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domingo, 3 de maio de 2009

Enquanto Ela Está Fora – Suspense e diversão podem viver juntos?

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Enquanto Ela Está Fora (While She Was Out, Alemanha/Canadá/EUA, 2008)

De: Susan Montford

Com: Kim Basinger, Lukas Haas, Craig Scheffer

108 minutos

Entretenimento não é algo fácil de se produzir, embora os críticos mais “entendidos” digam o contrário apenas para desvalorizar os filmes que não tenham algo além de pura diversão. O princípio básico é, ou deveria ser, o seguinte: se um filme te segura por duas horas em uma cadeira sem sequer um pensamento disperso, esse filme merece pelo menos um pouco de atenção. É claro, o que diferencia o puro entretenimento de obras de arte em forma de cinema é um talento a mais e uma perícia delicada na hora de equilibrar os fatores incontroláveis que se juntam para o resultado final de um filme. Isso sem contar que, quando estamos falando de Hollywood, onde todo esse processo toma uma proporção gigantesca, o fator dinheiro é muito mais relevante para o destino de uma obra do que qualquer outra coisa. Tendo essas duas coisas em mente, não é muito difícil julgar “Enquanto Ela Está Fora”, mesmo que os motivos para o julgamento ser tão definitivo não sejam fáceis de explicar. Dono de um orçamento modesto de 6 milhões de dólares, o filme vinha carregado de expectativa entre os cinéfilos mais atentos por marcar a estréia da produtora Susan Montford (“Mandando Bala”) no roteiro e na direção. Em outras palavras, prometia diversão descompromissada tão boa quanto a do filme estrelado por Clive Owen (“Rei Arthur”). Com uma história simplista e a vontade de mostrar a violência no mundo em que vivemos de forma crua e lúdica a um tempo, porém, o que Susan construiu foi um suspense de perseguição intenso que solta faíscas quando investe na ação mas escorrega feio nos momentos em que tenta se desviar dela para ganhar tempo em uma trama que não renderia nem uma boa meia hora, que dirá duas completas. Em algum momento desconhecido entre a fuga desesperada da protagonista após presenciar um assassinato a sangue frio e seu retorno para casa carregado de um exagero que não faz sentido no contexto, a diretora e roteirista se perde em meio a própria obra e entrega um filme que segura o espectador até certo ponto pela vontade de saber o que pode vir em seguida. Depois que a trama encontra seu caminho natural, porém, tudo se torna em uma aventura violenta e previsível demais em que o escuro esconde a diversão de mortes criativas e a falta de profundidade dos personagens começa a incomodar profundamente. Em suma, “Enquanto Ela Está Fora” renderia um curta-metragem cheio de expectativa e adrenalina, mas os minutos passam e o encanto se perde junto com a câmera de Susan pela floresta.

Uma das explicações mais recorrentes para essa espécie de “enrolação” dentro da história é que “Enquanto Ela Está Fora”, a exemplo de muitos outros filmes baseados em histórias curtas da literatura, tenta ganhar tempo para preencher os vazios e construir um longa-metragem de verdade, com exploração mais detalhada dos personagens e cenas que ajudem a desvendá-los para o público. Em linguagem mais simples, um roteiro cinematográfico precisa de mais detalhes e nuances para funcionar do que um conto de suspense ou ficção científica. Mas não seria justo culpar o escritor Edward Bryant pela falta de envolvimento no roteiro de Montford. Afinal, um bom roteirista é capaz de estender uma história com circunstâncias plausíveis e sem deixar a sensação para o espectador que está diante de um grande engodo em que um fiapo de trama pretende sustentar todo um filme. Scott Alexander (“O Mundo de Andy”), por exemplo, se deu muito bem adaptando o conto de Stephen King (“Carrie”) para o cinema em “1408”. Infelizmente para o espectador, Montford e sua inexperiência na confecção de uma narrativa tornam “Enquanto Ela Está Fora” uma extensa e cansativa mistura de ambientes mal trabalhados, cenas cotidianas absolutamente sem sentido e uma perspectiva que não anima nem o espectador com expectativas mais baixas. Isso considerando que “Enquanto Ela Está Fora” pretenda ser apenas entretenimento. Porque se Montford acerta nos diálogos e nas situações, especialmente do início do filme até o ponto em que a trama toda é desencadeada, seu filme tropeça na fantasia e no exagero quando tenta ser uma crônica pujante sobre a violência urbana. Era exatamente isso que prometia a história de Della (Kim Basinger), uma mulher casada e infeliz que vive no subúrbio com seus filhos gêmeos e seu violento marido Kenneth (Craig Scheffer). Encontrando um carro antigo parado em duas vagas no estacionamento lotado de um shopping em plena noite de Natal, ela resolve deixar um bilhete no pára-brisa chamando o dono do veículo de “canalha egoísta”. É claro, ela não contava que os jovens donos do carro a ameaçassem na saída do shopping e matassem o segurança que tentava a proteger. Fugindo, ela acaba parando por perto de uma reserva florestal e a caçada começa em meio a escuridão da noite e a sombra das árvores. Daí para frente, “Enquanto Ela Está Fora” é uma seqüência interminável de cenas improvisadas de forma grosseira pelo roteiro e momentos de perseguição em que o suspense beira o ridículo em alguns momentos. Tudo é localizado como se fosse um pesadelo escuro e violento em que vidas são perdidas e o instinto é despertado, mas o roteiro envolve em pouquíssimos momentos, a maioria deles devido ao trabalho de um trio de atores que seguram o filme praticamente sozinhos.

É bem verdade que nenhum intérprete é capaz de passar por cima do roteiro que está interpretando, mas também é inegável que bons atores podem conferir muito mais credibilidade a uma situação que, em outras mãos, soaria piegas ou até ridícula. Kim Basinger (“Celular”), Lukas Haas (“Alpha Dog”) e Craig Scheffer (“One Three Hill”) fazem seus papéis e até conseguem segurar algumas cenas com um pouco de dignidade, mas são incapazes de influenciar tanto no resultado final. Ela, a protagonista, coloca todo o seu repertório de veterana sofredora cinematográfica para funcionar e constrói uma Della que não chega a se identificar com o espectador como deveria, mas se torna um retrato contundente de um tipo de mulher de classe média que vemos por aí todos os dias. Por incrível que pareça, a atriz consegue nos passar a impressão de que estamos diante de uma pessoa real e, especialmente no final, faz alguns momentos de pura falta de criatividade valerem a pena. Se ela aposta nas nuances, Haas acerta ao trazer para Chuckie, o líder da gangue que persegue a protagonista, a dose certa de interpretação visceral e um olhar alucinado que lembra de forma assustadora alguns dos psicopatas mais marcantes do cinema. O que incomoda é que o personagem não foi construído para soar assim, e sim como a representação da juventude de emoções fortes e momentos intensos que não mede esforços para conseguir mais adrenalina. É quase como se toda a responsabilidade pela interpretação fosse sua, e não do roteiro. Por fim, Scheffer tem pouco tempo de tela, mas completa o trio de atores relevantes do filme com uma eficiente reprodução do marido violento convencional que nos acostumamos a ver nas telas do cinema e, porque não, nas novelas brasileiras. Scheffer aparece no começo como um homem intransigente e estopim de toda a cascata de violência, e no final como o alvo da vingança no movimento cíclico que Montford tenta reproduzir no roteiro com pouco impacto real. Se escrevendo a produtora se mostra inexperiente e intransigente, na direção seu desempenho é tão irregular que é quase impossível chamá-lo por apenas um adjetivo. Em alguns momentos sua câmera tem movimento fluído e climatização das boas, mas quando precisa encarar seus personagens de frente, seus olhos se voltam para detalhes sem importância que diminuem drasticamente a sensação que “Enquanto Ela Está Fora” deveria passar. O resultado de tudo isso é um filme oscilante que perde a atenção do espectador mais casual em poucos minutos e não demora a despertar uma avaliação negativa naquele mais atento. Uma obra que não cumpre nada do que promete e chega ao fim já esquecida e dispensável. Se ao menos fosse divertido...

Nota: 4,0

quarta-feira, 11 de março de 2009

RocknRolla: A Grande Roubada – Guy Ritchie está de volta, e com cara de franquia

RocknRolla: A Grande Roubada (RocknRolla, Inglaterra, 2008)

De: Guy Ritchie

Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Mark Strong, Toby Kebbell

114 minutos.

 

 

 

 

  Sexo, drogas e rock n’roll. Receita bem-sucedida (pelo menos comercialmente) de tantos filmes que é impossível citar todos em um único texto sem se arriscar a soar como alguém no mínimo obsessivo. Para dar um exemplo relativamente recente e elogiado pelos críticos, talvez seja melhor resumir a ladainha toda em “Quase Famosos”. Primeiro filme do diretor Cameron Crowe após o sucesso definitivo de “Jerry Maguire”, o musical rocker conquistou público e crítica, pagando o próprio custo (com uma margem apertada, é verdade) e figurando anos depois nas listas de filmes mais importantes do começo do nosso século. A história de uma banda underground que ascendia a fama com rapidez vertiginosa e descia de volta ao poço na mesma levada contava com as tiradas pop de sempre do diretor para conquistar o espectador e levá-lo em uma viagem recompensadora por ritmos, sensações e imagens. Em resumo, utilizava a música como pretexto para cinema de primeira. Deu certo naquela oportunidade e em algumas outras (“The Commitments”, “Fama”), e desde então se estabeleceu um padrão para os filmes que por ventura quisessem tratar do mesmo assunto. Não é difícil imaginar o que se passava nas cabeças dos produtores “espertos” espalhados pela terra do cinema: um subgênero bem-sucedido a mais para explorar, sem riscos. Como de costume, Hollywood não foi menos do que cega e estúpida ao prender os filmes do estilo a uma forma que foi cansando com rapidez impressionante. Afinal, quem procurou por “Quase Famosos” quando este foi lançado buscava um pouco mais do que simplesmente um filme ordinário, clamava por inovação, originalidade, entretenimento diferente do usual. Embora tenha sido uma grata surpresa para muita gente, não é preciso pensar muito para perceber porque “RocknRolla”, novo filme do britânico Guy Ritchie (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”), não foi apenas a anunciada ressurreição do diretor, mas um ar completamente novo para o gênero que põe em prática a tríade sagrada que figura na primeira frase deste texto. E isso sem precisar apelar para a cantoria maçante em nenhum momento. A verdade é que, sob muitos aspectos, “RocknRolla” é diametralmente oposto a “Quase Famosos”. Ritchie não utiliza um contexto musical para fazer cinema, mas o ritmo de uma trilha-sonora excepcionalmente bem selecionada para dar levada, alma e inovação a um filme que poderia cair em outro estigma caso não possuísse esse diferencial. Embora sempre proporcione momentos interessantes, o gênero de gângsteres, criminosos e afins já anda esgotado há algum tempo. Com a música e os toques de humor do roteiro do próprio Ritchie, esse esgotamento é preenchido com folga e dá mais levada a trama bem intrincada que consegue passar por todos os 114 minutos de “RocknRolla” sem deixar o interesse cair um minuto sequer. O que o diretor fez foi combinar inteligentemente elementos de dois gêneros mal-vistos, adicionar uma dose cavalar de diversão e piadas que vão do sarcástico ao grosseito, tudo para criar um filme que não cai em nenhum dos estigmas que poderia e ainda deixa uma continuação engatada. A esperteza e o talento para orquestrar tramas, pelo menos, Ritchie não perdeu com o passar dos anos.

Como sempre autor do próprio roteiro, ele faz um trabalho notável ao dar brilho e sofisticação a cada frase proferida por seus personagens, arrancando alguns momentos de puro brilhantismo cômico e ainda fazendo subir aquele arrepio inconfundível pela espinha do espectador. Em certo ponto de seu filme, quando o mafioso Lenny Cole (Tom Wilkinson) toma uma lição de brutalidade de seu “concorrente”, é impossível não se emocionar, contra todas as expectativas, ao ouvir a perfeitamente sincronizada reflexão do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell). Não é fácil para um roteirista fazer duas cenas paralelas possuírem uma ligação tão lógica e forte, mas Ritchie o faz com maestria. O protagonista aqui é One Two (Gerard Butler), um ladrão barato que tem aceitado alguns trabalhos oferecidos pela insinuante contadora Stella (Thandie Newton), que age em nome do russo Uri Omovich (Karel Roden), que por sua vez é o concorrente mais sério de Cole, um mafioso a moda antiga, com seus segredos e manias, incluindo a existência de Johnny, um roqueiro irresponsável que ele tomou por filho adotivo assim que sua esposa, mãe do garoto, morreu. O problema é que ele, para desespero dos empresários e furor da imprensa, sumiu do mapa pela quarta vez em um ano, levando consigo uma preciocidade que pode colocar o padrasto em apuros: o “quadro da sorte” emprestado justamente de Uri, com quem ele tentava firmar um acordo pelo domínio da cidade. A primeira vista, pode soar como uma história banal, mas é aí que reside a habilidade de Ritchie ao redigir o roteiro. Embora não seja uma trama de grandiosidade, “RocknRolla” encanta pela proporção intimamente fundamental em que se desenrola a história, estudando as conseqüências de um ato impensado ao mesmo tempo que não se esquece de proporcionar diversão das boas recheada com o melhor do estiloso modo de filmar do diretor. Embora predominantemente use câmeras estáticas e cortes em certa medida previsíveis, a câmera de Ritchie de alguma forma consegue agradar aos olhos sem distrair os ouvidos de cada palavras que sai da boca dos personagens. É como a combinação perfeita entre visual e conteúdo: o roteiro é o astro principal, mas isso não impede que as luzes da cidade e os bizarros comportamentos de gente igualmente pouco usual não promovam duas horas da boa e velha diversão.

Talvez por isso Gerard Butler pareça tão adequado, adjetivo que nunca exatamente se encaixou nas interpretações caricatas do escocês revelado em “O Fantasma da Ópera” e elevado ao patamar de astro pelo Rei Leônidas de “300”. Aqui, ele é deixado a vontade para exercitar a canastrice e o carisma que essa forma de atuar traz atrelada pode surpreender muita gente que nunca se indentificou muito com as interpretações do ator. Como One Two, Butler encontra o personagem perfeito para seu (relativo) talento, agindo mais como peça atuante do que como centro de todos os acontecimentos. Esse posto é ocupado com competência por Toby Kebell, o “RocknRolla” do título, um termo que só pode ser descrito nas palavras de Ritchie (brilhantes demais para serem descritas nesse humilde texto). O que importa é que o ator, conhecido pelo trabalho como coadjuvante em filmes como “Alexandre” e “Controle”, traduz a perfeição a genialidade contida entre as paredes das drogas que Johnny Quid representa. Ele é um touro indomável, um rebelde convicto, um homem que de muitas formas foi conduzido para onde está, mas acima de tudo um ser humano complexo, cativante e um dos anti-herói mais perfeitos que já figuraram no cinema. Ele brilha mesmo ao lado de uma interpretação tão marcante quanto a de Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”), colocando a caricatura para funcionar (no melhor dos sentidos) e contruindo uma figura única para o mafioso, confirmando-se como um dos melhores atores em atividade. Mas quem realmente impressiona é Mark Strong (“Stardust – O Mistério da Estrela”), fundando os alicerces de um personagem que ainda pode render muito mais conforme a familiaridade do público aumentar. Archie, o “capanga” do mafioso, é sem sombra de dúvida a maios fonte de brilho de um filme que não carece dele. Guy Ritchie está de volta dos mortos, e pronto para abalar as estruturas da terra do cinema mais uma vez com o vindouro “Sherlock Holmes”. Mais um filme com a marca do frescor de um cineasta que nunca se torna ultrapassado. E que tem muito o que ensinar a Hollywood.

Nota: 8,5

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Controle Absoluto - Vigilância urbana, paranóia e política em Washington


Controle Absoluto (Eagle Eye, EUA/Alemanha, 2008).

De: D.J. Caruso.

Com: Shia LaBeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson, Billy Bob Thornton.

118 minutos.






Há quem diga que cinema é arte, a sétima delas, a combinação perfeita entre imagem, som e movimento, uma orquestração de elementos complexos trabalhando em harmonia para criar experiências únicas. A definição é bonita, o conceito é agradável, é bom para quem gosta pensar assim. Mas a verdade é que, em sua concepção e em sua definição mais enraizada, cinema é entretenimento. Por baixo de todo verniz artístico, o que todos nós buscamos quando vamos ao cinema são duas horas de envolvimento, seja ela provido pelo calvário emocional de algum personagem desafortunado ou pelas explosões e câmeras trepidantes dos blockbusters hollywoodianos. De nada adianta um “filme de arte” que não prenda a atenção do espectador, capture seu olhar e faça-o viajar com a história, de certa forma atrair seus pensamentos para uma realidade diferente, por mais que ela seja parecida com aquela que vemos todos os dias na rua. Um bom filme leva nossa capacidade de apreciação para um nível instintivo, automático, quase primitivo. Percebemos que uma boa atuação é uma boa atuação sem saber porquê, apreciamos uma paisagem conforme ela se encaixa na história, e não como uma pintura pendurada na parede de um museu. Por essas e por outras, o pior pecado que um filme pode cometer é ser entediante. Aquele filme que permite que seu pensamento fuja para outro lugar não merece seu respeito. Muita gente conceituada e respeitada criticou muitos aspectos de "Controle Absoluto", novo filme da parceria de D.J. Caruso e Shia LaBeouf (diretor e ator de "Paranóia"), um thriller de ação que discute uma vez mais os limites da vigilância urbana, missão da qual "Inimigo do Estado" saiu vitorioso dez anos atrás. Mas se o bom cinema é aquele que eletriza, causa impacto e envolve, então há muito tempo que não há blockbuster como "Controle Absoluto". Não é fácil definir um filme como esse. Em termos comparativos, imagine a paranóia de "Inimigo do Estado" elevada ao quadrado, combinada com o realismo fantástico da ação na série "Duro de Matar" e ainda coloque na receita os efeitos especiais mais realistas que você se lembra de ter visto ("Homem de Ferro", talvez). Agora imagine tudo isso diluído em um filme que tem algo a dizer.

Talvez o que salve "Controle Absoluto" do rótulo de “apenas mais um blockbuster” e eleve-o ao patamar de entretenimento de primeira seja o roteiro coeso e certeiro de um quarteto que contraria a regra de quanto menos gente melhor que corre entre os profissionais da área. John Glenn ("Entre a Vida e a Morte"), Hillary Seitz ("Paranóia"), Dan McDermott ("Angela’s Eyes") e o estreante Travis Wright fazem um trabalho exemplar ao não temer a ambição e ainda assim não se perder em meio aos vários temas que sua obra pretende abordar. Para começar, Controle Absoluto é sobre as conseqüências de atos impensados. Jerry Shaw (Shia LaBeouf) escolheu abandonar a família que lhe fazia sentir-se um estranho no ninho e partiu para uma vida de viagens que acabou aportando em um emprego medíocre. Para piorar, seu irmão gêmero morre em um acidente no trânsito e logo em seguida vê seu apartamento misteriosamente cheio de caixas com armas de nível militar e invadido por uma equipe do FBI chefiada por Thomas Morgan (Billy Bob Thornton). Quer destino mais cruel? Rachel Holloman (Michelle Monaghan) deixou de ir com o filho tocador de trompete para um importante concerto em Washington, tudo para não perder alguns dólares. Enquanto festeja a liberdade com as amigas, seu celular toca e uma voz feminina lhe mostra nas telas espalhadas pelas ruas de Nova York o trem em que o garoto viaja, aparentemente seqüestrado. É motivo o suficiente para ela seguir as complicada ordens dadas pela voz, e não demora para seu destino cruzar com o de Jerry, também contatado pela tal entidade, que parece ser capaz de controlar de linhas de trem a sinais de trânsito, passando por câmeras de vigilância e até portas lacradas de carros-forte. Enquanto os dois são perseguidos por uma série de instituições governamentais, o que leva as mais sensacionais cenas de ação do cinema desde "Duro de Matar 4.0", o roteiro passa por uma série de outras discussões que acabam levando a pergunta fundamental: temos nós o direito de passar por cima de nossas próprias leis para “cortar o mal pela raiz”, mesmo que isso signifique a perca de centenas, milhares talvez, de vidas? Ficou curioso com a resposta para tal pergunta, ela te fez pensar?

Pronto, é o bastante para saber que, sob nenhum aspecto, "Controle Absoluto" é blosbuster comum. É claro que simplesmente um bom roteiro não é o bastante para sustentar propostas como as descritas nas linhas anteriores, e é um alívio perceber que nenhum dos envolvidos com essa raridade decepcionou em sua função. D.J. Caruso, que antes de "Paranóia" já havia dirigido suspenses como "Rubando Vidas" e projetos mais descompromissados como "Tudo Por Dinheiro", é provavelmente o artesão de tensão mais habilidoso surgido em nosso século. Desde que David Fincher surgiu em 1995 com seu arrasador "Seven – Os Sete Pecados Capitais" que não se via uma câmera tão sombria e perfeitamente imperfeita, tanto que os âgulos criativos de ambos os diretores funcionam muito melhor à sombra do que em ambientes ensolarados. Se a habilidade é passageira ou estamos diante de um futuro grande diretor, só o tempo dirá. A verdade é que a câmera de Caruso é ainda mais criativa e impressionante quando Shia LaBeouf está em cena, demonstrando o carisma a flor da pele que lhe fez ser “adotado” pela faceta de produtor de Steven Spieberg, que já dirigiu o garoto no nostálgico e delicoso "Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal". O fato é que, se personagens como Jerry Shaw são ensaio e o consolidamento de um estrelato, as perspectivas são boas para o futuro. Shia é o corpo e a alma de "Controle Absoluto", controlador absoluto das cenas em que está presente e centro das atenções duranto o tempo que for preciso. E, para aqueles que apreciam atuações mais profundas, o garoto também não decepciona ao contruir um anti-herói desiludido e fascinante, um trabalho que ofusca os bons desempenhos dos veteranos (cada um a sua medida) como Rosário Dawson ("Sin City") e Billy Bob Thornton ("A Última Ceia"). Assista e tente criticar. Se você conseguir, parabéns. Se não, bem-vindo ao clube.

Nota: 8,0

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Encurralados - Vidas (e regras) serão quebradas



Encurralados (Butterfly on a Wheel/Shattered, Canadá/Inglaterra, 2007)

De: Mike Barker.

Com: Pierce Brosnan, Maria Bello, Gerard Butler, Nicholas Lea.

95 minutos.





Existe uma convenção na cartilha dos roteiristas de thrillers de seqüestros, uma regra sagrada e inquebrável: a ameaça sempre deve ser real, mostrada em seqüências aflitivas e de preferência reforçadas por alguma espécie de metáfora em relação ao tempo que se passa com a vítima presa em cativeiro. Foi assim com "Encurralada", de Luis Mandoki, e também foi assim com a prisão domiciliar imposta por David Fincher em "Quarto do Pânico". A diferença entre um e outro é óbvia: enquanto Fincher sabe criar tensão e apreensão como ninguém mais em Hollywood hoje, Mandoki é um diretor essencialmente dramático, de câmera estática e pouquíssima vocação para o suspense. Mike Barker não está nem para um extremo nem para outro. Representante menos conhecido da geração versátil de novos cineastas liderada por Marc Forster ("Mais Estranho Que a Ficção"), o diretor de Reese Witherspoon em "Planos Quase Perfeitos" e Scarlett Johansson no drama de época "Uma Mulher Fiel" demonstra nesse novo "Encurralados" (será que todos os títulos brasileiros precisam ser tão derivativos?) que tem competência o bastante para não deixar a tensão cair em nenhum momento. Mas não é isso que mais intriga e agrada no filme estrelado por um surpreendente Pierce Brosnan. Talvez o grande nome de todo o filme seja do estreante William Morrissey, mostrando-se roteirista de mão cheia ao criar um exercício de quebra de padrões.

Embora não acrescente muita ousadia a mistura, o diretor Barker faz um bom trabalho ao manter a tensão e mostrar-se mais uma vez apto para guiar qualquer gênero. Mas o grande segredo de Morrissey é não recorrer as formulas que tornam esse tipo de roteiro mais fácil de ser redigido. Não há o espaço confinado de "Quarto do Pânico", as crueldades forçadas e os recursos cinematográficos baixos de "Violência Gratuita", nem mesmo o heroísmo barato de "Refém". Embora não fuja da estrutura linear, Morrissey demonstra habilidade o bastante para jogar com as percepções do espectador em cenas rápidas e diálogos enganadores. Tudo isso sem esquecer-se de brincar com o psicológico dos personagens, tornando cada palavra de seus diálogos uma parte fundamental para o desenvolvimento da trama. Não há uma cena descartável em "Encurralados", mas não haveria pior injustiça do que chamá-lo de raso ou superficial. Pelo contrário, aliás. A família Randall é muito mais complexa e significativa que boa parte das vítimas que Hollywood costuma colocar em suas tramas caça-níqueis, e provavelmente nunca houve um seqüestrador tão fascinante que o Tom Ryan de Pierce Brosnan. O resultado é que "Encurralados" encanta tanto pelos movimentos do jogo quanto pelos jogadores em si.

Abby Randall é uma personagem ambígua, uma esposa satisfeita e consciente da própria mediocridade. Não é fácil decifrá-la, mas antes de qualquer coisa é preciso pensar que as pessoas reais geralmente não são. Maria Bello traduz com perfeição essa dissimulação de detalhes, numa interpretação irretocável que se converte em uma das grandes forças do filme. O diálogo final de sua personagem é de provocar arrepios. Neil, o marido, interpretado por Gerard Butler, é o tipo de homem que é o melhor no que faz em seu trabalho, mas também é uma pessoa que dá muito valor aos próprios escrúpulos. Não há nada mais afltivo que assiti-lo ultrapassando um por um, ainda que Butler recorra como sempre a um retrato caricato, talvez o menos convincente do trio principal. Para fechá-lo, há o seqüestrador do ex-007 Pierce Brosnan. Há muito tempo que um personagem tão fascinante não aparecia na tela. Sua motivação é tão misteriosa e seus atos parecem guiados por uma lógica tão falha que é impossível não se surpreender no final. Por falar em surpresas, a própria interpretação de Brosnan se converte em uma. Sobrenaturalmente adequado, ele consegue converter as linhas do roteiro de Morrissey em alvo de fascinação. Em outras palavras, é impossível não se pendurar em cada frase de seu personagem. No fim de seus bem-medidos 95 minutos, "Encurralados" só não se converte no melhor filme de seqüestro de nosso século porque carece de uma Jodie Foster para iluminar-lhe as cenas. Ainda assim, é um trabalho que merece uma boa olhada. “Quem esmaga uma borboleta na roda de tortura?”. Há muito tempo que eu não me via tão surpreendido com a resposta de uma pergunta Descubra-a você também.

Nota: 8,0

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Cash: O Grande Golpe - Estilo, criatividade, eficiência... o que vale mais que diamantes?


Cash: O Grande Golpe (Ca$h, França, 2008).

De: Eric Besnard.

Com: Jean Dujardin, Jean Reno, Valeria Golino, Alice Taglioni, Caroline Proust.

100 minutos.





Estilo, criatividade e eficiência são três qualidades completamente diferentes quando o assunto é cinema. Não é preciso se esforçar muito para fazer um filme estiloso. Basta uma produção sofisticada, movimentos de câmera elegantes, atores carismáticos e diálogos espertos (adjetivo muito diferente de “inteligentes”). Já alcançar o criativo é um pouco mais complicado, já que estamos falando aqui de pequenos lances que fazem o espectador se perguntar porque ele mesmo não havia pensado naquilo. Criatividade é, acima de tudo, um roteirista mostrando o quanto ele é mais competente que seu público. E isso não é de forma nenhuma um insulto, já que teoricamente eles são pagos para isso. Mas não adianta ser estiloso e criativo se tudo isso não esteja embalado por eficiência, habilidade e conhecimento. Um diretor eficiente sabe como equilibrar ousadia e tradicionalismo, como usar o convencional na forma de filmar a seu favor, travalhando em função do roteiro, e nunca sobrepondo seu talento a história que o filme se propõe a contar. Um ator eficiente é aquele que captura o espírito do personagem e converte até os diálogos mais absurdamente artificiais em algo crível, genuíno e inteligente. Saber equilibrar carisma e dramaticidade é fundamental. Dito e absorvido tudo isso, pode-se atribuir três sentenças que explicariam "Cash – O Grande Golpe" com perfeição. Primeira, o filme é integralmente estiloso, se utilizando muito bem do charme europeu e da sofisticação que vem inerente a idéia do velho continente. Segunda, a criatividade é apenas eventual, surgindo em algumas cenas e situações que divertem com aquele gosto de novidade que vem acompanhado dos filmes mais marcantes. Terceira e não menos importante, a eficiência é uma coisa rara no cinema hoje em dia.

Talvez o único gigantesco erro do roteirista e diretor Eric Besnard ("Missão Babilônia") seja se esforçar demais em conquistar o público, deixando as sutilezas de lado e partindo para a comoção fácil e para visuais artificiais demais para encantar, tentando manter o interesse através de uma trama acelerada e esperta demais para seu próprio bem. No meio de toda essa histeria, o roteiro se esquece de cumprir a promessa de um bom filme de assalto com personagens que podem causar alguma reação quando algo sai errado. Não há nenhum traço de ligação entre platéia e personagens que possa elevar "Cash" ao nível de encantamento provocado por "Onze Homens e Um Segredo", apenas para citar um exemplo mais recente. Não que isso apague a acidez bem-medida dos diálogos, o surrealismo sutil presente em algumas situações e a comicidade inegável de algumas cenas, filmadas com habilidade peculiar pelo diretor. A maioria delas surge quando o vigarista Cash (Jean Dujardin) se junta ao mestre dos enganadores, Maxime (Jean Reno), para roubar alguns milhões de euros em diamantes de um poderoso magnata hospedado em um hotel de luxo. É nessa longa seqüência que Besnard mostra onde mora sua verdadeira habilidade como roteirista, trabalhando com o dinamismo de forma espetacular e inserindo pequenos lances de humor que funcionam a perfeição. Pena que os momentos mais sérios decepcionem, o que acaba resultando em um filme irregular, morno em alguns momentos e encantador em outros, que poderia ser uma diversão de primeira categoria se mais eficiência estivesse envolvida no processo. Pelo menos na direção Besnard não decepciona. Auxciliado por uma fotografia luminosa que realça bem os encantos de Paris, o diretor filma tudo com elegância e chega a alguns momentos simplesmente geniais em que sua câmera transforma a cena mais banal no impacto visual mais impressionante.

Não seria de se espantar que Besnard rendesse melhor cineasta do que roteirista, mesmo que "Cash" seja apenas seu segundo filme na primeira função. Outro calcanhar de Aquiles de seu filme é o elenco, incapaz de compreender e traduzir seus personagens com perfeição e notadamente mal-escalados. O protagonista Jean Dujardin, espécie de astro em ascenção da França e intérprete do equivalente parisiente de James Bond em "Agente 117", abusa do sorriso torto e do charme gaiato para tornar artificial um personagem que poderia ser no mínimo apaixonante sob outra interpretação. Outro que escorrega feio é Jean Reno ("Rios Vermelhos"), visivelmente fora de seu ambiente e desajeitado como nunca ao encarnar o homem que pode ser o criminoso mais procurado da Europa (ou não). Parace que o veterano encontra problemas ao passar o mistério com o qual seu personagem foi projetado. Talvez o único acerto nessa área pertença a italiana Valeria Golino, intérprete de uma policial que troca de lado após ver sua carreira ameaçada. Ela ultrapassa as barreiras do óbvio para expressar amargura e sinceridade a cada olhar e constrói um desempenho notável aos poucos. O resultado de toda essa equação de poucos altos e um número considerável de baixos é, como nos ensinou a matemática, um redondo e inexpressivo zero. Para desfazer a metáfora e partir para uma visão mais objetiva, "Cash" não é nem essencial nem memorável, mas não chega a ter tantos equívocos para ser considerado o fundo do poço em matéria de filmes de roubo. Mesmo porque uma hora e meia de estilo sem conteúdo europeu é muito melhor do que duas da inflada pretensão hollywoodiana que aos poucos os críticos estão passando a admirar.

Nota: 6,0

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Revolver - Brilhantismo além da compreensão

Revólver (Revolver, França/Inglaterra, 2005)

De: Guy Ritchie.

Com: Jason Statham, Ray Liotta, Vincent Pastore, Andre Benjamin.

115 minutos.







Segundo Gustav Jung, célebre psiquiatra suíço, o ego é “um dado complexo”, um resultado da combinação entre nossa percepção de nós mesmos e as memórias que acumulamos durante nossa vida. Que me perdoem os profissionais dessa área, mas minha interpretação de tal definição é que, se em algum tempo distante fizemos algo muito importante ou fomos elogiados e celebrados, nossa consciência sempre viverá nessa época, como se estivesse parada no tempo. E um pensamento grande em um momento não tão majestoso pode ser mortalmente perigoso. Desde que surgiu com seus diálogos afiados e ressucitou a inteligência cinematográfica britânica, Guy Ritchie passou por alguns momentos bem distintos de sua carreira. Primeiro, veio a repentina ascenção de cineasta independente ("Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes") para queridinho de Hollywood, também conhecido como o Tarantino britânico ("Snatch – Porcos e Diamantes"). Depois, uma certa estrela pop e pretensa atriz tratou de colocar humildade no então marido com o fracasso retumbante "Destino Insólito", que lhe rendeu, entre outros “elogios”, o Framboesa de Ouro de Pior Diretor. Esnobado pela mesma indústria que o celebrou por breves anos como o “maior talento da nova geração”, Ritchie exilou-se de volta ao seu país natal e maquinou durante longos três anos sua vingança particular contra Hollywood e os egos destruidores que a habitam. O resultado de tanta elaboração é "Revólver", um dos filmes mais inteligentes e subestimados dos últimos anos e um estudo brilhante sobre quem são os verdadeiros inimigos do homem. O fato de o filme ter sido mal-votado pelos críticos e pouco visto pelo público evidencia apenas que nenhuma das duas classes consegue aceitar que um filme não precisa ser compreendido totalmente para ser apreciado. Uma das coisas mais intrigantes e apaixonantes da vida real são os mistérios não resolvidos. É para isso que vivemos, afinal, para ir além das descobertas e o tempo todo abrir novos caminhos. Porque não deveria ser assim também no cinema?

Talvez a dieta de filmes explicados com minuciosidade e didatismo dos grandes estúdios de Hollywood tenha sido prejuducial para os espectadores, afinal de contas. Ou talvez subverter esssa percepção tenha sido exatamente a intenção de Guy Ritchie. Não que ele deixe isso ridiculamente claro em seu roteiro, é claro. Como mestre em redigir histórias, Ritchie encontra na jornada de seu protagonista e nas sutilezas de seu destino uma forma de explorar, mas nunca entender, as sutilezas da mente humana e as ilusões que ela pode criar. O tempo todo, o roteiro deixa quase implícito o que é verdade e o que alucinação. A premissa parece tão simples no início, mas se intrinca com tanta rapidez e detalhismo que é impossível não se ver ansioso pelo desfecho. E, quando chegamos a ele, é quase como se pedíssemos por um pouco mais. E o mais curioso é que em toda essa quebra de clichês hollywoodianos, Ritchie impute uma motivação comum a seu protagonista. Acima de tudo, o Jake de Jason Statham é um homem a procura de vingança. Preso por sete anos em uma solitária, o homem sai da prisão e não precisa de mais de dois anos para reunir todo o dinheiro que precisa para sua revanche. O alvo dela é Macha (Ray Liotta), um violento dono de cassino e teoricamente responsável pela prisão de Jake. As coisas começam a complicar quando ele descobre estar sofrendo de uma grave doença, que pode matá-lo em três dias. Quem se aproveita disso são os trapaceiros Zach (Vincent Pastore) e Avi (Andre Benjamin), que prometem ajudá-lo com a vingança e despistar os capangas de Macha sob a condição de Jake lhes ceder todo o seu dinheiro. A partir daí, as ramificações são complexas demais para serem explicadas em meras palavras.

É impressionante a habilidade de Ritchie em não se perder por tantas subtramas e camadas. Cada pequeno acontecimento tem suas implicações e detalhes expostos com tanto realismo que as referências (brilhantes, diga-se de passagem) de Tarantino ficam obsoletas perto da habilidade de Ritchie. Enquanto o primeiro encontra dificuldades em se adaptar ao novo século, o segundo parece só ter melhorado com a passagem dos anos. E isso inclui a própria câmera do diretor, que não recorre a grande sousadias, mas deixa a trama se desenvolver com competência, uma espécie de estilo próprio e discreto, que combina perfeitamente com o clima sóbrio e fascinante do filme. São poucas, mas marcantes, às vezes que Ritchie se deixa levar pelo estilo caótico que ele mesmo criou uma década atrás. Mais do que nunca em sua filmografia, Ritchie confia plenamente em seus atores para dar uma tradução realista, e ao mesmo tempo etérea, a seus personagens. Jason Statham faz um trabalho louvável com o protagonista, nunca se revelando demais em frente a câmera e transmitindo uma espécie de emoção contida e desavisada. Cada vez mais ousado em suas escolhas, Statham aos poucos deixa para trás a imagem de astro de ação descerebrado, tendo o cuidado de voltar ao gênero eventualmente para garantir a visibilidade. Encarnando mais um hipotético vilão, Ray Liotta entrega o desempenho brutal e eficiente de sempre, visceral como nunca, o ator traduz a perfeição as nuances do personagem, seja nas cenas mais prática ou no final, sobre o qual obviamente não me alongarei. Basta dizer que a expressão de Liotta ao encarar o protagonista pela última vez não deixa dúvidas sobre o talento que o Oscar custa a reconhecer. Surpresa mesmo é o desempenho de Andre Benjamin, misterioso e impassível na pele do semi-místico Avi, dono da devastadora fala final do filme. Frase não, aliás, palavra é um termo mais apropriado. Uma palavra. É o que Guy Ritchie precisa para ganhar o jogo e mostrar a Hollywood o tamanho da genialidade que ela jogou fora. Xeque-mate.

Nota: 9,0