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sábado, 2 de maio de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (02/05/2009)

Nolan concorrido

Era para ser só um pequeno intervalo antes de voltar ao Homem-Morcego. Afinal, é quase natural pensar que um diretor que veio de dois suspenses produzidos com o suor de produtoras independentes precise voltar de vez em quando para suas raízes antes de encarar outra super-produção. Desde que pulou direto do estrelado, mas relativamente modesto, “Insônia” direto para o recomeço do Cavaleiro de Gotham nas telas com o espetacular “Batman Begins”, Nolan já tentou descansar (e encontrou astros e dólares pela frente) com a aventura ilusionista “O Grande Truque” e depois retornou ao mundo da megalomania para realizar a obra-prima que foi “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Antes de terceiro filme do Cruzado de Capa assinalar no horizonte, o diretor anunciou que tocaria um projeto um tanto diferente para os padrões hollywoodianos. Desde que “Matrix” afundou-se no próprio exagero e na vontade de ser épico nas duas continuações, filosofia e contestação como vistos na obra dos Wachowski se tornaram artigo raro e sinônimo de ambição desmedida. Pelo menos até 16 de Agosto de 2010, data para qual está marcada a estréia de “Inception”, novo longa de Nolan que ainda guarda a sinopse a sete chaves no cofre da Warner. A coisa toda começou com a idéia de ambientar um filme de ficção científica dentro da arquitetura da mente humana, premissa que poderia abrir espaço para uma série extremamente interessante de exercícios criativos e estrutura narrativa da qual Nolan já se mostrou mestre ao carregar tramas complicadas com uma leveza e adaptação impressionantes. Enquanto a expectativa para o filme crescia, aos poucos a tal idéia descompromissada foi ganhando adeptos ilustres o bastante para ganhar a confiança do estúdio e um orçamento mais, digamos assim, generoso. Primeiro, Leonardo DiCaprio (“Diamante de Sangue”) topou estrelar a brincadeira assim que as filmagens de “Paciente 67”, novo filme de Martin Scorsese (“Os Infiltrados”) forem completadas. Ao lado dele embarcaram Cillian Murphy e Michael Caine, que já haviam trabalhado com o diretor nos dois filmes do Morcego, além das novatas Marion Cotillard (“Piaf”) e Ellen Page (“Juno”). Outro que havia estava cotado para assumir um papel no filme era James Franco (“Homem-Aranha”), mas ao que parece a longa pré-produção pela qual o longa passa atualmente o afastou do projeto, sendo substituído pelo astro em ascensão Joseph Gordon-Levitt, prestes a entrar em cartaz com “Comandos em Ação” e “500 Days of Summer”. Por enquanto o único a declarar alguma coisa foi Caine, que disse ter um papel pequeno no filme. Em suas palavras: “Acho que vou trabalhar por três dias. Será ótimo, mas se eu disser alguma coisa, Nolan me mata!”.

Os dólares de Verbinski

Correm boatos tão acirrados sobre “Piratas do Caribe 4” que parece quase anti-natural que nenhum deles sequer mencione o nome do marinheiro principal de toda a série, o diretor Gore Verbinski, que além da trilogia também foi responsável por “A Mexicana” e pela versão americana de “O Chamado”. A resposta para a ausência de Verbinski nas notícias não poderia ser mais simples: o americano está ocupado demais para retornar a série que o tornou famoso. Ou pelo menos por enquanto. Seu novo filme, a animação digital “Rango”, dublada pelo mesmo Johnny Depp que eternizou o Capitão Jack Sparrow, está em um processo complicado de pós-produção para lapidar a história de um animal de estimação que foge de casa e parte em uma jornada para encontrar seu verdadeiro sentido de vida. Complexo demais, “Bolt” demais para você? Melhor esperar 18 de Março de 2011 para conferir. De qualquer forma, o outro projeto do diretor, que acaba de entrar em pré-produção, é que anda causando polêmica nos círculos de cinéfilos. Considerado por muitos o vídeo-game de visual mais impressionante jamais feito, “Bioshock” chegou em 2007 para aumentar as vendas do XBOX 360 e contava a história eletrizante de Jack, o único sobrevivente de um acidente aéreo em plenos anos 1960 que descobre uma utopia submarina abandonada cujo segredo de criação pode ser muito mais sinistro do que ele poderia imaginar. Como adaptações cinematográficas de jogos de tiro em primeira pessoa são sempre complicadas, a Universal contratou um roteirista de primeira estirpe para dar vida a trama. O nome é John Logan, responsável por roteiros como “Gladiador”, “O Aviador” e “Sweeney Todd”, que começou o trabalho em cima do game em Maio de 2008 sob a declaração de Verbinski que a pré-produção começaria assim que o roteiro estivesse pronto. Como isso foi a um ano atras e o único rumor desde então foi a possível participação de Wenthworth Miller (“Prision Break”) como o protagonista, as suspeitas levantadas acabaram sendo confirmadas na última semana, quando a Warner anunciou que “Bioshock” passaria algum tempo em molho para “reinventar a si próprio”. Tudo isso porque o orçamento proposto por Verbinski ultrapassava os 160 milhões de dólares. Segundo o diretor, a Universal sugeriu transferir as filmagens para fora do país, visando diminuir os custos da produção, já que eliminaria a cobrança de impostos. Ele disse estar avaliando se isso “seria algo que gostaríamos de fazer”.

Filme de tribunal

 

Normalmente, quando algum desentendimento entre estúdios, diretores e produtores vai parar na justiça é sinal que uma das partes está sendo inflexível demais no processo colaborativo que é fazer cinema. No caso de “Margaret”, por exemplo, essa culpa parece ser, a uma primeira análise, do diretor e roteirista do filme, Kenneth Loregan. Ele, roteirista de renome com “Gangues de Nova York” no currículo e diretor de segunda viagem depois do relativo fracasso de “Conte Comigo” (não o dos anos 1980, o de 2000), tem sido acusado pela Fox Searchlight, dona dos direitos de distribuição de “Margaret”, e pelo produtor Scott Rudin (“A Outra”) de não aceitar absolutamente nenhuma interferência em seu processo criativo e de rejeitar toda e qualquer idéia que se oponha a sua visão do filme. Mas antes de qualquer julgamento, melhor conhecer a história de “Margaret”. Em produção desde 2005 e com pelo menos meia dúzia de datas de estréia diferentes desde então, o filme começa promissor por trazer Matt Damon (“O Ultimato Bourne”) e a sumida Anna Paquin (“X-Men”) como as testemunhas de um gravíssimo acidente de ônibus que tira a vida de dezenas de pessoas. Como foram os únicos a presenciar tal acontecimento, são interrogados pela polícia e se tornam peças decisivas para a determinação se o acidente foi ou não intencional. Tudo isso enquanto se descobrem aos poucos apaixonados, é claro. Ao lado deles nas filmagens estiveram ainda Jean Reno (“O Código da Vinci”) e Matthew Broderick (“Mulheres Perfeitas”), que já havia trabalhado com o diretor em sua estréia e se envolveu na polêmica que hoje envolve o longa ao ceder 1 milhão de dólares do próprio bolso para financiar o longo processo de edição. Imagens das filmagens chegaram a ser liberadas, mas ao que parece toda a briga começou na ilha de edição, onde o diretor se viu preso na determinação do estúdio de que o filme não poderia ultrapassar os 150 minutos de duração. O filme ganhou em moral e expectativa depois que Martin Scorsese, amigo do diretor, viu a primeira versão preliminar e saiu dizendo para quem quisesse ouvir que “Margaret é brilhante, uma obra de arte”. Apesar da moral, a batalha continuou, na época ainda envolvendo o co-produtor Sydney Pollack (“O Leitor”), que faleceu sem ver o filme ganhar os cinemas, o que hoje surge apenas como uma possibilidade, já que os processos continuam correndo na justiça americana.

Vingança em DVD

Muito se disse sobre “30 Dias de Noite” na época em que este foi lançado, no final de 2007. Apesar de bater de frente com o fenômeno “Eu Sou a Lenda” em terras tupiniquins, o filme chegou bem falado pela crítica americana e com a expectativa de uma atuação vampiresca empolgante por parte de Danny Huston (“Número 23”), além do retorno do astro Josh Hartnett (“Xeque-Mate”) ao gênero que o revelou no final dos anos 1990, o terror. Tudo isso somado a direção promissora de David Slade, que havia surgido para o mundo com o assustador conto de fadas ao reverso de “Meninamá.com”. Despretensioso até a medula e com litros de sangue derramado na tela, talvez o filme tenha oferecido bem menos do que se esperava para o público, o que provocou um resultado no mínimo decepcionante nas bilheterias americanas e nem tão empolgante no resto do mundo. Como o resultado da história nos quadrinhos foi bem mais satisfatório depois das três edições originais em 2002, o escritor Steve Niles e o desenhista Ben Templesmith não perderam tempo em revisitar o território e já no ano seguinte apareceram nas bancas com “Dark Days”, a seqüencia oficial da trama. Na nova aventura a protagonista é Stella Olemaun, uma das sobreviventes do ataque a Barlow na primeira série, que se refugia amargurada em Los Angeles e busca um meio de trazer seu marido Euben, morto no ataque anterior, de volta a vida. Tal objetivo só pode ser alcançado se ela souber se aliar as pessoas certas na busca pela amante de Vicente, o vampiro chefe do bando que atacou Barlow. Ao lado dela, o vampiro em busca de vingança Dane e o agente do FBI descrente, Norris, que se tornaria figura recorrente nas continuações não-oficiais. Com uma trama assim tão explosiva e um clímax que promete trazer todos os que não gostaram do primeiro filme para junto do clima da série, pode ser que “Dark Days”, o filme, chegue ao espectador diretamente em DVD. Segundo Niles, o roteiro já está pronto, mas o produtor Sam Raimi (“Homem-Aranha”) se disse satisfeito com o futuro da série no “cinema a domicílio”. Ao que parece, Raimi convenceu o escritor de que o mercado de DVD é subestimado como um potencial criador de filmes cult. Segundo ele: “Dessa forma poderemos desenvolver todos os quadrinhos. Não teremos que lidar com a competição feroz das bilheterias de cinema e, teoricamente, poderemos produzir novas séries e contos”. Ainda é uma incógnita se o elenco original retorna ou não a série.

O retorno de Alice

Enquanto os produtores não decidem se querem ou não mudar a promover Ali Larter (“Heroes”) de coadjuvante a protagonista no vindouro quarto filme da série “Resident Evil” e deixar a Alice de Milla Jovovich (“Ultravioleta”) de lado, a atriz prepara seu retorno as telas de cinemas em outras terras após a parada de dois anos para curtir a maternidade ao lado do marido, o diretor Paul W.S. Anderson (“Corrida Mortal”). Completado e esperando distribuição adequada ela tem “A Perfect Getaway”, thriller de assassinos em série assinado por David Twohy (“A Batalha de Riddick”), que a traz como par romântico de Steve Zahn (“O Sobrevivente”) e parte de um grupo em férias no paradisíaco Havaí que descobre que algum psicopata está matando os turistas na ilha. O filme ainda conta com o sempre eficiente Timothy Olyphant (“Duro de Matar 4.0”) e atualmente está nas mãos da MGM decidir a data de estréia, por enquanto marcada para 14 de Agosto. Já em pós-produção está “The 4th Kind”, dirigido e escrito pelo sempre surpreendente Otalunde Osunsanmi, responsável pelo pioneiro na moda de filmagens amadoras com o terror “A Caverna do Medo”. Ele encara agora a história real de uma cidadezinha no Alaska em que um extraordinário número de desaparecimentos nos últimos 40 anos levanta um movimento popular para forçar o governo do estado a revelar todos os detalhes sobre os casos. Jovovich interpreta uma psicóloga que se envolve com o caso ao atender pessoas com problemas similares aos de seu marido antes de desaparecer. Enquanto a dupla aí não é lançada, Jovovich acaba de se envolver em outros dois projetos que prometem fazer seu barulho. Sua participação em “Keep Coming Back” ainda não é oficial, mas os fãs já ficaram exaltados com a possibilidade de assistir a interpretação mais forte da carreira da atriz ao encarnar uma stripper pela qual o personagem de Mos Def (“16 Quadras”) é apaixonado. Com uma vida cheia de problemas, o jovem comete a loucura de ingressar nos Alcoólicos Anônimos apenas para dividir a sala com sua amada platônica. O presidente das reuniões e diretor de primeira viagem no projeto deve ser William H. Macy (“Motoqueiros Selvagens”). Por fim, Jovovich promete lançar seu vôo mais ambicioso sob o comando do holandês Paul Verhoeven (“Instinto Selvagem”) em “The Winter Queen”, drama histórico baseado em um best-seller que conta a história de um detetive da polícia de Moscou envolvido em uma conspiração de escala nacional que envolve do czar a uma manipuladora femme fatale, papel para o qual Jovovich já foi confirmada. Sem contar os imprevistos, os quatro filmes devem aportar nos cinemas até 2011.

Agente vermelho

Ainda com a arrasadora ficção científica “Surrogates” (na foto) em pós-produção para chegar aos cinemas em Novembro e pronto para começar a filmar sob a direção de Kevin Smith (“O Balconista”) no vindouro “A Couple of Dicks”, Bruce Willis acaba de envolver em seu primeiro projeto adaptado de quadrinhos depois da tradução mais que fiel que foi o “Sin City” de Robert Rodriguez (“Pequenos Espiões”). Não que seja novidade o astro ter sido escalado para viver o protagonista de “Red”, uma vez que mesmo os desenhos de Cully Hammer eram inspirados nas feições do ator. O protagonista é o ex-agente da CIA Paul Moses, que vive isolado do mundo a não ser pelas ligações telefônicas com seu antigo companheiro de ação e pelas cartas com sua sobrinha que vive na Inglaterra. Sua tranqüilidade é abalada quando o novo diretor da agência, promovido pelo próprio presidente, fica sabendo do número de segredos que Moses guarda há tanto tempo e não pensa duas vezes antes de mandar três outros agentes para matá-lo. É claro, o plano não dá certo, e Moses escapa de seu apartamento vivo, pronto para uma caçada que se estenderia por três edições mensais entre o fim de 2003 e o começo de 2004. O roteiro sempre acima da média do consagrado Warren Ellis colocou a série como uma das preferidas dos críticos na época em que foi lançada, mas precisou de cinco anos para ser digerida por Hollywood. A Summit Entertainment, cada vez mais ambiciosa depois do sucesso de “Crepúsculo”, contratou o experiente produtor Lorenzo di Bonaventura (“Stardust”) para colocar a adaptação a caminho e recebeu o retorno quase de imediato com a contratação dos irmãos roteiristas Erich e Joe Hoeber, responsáveis por outra obra baseada na arte seqüencial, o adiado “Whiteout – Morte no Gelo”. Enquanto o diretor e as filmagens não são marcadas, Willis dá um empurrão para a produção de “Inventory”, em que pode interpretar um policial que se infiltra nos Alcoólatras Anônimos para juntar provas contra um dos integrantes do grupo, acusado de assassinato. Outro projeto com o astro envolvido é “Scarpa”, cinebiografia do gângster Greg Scarpa Jr, que foi informante do FBI na família Columbo por 30 anos antes de assumir seu lado criminoso e morrer na prisão em decorrência de AIDs, contraída por uma transfusão de sangue. Tudo isso sem tirar seu nome do elenco de “Pinkville”, que seria o próximo projeto de Oliver Stone (“Platoon”) até a greve dos roteiristas e até agora não se recuperou do baque.

Bom, pessoal, e por hoje é isso… Preparei essas notícias todas hoje para tirar o atras de novidades por aqui. Agora sim dá para se organizar e marcar dias certos para o Boletim vir todas as semanas. Creio que serão quatro dias, mas preciso me organizar… Por fim, quem ainda não entrou, não custa divulgar mais uma vez. O Filme-Pipoca tem comunidade no ORKUT! Quero ver todo mundo por lá, hein? Esse aqui é o link: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=87626813. Valeu pessoal, os melhores filmes para todos sempre e até mais!

quinta-feira, 5 de março de 2009

A Guerra de Hart – O filme errado na hora errada… oportunismos de Hollywood

harthart A Guerra de Hart (Hart’s War, EUA, 2002)

De: Greogory Hoblit.

Com: Bruce Willis, Colin Farrell, Marcel Iures, Terrence Howard.

 

 

 

 

 

 

1944. A Segunda Guerra Mundial, desde o início um perigoso jogo de estratégia e números, estava sendo vencida pelo sangue e suor de soldados que de tudo fizeram por sua pátria e por tudo aquilo que ela representava. Ou talvez eles estivessem apenas tentanto sobreviver em meio a toda a confusão entre pessoas e princípios que eles nem mesmo conheciam verdadeiramente a fundo. A cada dia a luta entre a Alemanha nazista, já com dezenas de territórios anexados, e as forças Aliadas lideradas pelo exército americano se tornava mais brutal e se desencadeava em uma série interminável de ataques e contra-ataques para decidir quem tinha o potencial de destruição maior, quem provocava mais barbaridades. E, é claro, qual seria a cultura preconceituosa que dominaria o mundo pelo próximo século. Corte brusco para 2002. A produção cinematográfica americana baseada nos horrores do holocausto passava por um momento de definição. Depois de obras-primas produzidas no final dos anos 1990, com “O Resgate do Soldado Ryan” e “Além da Linha Vermelha”, o público começava a dar sinais de cansaço para o gênero. Mesmo com diretores do calibre de Jean-Jacques Annaud (“Círculo do Fogo”) e John Woo (“Códigos de Guerra”) lançando suas próprias visões ambiciosas do fatídico período, a linha descendente da bilheteria era incontestável. Dos quase 500 milhões de “Ryan” para os menos de 100 da investida do diretor chinês no subgênero, a queda era clara e a cada novo lançamento a gota d’água parecia mais e mais próxima. “A Guerra de Hart” foi o filme certo na hora errada. E acabou servindo perfeitamente na posição de bode expiatório para o recado final da platéia para o estúdio, que viu seu filme não pagar nem mesmo o próprio orçamento. Injustiça monstruosa para um filme contundente? Talvez não, mas é interessante observar como as coisas acontecem em Hollywood. Tudo é timing na indústria do cinema, e é do oportunismo que as grandes obras tomam formas. Com o falhou nesses dois quesitos, “A Guerra de Hart” foi considerado o mais descartável de uma série de filmes que se encaixariam perfeitamente nessa definição. Se tivesse sido lançado alguns anos antes, no auge da comoção cinematográfica em torno da Segunda Guerra, talvez tivesse se tornado um grande sucesso. Um pouco mais além, talvez o nosso presente fosse uma oportunidade melhor para um filme como esse, uma época em que preconceito racial em todos os níveis da sociedade virou tema popular nas produções cinematográficas. Isso sem contar que quase tudo em “A Guerra de Hart” parece precipitado.

A começar pela parceira no roteiro, reunindo dois nomes que poderiam causar furor entre os críticos atualmente, mas não passavam de roteiristas pouco notáveis, com poucos trabalhos verdadeiramente louváveis em 2002. Billy Ray e Terry George fazem um bom trabalho, mas o estilo dos dois não entra em sintonia em nenhum momento. É quase como se víssemos dois filmes. O primeiro, um suspense cheio de intrigas e personagens ambíguos, obra sem dúvida de Ray, que ficou conhecido no mundo do cinema apenas meia década depois, com o superestimado “Quebra de Confiança”. O outro, uma discussão pretensamente densa sobre os méritos da guerra, que vai além da simples dissertação sobre o preconceito para adentrar em um terreno mais complexo, marca incontestável do homem que nos presenteou com um épico humano de protesto e emoção, “Hotel Ruanda”. Juntos, eles desconstroem a novela-base de John Katzenbach (“Justa Causa”) em uma obra que não deixa nunca perder a vista a própria dualidade, funciona em alguns momentos e se mostra falha em outros, mas acima de tudo passa longe de merecer o destino que lhe foi fatalmente incutido. Acompanhamos aqui o ponto de vista do Tenente Thomas Hart (Colin Farrell), um estudante de direito filho de um senador que se alista no exército, mas é obrigado a desempenhar funções burocráticas graças a proteção do pai. Insatisfeito com a própria estagnação enquanto os soldados enfrentam o inimigo na linha de frente, ele conhece o horror da guerra ao ser capturado por um grupo de alemães e levado para um dos campos de concentração para prisioneiros de guerra, onde enfrenta uma situação no mínimo peculiar. Sob o comando falsamente compreensivo do Coronel Werner Visser (Marcel Iures), é permitido a realização de uma corte de justiça para investigar a morte de um dos prisioneiros americanos, uma possível retaliação pelo assassinato a sangue frio de um dos primeiros oficiais negros mantido sob cárcere no lugar. É claro, as suspeitas recaem no ex-companheiro do morto, Lincoln Scott (Terrence Howard), e é partir daí que as duas vertentes do filme se dividem claramente entre a racionalidade e a denúncia. Coincidência ou não, a primeira alcança mais eficiência que a segunda, construindo cenas de tribunal e simples diálogos que chegam a um nível de tensão impressionante. “A Guerra de Hart” funciona melhor como entretenimento descompromissado e um tanto irrealista do que como um filme-denúncia que expõe a deplorável situação de preconceito dentro do próprio exército americano. Não que o filme não levante questões importantes, é claro. Faz pensar se realmente o lado vitorioso foi aquele que menos levantava preconceito sem precisar glorificar o nazismo para isso. Toma uma posição de imparcialidade impecável, chega até mesmo a impressionar o quanto a imagem estereotipada de lados bem definidos na Segunda Guerra é desmistificada. Mas nunca consegue manter a regularidade, carecendo de um pouco mais de densidade para atingir em cheio o raciocínio do espectador e, quem sabe, mudar realmente alguns dos conceitos mais arraigados em nossas mentes. Em suma, fica no meio do caminho em busca de inovação.

E, é claro, tem uma série de outros equívocos técnicos. A começar pelo diretor Gregory Hoblit (“Um Crime de Mestre”), fora de seu terreno de seuspense, no qual nem mesmo é tão bom assim, e escorregando a cada take pelo andamento acelerado em demasia ou a tentativa forçada de criar uma estética marcante para um filme que deveria impressionar pelo conteúdo. Se até hoje Hoblit é um daqueles diretores que ainda não encontraram seu ritmo certo, seis ou sete anos atrás essa definição seria um mero eufemismo para as deficiências do texano. A despeito do comandante, o elenco se sai bem com seus personagens definidos em sombras e insinuações. Colin Farrell protagoniza, e vê-lo atuar é como observar uma pedra preciosa brilhar por trás de um vidro embaçado. Um pouco antes da maturidade (que veio completamente em “Na Mira do Chefe”), o ator é totalmente dependente do roteiro para dar a sua interpretação de Hart algum sentido. O resultado é um desempenho que, assim como o script, varia entre o notável e o entendiante. Terrence Howard (“Homem de Ferro”) é outro que ainda não havia encontrado sua forma peculiar de incorporar personagens na época, entregando uma atuação que dá pistas fortes de um grande futuro, mas nunca decola completamente. É nesse ponto que os veteranos Bruce Willis e Marcel Iures se destacam, representando os dois elemenos realmente bem escolhidos de um filme cheio dos prematuros. O último, um dos atores romenos mais destacados da atualidade, conhecido pela participação na trilogia “Piratas do Caribe”, surge envelhecido e sereno para emprestar fascinação as palavras do roteiro. Já Willis, conhecido pelos anti-heróis cativantes, se despe do carisma para se encher de ambigüidade e se tornar o personagem mais marcante e o único verdadeiramente comovente em uma galeria de outrso nem tão memoráveis. Tanto é assim que ele é o pivô do clímax do filme e o olho do furacão, um coadjuvante que rouba a cena do protagonista para trazer o filme para si e dar a história um elemento de referência. Em um mundo sem hipocrisia, “A Guerra de Hart” receberia mais atenção apenas por essa interpretação, essencial para entender uma carreira e esquecida por muita gente. É uma pena que tais circunstâncias sejam tão impossíveis.

Nota: 6,5

 

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Os Doze Macacos – Contestação, emoção e Terry Gilliam

12 monkeys

12 monkeys

Os Doze Macacos (Twelve Monkeys, EUA, 1995).

De: Terry Gilliam.

Com: Bruce Willis, Madeline Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer.

129 minutos

 

 

 

 

O que é uma obra-prima? Quem, afinal, julga os critíerios para classificar um filme como lixo cinematográfico ou obra essencial para o entendimento da sétima arte? Às vezes a humanidade é tão complexa, complicada, repleta de trâmites e ramificações que fica difícil responder certas perguntas. Então nosso cérebro aprende a não formulá-las, deixa-las guardadas em alguma região sombria da memória mais arraigada. Contestação, afinal, nunca foi o forte de nossa espécie. Para seres tão evoluídos, não é estranho pensar que os filósofos que realmente tentam entender a vida a sua volta são exceções a uma regra? E pior, uma regra de humanos robóticos que seguem aceitando e destruindo o mundo a sua volta, dia após dia, deixando as preocupações para trás e culpando “o sistema” por tudo isso. Quem desafia o tal sistema, nada contra a maré e quebra as regras inventadas por sabe-se lá quem, é chamado de louco. Em certo ponto de “Os Doze Macacos”, a doutora Kathryn Reilly (Madeline Stowe), deixa escapar a seguinte pérola: “a psiquiatria é a mais nova religião. Nós dizemos o que é certo e o que é errado, o que é normal e o que é loucura... e todos aceitam”. Os críticos renomados são os psiquiatras, os sacerdotes do cinema. São eles que dizem se um filme vale a pena ou não ser visto, que eternizam as obras que sua visão considera como melhores e que condenam outras, as chamadas “bombas” cinematográficas. Mas a verdade é que julgar um filme, assim como julgar a loucura, é uma tarefa subjetiva, que exige respeito e ao mesmo tempo determinação, mas que acima de tudo parte de uma série de experiências de vida que o julgador tem guardadas na memória. Como Alan Moore indagou brilhantemente duas décadas atrás: “quem vigia os vigias?”. Ainda não estamos falando de “Watchmen”, mas não é tão absurdo dizer que “Os Doze Macacos” é tão contestador e revolucionário quanto a obra-prima em quadrinhos de Moore. Aqui, os artistas são outros, mas a forma de manipular uma história fictícia para retumbar na realidade continua a mesma.

O roteiro do casal David & Janet Peoples, responsável pelo faroeste revisionista “Os Imperdoáveis”, de Clint Eastwood, criam toda uma trama paranóica futurístico-apocalíptica para dar suporte às mesmas questões levantadas no início desse texto. Para começar, o script não perde tempo com sutilezas e metáforas, deixando clara a crítica que pretende fazer e casando perfeitamente com a forma peculiar de guiar de Terry Gilliam (“Brazil – O Filme”). A trama não é fácil de resumir: James Cole (Bruce Willis) vive em um futuro pós-apocalíptico em que um vírus obrigou os sobreviventes a viverem no subsolo, enquanto a superfície voltou a ser dominada pelos animais. Numa mistura confusa de exploração e coleta de dados, ele é escolhido para voltar ao passado, na tentativa de descobrir a origem do tal vírus e, ao invés de impedi-lo de se espalhar, recolher uma amostra para que ele seja estudado pelos cientistas de sua realidade. Na primeira tentativa, ele acaba indo parar a seis anos antes do planejado, e conhece a Dra. Reilly (Madeline Stowe), uma psiquiatra que acaba simpatizando com o homem, tratado como louco e trancafiado em um manicômio ao lado de figuras grotescas como Jeffrey Goines (Brad Pitt), espécie de psicopata controlado com tendências paranóicas. Os três são conduzidos com habilidade pela trama de forma a se tornarem peças fundamentais na trama maior que se esclarece aos poucos, mas mantém o segredo até o último minuto, onde os equívocos de uma sociedade cheia de pré-julgamentos é exposto sem piedade. Mas além de se tornarem personagens notáveis pela história em que são env olvidos, eles são acima de tudo seres humanos levados pela hipotética loucura, anti-heróis cativantes que tornam o delírio de “Os Doze Macacos” em algo empolgante de se acompanhar. E é claro que os intérpretes acabam recebendo a responsabilidade de manter o interesse nas alturas, e fazem isso com competência, ainda que inconstante.

Bruce Willis se utiliza de todo o seu carisma de herói falível para contruir um Cole fascinante, que passa praticamente o filme inteiro como “um cego em tiroteio”, mas nem por isso se torna um personagem irritante. A confusão que o ator expressa é genuína, sincera, hipnotizante e digna de apreciação. Madeline Stowe, que em 1995 estava no auge da fama hoje perdida e trabalhando com diretores como Robert Altman (“Short Cuts'”) e Michael Mann (“O Último dos Moicanos”), é o elo mais fraco da corrente, mas segura alguns dos momentos mais tensos da trama com competência o bastante para não estragar o resultado. Indicado para o Oscar por sua interpretação visceral e um tanto caricata, Brad Pitt traduz bem a loucura que vai de inofensiva a perigosa em poucos segundos. É impossível negar que a inflexibilidade de seus trejeitos grotescos é admirável, assim como o caráter marcante de sua interpretação. Com gente assim envolvida, a câmera de Terry Gilliam, ex-membro do Monty Python e subseqüente diretor de obras como “O Pescador de Ilusões” e “Medo & Delírio”, indefectível em seus movimentos dinâmicos, closes claustrofóbicos e âgulos imprevisíveis só faz aumentar a natural fascinação que a obra exerce. O trabalho do diretor em climatizar seu filme é notável, se valendo de cortes bruscos e diálogos que soam inacabados (e, por isso mesmo, mais reais) para passar a sensação de confusão que seus personagens. E quando chega a hora de esclarecer tudo e filmar o emocionante clímax, ele substitui toda a estranheza por um bem-calculado detalhismo, filmando toques, olhares, e conseguindo trazer a câmera lenta de volta para os recursos eficientes. Depois de seus 129 minutos, a sensação é que assistir “Os Doze Macacos” é ver a combinação do rigor técnico e racional de Kubrick com o sentimentalismo eficiente, complexo e inesquecível de Spielberg. Tudo isso combinado com a genialidade de Terry Gilliam e uma trama que não vai sair de sua memória por um bom tempo. Mas esse é meu julgamento, uma visão que pode não ser a sua. Assista e tire suas próprias conclusões. Para o bem ou para o mal, uma coisa todos os espectadores hão de aprender: não existe verdade absoluta.

Nota: 8,5