam de forma gradual a essência mais pura de seus personagens, a cada minuto mais fascinantes e envolventes para o espectador. Uma manipulação (no bom sentido da palavra) humanista e habilidosa que contribui muito para que o final de “Uma Vida Iluminada” seja tão emocionante. O segredo, é claro, foi sair da normalidade, provavelmente com uma ajuda substancial do autor, que não por coincidência divide o nome com seu protagonista. Na ficção, Foer é um colecionador de nada em especial. O que ele guarda e preserva são memórias, objetos que representam momentos, felizes ou tristes, mas sempre memoráveis. Ele é um homem com medo de esquecer e de ser esquecido, uma espécie de radicalização do que todos nós desejamos ao caminhar por esse mundo. Saber de onde veio para saber para onde vai. Pode parecer clichê, mas funciona perfeitamente para cada uma das jornadas retratadas por Schreiber em “Uma Vida Iluminada”. Seus diálogos não precisam de grandes delongas para encantar e sua forma de levar a trama é cadenciada com perfeição, sendo levada pelos acontecimentos sem nunca perder a serenidade que se espera de um road-movie. E, é claro, sem se esquecer do impacto visual que o conceito do filme exige. Embora surja em momentos inesperados, a beleza retratada em “Uma Vida Iluminada” brilha com intensidade radiante, presenteando o espectador com pequenas pílulas de beleza plástica em meio a uma trama que por si só já garante o interesse. É como um ingrediente a mais, um detalhe que acaba se revelando essencial para transmitir a mensagem que pretende e uma promessa executada com perfeição. Embora pareça estranho, a Ucrânia tem paisagens impressionantes pelas cores fortes e clima bucólico, quase como uma viagem no tempo a alguns passos de distância que transparece nos melhores momentos de “Uma Vida Iluminada” como parte integrante de sua receita, e não um elemento aparte, apenas para ser apreciado e esquecido. Se fosse assim, o filme se perderia do próprio conceito. Afinal, se um filme como esse possui uma única grande ambição, é ser inesquecível. Embora seja um conto profundamente pessoal pa ra o diretor (Schreiber é filho de judeus mortos no Holocausto), “Uma Vida Iluminada” possui aquele ingrediente atemporal impossível de descrever que acaba tocando a mente e a emoção de cada pessoa de uma forma diferente. Assim como uma pintura que vai além da beleza plástica, a obra de Schreiber é um filme que vai além dos domínios do cinema para gravar-se na memória mais arraigada de cada um que presenciou o milagre da criação de uma obra de arte. Afinal, todos nós possuímos um passado que queremos nos lembrar. A memória é o ser humano em sua representação mais fiel, e é isso que “Uma Vida Iluminada” traz a tona com habilidade emocionante. E com ajuda de gente talentosíssima, é claro.

A começar por Elijah Wood (“O Senhor dos Anéis”), abraçando a excentricidade de seu personagem com coragem digna de um grande ator e ao mesmo tempo tornando-o o mais humano que pode por baixo de todos os trejeitos e caracterizações impostas pelo roteiro. É uma interpretação audaciosa e ousada, uma prova incontestável de talento que só encontra triunfo em seu caminho, que sob uma primeira vista não deveria impressionar, mas envolve aos poucos e chega ao final como a representação perfeita de tudo que um filme como esse deveria oferecer. Não muito atrás, o estreante Eugene Hutz rouba algumas cenas com seu retrato carregado de honestidade de um guia tão incomum quanto seu passageiro. Partindo da posição de coadjuvante, ele transforma a jornada física e emocional de seu personagem em um produto tão fascinante quanto a do protagonista, o que acrescenta ainda mais encantamento a já triunfante receita de “Uma Vida Iluminada”. Para completar o trio principal, o russo Boris Leskin (“Homens de Preto”) se junta a viagem para dar a ela a ligação emocional mais forte de todo o filme, os momentos mais tranformadores e o grande vetor de toda a comoção do desfecho da trama. É claro, há também a surpreendente habilidade de Liev Schreiber com a câmera, acertando nos ângulos e nunca desisitindo da missão de surpreender o espectador a cada take com um maneirismo diferente e encantador. Intimista quando é preciso e grandiosa quando a trama exige, a câmera do ator não apenas registra o que se sucede, mas concede alma a cada ato e uma climatização distinta a cada momento. Radiante durante todos os 106 minutos, a luz que brilha em “Uma Vida Iluminada” ainda é embalada com o ritmo contagiante da música européia compilada por Paul Cantelton (“O Escafandro e a Borboleta”), que dita o ritmo de cada movimento de câmera e de cada diálogo iluminado de um filme capaz de trazer o sorriso e a emoção a um tempo ao rosto do espectador. Raro, brilhante e absolutamente inesquecível.

Nota: 9,5

terça-feira, 3 de março de 2009

Encontrando Forrester – A Europa em Hollywood… equívocos de um filme recompensador

forresterEncontrando Forrester (Finding Forrester, EUA, 2000)

De: Gus Van Sant

Com: Sean Connery, Rob Brown, F. Murray Abraham, Anna Paquin

136 minutos

 

 

 

 

 

O mundo em que vivemos é estranho, uma terra inóspita criada por nós mesmos cheia de hipocrisias e normas sem sentido absolutamente nenhum. Por exemplo, porque diabos o homem inventou a crítica? Será que realmente causa algum prazer impor uma barreira entre o autor e o público, julgar cada detalhe e bater o martelo inflexível para consagrar ou condenar uma obra de arte? Afinal, o cinema e qua lquer outra forma de arte é puramente e primitivamente uma forma de expressar os pensamentos de um grupo de artistas, algo para ser julgado por quem vê, não por quem é pago para isso. “Escritores escrevem para darem aos leitores algo para ler”. Poderia haver uma definição tão simples, óbvia e ao mesmo tempo tão esquecida? Afinal, quantas pessoas d eixam de ver um filme ou ler um livro porque os comentários espalhados pelos meios de comunicação são negativos? Ou, ainda o contrário, fugir de uma obra simplesmente porque as mesmas descrições parecem ser metafóricas demais? Se me permitem a metalinguagem e um pouco de falta de modéstia, é sempre bom lembrar que a crítica não deixa de ser uma forma de arte, um exercício de dissertação para expor um ponto de vista e acima de tudo instigar a apreciação. Por incrível que pareça, um filme não precisa ser uma obra-prima para merecer ser assistido, e não há melhor exemplo disso que “Encontrando Forrester”, drama cheio de pequenas lições que valem a pena serem escutadas, mas repleto de pequenos equívocos que acabam resultando em um filme que marca mais pelo que ensina do que pelo que provoca emocionalmente ao espectador. Para começar, é bom avisar que não é a toa que Gus Van Sant, diretor de filmes tão díspares quanto “Um Sonho Sem Limites” e a refilmagem de “Psicose”, é freqüentemente chamado de o diretor americano mais europeu da atualidade. “Encontrando Forrester” reflete essa faceta de seu comandante no ritmo, cheio das cadências típicas das produções do velho continente, levado de maneira oscilante, quase como um acaso planejado, um improviso delimitado cuidadosamente com algumas regras. É quase irônico que um filme como esse encontre seu defeito mais notável justamente onde as produções européias verdadeiramente se destacam: a climatização da história. Não se trata de um trabalho ruim do diretor, mas talvez constitua em um conjunto de pequenos detalhes equivocados no texto de Mike Rich, então um estreante que posteriormente escreveria “Meu Nome é Rádio” e um par de outras obras pouco notadas. Ele é não menos que brilhante em seus diálogos, construindo debates verbais intrigantes e usando a racionalidade e a rigidez de seu personagem principal para criar pérolas que certamente entrariam para as grandes frases do cinema caso o ambiente de toda essa história não fosse tão maleável, indecisa quase.

Em alguns momentos, parecemos estar em frente a um filme-denúncia que versa sobre preonceito, com direito a um amor impossível e discriminação social. Em outros, a história adquire uma dramaticidade intensa, quase como um suspense com suas sombras e as luzes ofuscantes da câmera do diretor. Nos melhores momentos, “Encontrando Forrester” é um drama com levadas irônicas e pílulas de sabedoria encantadoras, ingredientes que, se se mantessem durante todas as mais de duas horas de projeção, fariam do filme uma obra essencial. Mas a irregularidade e a vontade clara de triunfar em tantas vertentes acaba por diminuir o impacto da trama e torna-la quase banal ao lado de linhas tão geniais de diálogos e construção tão habilidosa de personagens. Sem a emoção que teoricamente deveria provocar, “Encontrando Forrester” deixa de ser um filme apaixonante para se tornar uma viagem prazerosa, mas puramente esquecível, embora não seja banal em seu conteúdo. E é realmente lamentável ter que dizer que a falta de um material emocional verdadeiramente impactante é o pior pecado que uma trama como essa poderia cometer. Isso porque “Encontrando Forrester” é, em sua essência mais fundamental, uma história sobre paixão. A de Jamal Wallace (Rob Brown) é escrever. Uma exceção em meio a falta de oportunidades no pobre cenário do Bronx da década de 90, ele é obrigado a sufocar essa obsessão para ser aceito entre os jovens de sua idade, que preferem admirá-lo pela habilidade no basquete. Quando um exame de qualificação que ele fez em segredo retorna juntamente com a boa impressão dos donos de uma conceituada escola, e sua bolsa de estudos é liberada, ele conhece um novo mundo. Povoado por todo o tipo de gente, daqueles que aceitam sua presença ali por mérito, representados pela própria filha do proprietário, Claire Spence (Anna Paquin) até outros que não possuem tanta facilidade assim em assimiliar a idéia de que um negro de classe baixa possa ser tão talentoso quanto ele demonstra em suas redações. Seu principal opositor é o professor de literatura, Robert Crawford (F. Murray Abraham), um escritor pracassado que se recusa a acreditar nos dons do garoto. Paralelo a tudo isso, assistimos ao surgimento e crescimento de uma amizade no mínimo improvável, começada de maneira bem inconvencional. William Forrester (Sean Connery) é um escritor recluso e brilhante que foi premiado com o Pulitzer em sua estréia e nunca mais deu ao mundo outra obra. A partir de uma brincadeira entre os amigos, os destinos do apaixonado pela escrita e daquele que perdeu essa paixão há muito tempo se cruzam sob circunstâncias bem criativas.

O personagem de William é tão bem construído que é impossível não se encantar, cheio de excentricidades e uma visão dura de mundo que aos poucos vai ganhando razão e ocupando um espaço cada vez maior na trama. Se ela não fosse tão indecisa, não era de se duvidar que o personagem entrasse para o hall da fama do mundo do cinema. Principalmente com a simbólica e cativante interpretação de Sean Connery, em seu último filme antes das “férias” marcadas por produções esporádicas e entregando uma atuação para coroar a carreira, cheia de detalhes ricos e emblemática como sempre. O James Bond por excelência não se despe da petulância que marcou sua persona, mas passa por cima dela para desempenhar seu papel com a compreensão de um verdadeiro mestre. O restante do elenco também entrega performances eficientes, mas nunca passa disso. Mesmo o jovem Rob Brown (“Stop-Loss”), tão comentado na época da estréia do filme, não impressiona muito ao encarar os dilemas do protagonista acompanhado de gente já oscarizada como Anna Paquin, premiada por “O Piano”, mas mais conhecida pela Vampira de “X-Men”. Experiente, F. Murray Abaham (“Amadeus”) se limita a criar o antagonista padrão, amargurado, sem limites e inflexível como é mostrado pelo roteiro. Comandanado as câmeras, Gus Van Sant faz o trabalho louvável de sempre, um pouco mais cuidadoso com os modismos que os tornaram famoso, mas genial como sempre ao capturar a alma dos personagens, ainda que o mundo que há em volta deles não chegue a envolver. Antes de seu lançamento, “Encontrando Forrester” foi dado como o retorno do diretor aos grandes filmes depois de escorregão em “Psicose”. O público ainda tinha na memória a obra anterior a este, “Gênio Indomável”, e não faltou comparações entre os dois pela trama pretensamente inspiradora e mentoria convencional, estilo Sessão da Tarde. Talvez a repetição tenha afujentado o público, mas o fato é que “Encontrando Forrester” acabou invertendo as expectativas e encerrando de maneira pouco louvável a fase mainstream desse que já foi considerado um dos mestres do cinema dramático. Mesmo que seja só pela ruptura que representou, a verdade é que “Encontrando Forrester” é um filme que vale ser visto, mas vai sumir da memória em breves horas, ainda que Sean Connery nunca tenha brilhado tanto. Confira e me diga você mesmo.

Nota: 7,0

 

domingo, 1 de março de 2009

Sociedade dos Poetas Mortos – Emoção, revolução e um filme inesquecível

   Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA, 1989)

De: Peter Weir.

Com: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Hansen.

128 minutos.

 

 

 

 

  Não é fácil descrever, colocar em palavras as idéias e mensagens de um filme como este “Sociedade dos Poetas Mortos”. Afinal, como expressar a repercussão de um filme que expressa através da forma de arte mais perfeita a ânsia mais primitiva de qualquer ser humano? Talvez as palavras de Henry David Thoreau sejam melhores do que as de qualquer outro para essa missão. “Eu fui à floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido”. Viver cada dia como se fosse o último, nunca hesitar diante a decisões que podem mudar sua vida e o mundo ao seu redor, fazer o possível e o impossível para alcançar o destino que queremos, não aquele que nos é imposto. Tomar o “caminho menos percorrido”, sua própria estrada em direção a algo que você espera, não teme. Mudar o mundo, quem sabe, mas acima de tudo fazer a vida valer a pena a cada amanhecer e viver cada minuto como se fosse o melhor de toda a sua vida. Assim, quem sabe, todos eles realmente possam ser, e não haverá arrependimentos no final porque tudo o que você fez foi para alcançar aquilo que você vive. Carpe Diem, sussurra um professor, um guia e um capitão por mares singrados apenas em sonhos, um homem que vai tornar a vida extraordináeira e inspirar a revolução de cada um e a construção mais profunda das personalidades mais diferentes. Duas palavras, uma idéia, atos que mudariam para sempre o mundo ao redor e a trajetória de cada uma daquelas pessoas. Simples assim, da teoria para a prática. Tudo começou com palavras que eles não escreveram, e evoluiu devagar para aquelas que vinham do fundo mais verdadeiro do coração de cada um. Pode parecer piegas, pode parecer uma idéia que já se desgastou, pode parecer a maior válvula de escape jamais concebida pelo cinema, mas o fato é que “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme inspirador, transformador, emocionante e inesquecível. Um filme que renova aquela vontade expressada por Thoreau em cada espectador e eleva cada um de nós a categoria de únicos, extraordinários, pequenos milagres que merecem aproveitar cada dia e viver de forma plena e notável. Soa como um engodo, algo feito para massagear o ego da platéia e conquistar cínicos milhões para a indústria de Hollywood. Mas como muita coisa nesse mundo, a primeira impressão é enganadora, e “Sociedade dos Poetas Mortos” acaba por se tornar justamente o oposto de tudo isso, um quebrador de corações e um filme para poucos com uma teoria para as massas que triunfou graças a sua maravilhosa forma de nos convencer que palavras e idéias podem mudar o mundo. Acha essa idéia um tanto quanto irreal para a sociedade em que vivemos? Pois imagine tal teoria se colocando em prática cinco décadas atrás, quando o mundo era mais rígido e as regas mais infelxíveis, quando a prisão era mais estreita e os destinos eram traçados sem o consentimento de ninguém. Sorriu com a idéia? Pois grave esse sorriso no rosto, ele virá com as lágrimas durante todas as duas horas de “Sociedade dos Poetas Mortos”.

O que companhamos aqui não é apenas mais uma história colegial de alunos rebeldes inspirados por um professor a darem um jeito em suas vidas. De fato, é quase o contrário. A Academia Welton não admite rebeldes em suas fileiras, mas garotos cujos destinos estão traçados desde cedo pelos pais, ricos o bastante para pagar pelo ensino e rígidos o bastante para não permitirem a seus filhos a liberdade de escolha. Nesse ambiente, John Keating (Robin Williams) chega para ensinar inglês após a aposentadoria do antigo professor e não demora para causar estranheza com seus métodos de ensino pouco convencionais, suas aulas quase ritualísticas e seu carisma tranqüilo de homem que aprendeu a viver plenamente sem ser condenado por isso. Ele é o inspirador para um processo contrário ao convencional, implantando uma revolução pessoal em cada um dos alunos e encorajando-os a desafiar o mundo ao redor e lutar pelo que querem com seu desejo mais profundo, para que suas vidas valham a pena. Cada um deles capta a mensagem de sua forma, e juntos eles fazem renascer uma antiga organização da qual o professor fazia parte em seus tempos de escola, a Sociedade dos Poetas Mortos, dedicada a tornar em verdade as palavras de Thoreau. Neil Perry (Robert Sean Leonard) é um jovem carismático, popular e submisso a vontade do pai, que lhe incutiu a idéia de seguir carreira na medicina. É ele quem recebe os conselhos de Keating com mais furor, enxergando ali a forma de seguir suas verdadeiras vontades, deixar tudo o que o acorrenta para trás e se tornar o ator que povoa seus sonhos. Todd Anderson (Ethan Hawke), é de certa forma o oposto de seu colega de quarto, tímido ao extremo e quase ignorado pelos pais, que o colocam na Welton puramente para não precisarem lidar com ele no dia a dia. É nele que o exemplo de Keating inspira a maior revolução, quase uma mudança total e irrevogável, um descobrimento completo que parecia impossível para alguém como ele, aos seus próprios olhos e de quem está a sua volta. Knox Overstreet (Josh Charles) é um sonhador apaixonado por uma garota que, além de distante de seu mundo limitado, ainda tem um namorado popular. Terreno fértil para os conselhos do professor repercutirem em ações mais enfáticas e determinadas para conseguir o que se deseja. Para fechar o círculo principal de poetas, Charlie “Nuwanda” Dalton (Gale Hansen) é o rebelde incorrigível de bom coração e carisma incontestável, que passa dos limites e representa com perfeição a confusão ente viver plenamente chocar o mundo a sua volta.

Mesmo operando tantas tranformações em uma galeria tão variada de personagens, o roteiro do então estreante Tom Schulman (“Nosso Querido Bob”), dono do único Oscar concedido pelo filme, nunca se perde em ambições demais por descompromisso de menos, regendo com habilidade uma sinfonia de emoção e raciocínio mais fortes do que nunca, unidos para transformar “Sociedade dos Poetas Mortos” em um filme que marca, inspira e transforma, independente de cinismos ou de críticas, uma obra tocante de magistral, uma aula de bom roteiro e de controle de trama que funciona as mil maravilhas comandada pela câmera de Peter Weir (“O Show de Truman”). Ele, um dos grandes mestres da direção americanos, é quem tranforma a obra redigida por Schulman em uma poesia em forma de cinema, arrancando suspiros com sua forma de filmar simplista e tirando proveito das lindas locações para construir tomadas no mínimo deslumbrantes. Os truques e as manhas de Weir transformam cada cena em algo inesquecível, respeitam as descrições do roteiro ao mesmo tempo que adicionam algo a mais com ela. Seja utilizando sombras (em uma das cenas mais tensas da história do cinema), filmando de maneira quase teatral ou girando ao lado de seus personagens para mostrar o momento de descoberta de um jovem, Weir mais uma vez mostra o quanto é um absurdo um diretor como ele ter angariado seis indicações ao Oscar sem nunca vencer uma. Se Weir dá forma ao filme com maestria, o elenco faz o mesmo ao conferir alma a cada um daqueles personagens. Robin Williams mostra o quando pode ser doce a mistura de drama e comédia para entregar uma interpretação carismática mas sempre contida, entoando versos imortais com a mesma habilidade que pronuncia os diálogos mais simples e fazendo do professor Keating mais que apenas um capitão, uma lenda e um dos personagens mais marcantes do mundo do cinema. O elenco jovem não deixa a desejar, atuando ao lado do mestre com habilidade invejável: Robert Sean Leonard (o Dr. Wilson de “House”) exala carisma radiante e conquista o público com facilidade em uma atuação irretocável, adjetivo que pode muito bem ser aplicado a Ethan Hawke (“Antes do Amanhecer”) e Josh Charles (“SWAT”), eficientes em seus papéis. Já Gale Hansen, que pouco se destacou depois do filme, é carisma e honestidade a flor da pele para constuir o poeta mais inesquecível de todo o filme. Há muito mais do que primor técnico em “Sociedade dos Poetas Mortos”, há algo especial que existe dentro de cada um de nós e há um antídoto irrevogável contra o conformismo. Ingredientes perfeitos para um filme que renova a esperança que nós precisamos ter... em nós mesmos.

Nota: 10

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Juntos Pela Vida – Queen Latifah domina a tela em um pequeno grande filme

Juntos Pela Vida (Life Support, EUA, 2007).

De: Nelson George.

Com: Queen Latifah, Wendell Pierce, Rachel Nicks, Evan Ross.

90 minutos.

 

 

 

 

Para algo que se renova diariamente, a vida não uma coisa fácil de definir. A verdade é que nos acostumamos tanto a ela que quase nunca nos deparamos com os enigmas indissolvíveis que ela nos apresenta a cada dia. São perguntas iquietantes demais para quem quer seguir com seus dias ordinários, aceitando a sina a que foi condenado. Viver é aceitar nosso destino e o lugar que nos foi dado no mundo? Ou devemos desafiar tudo isso para encontrar nossa própria zona de conforto e sempre buscar algo para melhorar, reparar, aperfeiçoar essa experiência fascinante que é a vida? Não é fácil ver uma delas terminando por conformismo ou pela falta de auto-preservação. O instinto de sobrevivência humano é tão arraigado que é difícil acreditar na facilidade com que ele desaparece quando as complexas maquinações de nossa indecifrável mente nos dizem para fazer exatamente o contrário da sensatez. Talvez a loucura e a auto-destruição nasça da contemplação demorada dos enigmas da vida, ou simplesmente da falta dessa contemplação. A vida a nossa volta é uma eterna confusão sobre a qual pensamos ter controle, ou será que realmente podemos moldar o mundo a nós antes que ele nos molde para ser apenas mais uma engrenagem de uma sociedade que afinal pouco importa? Pensando nisso, egoísmo é mesmo um pecado ou foi transformado em tal para que uma estrutura maior podesse sobreviver, não importa o que se passa com cada um dos pequenos peões? Às vezes transgredimos tanto as chamadas regras do lugar em que vivemos que elas se tornam insignificantes, simplesmente guias de um caminho que, se pudéssemos escolher, não seguiríamos. E quando menos esperamos o mundo está dividido entre aqueles que seguem “as regras” e aqueles que vivem a sua margem, se perguntado para quê afinal seriviria esse pequeno detalhe chamado vida. Juntos Pela Vida é um filme que encontra significância tanto pelos estudos dos sentimentos de uma mulher que já esteve dos dois lados desse jogo quanto pela situação social que retrata com competência notável e total imparcialidade de julgamentos.

Ana (Queen Latifah) já foi uma mulher perdida pelo mundo, uma mulher que perdeu a custódia de sua uma filha por causa do vício em drogas incentivado pelo marido marginal, Slick (Wendell Pierce). Foi preciso que o choque a AIDS a atingisse para que ela finalmente percebesse que caminhava rapidamente para um “destino” que não desejaria para ninguém. E então ela moldou sua vida as regras, colocou-se presa entre elas e aos poucos tentou recuperar tudo o que havia perdido. Não foi fácil, mas ela conseguiu se acertar com a filha mais nova, ainda que a mais velha, Kelly (Rachel Nicks) continuasse a se recusar a sair da proteção da avó. O terceiro elemento principal dessa trama é Amare (Evan Ross), um jovem criado ao lado de Kelly que também se descobre HIV positivo e se entrega às drogas, desaparecendo da vida de todos que haviam sempre lhe dado suporte. É o bastante para que Kelly procure a ajuda da mãe, que empreenderá a busca mais para impedir que a filha se distancie ainda mais dela com a mudança da avó do que pelo bem do garoto. “Juntos Pela Vida” é um conto comovente sobre uma mulher descobrindo como agir sendo parte integrante de um mundo que ela mesma construiu, um mundo que ela entende apenas em parte. Ana é uma mulher que segue a vida a pesar de tudo, uma mulher que se salvou de uma situação fisicamente destruidora para cair em uma jornada desesperadora de emoções fortes sugeridas em nuances inteligentes pelo excepcional roteiro do trio Nelson George (“CB4 – Uma História sem Rap”), Jim McKay (“Gente Comum”) e Hannah Weyer (“Angel”). Os três constroem um texto doce, encantador e emocionante a um tempo, absolutamente magnífico ao retratar as angústias de pessoas que recuperaram a vida após o surgimento do medo de perdê-la. O caso de Amare é uma sábia forma de mexer com a protagonista e com todos ao redor dela, um exemplo perfeito e trágico do que ela poderia ter se tornado caso não tivesse tido força de vontade o suficiente. Os diálogos são críveis, bem construídos, mas o silêncio diz mais que tudo, os atos fazem mais diferença que a palavra.

Para além do roteiro, porém, Nelson George faz um bom trabalho no controle das câmeras, acertando em cheio ao impor uma cadência diferente a casa seqüência, realçando o impacto emocional das passagens finais e quase trabalhando em função da trilha-sonora com seu estilo documental-poético que cria imagen belíssimas em um ambiente tão explorado como a cidade cinzenta de Nova York. Não espere se deparar com as luzes ofuscantes da Broadway ou a fervilhante Quinta Avenida, a beleza da filmagem em “Juntos Pela Vida” tem muito mais a ver com climatização e proximidade do que com grandes paisagens. O fato é que George dá espírito ao filme com sua câmera intrusiva, compreensiva e concessiva, que não julga os personagens, mas cumpre com louvor a missão de captar cada nuance das interpretações honestas do elenco. Dos atores jovens, o mais notável é Evan Ross (“Pride”), encarando um papel naturalmente complexo e entregando uma atuação não menos que irretocável para o Amare sem rumo criado pelo roteiro, um anti-herói comovente e uma metáfora perfeita para a entrega e a culpa. É impossível não sentir um arrepio nas cenas mais significantes de seu personagem, quase sempre ao lado da eficiente e estreante Rachel Nicks, uma promessa para grandes papéis no futuro. Mas se “Juntos Pela Vida” é o pequeno grande filme que é, a culpa é toda de Queen Latifah. A ex-rapper, indicada ao Oscar pela explosiva performance em “Chicago”, encontra a prova final de seu talento incontestável ao encarnar a sofrida Ana, o olho do furacão de uma história desvastadora. Detalhista e absolutamente perfeita, Latifah acerta em cheio ao utilizar da postura corporal (mutável durante todo o filme) a expressão mais sutil para construir uma personagem que seqüestra nossa atenção a casa segundo em tela. Não há sequer um momento, dos mais furiosos aos mais corriqueiros, em que a atriz se descuide e mostre a personalidade expansiva que sempre foi sua marca. O que vemos aqui é uma Latifah contida, concentrada e incontestavelmente magnífica. A representação maior das muitas memórias que deixa “Juntos Pela Vida”, um filme que versa sobre a vida sem precisar responder a nenhuma das questões colocadas no início dessa humilde crítica. Afinal, não cabe a um roteirista fazê-lo, e sim a cada um, dono da própria vida e do próprio destino, um molde de dois lados que pode se adequar ou mudar o mundo a seu favor. Egoísmo demais? Talvez. Mas se há uma grande verdade depois de tanta contestação é que “Juntos Pela Vida” é um filme que merece ser visto, pensado, refletido, vivido... e nunca mais esquecido.

Nota: 9,0

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Jogos do Poder - Um filme feito de contradições


Jogos do Poder (Charlie Wilson's War, EUA, 2007).

De: Mike Nichols.

Com: Tom Hanks, Amy Adams, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman.

102 minutos.






Se existe uma palavra que pode definir sem margem para dúvida "Jogos do Poder", essa palavra é contradição. Propaganda enganosa talvez seja uma expressão muito depreciativa, mas não existe outra forma de expressar o equívoco da campanha de marketing feita pela Universal. O novo filme de Mike Nichols ("Closer"), apesar de ter sido lançado em época oportuna para a corrida do Oscar, foi vendido como uma comédia sofisticada, sarcástica, inteligente e peculiar para as fileiras de Hollywood. Não que o filme não mereça todos esses adjetivos (e alguns outros), mas é um grande erro chamar "Jogos de Poder" simplesmente de comédia. E a contradição já começa aí. O título original, algo como “A Guerra de Charlie Wilson”, dá a impressão de um drama de redenção, uma espécie de "Um Sonho de Liberdade" passado no Congresso americano. Já a tradução brasileira, "Jogos do Poder", não deixa margem de dúvida para o espectador mal-informado: ele está a frente de um filme político, cheio de tramóias e reviravoltas, conspirações e maquinações. Nenhuma dessas definições está errada. "Jogos do Poder" é uma mistura surpreendente de tudo isso, com o humor surgindo sutil e inteligência acima da média, sem deixar de ser a história de um ser humano adquirindo consciência do mundo a sua volta e muito menos deixar de lado todas as estratégias que envolvem o trabalho no ramo da política. Em resumo: "Jogos do Poder" só pode ser definido como indefinível. Talvez esse adjetivo levante algumas suspeitas dos espectadores mais populares, já que na maioria das vezes os críticos o usam como sinônimo de filme de raciocínio, de narrativa arrastada e ritmo cadenciado. O que também seria uma impressão equivocada. Ficou confuso com tantas definições para um único filme? Bom, nada mais adequado para a história de três pessoas que vão contra a sua natureza.

Para ir direto ao ponto fundamental de "Jogos do Poder", a melhor forma de desfazer essa confusão é analisar o trabalho do roteirista Aaron Sorkin ("Questão de Honra") adaptando o livro biográfico de George Crile sobre um parlamentar bon-vivant que foi peça fundamental para a queda do Império Soviético. Apenas esse breve resumo dá uma amostra da complexidade de um trabalho roteirístico como esse, mas Sorkin se sai perfeitamente bem, fazendo jus a suas três indicações a melhor roteiro no Globo de Ouro. Ao misturar tiradas geniais e atípicas para um filme político (ou para um drama de redenção) com cenas emocionalmente complexas que não costumam figurar em comédias sofisticadas (ou filmes políticos), ele ainda domina com perfeição as engrenagens políticas que movimentam uma trama como essa. Seus personagens são espirituosos sem ser irreais e seus diálogos conseguem ser engraçados sem nunca perder de vista a gravidade e a amargura inerentes a missão dos protagonistas. O protagonista é Charlie Wilson (Tom Hanks), congressista conhecido pelos escândalos com a imprensa e pela falta de ética assumida, um personagem que não deveria ser carismático ou conquistador, mas de alguma forma concilia a falta de limites com a preocupação genuína com os assuntos graves de sua área de atuação. Como define o agente da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), o congressita é “um homem muito fácil de gostar”. E que outro ator teria a credibilidade, o carisma e o talento necessário para esse papel senão Tom Hanks? Se a escolha foi perfeita, o desempenho corresponde às expectativas com sobras, e o ator compõe uma persona fantasticamente apaixonante, fugindo do caráter etéreo dos heróis clássicos mas nunca se desumanizando o bastante para se tornar repulsivo. É esse congressista ambíguo que se envolve meio que por acaso na luta das guerilhas afegãs contra a invasão soviética, e consegue o apoio financeiro de Joanne Hering (Julia Roberts), uma socialite engajada e fervorosamente religiosa, peça fundamental do jogo para fortalecer as ligações políticas de Charlie e conquistar os progressivos aumentos de orçamento para a assitência americana no Afeganistão.

É claro que até aqui estamos falando da Guerra Fria, o ódio aos comunistas e a operação “secreta” para sabotar a expansão do império soviético. Mas a coisa toda toma outra proporção em uma cena crucial, filmada sem concessões, em que Charlie vai visitar um campo de refugiados e se depara com o desespero de uma população que está lutando a guerra americana no lugar dos americanos. É principalmente nessa passagem que brilha a câmera experiente de Micke Nichols, lendário diretor do igualmente inesquecível "A Primeira Noite de Um Homem" e tantos outros clássicos, que guia com a discrição de sempre, deixando-se levar pela história, mas fazendo concessões a certas ousadias que poderiam aumentar o impacto do filme. Mas qualquer crítico é desarmado quando sua câmera parte do rosto do protagonista para a imensidão desértica a sua frente, coalhada de barracas miseráveis ocupadas por vítimas da invasão soviética. Ao passo em que Nichols abre espaço para alguns desagrados, o elenco não o faz em nenhum momento. Além de Hanks, que também é produtor do filme, o trio principal é completado pelos oscarizados Philip Seymour Hoffman e Julia Roberts. Ele, sensacional em sua caricatura humanizada de um agente da CIA politicamente incorreto, mostrando porque é considerado o ator mais talentoso surgido nos últimos anos e justificando suas até agora três indicações ao prêmio maior do cinema. Ela não chega a tal patamar, mas não por isso deixa de ser cativante e eficiente na pele da persuasiva e curiosa militante, passando bem a sensação de indignação e tornando-se na representação máxima da classe que impregna todos os 102 minutos de "Jogos do Poder". Alguém por aí provavelmente vai sair de sua sessão balbuciando coisas como panfletagem, enganação, clichê e algumas outras profanidades impublicáveis... mas é impossível negar a relevância, a competência e o retrato contundente da deplorável condição humana de solidariedade egoísta. Mais uma contradição? Francamente, querida, eu não me importo.

Nota: 7,5

Bom, pessoal, hoje a crítica demorou para sair porque eu não tive tempo de assistir o filme até agora a pouco, mas aí está. Outra coisa que eu preciso dizer é que teremos mais uma edição do Boletim cancelada, simplesmente porque pouquíssima coisa aconteceu no dia de hoje no mundo do cinema, mas amanhã ele está de volta, é garantido! E o nosso especial ainda está de pé, provavelmente em alguns dias ele já estará por aqui, estou preparando ainda. Bom, agora só me resta agradecer a todos os comentários, e ainda dizer o de sempre: bons filmes para todos vocês e até amanhã!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Forrest Gump: O Contador de Histórias - A vida excepcional de um garoto excepcional

Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, EUA, 1994).

De: Robert Zemeckis

Com: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment.

142 minutos.





Uma boa parte dos grandes filmes possui uma primeira cena essencial, ainda que isso não transpareça a olhos destreinados. São as idéias mais simples, os conceitos e propostas mais resumidos, que realmente encantam. Seja de uma forma metafórica ou numa levada mais realista, é praticamente infalível que a cena busque, de uma forma ou de outra, preparar o público para o que vem em seguida. Pois bem, "Forrest Gump" começa com uma pena branca sendo levada pelo vento. Assim como a maioria das metáforas encantadoras, ela não tem uma origem, não tem uma razão, e o mais importante, não tem um destino. Vigiada pela câmera viajante e imperfeita de Robert Zemeckis ("Uma Cilada Para Roger Rabbit"), ela começa na torre mais alta de uma suntuosa Igreja e passa pelo cenário por demais apressado de alguma cidade americana até pousar aos pés de um dos poucos homens que não a dispensariam como algo estranho, talvez até repulsivo. Forrest Gump não é como um homem qualquer, e nem foi um garoto normal. Para começar, o QI de Forrest conta cinco pontos abaixo do nível considerado regular, e quando criança ele ainda foi portador de um grave problema nas pernas que o fazia usar um aparelho grotesco. Ao mesmo tempo, ele funciona para a história como uma representação inocente e maravilhosa de todos nós. É um personagem, uma pessoa, que resume a essência maior da vida humana: nós fazemos nosso próprio destino. Ou não. A verdade é que, essencialmente, "Forrest Gump" é um filme sobre a vida e os caminhos para os quais podemos levá-la (ou quem sabe simplesmente sejamos levados).

E embora veja o mundo com outros olhos, muito menos cínicos e pessimistas que os nossos, Forrest é o nosso representante nessa viagem. Como um garoto excpecional, ele teve uma vida excepcional. Nascido no Alabama e criado pela mãe, Forrest contrariou todas as expectativas e completou os estudos, incluindo a faculdade, apenas para logo em seguida partir para o Vietnã. Sua visão amargamente divertida dessa parte de sua vida talvez seja uma das partes mais inspiradas de "Forrest Gump". É quando somos apresentados ao Tentente Dan, por exemplo, um dos militares mais complexos e marcantes que o cinema produziu em algumas décadas. Ele ganha uma interpretação a altura na pele de Gary Sinise, hoje conhecido como o protagonista da versão nova-iorquina da série "C.S.I.", mas que ganhou fama graças a sua performance explosiva e visceral neste filme. Embora seja em sua essência um coadjuvante, o personagem aos poucos cria uma ligação tão forte com o público quanto Forrest, e grande parte da responsibilidade por isso é Sinise, que traduz os conflitos e culpas do personagem com perfeição e entrega uma interpretação que só pode ser descrita como marcante (embora essa palavra não lhe faça jus). Talvez baste dizer que apenas a indicação para o Oscar foi pouco. De volta da guerra, Forrest se transforma de forma meteórica em ídolo do pingue-pongue (sim, você leu direito) e herói nacional graças a seus feitos em batalha. Mas, assim como todo mísero ser humano caminhando por essa terra, ele continua sentindo falta de algo. Todo grande herói precisa de um amor eterno, e quem faz esse papel é Jenny Curran, vizinha e melhor amiga de infância de Forrest, razão de boa parte das decisões corajosas tomadas pelo protagonista e, acima de tudo, a ligação do público com o tempo que passa durante a história. Enquanto Forrest segue uma trajetória guiada pela fidelidade e retidão de princípios que só pode ser definida como ingênua (embora não a seja verdadeiramente, de maneira nenhuma), Jenny se deixa levar pelas tendências e mudanças que o tempo provoca.

Nos anos 60, quando Forrest estava na Guerra, ela viveu com hippies. As décadas seguintes apenas serviram para afundá-la em uma realidade que ela mesmo odiava, mas da qual não tinha a coragem de se libertar. Robin Wright, mais conhecida pela nova geração de cinéfilos como uma das intrépidas atrizes que se arriscaram em "A Lenda de Beowulf" (e a única que se deu bem, diga-se de passagem), encara essa personagem com naturalidade e o resultado é uma interpretação profundamente emocional, que vai do contido ao explosivo em pouquíssimo tempo. Acima de todos, porém, quem brilha é Tom Hanks. Só mesmo um ator tão habilidoso, carismático e cativante poderia criar um personagem tão icônico, sutil, crível e fascinante. Talvez não haja até hoje outro nome capaz de dar a persona de Gump uma interpretação tão complexa, cheia de detalhes e ao mesmo tempo tão clara e ínspida em passar sua mensagem. De fato, é quase impossível encontrar palavras que possam fazer justiça a uma atuação tão incrivelmente identificável, popularesca sem cair no ridículo e detalhista sem passar perto do incompreensível. Hanks é preciso, certeiro e cria, por isso, um desempenho inesquecível, que prova que talvez o Oscar concedido a ele um ano antes, por "Filadélfia", tenha sido prematuro. Num raro momento de inspiração, a Academia concedeu ao ator a honra de se juntar a Spencer Tracy como vencedor de dois Oscar de Melhor Ator seguidos. Não apenas isso, o prêmio maior do cinema ainda se rendeu a "Forrest Gump" nas categorias de Melhor Edição, Melhores Efeitos Especiais (usados de forma sutil e complementar, como deveria ser), Melhor Roteiro Original para o excepcional e auto-explicativo trabalho de Eric Roth ("Munique"), Melhor Diretor e Melhor Filme. Zemeckis, aliás, guia com muita competência, nunca sobrepondo estilo a conteúdo, mas arrancando algns bons suspiros com algumas tomadas amplas e admiração na habilidade de dirigir momentos dramáticos. Levado por uma trilha-sonora calcada em hits pop e bem lapidada por Alan Silvestri ("A Múmia") durante todos seus 142 minutos, "Forrest Gump" é, afinal das contas, um estudo sobre a vida e suas pequenas peculiaridades. E sobre como o destino pode ser tão parecido com o vento que carrega uma pena pelos ares. Irônico, não?

Nota: 8,5