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terça-feira, 28 de julho de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (27/07/2009)

Pesadelo século XXI

freddy

Cada um tem o recolucionário que merece. Em 1984, o cinema vivia a plena era de ouro do terror slasher, com Jason Vorhooes (Sexta-Feira 13) lançando sua quarta investida nos cinemas em quatro anos e Michael Myers (Halloween) tirando umas férias do terceiro capítulo de sua saga, nem tão bem-sucedido quanto os anteriores. Foi então que o mundo observou a mente criativa de Wes Craven, futuro criador da bem-sucedida série Pânico, ganhar o primeiro crédito de sucesso com um certo assassino cínico, de rosto queimado e senso de justiça torto, que buscava vingança por uma morte lenta e dolorosa infringida pelos pais e avôs dos adolescentes de Illinois, estado americano, que vêem seus sonhos invadidos pela cruel, cínica e grotesca criatura. Freddy foi um sucesso porque era engraçado e assustador ao mesmo tempo, e não dá para negar que sua presença de espírito foi o que garantiu a validade dos outros seis episódios de sua saga, todos lançados no curto intervalo de tempo de uma década. Além de um êxito comercial, porém, Freddy foi um revolucionário porque tinha um motivo além da própria psicopatia para marcar. Era cruel e repulsivo, sim, mas acima de tudo era um homem destruído em busca de vingança. Nada que os músculos de um Schwarzenegger ou um Stallone já não oferecesse ao público na época, mas dessa vez éramos obrigados a temê-lo. De uma forma quase indecifrável, Freddy era um anti-herói. Eternizado na pele do ator Robert Englund, que fez questão de representar o personagem em absolutamente todas as suas encarnações, Freddy ressurgiu para toda uma nova geração enfrentando seu célebre colega em Freddy Vs. Jason, o sucesso metteórico que talvez seja o maior responsável pela recente onda de remakes de filmes de terror clássicos. A recepção do público a nova empreitada foi o bastante para a produtora Platinum Dunes, que tem os créditos pelo novo Sexta-Feira 13 e por mais um punhado de remakes recentes, colocar em movimento o antigo projeto de dar um novo começo a mitologia do personagem para uma nova e mais exigente geração de espectadores de terror. A proposta não foi o bastante para interessar Craven, que recusou se envolver no remake, exemplo no qual foi seguido por Robert Englund, que abriu mão das luvas de metal do personagem pela primeira vez desde que se tornou o símbolo de uma geração em 1984. Sem nada para se apoiar, Wesley Strick (Casa de Vidro) foi chamado para arrumar a casa e redigiu um roteiro descrito como um retorno as raízes assustadoras do assasino, deixando as piadas em segundo plano em favor de uma jornada mais visceral pela mente de um psicopata que ataca suas vítimas em meio a vulnerabilidade do sono. O segundo passo foi chamar Samuel Bayer, estreante em terrenos cinemtaográficos com um currículo extenso no mundo dos videoclipes, para assumir as câmeras de um genuinamente novo A Hora do Pesadelo. E ele começou com o pé direito, reunindo uma turma de jovens talentos da televisão para servir de lixa de unha para o assasino, que será interpretado por Jackie Earle Haley, indicado ao Oscar pelo pedófilo de Pecados Íntimos. Entre as novas vítimas do senhor dos sonhos estarão Thomas Dekker (Sarah Connor Chronicles), Kyle Gallner (Smallville) e Katie Cassidy (Supernatural). Agora, é só esperar Abril de 2010 para conferir o resultado final. Até lá, é melhor pensar suas vezes antes de deitar a cabeça no travesseiro.

Quebrando o gelo

Hollywood pode ser uma terra cruel com quem se aventura dentro de seus limites, mas a essa altura do campeonato eu, você e mais meio mundo já deve estar cansado de ouvir essa mesma ladainha. O que de fato intriga e permanece e segredo são as razões de tal crueldade de investimentos garantidos e lucro acima de ambição artística. Afinal, para quem está de fora do esquema, o que corre pelos corredores e salas impecáveis dos grandes estúdios continua um absoluto mistério. Não raro, somos deixados esperando por uma produção que ascende nosso instinto de cinéfilo e logo depois ficamos sabendo que o estúdio resolveu adiar a estréia sem nenhum motivo aparente. Alguns, no fim, nem conseguem chegar aos cinemas e acabam aportando sem escala nas prateleiras das locadoras. Destino tão “desonroso” não deve ter o suspense de ação Whiteout, que parece finalmente ter conseguido uma data definitiva de estréia, marcada para Outubro desse ano, quase um ano mais tarde do que foi a princípio prometido pela Warner, major americana que bancou a distribuição do filme do estúdio Dark Castle, dono dos créditos por recentes sucessos como o terror adolescente Casa de Cera e ação debochada RocknRolla, do diretor Guy Ritchie. Se na própria produção o filme já ganha pontos para um investimento de bilhereria, a garantia só sobre para outro nível quando a trama é toda baseada em uma história em quadrinhos, no caso uma minissérie em quatro partes lançada em meados de 2005 com roteiro de Greg Rucka e arte de Steve Lieber. Por fim, o filme ainda contou desde o começo com a presença da atriz Kate Beckinsale, conhecida como a estrela da série Anjos da Noite, que pode não estar no melhor momento de sua carreira, mas continua sendo um nome de peso para estampar o topo de um cartaz. Isso sem contar a coadjuvância de um até então ilustre desconhecido Gabriel Macht, que em março último se tornou o novo astro da terra do cinema ao protagonizar o suceso The Spirit na pele do herói-título. Assim a produção seguiu, com elenco completo pelos esquecidos Tom Skerritt (Brothers & Sisters) e Columbus Short (Poder do Ritmo). O roteiro inicial da dupla Jon e Erich Hoeber, que só tem a ação criminal Montana no currículo, passou por uma revisão pesada de outros dois irmãos, Chad e Carey Hayes, esses mais experientes no suspense da trama, tendo assinado o script do terror Colheita do Mal. A missão de filmar na imensidão branca da Antártida, onde ocorre a trama de assassinato e investigação, foi assumida por Dominic Sena, que não pegava em uma câmera desde 2001, quando lançou a ação cool Swordfish. As coisas pareciam bem, o primeiro pôster anunciava o filme para 2008, mas algo deve ter feito as coisas mudarem de figura na Warner, que resolveu adiar o filme para Abril de 2009 e, depois, para Outubro. Com trailers e fotos lançadas, resta esperar que a nova decisão seja mesmo definitiva. 

Girls. Bond Girls.

bond. james bond 

Quando o britânico Daniel Craig assumiu, no urbano e violento Cassino Royale, o papel do espião da rainha mais famoso do mundo e ainda assumiu que estava lá para atualizar o personagem e trazê-lo de vez para um século dominado pelo brutal, instintivo e acima de tudo muito lucrativo Jason Bourne, ninguém, e me inclua nesse balaio, conseguia apostar no sucesso da empreitada. Mais ainda, os fãs todos pegaram seus piquetes e protestaram contra a escalação de um Bond loiro, de charme tosco e tendências violentas, argumentando que a produção havia passado dos limites ao descaracterizar o personagem pensando apenas no lucro. Na internet chegou a surgir um site que atraiu toda a atenção da mídia, dividiu opiniões e acabou fechado. O Daniel Craig is Not Bond foi reaberto recentemente como uma fonte de notícias que serve bem aos fãs revoltados e aos que queiram ver um outro lado a chuva de elogios que desceu sobre o reboot da série e sua recente e acelerada continuação, Quantum of Solace. O fato é que a crítica em massa aprovou o novo James Bond, assim como o público, que fez dos dois últimos filmes da série os maiores sucessos do personagem em solo americano. Enquanto isso, o vindouro 23º filme do personagem começa a ganhar seus rumores e suas confirmações, preparando-se para um lançamento em 2010, sinal de que a série voltou a produção constante. Depois de Marc Forster, diretor de Quantum of Solace, pular fora do comando do novo filme e o rumor sobre a contratação de Danny Boyle, recém-oscarizado por Quem Quer Ser um Milionário, ter sido desmentido, a bola da vez é a contratação de um novo roteirista para a série, para se juntar ao veterano Paul Haggis, que não larga o osso desde que assumiu o texto do espião em Cassino Royale. Quem deve co-escrever a nova trama é o premiado Peter Morgan, o homem por trás de A Rainha e Frost/Nixon, nome que atiçou os nomes mais badalados da terra do cinema a cavar seu lugar na nova aventura. Os sempre presentes rumores sobre as garotas de Bond no novo filme tiveram início no nome de Freida Pinto, a musa de Quem Quer Ser um Milionário, e seguiram com a declaração clara de interesse por parte de Angelina Jolie e Jennifer Aniston, que teriam que disputar lugar com o suposto retorno da personagem Camille, representada pela atriz Olga Kurylenko em Quantum of Solace. Por fim, a última a entrar na acirrada disputa foi Megan Fox, que pelo jeito pretende sair direto das filmagens de Jennifer’s Body para a participação na aventura, ao lado de Michael Sheen (Frost/Nixon), única presença quase confirmada na pele do vilão da vez, que pode ou não ser o velho conhecido Blofeld, um dos maiores inimigos do espião, que tem sete participações ao longo dos vinte filmes da série e ainda foi a inspiração para Mike Myers criar o vilão Dr. Evil dos filmes de Austin Powers. Sheen é um velho parceiro do roteirista Morgan, que tem presença garantida pelo menos em outros dois vindouros filmes de sua autoria, A Special Relationship e The Damned United.

Especial: O primeiro teaser do Alice de Tim Burton

Pouco a pouco, quase como quem não quer nada, Alice no País das Maravilhas vai se tranformando no que pode ser o filme de fantasia mais carregado de expectativa desde que o mundo interiro viu o final da jornada de Frodo e seus amigos em O Retorno do Rei. Se não bastasse a visão única de um artista como o cineasta Tim Burton sobre uma das maiores histórias infanto-juvenis de todos os tempos, o filme ainda me reúne um elenco fora de série que combina velhos parceiros do diretor e novos integrantes da gangue de forma espetacular e por fim ainda divulga artes conceituais e caracterizações que prometem se tornar mais do que clássicas. Aliás, marque bem cada palavra quando eu digo que Alice estará na maioria das categorias técnicas, se não em mais algumas das principais, do Oscar 2011. Por fim, toda a espera que acaba de começar é coroada por um teaser como esse logo aí em cima, que não precisa mostrar muito para se tornar o um minuto e meio mais sensacional da história recente do cinema. É bem verdade que vemos só o bastante para nos deixar com água na boca, mas é impossível não se pegar vendo e revendo o bendito videozinho, tudo na vã esperança de pegar algum detalhe a mais ou uma nuance das breves atuações que veremos na íntegra em Abril do próximo ano, quando o filme estreará no que vem se tornando cada vez mais um grande evento. O clima de conto-de-fadas sombrio e pitoresco a um só tempo é evidente desde o primeiro take, mostrando a atuação de uma promissora Mia Masikowska, mera desconhecida com papéis pequenos em filmes como Um Ato de Liberdade antes de assumir os holofotes do novo filme do diretor. Logo em seguida, direto ao assunto, o trailer nos mostra o que todos nós já sabemos, com a queda de Alice pelo buraco do coelho, impressionante nos efeitos especiais, ela tomando o que quer que seja e diminuindo de tamanho, tudo de prelúdio para enfim entrarmos no País das Maravilhas. A narração é clara, ainda que quase idílica: “Há um lugar como nenhum outro na Terra, uma terra cheia de encantamento, mistério e perigo. Alguns dizem que para sobreviver é preciso ser tão maluco quando um chapeleiro… o que, felizmente, eu sou”. Introdução esperta para um Johnny Depp que leva mais uma vez ao limite sua própria caracterização, surgindo na tela como um grande e brilhante holofote, interpretando um Chapeleiro Maluco que pode e vai se tornar um ladrão de cenas melhor que qualquer outro. Enquanto isso, ainda vemos os primeiros flashes do comediante Matt Lucas sob maquiagem e efeitos especiais como os gêmeos bizarros Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, e de Michael Sheen igualmente coberto por píxels na pele do simbólico Coelho Branco que conduz Alice pelo começo de sua viagem. Também aparecem frações de segundo das performances de Anne Hathaway como a Rainha Branca, de sua irmã Rainha de Copas, representada por Helena Bonham-Carter, e até do ator Stephen Fry, promissor mesmo sem mostrar o rosto como o Gato. É com toda essa expectativa que a gente espera por mais dolorosos nove meses para entrar na toca do coelho.

Bom, pessoal, e por hoje é só. Depois dessas quatro notícias, mais dois trailers para gente ficar esperando pelo resultado final, só me resta agradecer como sempre a todos os comentários e desejar os melhores filmes para todos vocês! Até mais!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Troca – O gosto amargo de um final incompleto

A Troca (Changeling, EUA, 2008).

De: Clint Eastwood.

Com: Angelina Jolie, Jeffrey Donovan, John Malkovich, Jason Butler Harner, Gattlin Griffith.

141 minutos.

O que te faria não desistir? Por que causa sua luta seria obstinada o bastante para atravessar a barreira do tempo e da própria organização da sociedade? A primeira vista, se trata de uma pergunta fácil de se responder, mas em tempos nos quais o supérfluo se tornou indispensável e vice-versa, nunca é demais relembrar o que temos de mais precioso de verdade. A verdadeira Christine Collins viveu em outros tempos, quando uma mulher comandando um departamento em seu ramo de trabalho era quase uma heresia e quando a polícia era bem mais soberana do que é hoje. Violência era a moeda de troca e corrupção era a renda diária. Havia quem lutasse contra a situação, sim, mas faltava coragem das vítimas desse regime inaceitável para reverter o jogo. Afinal, competição nenhuma é ganha com um pouco de falatório. Christine foi a jogadora que colocou as palavras de gente como o Reverendo Briegleb em ação e lutou obstinada para recuperar a base e o ponto de equilíbrio de sua vida movimentada. Christine perdeu o filho. O que você precisaria perder para fazer tudo o que ela fez e ainda sair vitorioso? A questão acaba de se tornar mais complexa, eu acho. Tão complexa que soa impossível de se resolver em meras duas horas e, ainda mais além, impossível de se transportar de forma fidedigna a uma encenação que, no final das contas, é essencialmente falsa. A Troca paga o preço pela ingratidão de sua missão, mas ao menos se sai tecnicamente impecável no caminho. É um drama respeitoso, feito por um diretor equilibrado que sabe dosar o ritmo hipnotizante de algumas cenas com um pouco mais de dinamismo quando a questão é mais prática do que emocional. O resultado é um bom filme, um bom produto cinematográfico e certamente uma peça de cinema autoral pronta para ser apreciada. Mas, previsivelmente, encontra fraqueza nas questões complexas da qual trata. A Troca não é um filme de respostas claras e muito menos de realismo exagerado. É uma fábula cruel e cheia de ambigüidade sobre uma mulher lutando contra o resto do mundo. Um filme que faz pensar e, apesar de toda a carga emocional, deixa um gosto amargo na boca no final de seus 141 minutos. Uma sensação de experiência incompleta que deixa exposta a constatação triste de que nem o melhor dos artistas é capaz de reproduzir a vida real. Ao menos não por inteiro.

Cinema é uma questão sensorial demais pra ser descrita perfeitamente, que dirá as emoções e sensações que uma obra é capaz de transmitir. De fato, pode ser que nada do que está escrito no parágrafo acima se aplique a uma análise fria e metódica dos fatores da equação bem arranjada de A Troca. Mas é inegável que, de algum ponto em diante, aquela história vai parar de fazer sentido. É um beco sem saída no qual o desafortunado J. Michael Straczynski se meteu em seu primeiro trabalho dramático para o cinema. Conhecido como criador da série de TV Babylon 5 e como renomado roteirista de quadrinhos, Straczynski faz um trabalho indiscutivelmente louvável ao transportar detalhes e nuances fundamentais da realidade para a ficção, mas se vê preso a condição de um simples escrivão, criando alguns diálogos memoráveis para personagens que não são seus e descrevendo com requinte cenas que aconteceram na realidade e tem carga emocional por si mesmas, sem a necessidade de um criador para lhes dar rumo. Para um escritor cuja maior qualidade é a criatividade, trata-se de uma missão ingrata e, vendo por esse ângulo, ele até se sai bem no que propõe, ainda que a falta de liberdade transpareça em cada palavra de seus diálogos e em cada expressão de seus personagens. A trama aqui é daquele tipo que começa comum para, de uma hora para outra, seguir por um caminho labiríntico e impossível de se prever. A história começa com Christine (Angelina Jolie) saindo para trabalhar em uma bela manhã de sábado. Ela é uma mulher moderna para sua época, dona da própria vida e mãe solteira para seu filho Walter (Gattlin Griffith). Tal característica de modernidade poderia ser melhor aproveitada pelo roteiro, mas acaba sendo tratado como um elemento a mais em uma história que, afinal, tem coisa demais a contar para explorar-se completamente no espaço limitado que é o cinematográfico. O que importa é que ela se torna o olho do furacão quando volta para casa e não encontra Walter. Meses e muita comoção pública depois, a polícia de Los Angeles diz ter encontrado o garoto e arranja um grande evento de imprensa para limpar a imagem do departamento com a opinião pública. O menino, no entanto, não é o filho de Christine, e embora ela reconheça o fato logo de cara, a polícia vai usar de todos os meios para não precisar se retratar. Começa assim uma luta que passa pelos corredores de um manicômio, pelas cadeiras de uma sala de julgamentos e encontra seu trágico e incerto final em uma pequena fazenda em algum lugar distante do território americano.

No comando de toda essa história cheia de impacto substancial, o nome de Clint Eastwood (Menina de Ouro) sai ileso de erros durante toda a projeção. Veja bem, não sou um daqueles críticos que aprecia qualquer coisa que o diretor produz, mas sei reconhecer quando um trabalho de direção combina classe e genialidade em uma só tomada. E em cada uma delas. Eastwood é dono de uma câmera estagnada, sim, mas uma câmera que sabe como observar e como explorar cada visual. Aliás, ao lado do diretor de fotografia Tom Stern (Coisas que Perdemos Pelo Caminho), ele cria toda uma identidade visual para A Troca que funciona o tempo todo, seja observado uma casa bem arrumada no subúrbio ou se deparando com os tons de cinza e negro de uma prisão cheia de sombras e assustadora em certa medida. O trabalho de Eastwood, porém, vai além de agradar aos olhos e chega a uma edição elegante e cheia de estilo que consegue ser classicista sem ser atrasada e ainda explora com genialidade os focos de luz que permeiam todo o tom contrastante do filme. Seja confinada em certa posição ou mudando de foco a cada momento, Eastwood faz as escolhas certas e muito do impacto de alguns momentos de A Troca se devem a sua precisão. O único momento de erro se dá durante o julgamento final da obra, que passa a sensação de editado as pressas e sem muita consideração com a própria compreensão do espectador. Mas as coisas terminam por se ajeitar, especialmente quando se tem uma estrela tão surpreendente quanto Angelina Jolie. Mais bela do que nunca, ela encarna o ponto de convergência de toda a trama com uma precisão quase comovente. Visivelmente envolvida com o papel, Jolie segura praticamente sozinha a maioria das cenas e se torna uma espécie de elemento humano, emocional e individual fortíssimo para uma história que muito diz sobre problemas da sociedade, seja no final dos anos 1920 ou nos dias de hoje. Uma atuação completa e acertadíssima que sem dúvida mereceu o reconhecimento da indicação ao Oscar, uma das três concedidas ao filme. É claro, A Troca não é só Jolie. Jeffrey Donovan (Burn Notice) consegue crescer a cada cena e criar uma persona tão realista e hipócrita que chega a se tornar uma das criaturas mais odiosas que o cinema já produziu. John Malkovich (Queime Depois de Ler) tem pouco a fazer em um papel estático e quase sem profundidade emocional, mas se sai com uma atuação digna de um ator de seu porte. Quem surpreende mesmo é Jason Butler Harner (O Vidente), que encarna o psicopata Gordon Northcott e deixa o espectador na dúvida até o último momento sobre sua inocência. Uma interpretação difícil que Harner domina de forma impressionante e que chega a percepção do espectador como algo quase tão real quanto grotesco e revoltante. Essa dúvida e essa ambigüidade, aliás, dominam A Troca durante boa parte de seus 141 minutos. Um filme fácil de se envolver e, talvez por isso mesmo, um tanto decepcionante em seu final. Mas vale a pena conferir, nem que seja apenas para descobrir o que já sabemos... todos precisamos de esperança.

Nota: 8,0

 

terça-feira, 14 de abril de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (14/04/2009)

Femme fatale

 

Projetos malditos não faltam em Hollywood. Pode ser que o roteiro seja ousado demais para os padrões dos grandes estúdios ou represente uma polêmica grande demais para a mente estreita dos executivos. Ou então pode se tratar de uma adaptação complicada de uma obra muito importante que povoa o imaginário popular de forma incontestável e poderia resultar em um desastre irrecuperável se tratado com pouco cuidado. Em resumo, projeto maldito no dicionário hollywoodiano é todo aquele que envolvem riscos para a conta bancária do produtor. Curiosamente, “Sin City 2” não deveria se encaixar nessa categoria. Lançada em 2005, a adaptação do clássico noir dos quadrinhos escrito e desenhado por Frank Miller (“The Spirit”) ganhou o respeito da crítica graças a fidelidade rígida do diretor Robert Rodriguez (“Pequenos Espiões”) e se garantiu nas bilheterias contra o modesto orçamento de 40 milhões de dólares. Comentada desde o lançamento do original, a continuação já passou por tantos rumores e momentos de decisão que aos poucos vai ganhando o status que não deveria ter dentro da terra do cinema. Ainda no ano do lançamento do primeiro filme, as notícias diziam que o próximo arco de histórias a ser filmado seria “A Dama Fatal”, que trazia de volta um dos protagonistas da segmentada trama anterior, o perturbado fotógrafo Dwight McCarthy, que ganhou a face de Clive Owen (“Rei Arthur”) na tela do cinema. Ainda na fase detetivesca, o personagem é surpreendido quando uma ex-namorada lhe aparece confessando amor eterno e pedindo urgente ajuda contra uma perigosa gangue da cidade do pecado. Outros que assinaram para retornar a seus papéis foram Mickey Rourke (“O Lutador”), que deve o início de sua ressurreição ao violento Marv do primeiro filme, Jessica Alba (“Quarteto Fantástico”) para uma história inédita até nos quadrinhos da dançarina Nancy, Brittany Murphy (“Recém-Casados”), Michael Clarke Duncan (“À Espera de Um Milagre”), Devon Aoki (“A Era da Escuridão”) e Rosario Dawson (“O Balconista 2”), que retornam para assistir o protagonista em mais uma violenta encruzilhada como a vista na história base do filme anterior. De acordo com Miller, também co-roteirista e co-diretor do filme baseado em sua obra, o roteiro da continuação está pronto desde o início de 2006. Rumores de que a gravidez de Angelina Jolie (“Garota, Interrompida”) estariam atrasando a produção da continuação incitaram os fãs a acreditar que a atriz incorporaria a dama fatal do título, mas a confirmação só veio mesmo depois de uma série de rumores absurdos que nem merecem serem descritos. De verdadeiro, apenas uma participação especial de Antonio Banderas (“A Lenda do Zorro”) e os progressivos adiamentos para o começo das filmagens, que primeiro foram anunciadas para Abril do ano passado.

Depois do ultimato

 

Jason Bourne é imortal. Se a franquia precisava de um verdadeiro Ultimato depois do espetacular capítulo final da história coordenada por Paul Greengrass (“Vôo United 93”) e estrelada por um compenetrado Matt Damon (“Gênio Indomável”), aí está. Depois de sobreviver a uma deliciosa e surpreendente queda e reascender as esperanças dos fãs no último momento, Bourne deve retornar para balançar o coreto dos recentes filmes de espionagem calcados em seu estilo realista tirado diretamente da obra do escritor Robert Ludlum, agora alvo preferencial de futuras adaptações como “O Protocolo Sigma”, que pode colidir com uma quarta parte da franquia em 2011. Os acertos vem sendo feitos desde o final do “ano de Bourne” que foi 2007, quando o produtor Frank Marshall (“Aracnofobia”) constatou o óbvio ao declarar que “existem apenas três livros escritos por Ludlum” e ainda acrescentou o de sempre ao dizer que “adoraria continuar a franquia, mas precisamos de uma boa história para isso”. Em meio a greve dos roteiristas na época, demorou para o projeto do quarto filme do espião sem identidade ganhar seu escritor definitivo. Apenas no final do ano seguinte, quando todos os ânimos da greve estavam devidamente acalmados e os estragos aos poucos começavam a ser reparados que George Nolfi, um dos responsáveis pelo script do terceiro capítulo da série e dono de outros créditos como “Linha do Tempo” e “Sentinela”, embarcou para desenvolver a nova trama. O trabalho foi um pouco atravancado com algumas complicações alguns meses depois, quando a Universal suspendeu o desenvolvimento de todas as obras baseadas no escritor para lutar na justiça pela exclusividade de sua extensa bibliografia. A vitória do estúdio arrancou, por exemplo, “O Círculo Matarese” da MGM e “The Chancellor Manuscript” da Paramount, onde eram desenvolvidos, e trouxe sob sua guarda. Com o caminho livre para finalizar o trabalho, Nolfi agilizou o ritmo e pretende entregar sua primeira versão da nova história em junho. Enquanto isso, o estúdio se prepara para bancar a aventura e o diretor Greengrass já assinou contrato para continuar dando vida as aventuras de espião com seu estilo caótico que se encaixa muito bem as tramas cheias de viagens internacionais do espião, a ser interpretado mais uma vez por Damon. O produtor Marshall recentemente animou os fãs brasileiros ao dizer que visualiza Bourne vivendo uma perseguição pela América do Sul.

O casal mais engraçado da história

Os candidatos ao posto não são poucos com as comédias de casais explodindo por aí em Hollywood, mas alguém duvida que a dupla de choque leve o topo do pódio? Ele, Steve Carell, um dos comediantes mais contemporâneos e competentes da terra do cinema, um homem que já provou ser tanto uma fábrica de risos cínicos (“The Office”) quanto um poço de sinceridade capaz de emocionar com facilidade impressionante (“Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”). Ela, por outro lado, é muito provavelmente a verdadeira revelação maior do gênero no nosso século. Tina Fey é linda, hilária em seus textos venenosos e a um tempo cheios de inocência, uma atriz hipnotizante na tela e alguém capaz de provocar emoções conflitantes como poucas atrizes na atualidade. Ela já mostrou sua veia romântica em “Uma Mãe Para o Meu Bebê” e ao mesmo tempo é um oásis de inteligência e sensibilidade no humor grosseiro que anda fazendo sucesso ultimamente na terra do cinema. Os dois, juntos e casados, estão em “Date Night”, que ainda tem o bônus de ser escrito por um dos homens responsáveis pela trilogia “Shrek” e a direção do homem que nos fez rir com a ingenuidade de “Uma Noite no Museu”. Josh Klausner entregou sua primeira versão do script e logo virou notícia com a adesão do casal e do diretor Shaw Levy a idéia, em agosto do ano passado. Marcado para ser filmado no intervalo de compromissos televisivos dos dois protagonistas e esperado ansiosamente pelos fãs do gênero, o filme aos poucos foi ganhando um estrelado e de certa forma inusitado elenco de apoio. De uma vez só, quatro nomes respeitáveis dentro do jogo. Mark Wahlberg (“Max Payne”) tenta se recuperar de uma série de fracassos e deve apostar pela primeira vez na comédia como um paranóico chefe de segurança que flerta com Fey sem saber que ela é casada. Ao lado dele, James Franco (“Homem-Aranha”) encarna um criminoso pouco inteligente, mesmo tipo que se tornou sucesso com seu rosto na comédia de ação “Segurando as Pontas”. Além da dupla de astros, a recém-indicada ao Oscar Taraji P. Henson (“Benjamin Button”) deve ser a única amiga do casal a enxergar uma potencial ameaça rondando seus encontros noturnos, provavelmente representada pelo rapper Common (“O Procurado”), cujo personagem foi descrito apenas como “o vilão do filme”. Tudo isso deve chegar aos cinemas apenas ano que vem.

Rent com andróides

Em 2005, a Broadway foi para Hollywood mais uma vez com o pouco notado musical “Rent”, primeiro filme comandado por Chris Columbus (“Esqueceram de Mim”) depois dos dois primeiros capítulos da série “Harry Potter”. Na trama, um grupo de oito jovens descobriam a vida e os prazeres dela no cenário de uma Nova York em ebulição no final da década de 1980. Estrelado por nomes como Rosario Dawson (“Sin City”) e Taye Diggs (“Equilibrium”), o filme, grande acontecimento para os fãs de musicais teatrais por ser a adaptação de um dos maiores sucessos do gênero, passou em branco pelas bilheterias americanas e chegou diretamente em vídeo para o Brasil. A crítica se dividiu ante a obra, mas o estúdio não teve pena de cortar o filme de Columbus dos cinemas de boa parte do mundo e renegá-lo a um futuro de esquecimento. Agora, menos de meia década depois, Hollywood prepara uma trama tão similar que é impossível não esperar o mesmo resultado. A diferença por enquanto? Na direção o nome passa longe de estar com a popularidade em baixa. De fato, nunca antes o clipeiro McG (“As Panteras”) se viu tão prestigiado. Depois de dirigir e causar alguma polêmica com o mais que esperado e cada vez mais espetacular “O Exterminador do Futuro 4”, o americano deve encarar uma trinca de super-produções. Primeiro, o spin-off de “A Liga Extraordinária” centrado na figura quase mitológica do Capitão Nemo, provavelmente mais próximo do idealizado por Júlio Verne do que aquele que foi visto no filme de 2003. Depois, o thriller de espionagem “Dead Spy Running”, adaptação de um livro que ainda nem chegou as prateleiras a ser roteirizada por Stephen Gaghan (“Syriana”). E, enfim, depois da maratona, o diretor essencialmente adrenalinesco deve tentar diminuir o ritmo para o musical “Spring Awakening”. Baseado em uma obra seminal de Frank Wedekind (“Lulu”), o musical se tornou sucesso instantâneo nos palcos e está em cartaz desde 2006, quando ganhou nada menos que oito prêmios Tony, o Oscar do teatro. A trama, veja só, trata de um grupo de jovens descobrindo os prazeres da vida e se deparando com mais questões que respostas. Algo de familiar? Pelo menos a nova história é passada no fim do século XIX. Ainda sem um estúdio para bancá-lo, McG buscou refugio na Warner, que se mostrou interessada no projeto.

Bom, pessoal, e por hoje é só isso. Grandes notícias e em uma quantidade até maior que o usual, hein? Bom dia, hoje. Mas enfim, queria agradecer a todos os comentário e ao apoio a idéia do blog, que é manter todos em dia quanto as novidades do cinema. Enfim, orbigado a todos e até amanhã! Os melhores filmes para todos vocês sempre!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (17/02/2009)

Dos robôs aos tribunais

O astro jovem mais badalado do momento, protegido de Steven Spielberg e, é claro, primeira opção dos estúdios que possuem um bom material na mão, seja qual for o gênero. Bilheteria quase garantia, Shia LaBeouf acaba de sair da vigiada continuação "Transformers: A Vingança do Derrotado", que deve ser lançado em 29 de Junho e já tem um novo e potencialmente ambicioso projeto para os próximos anos. Adaptado para o cinema por diretores em filmes com elenco do calibre de John Cusack, Rachel Weisz e Gene Hackman (juntos em "O Júri"), agora a responsabilidade de um dos papéis divididos e complexos de John Grisham, conhecido como “o escritor dos tribunais” e autor da inspiração para alguns dos melhores filmes do gênero em Hollywood ("A Firma", "O Cliente", "Tempo de Matar"), será de LaBeouf. "The Associate" tem o peso pesado William Monahan ("Os Infiltrados") no roteiro e conta a tensa história de um estudante de direito prestes a se formar que aceita um emprego em uma prestigiada firma. É claro que logo os conflitos de interesses surgem, e o rapaz por algum motivo decide ajudar internamente na construção de um processo milionário contra a firma. "The Associate" conta com o veterano Lorenzo di Bonaventura ("Stardust") na produção.

O mundo acabou no meu ontem, seu amanhã

Há uma probabilidade enorme de a bizarra frase do título aparecer em algum momento de "The Day Before", mais nova ficção científica com premissa criativo-absurda da terra do cinema. Quem capitaneia o projeto é o produtor Gianni Nunnatti, que ganhou cacife em Hollywood nos últimos anos com "300" e "Os Infiltrados". O roteiro do estreante Chad St. John é todo baseado na idéia mais estranha das últimas décadas: alienígenas invadem a terra e, ao invés de seguir nossa linha cronológica, voltam no tempo para destruir o planeta de novo e de novo, até matar os pais daqueles que haviam matado anos a frente. O uso prático de tal idéia ainda é desconhecido, mas o fato é que a coisa se complica ainda mais: para acrescentar um elemento humano na trama, o roteirista supôs que um homem estaria a frente dos alienígenas nessa linha cronológica ao reverso, e que ele tentaria convencer a todos que o mundo acabaria naquele dia (e logo em seguida no dia anterior, já que o amanhã já estava destruído há algum tempo). Se o roteirista se perdeu ou não nessa confusão é uma incógnita, mas o fato é que Robert Downey Jr ("Homem de Ferro") já embarcou no projeto, trazendo Reese Witherspoon ("Johnny & June") à reboque e ainda levantando os rumores da possível direção do russo Timur Bekmambetov ("O Procurado").

Orgulho, preconceito e absurdo

Já estava ficando ruim demais para ser verdade. Aqueles que apreciam a literatura clássica da venerável Jane Austen e gostaram dos recentes e líricos "Orgulho e Preconceito" e "Amor e Inocência" ficaram de cabelos em pé ao descobrir que a obra máxima da autora, tema do primeiro filme citado seria profanada por um escritor de comédia desconhecido no livro "Pride and Prejudice and Zombies", que misturaria a história da lindíssima Elizabeth Bennett com uma invasão de zumbis bem ao estilo dos filmes de George Romero. A sátira chegou ao seu momento máximo quando a adaptação cinematográfica foi anunciada e a estrela Natalie Portman ("Closer – Perto Demais") resolveu pagar o aluguel estrelando o filme. Infelizmente, parece que a moda pegou. Sem inspiração nos livros, a próxima profanação da obra de Austen deve ser "Pride and Predators", que também se utiliza da história da nobre inglesa para coordenar a carnificina de um alienígena que vem a terra com uma missão apocalíptica. E mistura ainda tem Elton John na trilha-sonora (é sério!). O filme deve ser dirigido por William Felix Clark (do premiado curta-metragem "Amazing Trousers"), mas ainda não tem data de lançamento.

Jolie sob a mira da arma
Na direção, um ás do suspense e da ação. No roteiro, um dos profissionais mais talentosos da área, nome fundamental para sucessos em que seu nome mal é citado e diretor de um par de pérolas da ficção científica. E o elenco que aos poucos se forma começa a dar indícios de um thriller de espionagem dos bons. "Salt" não tem uma premissa muito criativa: no auge da Guerra Fria, agente da CIA é acusada de colaborar com os russos e precisa fazer de tudo para provar sua inocência. São os nomes envolvidos que impressionam. O primeiro a se falar é Kurt Wimmer, roteirista responsável por pequenas obras-primas e diretor das pérolas alternativas "Equilibrium" e "Ultravioleta", cada um a sua medida, o top da ficção científica do novo século e possível comandante da adaptação "Metal Gear Solid". O tipo de homem que pode transformar o clichê em algo empolgante. Outra promessa nesse sentido é a direção de Philip Noyce, que já assinou grandes sucessos como "Jogos Patrióticos" e "Colecionador de Ossos", um diretor com senso de espetáculo e significância, combinação rara em Hollywood. E a atuação também não fica muito atrás, com a recém-premiada Angelina Jolie ("A Troca") na pele da protagonista e o respeitado Liev Schreiber ("Sob o Domínio do Mal") em um papel ainda não definido.
Bom, pessoal, por hoje é só isso mesmo... mais um dia sem a crítica, tenho que me desculpar, mas amanhã tenho uma prontinha para entregar, certo? Agora eu agradeço a todos os comentários e desejo os melhores filmes para todos vocês! Até amanhã!