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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (20/05/2009)

Lost ao quadrado

Imagine um episódio de Lost. Monstros surreais, ameaças desconhecidas, manipulação política das boas em pequena escala e ainda um bônus de personagens humanos e reais para alimentar a parte emocional da trama. Fácil? Então agora imagine um episódio de Lost assinado por Tim Burton. Cenografia sombria, teatralidade exacerbada, elementos surreais em uma narrativa que, ainda assim, não tira um dos pés da cruel realidade nossa de cada dia. Ficou um pouco mais difícil de juntar os dois elementos? Não se preocupe, tudo poderá ser visto em breve, com um elenco estrelado, no conforto de uma poltrona de cinema. The Other Side é o título do roteiro elaborado por David Michaels, criador da pouco conhecida série Macabre Theater, em parceria com o irreverente Phil Reeves (Happy, Texas). O texto circula pelos corredores dos grandes estúdios desde meados de 2006, quando virou alvo de cobiça dos atores mais conceituados da capital do cinema e terminou reunindo um elenco estelar. Na lista original estavam Ryan Gosling (Diário de Uma Paixão), Tim Roth (Água Negra), Giovanni Ribisi (A Estranha Perfeita), Jason Lee (My Name is Earl), Anjelica Huston (Os Imorais) e a animada Brittany Murphy (Sin City), que estava cotada para assumir o papel de protagonista e chegou a dizer que existia “algo de muito especial em The Other Side” e que nunca havia lido algo do tipo antes. O tempo passou e as filmagens que estavam marcadas para novembro de 2007 foram sendo atrasadas mês após mês até que a fonte de notícias em relação ao projeto secou de uma vez por todas. O ressurgimento de The Other Side, ironicamente, acabou acontecendo com o interesse de uma estrela decadente em busca de um projeto para recuperar o status dentro do negócio cinematográfico. O nome é Lindsay Lohan (Eu Sei Quem me Matou), que passou 2008 em branco nos cinemas americanos graças ao envolvimento com drogas e pretende reparar o erro justamente com a comédia de fantasia, uma vez que Labor Pains, seu mais recente filme completado, vai mesmo ser lançado direto para o DVD. Com ela liderando, o projeto ganhou uma nova (e um pouco mais modesta) lista de elenco. Giovanni Ribisi permanece firme em seu posto, mas todos os outros envolvidos se debandaram por outras estradas, abrindo espaço para a entrada de Woody Harrelson (O Homem Duplo), Katie Holmes (Batman Begins), Eddie Izzard (Operação Valquíria) e Kieran Culkin (Meninos de Deus). A sinopse continua a mesma, ao menos: uma estudante de ciência passa o verão em uma ilha atrasada no tempo em relação ao mundo real. Seguindo uma trilha de pistas, ela tenta resolver o mistério que faz os habitantes do lugar ficarem parados no tempo e descobre algo que ela nunca poderia prever. A direção é do próprio David Michaels.

Sete mulheres para um diretor

nine

Em 1963, o mundo parou e se curvou ante ao talento do mestre italiano Federico Fellini. O diretor, então conhecido pelo trabalho no famosíssimo A Doce Vida, surpreendeu até os americanos, que cederam a 8 ½ não apenas o prêmio de melhor filme estrangeiro, mas também indicações a outras três categorias, incluindo melhor diretor e melhor roteiro original. Em charmoso preto-e-branco e estrelado por Marcello Mastroianni, o filme narrava o drama do diretor de cinema Guido Anselmi, que anda sem inspiração para desenvolver seu novo projeto e tenta se livrar da pressão mergulhando em um mundo de lembranças e fantasias que o remetem a todas as mulheres que ele já amou e deixou para trás. Foi quase uma obra biográfica para Fellini, que se via atribulado com as dificuldades da arte de fazer cinema. Menos de duas décadas depois, com o respaldo do diretor, estreou na Broadway o musical Nine, que usava a premissa básica do filme e adicionava elementos mais “atualizados” (incluindo uma crise de meia-idade como o motivo para as reflexões do protagonista). Estrelado pelo saudoso Raul Julia (Street Fighter), a montagem chegou perto de 1000 apresentações e ganhou cinco Tony, o Oscar do teatro. Mas a história ainda não tinha morrido definitivamente, e em 2003 uma nova montagem do musical, estrelado dessa vez por Antonio Banderas (A Lenda do Zorro), conquistou o público por 300 apresentações e a crítica, abocanhando dois Tony. Nem é preciso tanta rapidez de raciocínio para deduzir que o próximo caminho lógico da história é retornar a grande tela. O responsável por Nine, o filme, é Rob Marshall (Chicago), que trabalha no projeto com o roteirista Michael Tolkin (Impacto Profundo) desde 2007. Prejudicado pela greve dos roteiristas, porém, o musical teve de recomeçar os trabalhos no início do ano passado e acabou reunindo um elenco feminino de respeito para dar vida as mulheres da vida do protagonista. A começar por Nicole Kidman (Austrália), que retorna aos musicais interpretando a musa e ex-amante de Guido. A lista segue com Judi Dench (Cassino Royale) na pele da produtora linha dura que pressiona o protagonista por uma nova idéia, Kate Hudson (Um Amor de Tesouro) encarnando uma jornalista de moda, Sophia Loren (Um Dia Muito Especial) como a mãe de Guido, Marion Cotillard (Piaf) como sua esposa e por fim Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona), intérprete da prostituta Carla, que entra em contato com ele em sua viagem a Veneza. O sortudo em meio as beldades? Daniel Day-Lewis (Sangue Negro), o último a ser escalado para o filme, que deve estrear em 08 de Janeiro de 2010 em terras brasileiras. A primeiro foto das moças no set acabou de sair (aí em cima).

Estrada longa

Na ativa há mais de quatro décadas e com uma dezena de livros publicados, Cormac McCarthy parecer ter sido descoberto apenas recentemente pela capital do cinema. Ou talvez tenha sido apenas o sucesso dos Irmãos Coen (Fargo) ao se arriscarem pela primeira vez na escrita cheia de metáforas do escritor e saírem com a obra-prima que é Onde os Fracos Não Têm Vez. O ouro dos Oscar conquistados pelo filme logo fez Hollywood abrir os olhos para as outras obras de autoria desse americano versátil que já passou pelo estilo gótico e pelo faroeste até aterrissar no pós-apocalíptico em sua obra mais recente, o desolador The Road. Não por acaso, a história da jornada de um pai e seu filho pequeno pela última estrada de um mundo destruído por um cataclismo desconhecido foi a primeira a entrar na mira dos estúdios e logo de cara chamou a atenção de gente que vale a pena acompanhar. O primeiro a colocar seu nome no páreo para estrelar o projeto foi Viggo Mortensen (O Senhor dos Anéis), que na época se preparava para uma virada em sua carreira e viu seu nome se tornar um dos mais cotados de Hollywood depois da indicação ao prêmio da Academia de melhor ator pelo desempenho em Senhores do Crime. Entre o final de 2007 e começo de 2008, o projeto ganhou vida nas mãos do roteirista Joe Penhal (Amor Obsessivo) e ainda encontrou seu comandante na pessoa do australiano John Hillcoat (A Proposta). O elenco de The Road também foi crescendo em número e brilho, ainda que a maioria dos papéis para além dos dois protagonistas sejam meras aparições especiais. O garoto, aliás, achou seu intérprete na pele do jovem Kodi Smit-McPhee, que recentemente apareceu em Wolverine como o personagem-título durante a infância. Além dele, o filme conta com Charlize Theron (Hancock) interpretando a esposa do protagonista, Guy Pearce (Atos que Desafiam a Morte) na pele de um veterano de guerra e Robert Duvall (Os Donos da Noite), cuja participação ainda é um mistério. As filmagens começaram em meados do ano passado nas geladas locações no estado americano da Pensilvânia, e até imagens promissoras para promover a obra foram liberadas na Internet. Isso até Outubro, um mês antes da estréia marcada em solo americano, quando a Weinstein Company decidiu atrasar em quase um ano a estréia da obra, decisão justificada por problemas nos efeitos especiais. O filme, cujo primeiro trailer acaba de ser lançado, deve chegar aos cinemas em 04 de Outubro, no início da temporada de filmes com potencial para premiações.

O retorno da maldição

Os cinéfilos mais radicais devem estar familiarizados com a história contada nas linhas abaixo, mas não custa nada relembrar (ou descobrir) porque The Man Who Killed Don Quixote é considerado o projeto mais maldito que Hollywood jamais tentou viabilizar. De fato, foi quase como se o próprio Miguel de Cervantes, autor do clássico sobre um nobre que enlouquece e sonha ser um cavaleiro andante em grandes batalhas contra moinhos de vento, viesse do além para assombrar o diretor Terry Gilliam (Os Doze Macacos), responsável pela direção do projeto na primeira e última tentativa de levá-lo as telas, em 2000. Na época, o projeto era dado como o próximo grande filme do diretor, que havia acabado de sair elogiado do negócio arriscado que era a adaptação do livro Medo e Delírio no filme estrelado por Johnny Depp (Piratas do Caribe) em 1998. O próprio astro estava escalado para participar do filme na pele de um publicitário que viaja no tempo e encontra com Dom Quixote em pessoa, que o confunde com ninguém menos que seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Para o papel do lunático cavaleiro criado pelo escritor espanhol, Gilliam havia escalado o francês Jean Rochefort (Eu Sou o Senhor do Castelo), que nunca havia escondido a paixão pelo personagem e pela obra, mas acabou sendo o olho do furacão de todos os eventos que rodearam a produção do filme. Cinco dias depois do início das filmagens, Rochefort descobriu que as dores que sentia eram na verdade uma grave infecção de próstata que o afastou das filmagens e gerou os primeiros rumores de que o projeto não iria se realizar da forma que fora concebido. E para chegar até a filmagem não havia sido nenhum caminho de rosas, entre brigas com o estúdio pelo tamanho do orçamento e da ambição na agenda de filmagens, Gilliam passou quase dois anos batalhando para transformar o projeto em realidade. No dia seguinte, quando Depp se preparava para começar a filmar sua parte antes do planejado, os céus espanhóis derramaram uma tempestade que inundou o local onde a equipe se abrigava e, acreditem levou embora todo o equipamento de filmagens. Nas palavras do próprio diretor: “Foi como uma punição por tudo de ruim que fiz na minha vida”. Como se não bastasse, no dia seguinte a equipe percebeu que, devido a chuva, a paisagem que serviria de fundo para as cenas havia mudado radicalmente, e no dia seguinte, quando Rochefort resolveu voltar a ativa, foram necessários três homens, um vôo de emergência e uma cirurgia feita as pressas para recuperá-lo de uma hérnia de disco dupla. É claro, o projeto foi desligado pelos investidores e não seguiu em frente, deixando lesões, prejuízos e uma mancha na carreira de Gilliam que inclusive resultou no documentário Lost in La Mancha. Porque dizer tudo isso agora, nove anos depois? O roteiro foi reescrito por Gilliam e Tony Grisoni (Atos que Desafiam a Morte) e as novas filmagens devem começar ano que vem. Que nenhuma maldição venha assombrar o diretor dessa vez.

Bom, pessoal, e por hoje é isso… consegui reunir apenas quatro notícias mesmo estando um pouco atrasado porque meu tempo tem sido consumido pela responsabilidade de preparar uma surpresa em breve para vocês… quem está ligado no que está acontecendo no mundo do cinema já deve ter matado a charada. Trata-se de um especial, mas o assunto eu deixo para vocês advinharem. Por enquanto, os melhores filmes para todos vocês e até mais!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Quantum of Solace – A polêmica vingança de Bond. James Bond.

007 – Quantum of Solace (Inglaterra/EUA, 2008)

De: Marc Forster

Com: Daniel Craig, Judi Dench, Olga Kurylenko, Mathieu Almaric

106 minutos

James Bond é invencível. Na ativa a quarenta e sete anos, desde que o mundo conheceu sua classe de lord inglês com a face e a interpretação impecável de Sean Connery (“A Liga Extraordinária”) no clássico “Dr. No”, o espião inglês do MI-6 faz parte daquele rol de personagens atemporais e eternos, cujos estigmas são capazes de se adaptar a qualquer realidade limitada e encantar qualquer geração. Afinal, a beleza do mistério e da adrenalina sempre foram uma atração inevitável para o homem. Astros vão e vem, ídolos passam e envelhecem, mas Bond é uma constante irremovível que simplesmente não pode deixar de existir porque sobrevive no inconsciente coletivo mundial. É uma daquelas coisas que conhecemos sem conhecer e nos fascinamos quando olhamos mais de perto. Testemunhar um filme de James Bond se realizando é, sem exageros, como assistir a um evento histórico de perto e posição privilegiada. Não é uma má bilheteria ou críticas duras que vão derrubar alguma coisa assim. Personagens tão eternos não desaparecem da noite para o dia e não importa o quanto lhe digam mal, ninguém vai deixar para trás a oportunidade de ver um filme de James Bond. Reflexões e fatos a parte, toda a repulsão da crítica por “Quantum of Solace”, nova investida do espião em terreno cinematográfico e guardião de uma série de inovações para a franquia, foi extremamente exagerada. Talvez fosse a expectativa alta que o elogiado Cassino Royale havia deixado em 2005, mas “Quantum of Solace” passa longe de ser um filme ruim, que dirá o pior filme da história de Bond. O espião já passou por fases bem mais negras e nem por isso perdeu prestígio ou expectativa dos fãs e curiosos. Que o filme, que prometia revolucionar como a primeira continuação direta de um filme de 007, deixa a dever para quem esperava ansioso não há dúvida. Ao contrário de seu predecessor, que resolveu reinventar o personagem e rendeu uma trama essencialmente emocional, “Quantum of Solace” é mais brutal e direto, tentando sempre criar adrenalina e saindo-se bem na m aioria das vezes. Mas, acima de tudo, o novo filme de Bond é sobre vingança. A vingança de um espião frio e elegante que não sabe até onde é capaz de ir e não mede esforços ou escrúpulos para conseguir o que deseja. Ver o espião na busca por retaliação pode não ser a viagem mais recompensadora da série, e muito menos a mais divertida, mas pelo menos não se afoga na própria ambição. Pecado do qual, diga-se de passagem, “Cassino Royale” passou raspando.

Da última aventura do espião, além do elenco, o único denominador comum é o trio de roteiristas, que triunfaram ao renovar o protagonista e trazê-lo para uma realidade mais atual e agora tentam estabilizá-lo em um nível um pouco mais ambicioso, como a própria trama exigia. É bom saber que, ao contrário da maioria dos filmes do espião, não seria nada prejudicial dar uma revisada em “Cassino Royale” antes de conferir “Quantum of Solace”. Isso porque, habilidosa e oportunamente, os escritores escolheram dar continuidade as conseqüências finais da última aventura para construir toda uma nova jornada. A bem da verdade, basta lembrar que Vesper Lynd (Eva Green), a única mulher que James Bond jamais amou de verdade, foi assassinada por uma organização incógnita responsável também pela morte do vilão do filme, Le Chiffre (Mads Mikkelsen). Nos últimos minutos de “Cassino Royale”, Bond não hesita em desferir um tiro na perna de Mr. White (Jesper Christensen), executor e espião da tal organização. Quando “Quantum of Solace” começa, Bond está sendo perseguido com White preso no porta-malas, rumo a cidade italiana de Siena, onde o agente se encontra com M (Judi Dench) apenas para descobrir que a organização tem homens infiltrados onde menos se espera. A partir daí, começa uma interminável caçada que tem como figuras centrais Dominic Greene (Mathieu Almaric), um bem-feitor de fala mansa que comanda na surdina operações anti-democráticas em países na América do Sul, e Camille (Olga Kurylenko), a ambígua amante do vilão, que logo se revela com motivos mais interessantes e se une a Bond na busca por uma vingança comum. Mesmo com a identificação inevitável que há entre os dois, o roteiro de Paul Haggis (“Crash – No Limite”) ao lado da dupla Neal Purvis & Robert Wade (“Johnny English”) é habilidoso ao deixar mais do que claro que, mesmo ausente, Vesper ainda é naquele momento a mulher da vida de Bond. Para além desse e de outros acertos na sutileza, nem sempre o script funciona, especialmente nos momentos mais práticos da trama, e ainda que a tensão seja imposta a todo tempo e a linha narrativa seja carregada com perícia, em alguns momentos o roteiro de “Quantum of Solace” carece de ritmo e regularidade. Não por acaso, tais momentos menos inspirados acabam influenciando na direção do alemão Marc Forster (“Mais Estranho Que a Ficção”), que só consegue sair aprovado de sua primeira experiência com um filme de ação porque possui um domínio narrativo impressionante, talvez igualado na Hollywood de hoje apenas por Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”).

Outro elemento que contribui bastante para “Quantum of Solace” funcionar apesar dos erros é a surpreendente familiaridade com que Daniel Craig (“Invasores”) encara o protagonista já pela segunda vez. Nas mãos do inglês, conhecido por papéis em filmes britânicos com mais conversa do que ação como o confuso “Nem Tudo é o Que Parece”, Bond ganha uma espécie de classe ambígua que acrescenta ao personagem uma estranheza inédita na interpretação dos outros astros da série ao longo das décadas. Craig tem a aristocracia que o personagem exige, mas sabe como se tornar brutal e inflexível quando é exigido, ou seja, durante boa parte do tempo em “Quantum of Solace”. Aqui, Bond não é o agente submisso que passou pelas telas tantas vezes e tampouco o conquistador desenfreado que aprendemos a observar. Seus diálogos com M são de igual para igual e a batalha de interpretações entre Craig e Dench é empolgante de se observar. Não são poucas as vezes em que não há como apontar um vitorioso. Isso porque, do alto de seus 75 anos, Dench não se deixa ficar para trás e parece tão habituada a encarnar a chefe do espião que se tornou parte indissociável de sua aparência e personalidade. Com ela em cena, M deixa de ser uma alegoria para se tornar alguém que vale a pena observar e um acontecimento quase sobrenatural que se mostra na tela maior do que na memória. Em resumo, Dench dá um show de atuação que é capaz até mesmo de ofuscar a boa encarnação de Olga Kurylenko (“Hitman”) para a nova e obsessiva bondgirl. Presente por boa parte da projeção, Camille em algum momento deixa de ser coadjuvante para se tornar protagonista de sua própria história e a atriz encanta tanto pela beleza quanto pela determinação com que encarna esse papel. Ela faz da história de Camille uma que valha a pena ser ouvida. Completando o quarteto principal, o francês Mathieu Almaric (“Munique”) absorve com gosto cada traço da personalidade de Dominic Greene e o joga na tela como um retrato vibrante que brilha desde o segundo inicial até o último momento de glória antes de ser jogado em meio a adrenalina eficiente do clímax. Pode ser que nem todas as cenas de ação convençam e pode ser que os clichês tenham sido usados com ênfase demais, mas a verdade é que “Quantum of Solace” tem qualidades e acertos o bastante para valer a pena ser visto. Não que James Bond precise, disso, é claro. Afinal, elegante ou não, é sempre bom se divertir um pouco com um terno de agente secreto. Até a próxima, Bond.

Nota: 7,5

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (03/04/2009)

Comendo pelas beiradas

 

Às vezes Hollywood é uma terra de regras e estigmas tão complicados que fica impossível para alguém em sã consciência entender a forma certa de encarar a máquina de fazer filmes (e dinheiro) que é a capital do cinema. Por exemplo, por mais estranho que pareça, ter o nome mais apreciado e citado da esfera cinematográfica nem sempre é sinônimo de fartura de ofertas interessantes. Os irmãos Weitz, que oficialmente só fizeram juntos o remake de “O Céu Pode Esperar” e o drama “Um Grande Garoto”, sabem bem dessa particularidade. Desde então, seguiram carreiras individuais que não exatamente casam com a qualidade de “meteóricas”, mas sem dúvida nenhuma foi o bastante para se garantirem como nomes fortes e estáveis da em Hollywood. Chris, o mais novo, dirigiu a adaptação de “A Bússola Dourada” e já se garantiu no comando do badalado “Lua Nova”, continuação do recém-lançado “Crepúsculo” que deve estrear em novembro desse ano. Já Paul, o mais novo, seguiu a verve mais cômica que demonstrara no começo da carreira e realizou sucessos discretos como “Tudo Pela Fama”. Agora, fortalecido pela estabilidade, ele acaba de completar o ambicioso “Cirque du Freak”, adaptação do romance juvenil de Darren Shan estrelada por um garoto (Josh Hutcherson) que se vê em meio a uma confusão envolvendo um circo de aberrações e um parente transformado em vampiro. Ainda na fase de início de divulgações da fantasia, Paul também está cotado para dirigir a nova continuação da série “Entrando Numa Fria”, depois do diretor dos dois primeiros, Jay Roach (“Austin Powers”), se envolver em um projeto com Steve Carell (“Agente 86”). Dos astros da série original, o retorno de Ben Stiller (“Trovão Tropical”), Robert DeNiro (“As Duas Faces da Lei”) e Owen Wilson (“Marley & Eu”) estão garantidos. A terceira parte da “saga”, intitulada em inglês como “Little Fockers”, deve envolver a apresentação do filho do casal de protagonistas para a família. Logo depois da comédia, Weitz deve se aventurar pelo pessimismo sarcástico do livro “Another Bullshit Night in Suck City”, sobre um assistente social (Casey Affleck) e o seu pai desaparecido (DeNiro de novo).

Plebiscito nos cinemas

Interatividade é a palavra que precisa acompanhar qualquer filme com ambição de se tornar sucesso na virtual época que estamos vivendo. Uma obra se torna mais prazerosa de conferir depois de meses e meses envolvido de alguma forma com sua construção e estruturação. Seja acompanhando diários virtuais de diretores e atores, participando das profícuas propagandas virais que viraram a mais nova moda ou mesmo tentando descobrir algum segredo escondido a sete chaves sobre determinada produção, é na Internet que todo esse processo toma mais sentido e efetividade. Pode parecer um absurdo para os produtores mais conservadores, mas liberar aos poucos coisas sobre as obras a virem nos próximos meses para os internautas e blogueiros por aí dissecarem é parte fundamental hoje da engrenagem de fazer o sucesso de um filme. O boca-a-boca ficou para trás e se transformou no post-a-post que vive se espalhando pela comunidade internauta no Brasil e no mundo. Precisando de uma modernização há algum tempo, o cinema brasileiro encontrou sua primeira e bem-vinda inovação na forma de Laís Bodanzky, uma das cineastas mais prestigiadas da nova geração, seja pela histeria de “Bicho de Sete Cabeças” ou pela calmaria de “Chega de Saudade”. O fato é que, para seu próximo projeto, a adaptação de uma popular série de livros de Gilberto Dimerstein e Heloisa Prieto sobre um grupo de adolescentes que se envolvem com as descobertas mais surpreendentes da vida e se vê obrigado a lidar com dilemas como amor, sucesso e preconceito, teve o título escolhido pelo público. Através de uma votação no site brasileiro da Warner Bros, o votante teve que escolher entre cinco opções. Entre “Agora é Minha Vez”, “Escolha a Alternativa Certa”, “Mundo Livre”, “Ovelha Negra”, “Um Cara Chamado Mano” e “As Melhores Coisas do Mundo”, os votantes preferiram o último para dar um cabeçalho mais contundente a trama. As filmagens do longa, cujo elenco ainda não foi anunciado, devem começar no final de Abril e a estréia está prevista para o início de 2010.

A rainha da cantoria

Em 2001, numa curva espantosamente crescente na carreira e cada vez mais apreciada pelo lado artístico de seu trabalho, Nicole Kidman fez um filme que a definiu sem dúvida alguma como estrela de grandeza maior e, sem exageros, a melhor atriz de sua geração. O nome desse filme era “Moulin Rouge! – Amor em Vermelho”, um musical apaixonante de emoções a flor da pele e puro deleite visual. A direção estilosa e a forma ambiciosa de filmar de Baz Luhrmann (“Romeu + Julieta”) iluminando cada fotograma e músicas clássicas entoadas com pura elegância por um elenco fora de série fizeram de toda a opulência que exalava de cada segundo de película um acessório de luxo para uma trama emocionante e inesquecível. E em seguida, para a estrela, veio o Oscar tardio concedido por “As Horas”, e o resto da história todos já conhecem. Nicole entrou em decadência de bilheteria e qualidade de produções, ensaiando de tempos em tempos um renascimento e em seguida caindo em desgraça novamente com naufrágios como “Mulheres Perfeitas” e “A Bússola Dourada”. O que fazer então quando você está tentando se reerguer definitivamente? Voltar ao gênero que o levou para o topo, é claro. Como de burra não tem nada, a ainda lindíssima Nicole acaba de embarcar em dois potenciais grandes sucessos baseados em peças igualmente bem-sucedidas da Broadway. O primeiro, “Nine”, deve sair ainda esse ano e pretende recontar o clássico “Oito e Meio” de Fellini em formato musical com um grande elenco que inclui, além de Nicole, gente oscarizada como Daniel Day-Lewis (“Sangue Negro”), Marion Cotillard (“Piaf”), Penélope Cruz (“Vicky Christina Barcelona”), Judi Dench (“Shakespeare Apaixonado”) e até a veterana Sophia Loren (“Prêt-a-Porter”). Sob a direção de Rob Marshall (“Chicago”), a constelação listada acima deve aportar no cinema ainda em Novembro deste ano. Para um pouco mais adiante, Nicole já sincronizou sua agenda para filmar “Rabbit Hole”, drama familiar que promete se tornar o musical mais desafiador dos últimos tempos. Ao lado de Aaron Eckhart (“Obrigado por Fumar”), ela interpretará em canções a história de um casal que passa por uma crise emocional após a morte do filho e busca a felicidade em um mundo de fantasia como o de “Alice no País das Maravilhas” (daí o título, “toca do coelho”). A direção é de John Cameron Mitchell (“Shotbus”) e o filme deve ser lançado no final do próximo ano.

Bom, gente, e por hoje é só… nem posso falar muito porque já estou atrasado… enfim, como sempre obrigado a todos os comentários e os melhores filmes para todoso vocês! Até amanhã!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (11/02/2009)

M ergue a voz... e Bond concorda docilmente

A cena descrita no título acima tem se tornado cada vez mais incomum nos filmes do espião inglês, mas isso não impede que aconteça entre os intérpretes dos dois personagens. Como respeitoso neo-astro e gentleman que é, Daniel Craig, intérprete de Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", reforçou as alfinetadas de Dame Judi Dench, que participa da franquia desde "Gondeneye" como a chefe do MI-6, sobre os rumos que um possível "Bond 23" poderia tomar. Numa entrevista recente em que respondeu um descontraído “pode apostar” sobre sua permanência na série, Dench declarou que uma das coisas que mais sente falta de suas primeira experiências com Bond são os personagens Q e Monneypenny e que adoraria vê-los de volta. O primeiro, inventor dos equipamentos usados por 007, foi interpretado pelo comediante John Cleese em "O Mundo Não é o Bastante" e "Um Novo Dia Para Morrer", enquanto a icônica secretária era representada por Samantha Bond (curioso sobrenome, não?) nos filmes estrelados por Pierce Brosnan. Craig retrucou que adoraria viver um romance mais descompromissado na pele do agente secreto. A continuação pode ser lançada em 2010.

Bush para Stone, Lincoln para Spielberg

Cada diretor tem o presidente que merece. Famoso pelas polêmicas e pelo patriotismo exagerado, Oliver Stone retratou os polêmicos Richard Nixon ("Nixon") e George W. Bush ("W."), recém-saído da Casa Branca. Ambos os filmes dividiram a crítica e foram ignorados pelos prêmios. Algo me diz que o mesmo não acontecerá com "Lincoln", cinebiografia de um dos comandantes mais merecidamente célebres dos EUA, que ocupou o poder entre 1861 e 1865, tempo de Guerra Civil e polêmicas medidas da parte do presidente, como a emenda constitucional que aboliu a escravidão. Em gestação desde 2003, quando Tom Hanks era o principal candidato para o papel principal, atualmente o roteiro de "Lincoln", redigido por John Logan ("Gladiador"), passa por uma pesada revisão de Tony Kushner ("Munique"), mas já tem protagonista definido. Mergulhado em pesquisas desde 2006, o oscarizado Liam Neeson, que trabalhou com o diretor em "A Lista de Schindler", parece ser o intérprete definitivo do presidente, enquanto rumores mais recentes sugerem que a veterana Sally Field ("Brothers & Sisters") pode viver a primeira dama, Mary Todd Lincoln. Segundo o produtor, não há a mínima possibilidade do filme sair antes de 2011, mas ele também garante que essa é sua estréia definitiva.

Sacrilégio na cidade do Natal

A Disney parecia ter tomado juízo com a regência de John Lasseter ("Carros"). Mas as aparências podem enganar. Das duas, uma. Ou o diretor Henry Selick está querendo derrubar a concorrência e fazer propaganda de seu "Coraline", ou o estúdio centenário do Mickey está prestes a cometer um dos maiores sacrilégios de sua irregular filmografia. Um dos filmes mais cult da história, "O Estranho Mundo de Jack", dirigido por Selick e produzido pelo inconfundível Tim Burton ("Edward Mãos-de-Tesoura"), devia boa parte de seu charme alternativo a antiqüíssima técnica de animação em stop-motion, que consiste e sobrepor várias fotos de bonecos de acrílico ou massinha para provocar a ilusão de movimento. Selick, um dos únicos representantes dessa forma de arte no cinema atual, disse recentemente que “há alguns anos, a Disney me procurou e disse que se fizéssemos uma seqüência de O Estranho Mundo de Jack, teria que ser em computação gráfica”. Apesar do enfarte prematuro que tal declaração provocou aos milhares de fãs do filme, Selick não demorou a emendar com um “mas não acredito que Tim Burton irá permitir isso”. O diretor, que atuou escrevendo e produzindo a obra, não se pronunciou sobre o assunto, mas sempre há a possibilidade que de fato Lasseter tenha abortado o projeto.

O passo adiante

Depois de se esconder sobre a maquiagem interpretando o Lord Voldemort dos dois últimos filmes de "Harry Potter", ser ofuscado por Kate Winslet em "O Leitor" e ignorado (academiacamente, pelo menos) pelo desempenho fascinante em "A Duquesa", parece que dessa vez vai ser inevitável que Ralph Fiennes ("O Paciente Inglês") ganhe os holofotes. Seguindo os passos de colegas ilustres como Mel Gibson ("Paixão de Cristo"), Clint Eastwood ("Menina de Ouro") e Ed Harris ("Pollock"), ele decidiu ampliar a ambição e estrear na direção em uma história shakespeariana das mais apreciadas. "Coriolanus" é uma peça do bardo inglês que acompanha um soldado orgulhoso que é convencido pela mãe a se candidatar ao Senado, o que acaba o levando a decadência. E, é claro, a tragédia. O personagem, interpretado por atores do calibre de Morgan Freeman e John Nightingale em encarnações independentes, deve ganhar sua primeira encarnação bem-produzida na pele... do próprio Ralph Fiennes. O ator, indicado duas vezes para o Oscar ("A Lista de Schindler" e "O Paciente Inglês"), vai conciliar o trabalho dos dois lados da câmera, e os primeira boatos sugerem que pelo menos um outro grande talento deve estar a sua volta. A veterana Vanessa Redgrave ("Desejo e Reparação") é a concorrente mais forte ao papel materno.

Bom, pessoal, vocês devem ter notado que o boletim veio tarde hoje, mas é que não tive tempo nem para respirar durante essas últimas 24 horas, e podem acreditar que fiz um esforço enorme para arranjá-lo... mas enfim, melhor deixar isso para lá... o dia já acabou, certo? Bons filmes para todos vocês e até amanhã!