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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Novo Boletim Cinéfilo – Edição Nº01

clakete boletim

Novo Boletim Cinéfilo – Edição Nº01 – Filme-Pipoca - 03/08/2009

Parte I - Rumores: Piratas de volta a voga, novas refilmagens (só pra não perder o costume), a guerra de Bruckheimer e o sim de Sir Scott.

piratas 

Foi há quase quatro meses, no começo de Abril, que o primeiro balde de água fria caiu sobre o projeto de continuar a saga Piratas do Caribe em um quarto episódio. A trilogia original tinha seu segundo episódio entre os filmes mais assistidos de todos os tempos, rendera dezenas de nominações as categorias técnicas do Oscar e ainda ganhou lugar garantido na história do cinema ao revelar ao grande público o talento e a versatilidade de Johnny Depp, que fez do Capitão Sparrow logo aí em cima um dos ícones do novo século, roubando cenas daqueles que teoricamente deveriam ser protagonistas, o casal de bibelôs britânicos feitos por Orlando Bloom e Keira Knightley. Agora, dois anos depois do que parecia ser o fim da franquia, os rumores de sempre sobre uma continuação ganharam força com declarações de interesse por parte de Depp e do produtor, espertíssimo, Bruckheimer. Acontece que todo o resto do time não pareceu tão empolgado, e logo foi anunciado que os personagens de Bloom e Knightley não estariam no novo roteiro, de novo redigido por Terry Rossio, responsável pela trilogia original e por outros blockbusters eficientes como Déja Vu. Depois de rumores que hoje parecem infundados sobre o comediante Russell Brand (Ressaca de Amor) atuando na pele do irmão do capitão, por fim, quem desistiu da franquia foi o diretor Gore Verbinski, dono da câmera dos originais, que partiu para tocar o atribulado Bioshock. A saída do diretor parece ter baqueado a Disney, uma vez que o produtor Oren Aviv só pouco tempo atrás conseguiu falar com firmeza sobre o assunto, dizendo que a procura por um novo diretor está em andamento para o começo das filmagens ainda em 2010. Sete dias depois disso, o candidato que mais provocou sensação na mídia a cadeira de diretor foi Rob Marshall, o homem por trás de Chicago e Memórias de Uma Gueixa, sempre muito esmerado em seus visuais. Claro, não passa de um rumor. Mas será que Bruckheimer pensou que o diretor se sentiria bem em cenários do nível desse aí em cima? Só esperar o contrato ser assinado.

jesus christ superstar

Hollywood não tem limites em sua busca por mais lucro e investimento garantido. Se o objetivo for mesmo levar o público ao cinema e encher os cofres de algum grande estúdio, os executivos de preto presos em salas burocráticas são capazes de remexer na memória, nos clássicos e até na religião, assunto evitado como praga pela maioria das formas de arte. Portanto, se um dos três remakes que aparecerão nesse texto mexer em alguma parte delicada demais para você, não esmurre seu computador nem esbraveje contra mim. Não é nada pessoal, e no fim tudo o que eles querem mesmo é seu dinheiro. Dito isso, a rodada de hoje de refilmagens anunciadas pela já nem tão nova crise criativa da capital do cinema começa com, pasmem, Jesus Christ Superstar. Para quem não está familiarizado com o nome basta pensar em uma visão musical, teatral e herege da última semana de vida de Jesus segundo a Bíblia, tudo num palco da Broadway e sob o texto cheio de sarcasmo do consagrado Andrew Lloyd Weber. A peça pode ter gerado protestos em pleno começo da década de 1970, mas foi o filme, de três anos depois, que deu a trama status de cult da dramaturgia moderna. Agora, mais de três décadas depois, o filho do Homem deve voltar ao cinema com sua jornada alternativa, tudo bancado pelo recente investimento da Universal em musiciais e sob a câmera que pode ser do inexperiente Marc Webb, cuja estréia, a comédia (500) Days of Summer, ganhou elogios da crítica americana. É claro que os planos da terra do cinema para reciclar idéias não param por aí e tem como alvo preferencial a nostalgia dos mais velhos, que viram o mito dos Gremlins crescer sob a direção do mestre do cinema trash Joe Dante e agora podem preparar a pipoca para vê-los surgir em um novo século, tudo sob a supervisão do próprio Dante, que parece não ver motivos para deixar a trama de lado e assumiu a direção do remake. Por fim, a lista do dia termina com Captain Blood, projeto já comentado há algum tempo para refazer a aventura lançada em 1935 e estrelada por Errol Flynn. Agora o remake ganhou os irmãos Michael e Peter Spierig, roteiristas responsáveis pelo inédito Daybreakers, na autoria do roteiro e Philip Noyce (Perigo Real e Imediato) disposto a assumir o cargo de diretor.

bruck

Sorriso torto, barba mal-feita, cabelo fora de moda, rugas prematuras indisfarçáveis pela maquiagem. Alguns devem estar acostumados com o rosto aí em cima, mas aqueles que não o estão são bem capazes de julgá-lo abaixo da realidade. Difícil acreditar que o homem franzino e de certa forma pitoresco na foto é, sem nenhum exagero, a figura mais poderosa da Hollywood atual. Se o rosto não é o bastante, então o nome de Jerry Bruckheimer já deve ter cruzado seus olhos antes do início de um arrasa-quarteirão americano ou nos créditos finais de um seriado televisivo badalado. O estranho é que pouca gente dentro da terra do cinema acreditava que ele pudesse sobreviver sozinho após a morte do parceiro Don Simpson em 1996, logo depois da finalização de A Rocha. É claro, o meio bilhão de dólares que fez Armageddon foi o bastante para acabar com essa impressão, e desde então o produtor tem ocupado o posto de nome mais valorizado do cinema ianque com filmes que quase nunca esbarram na ousadia, mas são diversão mais do que garantida. Boa notícia? Ele não pensa em parar tão cedo. Só no próximo ano seu nome está envolvido em duas mega-produções, a adatpação de video-game Prince of Persia e o remake em live-action do clássico da animação tradicional Aprendiz de Feiticeiro, ambos com a vinheta da Disney antes da primeira imagem. Mas a bola da vez no cronograma futuro de Bruckheimer parece mesmo serem os filmes de guerra, que nunca foram o forte na sua filmografia. Falha que pode ser revertida em Killing Rommel, thriller da Segunda Guerra focado nos esforços do exército britânico para derrubar o lendário Erwin Rommel, oficial nazista conhecido como “Raposa do Deserto”. Num campo mais atual de batalha, Horse Soldiers é a adaptação literária sobre o grupo de agentes invadindo o Afeganistão em uma operação ultra-secreta para desbaratar o Talibã. Depois de passado e presente, por fim, ele embarca para uma guerra do futuro similar a da série Exterminador do Futuro na adaptação da graphic novel World War Reboot, que narra a batalha final entre humanos e máquinas na Terra, na Lua e em Marte. Pela marcha das coisas, os três devem chegar aos cinemas em 2012.

ridley

O pior dos psicopatas é aquele podemos entender. Por mais que seja aterrorizante, sufocante e cheio de paranóia e maestria técnica, nunca foi possível determinar porque Alien – O Oitavo Passageiro se tornou um filme tão atemporal e universalmente perturbador. Historicamente, foi um divisor de águas, um suspense de ficção que definiu pra sempre um conceito diferente de volta as raízes do cinema, psicológico e cheio de sombras, paranóico e claustrofóbico sem deixar de ser fortemente visual e violento. Mas para além dessa importância, Alien foi um filme sem mocinhos e vilões, sem estereótipos e sem a inocência de valores que marcaria o cinema da década seguinte a sua. Havia um monstro seguindo seu instinto, que fora tirado de seu habitat natural e havia o grupo de pessoas distintas que lutavam para sobreviver e ainda assim não deixavam de se digladiar entre si. Prova disso era Ash, andróide disfarçado dono de mais cenas aflitivas e mais repulsão pura e simples do que o próprio monstro, desenhado com maestria perturbadora pelo artista H.R. Giger. Ainda assim, não teriam Ash e o Alien motivos até mais comprensíveis que os dos próprios humanos? A perturbação, no final, não vinha do clima, mas da condição. Vilões mais motivados que heróis. Bela revolução e estratégia que só poderia ser traduzida pela câmera do mestre dos mestres Ridley Scott, na época um jovem sem poucos créditos notáveis, hoje o grisalho lorde inglês aí em cima, que, surpresa para os fãs da série, parece ter se cansado de ver sua obra-prima ser dilacerada por filmes como Alien Vs. Predador e aceitou de novo tomar as rédeas da história da Tenente Ripley para uma prequel, que está sendo planejada pela Fox há algum tempo, mas ganhou força com a confirmação que Scott está disposto a voltar. A própria Weaver disse que confia plenamente no diretor, e que gosta da idéia de dar ao monstro uma origem própria. Resta esperar que nenhum Predador se meta na frente da câmera dessa vez.

Parte II – Trailers: irmãos alternativos, guerreiros solitários, raposas em família e uma dona de casa desesperada de verdade.

A Serious Man (2009)

Direção: Joel Coen, Ethan Coen.

Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen.

Elenco: Michael Stuhlbarg, Adam Arkin, Richard Kind, Sari Lennick.

Sinopse: O ano é 1967, e o protagonista é o professor do Meio-Oeste americano Larry Gopnik, um fracassado que vê sua vida desmoronar quando a esposa se prepara para deixá-lo, tudo porque seu estúpido irmão, do qual Larry cuidou a vida toda, não quer sair de casa.

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Mais uma vez os irmãos Coen fogem do esquema hollywoodiano de se levar a carreira e fazem um filme que soa extremamente pessoal ao mesmo tempo que atinje em cheio o modo de vida medíocre de toda uma sociedade que se acostumou ao fracasso pessoal e profissional. A sinfonia montada por sons bizarros vindos de cenas progressivamente mais pitorescas mostra que os dois não perderam a veia cômica, cada vez mais sofisticada e combinada com críticas sociais que devem soar alto na interpretação promissora do desconhecido Michael Stuhlbarg. Ao seu lado, Adam Arkin promete momentos de diversão culpada na pele do irmãos retardado do protagonista, tudo permeado pelo grande domínio narrativo dos Coen, autores do roteiro. Promete o que pode cumprir, e não é pouco.

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 Data de estréia: 02/10/2009 (EUA, circuito limitado)

The Book of Eli (2010)

Direção: Albert Hughes, Allen Hughes.

Roteiro: Gary Whitta.

Elenco: Denzel Washington, Michael Ganbon, Gary Oldman, Mila Kunis.

Sinopse: Num mundo pós-apocalíptico, um homem solitário atravessa a América destruída para proteger um livro que pode conter o segredo para salvar toda a humanidade.

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Trailers de filmes de ação podem ser os mais enganadores e difíceis de interpretar, mas não é preciso uma mensagem tão clara para pegar no ar as dicas do que o filme pode ser. Aqui, o destaque é claramente o visual criado pelos irmãos Hughes, que não pegavam na câmera há impressionantes oito anos desde o fracasso do suspense sangrento Do Inferno, mas parece não ter perdido o faro para cenas de ação que de convencionais não tem nada. Sem a edição frenética e a câmera sem controle que marca os atuais modismos, a beleza da violência é quase palpável, seja em uma explosão ou em uma luta brutal filmada toda na base de sombras. Denzel Washington, por outro lado, não parece tão inspirado quanto seus comandantes, entquanto o trailer desperdiça a chance de dar um aperitivo da volta de Gary Oldman aos vilões.

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Data de estréia: 15/01/2010 (EUA)

The Fantastic Mr. Fox (2009)

Direção: Wes Anderson.

Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach.

Elenco: Meryl Streep, George Clooney, Owen Wilson, Michael Ganbon, Willem Dafoe, Bill Murray, Adrien Brody, Anjelica Houston.

Sinopse: Baseado na novela do escritor infantil Roald Dahl, Anderson compôs um insólito drama familiar sobre uma família de raposas que precisa se defender das investidas de um fazendeiro cansado de dividir sua produção com os animais.

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“Esqueça o super. Ignore o incrível. A hora é do fantástico!”. Simples assim, com palavras quase surpreendentes de tão óbvias, o trailer de Fantastic Mr. Fox consegue ir, em meros dois minutos e meio, da pura estranheza direto para a cativação mais inesperada dos últimos anos. Mérito de Wes Anderson, o homem por trás de Viagem a Darjeeling, o autor do roteiro que adapta a obra infantil clássica do mesmo autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate ao lado do queridinho da crítica Noah Baumbach (Margot e o Casamento). Com uma trama familiar que tem raposas como protagonistas nas mãos, Anderson chamou uma trupe de peso para dublar personagens pitorescos e criou um produto que é ao mesmo tempo visualmente artístico e inesperadamente cativante. A distribuição brasileira, ainda bem, já está garantida.

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Data de estréia: 04/12/2009 (Brasil)

My One and Only (2009)

Direção: Richard Loncraine.

Roteiro: Charlie Peters.

Elenco: Renée Zellweger, Logan Lerman, Kevin Bacon, Nick Stahl.

Sinopse: Em plenos anos 1950, acompanhamos uma glamourosa dona de casa que atravessa o país a procura de um novo marido pra bancar o elevado nível de vida dela e de seus filhos.

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Os elementos em comum são demais para não ligar My One and Only a pouquíssimo notada comédia romântica nostágica O Amor Não Tem Regras, que George Clooney dirigiu em 2006 para descansar de dois filmes sérios demais e que a mesma Renée Zellweger co-estrelou na pele de uma mulher independente e ousada para sua época que trazia por trás da personalidade explosiva uma paixão a ser descoberta. Em resumo, é o mesmo papel da inglesa nesse novo romance de Richard Loncraine (Wimbledon), que aposta na atriz e na química com o jovem Logan Lerman (Os Indomáveis) para carregar uma trama que parece não ter nenhuma inovação nos caminhos que toma, algo no mínimo irônico para um road movie.

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Data de estréia: 21/08/2009 (EUA, circuito limitado)

Parte III – Posteres e imagens: Sandler nos palcos, Kutcher brincando com fogo, Binoche de vota a terra e a última da Disney.

funny people 1

A mistura pode não ter funcionado como poderia na primeira tentativa, mas alguém duvida que uma hora ou outra a parceria entre um dos maiores astros da comédia americana e o diretor mais badalado no gênero do momento vai produzir uma obra-prima cômica? As chances de Funny People, ao menos, são bem mais substanciais do que as de uma bobagem sem personalidade como Zohan. Veja bem, há Sandler exercitando seu lado agridoce como um comediante de palco que pode estar morrendo, Seth Roger na pele de seu melhor amigo e um roteiro que promete quilos de metalingüagem assinado por Judd Apatow, dono dos créditos por Ligeiramente Grávidos. Alguma chance remota de ser algo tão repugnante quanto um agente secreto israelense que viaja a Nova York e se torna o cabeleireiro com a vida sexual mais ativa de todos os tempos? É esperar a Universal resolver lançar a pérola por aqui.

jogando com prazer 

Nikki, o protagonista da improvável trama de Jogando com Prazer, não é apenas mais um jovem perdido na vida que se joga a um mundo de drogas, prazeres e crimes sem saber onde está se metendo e sem um objetivo qualquer em mente. Não poderia o ser nas mãos do polêmico, mas sempre brutalmente competente David Mackenzie, diretor que fez fama com o voyeurístico Olhar do Desejo e agora traz para as telas a história de um jovem que vive a vida como um jogo. De conquistas e de privilégios que vão se escalando sem realmente se importar quão significante cada degrau realmente é. Justamente quando parece estar no paraíso, com uma namorada linda e rica, aproveitando o melhor da vida, porém, Nikki se apaixona. Romântico, não? Nada que um seguro Ashton Kutcher não consiga levar para um novo nível, tudo enquanto o diretor destila o melhor de sua ambientação visual. O resultado estréia em 25 de Setembro.

paris

O cineasta francês Cédric Klapisch ficou conhecido no mundo todo pelo filme-coral O Albergue Espanhol, um drama de riqueza impressionante que passeava por realidade e ficção com distinção tremenda. A coisa pode ter mudado um pouco de figura e de foco, mas é mais ou menos a mesma sensibilidade visual e de roteiro que se deve esperar de sua mais nova peripécia, intitulada Paris, que deveria ter chegar ao Brasil no começo do mês passado mas, ao que parece, deve aportar mesmo só em DVD. Quando acontecer, não deixe de conferir a trama levada nas costas pelo ator-fetiche do cineasta, Romain Duris, atuando como um dançarino com problemas cardíacos que passa dias melancólicos observando a capital francesa em plena dança frente aos seus olhos, que vigiam da janela de um apartamento. A mudança é introduzida na chegada de Élise, sua irmã mais velha, feita por Juliette Binoche.

prince of persia

Mike Newell já saiu ileso, e ainda vitorioso, das pressões envolvendo o quarto capítulo da série mais vista de todos os tempos, Harry Potter. A marcação dos fãs do video-game que inspirou a produção do vindouro Prince of Persia: Sands of Time, portanto, devem ser a última de suas preocupações no momento, finalizando a pós-produção de sua nova obra com Jerry Bruckheimer ao lado e a Disney pressionando para um adiantamento praticamente impossível de data. Enquanto o filme ainda está marcado para Maio do ano que vem, dá para curtir os primeiros posteres lançados na rede, que mostram Jake Gyllenhaal pronto para a batalha em uma encarnação fiel ao personagem original e os olhos hipnotizantes da ex-bondgirl Gemma Arterton adornando o sugestivo slogan de uma palavra só. “Destino” parece ser a palavra-chave na nova super-produção hollywoodiana, mas ainda faltam dez meses para conferir se o do filme é mesmo uma bilheteria gloriosa.

Bom, primeiro os esclarecimentos: esse formato é um protótipo para o novo Boletim, estou aberto a sugestões, críticas, comentários, tudo. Só quero mesmo mudar, porque senti que não estava mais funcionando do jeito certo. A idéia foi mesmo diminuir o tamanho dos textos e passar mais informação… E é isso, espero que tenham gostado! Os melhores filmes para todos vocês e até mais!

domingo, 21 de junho de 2009

Filadélfia – Amor, contradição e emoção verdadeira em uma obra-prima importante e eterna.

phila 

Filadélfia (Philadelphia, EUA, 1993).

De: Jonathan Demme.

Com: Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Jason Robards, Joanne Woodward.

125 minutos.

Não é fácil nem mesmo falar sobre amor, que dirá criar um do nada. O sentimento mais nobre do ser humano é de uma complexidade e inconstância tremendas, impossíveis de se mapear, prever ou simular. Há um certo caráter único sobre cada tipo e cada espécie de amor que torna ainda mais árdua a tarefa dos que ousam tentar defini-lo, domá-lo ou, tão freqüentemente, usá-lo para enriquecer uma obra de ficção. Talvez por causa de tamanha complicação, histórias de amor dependem de momento, de intenção, de uma concordância quase cósmica entre quem estava atrás da câmera e quem está sentado na platéia, para funcionar em uma sala de projeção. É claro, nesse processo está envolvida muita ponderação, precisão mais do que cirúrgica, e as probabilidades de todas essas barreiras ficarem para trás quando gente talentosa está envolvida são infinitamente maiores. Filadélfia é uma história de amor, mas não uma convencional. É uma história de amor fraterno, de um afeto e um envolvimento construídos aos poucos por lados aparentemente antagônicos que se juntam por uma causa e, como num passe de mágica, desfazem as próprias contradições. É uma narrativa habilidosa, cheia de camadas e de emoção verdadeira impossível de descrever, que chega ao final e faz aflorar as lágrimas sinceras que qualquer outra história romântica sempre sonhou. É um triunfo, de cinema e de realidade, que tem algo a dizer para o mundo fora de sua encenação realista, mas não perde o foco nos personagens e nos seres humanos que eles precisam se tornar para envolver a platéia da forma necessária para que a mensagem seja passada e aquela trama deixe as marcas profundas que foi feita para deixar. Sim, Filadélfia é um filme com uma causa a defender, é parte do engajado cinema-denúncia que tantas vezes os críticos desprezam como “panfletagem inútil” ou qualquer outra expressão cínica que prefiram usar. Mas é também uma jornada de emoção verdadeira e andamento tão lento quanto a deterioração da doença que todos temiam no início da década de 1990, quando o filme foi lançado e a AIDS ainda era uma praga desconhecida que provocava medo e reações irracionais. Afinal, a vida de cada um estava em jogo, e não parecia antiético, ao menos naquele momento, discriminar alguém que, você pensava, poderia te condenar a uma lenta e dolorosa morte se chegasse perto demais. Quem sofria com isso, é claro, eram os atingidos pela síndrome, que tinha que lidar com uma população pouco informada sobre o mal que temiam e acabavam jogados de lado, descartados, isolados. Discriminados. Na época, não parecia preconceito, mas hoje talvez fosse um caso fácil de se resolver na justiça. Os tempos mudaram, mas como toda verdadeira obra-prima, Filadélfia continua grandiosa e tocante, resistindo bravamente ao tempo que mudou todas as circunstâncias de sua trama, que poderia até soar banal, distante dos dias de hoje, se não tivesse seres humanos de verdade envolvidos. É por eles, e não por uma causa, que derramamos todos nós nossas lágrimas.

Concentrar narrativas em personagens capazes de envolver o público sempre foi uma estratégia infalível para criar grandes obras, e é seguindo justamente esse caminho que Filadélfia encontra seu diferencial e seu ponto de decisão entre a emoção barata e a verdadeira. É notável, porém, imaginar o quão menos envolvente a mesma narrativa poderia soar nas mãos de um roteirista menos sutil e sensível que o inconstante Ron Nyswaner (O Despertar de Uma Paixão), encontrando o pico de sua carreira na história improvável de um homem que desafia o sistema e luta pela própria liberdade em um mundo que tem medo dele próprio. Sim, porque Andrew Beckett é um pioneiro, um obstinado explorador de novos caminhos que encontra uma causa própria para dedicar sua limitada, quem sabe até curta, vida. Andrew é o jovem e talentoso advogado que se torna a estrela em ascensão de uma conservadora firma, é presenteado com os casos mais importantes e apresenta sem medo suas opiniões ousadas ao chefe, encantando com seu talento. Isso até todos descobrirem que Andrew é homossexual e, ainda mais, é portador do vírus da AIDS. A desventura motivada pelo medo e pelo preconceito leva Beckett a buscar paz em um processo contra seus ex-empregados, criando um caso na justiça que nenhum outro advogado, em sã consciência, aceitaria. É na busca por um defensor da lei que o caminho de Beckett cruza com o de Joe Miller, advogado negro conhecido do povo americano graças a suas propagandas televisivas sobre direito do consumidor, um aventureiro capaz de correr riscos que, dizem, nenhum outro em sua área aceitaria. Justamente o que Beckett precisa, ou pelo menos é isso que parece até descobrirmos que Miller, além de não ter nenhuma informação concreta sobre a AIDS, é homofóbico. É de fato um grande passo a frente para um filme com esse tipo de trama que os dois simplesmente não se unam de uma vez, contrariando os próprios princípios no que seria chamado pelos críticos mais inocentes de “ímpeto de ousadia” ou “espírito de inovação”. Aqui, as coisas acontecem em seu ritmo natural, e a habilidade de Nyswaner ao conduzir a integração dos dois protagonistas, contradições íntimas em pessoa, é notável. As cenas de tribunal, então, são demonstrações do talento de um roteirista capaz de criar diálogos memoráveis e situações marcantes sem precisar tornar os personagens dentro delas bidimensionais. Ironicamente para um roteiro que trata e se utiliza tão bem de oposição de idéias e sentimentos, não há nenhum momento em que as ações de um personagem soem falsas, precipitadas ou atípicas. Tudo corre conforme deveria. De algum modo, soa como se tivesse acontecido de verdade, e esse nível de realismo muito influi no envolvimento que Filadélfia provoca no espectador. Enfim, é por causa da liga forte do roteiro de Nyswaner que cada um dos outros talentosíssimos elementos envolvidos em Filadélfia conseguem brilhar com tamanha intensidade, sem nunca ofuscar a importante, relevante e emocionante história que se passa na tela.

A começar por Jonathan Demme, um dos mais subestimados grandes mestres do cinema americano. Em um de seus momentos de maior glória na carreira, ele seguiu o suspense O Silêncio dos Inocentes, filme que lhe rendeu a estatueta da Academia de melhor direção, com esse épico dramático e polêmico que estreou prometendo trazer uma mensagem importante em um envoltório dramático que provocava medo entre os pouco chegados a um bom drama. No final, o Filadélfia construído por ele se mostrou uma obra capaz de transpassar gêneros e gostos para soar forte na razão e na emoção de qualquer um que fosse capaz de olhar a sua volta e ver alguma coisa. Com controle narrativo irretocável e uma câmera que se despiu de modismos para simplesmente vigiar uma trama que falava por si mesma, Demme faz um trabalho memorável observando desempenhos interpretativos espetaculares e construindo uma ambientação que muito merece de mérito pelo envolvimento que Filadélfia provoca no espectador. Em especial na cena do último depoimento de Beckett em corte, uma das mais aflitivas e opressoras da história do cinema, sua câmera é elemento fundamental para a compreensão absoluta do que ocorre em tela. É vigilante, é detalhista, é inteligente, mas acima de tudo é parte indissociável do cenário que compõe. Em suma, Demme é quase como os brilhantes olhos privilegiados do espectador, e realiza um trabalho que merecia mais destaque do que teve a época do lançamento do filme. A bem da verdade, porém, uma direção tão competente foi jogada de escanteio pela causa nobre da forte impressão que os atores em cena, mais especialmente a dupla de protagonistas, provocou no público. E eles são os culpados por traduzir um roteiro complexo em emoções simples e fascinantes que transparecem não em rostos de atores, mas em rostos de personagens. A começar pelo protagonista absoluto de Tom Hanks, aqui no papel que lhe rendeu o primeiro de dois Oscar seguidos, quebrando seu próprio paradigma de ator cômico para brilhar em uma performance completa, plena em cada segundo de tela e absolutamente dominante dos momentos em que a câmera de Demme se concentra em vigiá-la. Seu Andrew Beckett é carismático, luminoso, perseverante e adorável, mas tem um toque de amargura na voz e um brilho triste nos olhos que não se traduzem em palavras porque são complexos demais, mas reluzem na interpretação de Hanks. Muito se disse sobre a cena em que seu personagem recita uma passagem da ária “Andrea Chenier”, e de fato se trata de um desempenho apaixonado, entregue, não menos do que perfeito, cheio de emoção que atinge o espectador de uma forma que poucas outras produções, cinematográficas ou não, jamais conseguiram. Ao lado dele, é claro, Denzel Washington não deixa por menos em uma das numerosas e memoráveis performances que entregou ao seu público durante o começo da década de 1990. Na pele de Joe Miller, o ator faz jus ao roteiro e cria emoções autênticas, contidas, mas especialmente retumbantes, para representar um personagem que, nas mãos de outro qualquer, poderia ficar sob a sombra da grande e carismática figura de Beckett. Não é o caso na interpretação acertadíssima do grande ator que Washington sempre foi, aqui entregando fechamento e humor a um único tempo, fazendo de Miller tão protagonista quanto Beckett, da forma como foi idealizado no roteiro. Entre os coadjuvantes, vale destacar a presença cheia de classe de Jason Robards (O Dia Seguinte) no vilanesco papel do ex-chefe de Beckett e a galhardia competente de um jovem Antonio Banderas (A Lenda do Zorro) como o namorado latino do mesmo. Virtudes menores que tem pouco tempo para brilhar em um filme que concentra sua narrativa e encontra a mais pura das emoções, do triunfo ao remorso, do começo ao fim. Afinal, não é o amor a própria contradição?

Nota: 9,0

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (29/04/2009)

TMNT begins

“Teen Mutant Ninja Turtles”, ou simplesmente TMNT, é o nome que os americanos e os fãs mais radicais espalhados pelo mundo usam para se referir a franquia conhecida pelos mais leigos simplesmente como “Tartarugas Ninja”. Um enorme sucesso na transição dos anos 1980 para os 1990, o grupo super-heróico de tartarugas adolescentes modificadas geneticamente e batizadas com nomes de pintores do Renascimento foi protagonista de uma série de TV em animação que durou uma dezena de temporadas, além de uma trinca de filmes para cinema que viraram freqüentadores assíduos da Sessão da Tarde até pouco tempo atrás. Um tanto esquecidas no novo século, as tartarugas amantes de pizza retornaram a todo o vapor em 2007 com a super-produzida animação digital “Tartarugas Ninja – O Retorno”, produção que garantiu a Weinstein Company ao menos uns poucos dólares em um ano turbulento. O filme comandado pelo estreante Kevin Munroe e dublado por gente de categoria como Laurence Fishburne (“Matrix”) e Patrick Stewart (“X-Men”), não demorou para render seus frutos na terra do aproveitamento total que é Hollywood. Enquanto a repentina popularidade não passa, a capital do cinema deve aproveitar a oportunidade para capitalizar em cima dos fãs ao produzir uma nova versão live-action (assim como a trilogia dos anos 1990) protagonizada pelo quarteto de super-heróis. Kevin Eastman, que entre outras manias oitentistas ajudou a criar a série original, já declarou em seu fórum virtual que está animado com a possiblidade de um enredo reinventando (outra vez) a origem do grupo. Nas mãos da Warner Bros, o filme pode ser “um retorno às origens e uma chance de introduzir novamente o Destruidor, entre outros detalhes” segundo Eastman. Outro co-criador da série que se pronunciou sobre o novo filme foi Peter Laird, que causou estranhamento aos fãs ao declarar que a produção está sendo influenciada pelo clima de “Batman Begins”. Segundo ele, “apenas contar o que aconteceu no primeiro número da revista em quadrinhos dos personagens resultaria em um filme muito curto, portanto acredito que outras tramas da série devem aparecer”. A idéia de ver atores vestindo roupas de tartarugas ainda não agrada, mas quem sabe a tecnologia infinita de Hollywood não dá um jeito? É esperar 2011 para ver.

Trash duas vezes

piranha_poster_01

Em 1978, faziam apenas três anos que Steven Spielberg havia se tornado tudo o que conhecemos hoje com o sucesso estrondoso de “Tubarão”. Aventuras sobre peixes assassinos nunca foram exatamente o forte de Hollywood, mas como toda moda está aí para ser aproveitada, um novato Joe Dante (“Gremlins”) se valeu da premissa para surgir para o mundo com seu trash assumido e divertido no cult-clássico “Piranha”, de título auto-explicativo. Feito com menos de 1 milhão de dólares, o longa era o exagero em forma de imagem, não apresentando nenhuma justificativa plausíveis para as piranhas super-desenvolvidas que atacavam os hóspedes de um hotel em suas corredeiras particulares. Tudo desculpa para uma aula de cinema de terror trash e 90 minutos de puro massacre em águas turvas. Como era de praxe na década de 1980 (e anda mais raro nos últimos tempos, ainda bem), o filme ganhou uma continuação picareta logo no ano seguinte, que chamou a atenção por ser o primeiro trabalho do ainda desconhecido James Cameron (“Exterminador do Futuro”) na direção. Um quarto de século e um remake televisivo que passou em branco depois, as piranhas assassinas ressuscitaram para a capital do cinema ante a moda do 3D que abriu o espaço como nunca para filmes de monstros atraírem a platéia como um ímã. A bem da verdade, a refilmagem de remake está sendo comentada nos círculos cinéfilos desde 2005, quando Chuck Russell (“O Máskara”) era o responsável pelo novo roteiro. Na visão dele, a nova epidemia de ataques marinhos seria causada por um terremoto que abre caminho para piranhas pré-históricas saírem de uma cratera milenar e aterrorizar a população. Não por acaso, ele ficou no cargo só até 2007, quando o diretor Alexandre Aja (“Espelhos do Medo”) embarcou no projeto e exigiu que o roteiro passasse por uma reestruturação, o que acabou o conduzindo as mãos do próprio ao lado de Josh Stolberg (“Maldita Sorte”) e Pete Goldfinger (“Avatar”). Com as filmagens atrasadas e já com a tecnologia 3D agregada a sua produção, “Piranha 3D” (Hollywood não perde mesmo essa mania) ganhou um elenco surpreendente para uma série que sempre teve desconhecidos atuando. Elizabeth Shue (“O Homem Sem Sombra”) protagoniza ao lado de Adam Scott (“Quase Irmãos”), e dos experientes Ving Rhames (“Missão: Impossível III”) e Richard Dreyfuss (“Poseidon”). A refilmagem deve chegar aos cinemas em 19/03/2010.

Irmão poderoso

Tony Scott pode não ter a sombra do prestígio do qual o irmão mais velho desfruta, mas isso não o impede de sair na vantagem de quando em quando. Quieto em seu canto desde que não fez mais do que o de sempre em “Déja Vu”, Tony pode retornar em grande estilo no que pode ser a aventura mais explosiva e ousada dos últimos tempos. Tudo isso enquanto o irmão anda com problemas para colocar na agulha sua versão do mito de “Robin Hood” ao lado do parceiro Russell Crowe (“Uma Mente Brilhante”). Em comum, ao menos, os dois tem associados de altíssimo nível. Se Ridley tem o ator mais rigoroso e perfeccionista do nosso tempo, Tony tem Denzel Washington (“Dia de Treinamento”), que não passa longe da mesma definição. Se o ator realmente embarcar no thriller “Unstoppable”, o que soa como incrivelmente provável, seria o quinto filme tocado pela dupla, que se mostrou eficiente em “Maré Vermelha” e “Chamas da Vingança”, mesmo que tenha escorregado no final do segundo tempo com o recente “Déja Vu”. Ainda assim, é de se confiar em um diretor de ação incrível e um ator tão talentoso unidos para contar a explosiva história da tentativa de dois homens comuns em impedir um vagão sem direção a provocar um dano material e humano sem precedentes. O tal veículo carrega uma carga tóxica tão grande que, caso derramada em um provável descarrilamento, pode dizimar uma cidade do tamanho de Nova York. E não é que o sempre contundente Mark Bomback (“Duro de Matar 4.0”) teve a audácia de localizar a ameaça na Grande Maçã? Não é pouco se pensarmos que o mundo americano ainda vive a sombra e a lembrança do 11 de Setembro, o que abre espaço para uma trama tão simplista significar bem mais do que pretende ou poderia pretender. O primeiro convocado pela 20th Fox para dirigir o projeto foi Martin Campbell (“007 – Cassino Royale”), que pulou fora para se envolver com uma dezena de outros projetos, incluindo o esperado “Edge of Darkness”. Depois de finalizar o polêmico remake “The Taking of Pelham 123”, sobre o assalto a um metrô protagonizado pelo próprio Washington ao lado de John Travolta (“Hairspray”), Scott tratou de fazer o projeto engatar uma marcha mais veloz para chegar aos cinemas entre o fim desse ano e o começo de 2010. Ao que parece, o astro confia em seu comandante. Sempre bom sinal.

Princípio do punk

Se tivesse se tornado esportista, cantor de algum gênero popular ou escritor, a história de Ian Dury seria hoje uma daquelas que são lembradas como exemplos de vida e superação. Seu nome seria exaltado nos documentários baratos que pipocam por aí sobre pessoas que foram além de alguma limitação para se tornarem algo inacreditável ou extraordinário. Mas ele preferiu seguir um caminho mais obscuro e se tornou uma lenda por ser um dos pioneiros do movimento punk que nos acompanha até hoje em uma variedade grande de bandas entre 1971 e 2000, quando faleceu aos 57 anos. Alternativo, polêmico, super-ativo, Ian Dury hoje é um nome que passa em branco pela maioria das pessoas. Ou pelo menos até “Sex & Drugs & Rock & Roll”, sua cinebiografia, chegar aos cinemas em meio a onda causada pelo sucesso inesperado do independente “Control”, sobre outra figura fascinante que não se encaixava no mainstream, Ian Curtis, líder da banda Joy Division. Depois do filme dirigido pelo novato holandês Anton Corbijn faturar bem mais do que se esperava, foram anunciados filmes baseados na vida de figuras como Kurt Cobain e John Lennon, que aliás já foi tema de pelo menos uma dezena de filmes. Ian Durys é o patinho feio desse trio, mas suas história pode surpreender. Nascido em 1942 em alguma pequena cidade inglesa, Ian Robbins Dury contraiu a paralisia infantil, ou pólio, aos sete anos, em 1949. Ele passou mais de três anos internado com graves infecções e total falta de movimentos nas pernas. Ensinado pelo irascível ambiente do lar para crianças desabilitadas onde passou toda sua infância, Dury se tornou uma pessoa determinada, focada e extremamente criativa. Fez apenas quatro anos da escola convencional antes de entrar para um prestigiado colégio de artes britânico, onde eventualmente se tornou professor. Com os movimentos limitados, Dury fez teatro, apresentações performáticas que eram consideráveis impossíveis para sua condição e encontrou realização na música quando ainda explodia o rock progressivo, formando o Kilburn and the High-Roads, banda de pouco sucesso que não passou do primeiro álbum. O The Blockheads, banda que rendeu-lhe o cargo de fundador do punk, foi em mais longe com suas letras espertas (a maioria do próprio Bury) e som pesado e independente que caracterizou o movimento. Dury não foi derrotado por suas limitações, mas por um câncer que o matou em 2000. Oito anos depois, seu filme ganha elenco estrelado que conta com Andy Serkis (“Coração de Tinta”), Naomie Harris (“Extermínio”) e Ray Winstone (“Indiana Jones e O Reino das Caveiras de Cristal”), que tem título inspirado no maior sucesso de sua carreira solo, que veio a se tornar o lema de qualquer punk que se preze.

Bom, pessoal, e por hoje é só isso mesmo… estou tentando estabelecer uma rotina, mas está meio difícil… acabei de perceber que ando bem atrasado com as notícias, mas aos poucos a gente vai ficando informado juntos, certo? Espero vocês sempre por aqui, sempre apreciando o cinema. Bom, como vocês já devem ter notado aí na coluna do lado: O Filme-Pipoca agora tem comunidade no Orkut! O link para quem não viu é esse aqui: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=87626813. Espero vocês por lá também. Os melhores filmes para todos vocês sempre e até mais!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (02/04/2009)

Puro indie

De uma hora para outra, ser indie virou moda. Não acredita? Basta ver as evidências cabais dos últimos anos. “Pequena Miss Sunshine”, o vencedor moral do Oscar de melhor filme em 2007, uma das comédias dramáticas mais cativantes da história e uma obra seminal para quem quiser entender como uma família de verdade funciona. E um filme de puro charme indie. Logo em seguida, veio “Juno”, a unanimidade do ano e um filme doce e ácido na mesma medida que conquistou o prêmio da Academia de melhor roteiro original. Mais indie do que uma adolescente grávida soltando tiradas sarcásticas cheias de referências pop seria até demais. Não por acaso, depois da arrasadora estréia de Diablo Cody como roteirista, astros do cinema independente viraram potenciais grandes protagonistas de super-produções com público quase garantido. A adaptação dos clássicos quadrinhos de faroeste “Jonah Hex”, por exemplo, deve começar a filmar em breve com a aura forte que Josh Brolin (“Milk”) ainda possuí no papel principal e uma trinca de outros nomes um tanto underground para acompanhá-lo. Ao lado do pistoleiro de rosto deformado estará Will Arnett (na foto), comediante mais conhecido do grande público pela participação em “Escorregando Para a Glória” e um par de outros filmes estrelados pelo amigo Will Ferrell (“Mais Estranho Que a Ficção”), que por si mesmo já está virando sinônimo de diversão independente. Sem nenhuma amizade famosa para ajudar, ele foi escalado para atuar na adaptação a ser dirigida por Jimmy Hayward, que deve estrear na experiência live-action depois de “Horton e o Mundo dos Quem”. Ele deve interpretar um soldado americano que alista o protagonista para a Guerra e acaba cegado pela batalha agressiva dos adversários. Como pouco da trama foi revelada, é difícil ver como isso se liga com um evento de gladiadores sangrento que pode ser comandado pelo personagem de Michael Shannon, um ilustre desconhecido antes da indicação ao Oscar por “Foi Apenas um Sonho”. Para completar o cast indie, o inconstante John Malkovich (“Queime Depois de Ler”) deve ser um pai amargurado que culpa o protagonista pela morte do filho e a jovem Megan Fox (“Transformers”) terá de segurar a barra como única grande estrela do filme no papel de uma ladra habilidosa que cai de amores por Hex. O filme do pistoleiro deve estrear em Agosto de 2010.

Sinal dos tempos

Se na vida tudo é passageiro, em Hollywood esse processo é pelo menos uma dezena de vezes mais acelerado e, quem diria, passa longe de ser irreversível. De tempos em tempos, modas vão e voltam na terra do cinema, revivals massivos de alguns modismos de décadas atrás acontecem a cada ano e os temas parecem nunca se desgastar e sempre encontrar seu caminho em direção a um novo olhar. A recente moda dos futuros distópicos e pessimistas, por exemplo. Herança direta da literatura de ficção científica conhecida como cyber-punk que viveu seu auge nos anos 1950 e chegou ás telas com força na década de 80 em filmes como “Blade Runner” e “Westworld”, essa forma marginalizada e sombria de colocar o futuro da humanidade até agora não encontrou sua representação maior nas preocupações do século XXI. Francis Lawrence chegou perto em sua segunda obra, o vampiresco/monstruoso “Eu Sou a Lenda”, mas esbarrou nas exigências comerciais de uma terra do cinema que não se importa com o tempo que passe. Afinal, o público nunca se cansa do espetáculo descerebrado. De qualquer forma, a chance é grande de que a próxima obra do diretor revelado nos clipes e no elegante e forte “Constantine”, finalmente alcance esse lugar e, vã esperança, desperte novas idéias na Hollywood estagnada que vemos hoje. “A World Without Us” não tem nem mesmo um roteiro pronto, mas já empolga pela proposta inovadora. Se na ficção estrelada por Will Smith (“Homens de Preto”) a parceria do cineasta com o roteirista Mark Prosotevich (“Poseidon”) quase funcionou a perfeição, porque não eliminar o único elemento humano da receita? Na nova obra da dupla, que é a próxima da fila de Prosotevich depois de concluir o remake de “Oldboy”, não sobrou ninguém para contar a história. O motivo é uma incógnita, mas o fato é que “A World Without Us” deve explorar a idéia de um inesperado desaparecimento de qualquer forma humana da Terra. Em tempos em que a natureza é a preocupação maior, pode apostar que o tal sumiço vai ter conseqüências drásticas para o meio ambiente. E não se trata de um documentário, para quem desconfiou. Essa hipótese foi descartada pela Fox, que comprou os direitos da obra.

Investigações com Cronenberg e Sonnenfeld

Diretores de versatilidade largamente comprovada e, cada um a sua medida, marcas incontestáveis da história do cinema, David Cronenberg e Barry Sonnenfeld podem não ter sido os nomes mais notáveis desse início de século XXI, mas prometem chegar a casa dos sessenta causando polêmica e admiração em toda uma nova geração de cinéfilos. O primeiro anda bastante falado nos últimos dias, primeiro por causa do anúncio da primeira continuação de sua carreira, exatamente de seu última obra, o violento e elegante (a um tempo) “Senhores do Crime”, sobre a máfia russa. Ainda assim sem uma bilheteria respeitável desde “A Mosca”, no longínquo 1986, o canadense promete fazer as pazes com o público embarcando na onda “Bourne” que invadiu os cinemas nos últimos anos e adaptando mais uma obra de Robert Ludlum para o cinema. Falecido recentemente, o escritor da trilogia do espião mais instintivo da história da literatura e do cinema foi seduzido pelo charme estranho das tramas de serial killer e fez de “O Círculo Matarese” sua visão dobre o gênero. Na mente do escritor, um espião russo e um americano se juntam uma missão sem precedentes para capturar um assassino em série que vem fazendo vítimas em ambos os países, conhecido como Matarese. O diretor já está escrevendo o roteiro, já que se viu insatisfeito com o trabalho de Michael Brandt & Derek Haas (“Os Indomáveis”). Vinculados ao projeto desde o início do ano passado, os respeitáveis nomes de Denzel Washington (“Chamas da Vingança”) e Tom Cruise (“Operação Valquíria”) como os protagonistas continuam interessados e Cronenberg disse estar experimente a nova sensação de “escrever especificamente para dois atores”. Em um tom mais cômico como é de seu feitio, Sonnenfeld promete acertar a mão na comédia depois do mediano “Férias no Trailer” ao narrar a história de uma família de detetives que passa por uma crise quando a filha mais nova fica indecisa se deve ou não seguir a carreira. “The Spellman Files” é adaptação do livro de Lisa Lutz e tem a dupla de “Maldita Sorte” no roteiro.

Nota de luto: Maurice Jarre

Cinema é imagem e som unidas em equilíbrio e harmonia perfeitas. Definição simples, pura e mais verdadeira impossível. Talvez por isso uma trilha-sonora verdadeiramente encorpada soe tão fundamental para um filme quanto respirar é para nós. Mas assim como os atos e detalhes mais maravilhosos, uma trilha-sonora precisa acima de qualquer coisa soar natural, indispensável e ao mesmo tempo tão corriqueira e significativa quanto as palavras que ali estão sendo ditas. Música é cinema, e cinema é música E ninguém sabia melhor disso que Maurice Jarre. Francês de nascença e americano por adoção, esse excepcional compositor veio ao mundo com seu ouvido abençoado a 13 de Setembro de 1924. Apaixonado por música, o cinema lhe apareceu em 1959, quando foi creditado pela primeira vez como o compositor da trilha-sonora de “La Tête contre lês murs” (em tradução livre “Cabeça contra o muro”). Mas foi ao usar todo seu domínio de percussão e climatização para abrilhantar o já clássico “Lawrence da Arábia” que Jarre se tornou um astro da música cinematográfica e saiu vitorioso com o primeiro de seus três Oscar. O que se seguiu foi uma carreira profícua com quase 200 títulos e outros dois prêmios da Academia (por “Doutor Jivago” e “Passagem Para a Índia”) que se juntaram a mais dois Globos de Ouro (“Nas Montanhas dos Gorilas” e “Caminhando nas Nuvens”) e quase duas dezenas de outros troféus concedidos como reconhecimento imortal a um compositor que eternizou suas notas e sua alma ao sincronizá-la com as imagens, sublimes ou não, da arte completa que é o cinema.

Em memória de Maurice Jarre *13/11/1924 +29/03/2009.

Bom, pessoal, e por hoje é só isso mesmo… como sempre obrigado por todos os comentários, é sempre bom receber um retorno dos leitores porque isso guia qualquer blogueiro que queria seguir em frente, saibam que dou suma importância aos comentários e tento retribuir as visitas sempre que posso. Mas enfim, agora me resta desejar os melhores filmes para vocês e dizer até amanhã!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (13/02/2009)

O tempo passa...

Em meio ao enorme sucesso da série de livros de bolso "Nancy Drew", história de uma detetive adolescente adaptada para o cinema inúmeras vezes, os garotos ganharam seus próprios investigadores infanto-literários. "The Hardy Boys" teve mais de 60 volumes entre 1927 e 1979, assinado por diversos autores, a maioria assinando sob o pseudônimo de Franklin W. Dixon. Continuada em forma de uma igualmente duradoura série em quadrinhos, o fracasso da última adaptação da detetive juvenil não desanimou a 20th Fox a prosseguir com a adiada produção "The Hardy Men", espécie de “atualização” adulta das aventuras dos irmãos, que no original ajudavam o pai, um investigador particular, a solucionar casos que lhe eram trazidos. A idéia do roteirista Ed Solomon, responsável por roteiros como "MIB – Homens de Preto" e "As Panteras", é transformar os adolescentes em adultos e colocá-los resolvendo um caso por conta e risco. A entrada do roteirista no projeto é recente, já que desde 2006 se fala sobre "The Hardy Men", que já teve Simon Kinberg ("Sr. e Sra. Smith") redigindo. Mesmo com a mudança, o diretor Shawn Levy ("Uma Noite no Museu") continua intacto no cargo, assim como seu parceiro Ben Stiller, que ainda pode trazer o astro Tom Cruise a reboque depois da participação hilária do último em "Trovão Tropical".

O homem múltiplo

O diretor e roteirista Curtis Hanson já ocupou praticamente todos os “níveis morais” de Hollywood. Já foi cineasta independente cheio de estilo e potencial comercial ("Sweet Kill", "Losin’ It"). Logo depois, foi tachado como promessa que não vingou e cineasta ambicioso demais para suas habilidades ("Sob a Sombra do Mal", "O Rio Selvagem"). Mudou radicalmente de direção e se tornou o queridinho do Oscar e da crítica por um curto tempo, se tornando uma das promessas para o próximo século ("Los Angeles – Cidade Poibida", "Garotos Incríveis"). Então remou uma vez mais contra a maré e passou a atrair astros para projetos independentes apenas pela honra de ser dirigido por um nome como o dele ("Em Seu Lugar", "Bem-Vindo ao Jogo"). Mas ele parece ter se cansado de lutar contra as tendências, ou alguém pode tirar outra conclusão quando um cineasta com esse currículo assume um projeto problemático do explosivo produtor Jerry Bruckheimer ("A Lenda do Tesouro Perdido")? Pois é o americano de 63 anos o mais forte candidato a comandar "Gemini Man", que trocou de estúdio e roteirista três vezes na desde 2000 e agora descansa sob a guarda da Disney, que contratou o roteirista David Benioff ("Tróia") para desenvolver a história de um assassino caçado por um clone jovem de si mesmo.

O assalto ao metrô pagador

Apenas os nomes envolvidos já fazem os fãs de thrillers de assalto ficarem com água na boca. Na direção, a perfeição técnica e a competência em provocar tensão do inglês Tony Scott ("Jogo de Espiões", "Déja Vu"). No roteiro, a violência bruta e a complexidade psicológica habitual de Brian Helgeland ("O Troco"). Em cena, uma dupla que promete fazer história se confrontando: Denzel Washington e John Travolta, contracenando pela primeira vez, em lados opostos da lei. A trama é absurdamente criativa e potencialmente revolucionária: um grupo de assaltantes armados (comandados por Travolta) seqüestra um trem do metrô e numa atitude completamente inesperada, faz exigências para a polícia, mesmo que aparentemente não haja saída para a situação. Além dos dois astros, o filme conta ainda com James Gandolfini ("Família Soprano"), colaborador habitual do diretor. Ou seja, "The Taking of Pelham 123" tem tudo para ser um dos arrasa-quarteirões mais eletrizantes da temporada 2009. É claro, se não fosse pelo fato que é baseado em outra produção, homônima, de 1974, que tem centenas de fãs maníacos espalhados por aí. Foram eles que postaram comentários de repúdio em relação ao recém-lançado trailer da refilmagem e aconselharam a Deus e mundo que ignorem o novo filme e comprem o DVD do original. Enfim, coisa de fã, mas "The Taking of Pelham 123" continua marcado para estrear em Setembro.

Fora de Wall Street

Em 1987, com a globalização ainda engatinhando, o centro financeiro do mundo era Nova York e sua cobiçada Wall Street, que Oliver Stone retratou com fidelidade e uma boa dose de sarcasmo em "Wall Street – Poder e Cobiça", filme que rendeu o Oscar de melhor ator para Michael Douglas e seu explosivamente carismático Gordon Gekko. Um dos bordões do personagem, usado a exaustão em produções posteriores era "Money Never Sleeps" (“o dinheiro nunca dorme”), que veio a se tornar alguns anos atrás o título de uma suposta continuação da trama. Por muito tempo, foi só boato. Do final de 2007 para cá, Stone lançou o pouco lembrado "W", filme sobre a vida o presidente George Bush, recém saído da Casa Branca. Douglas também deu a volta por cima, com o sucesso-supresa independente "O Rei da Califórnia". O ator já tinha se pronunciado no começo do ano passado, dizendo que adoraria voltar ao personagem, mas precisava ter a certeza de que seria um bom roteiro. Stone, agora envolvido no problemático "Pinkville", disse que por muito tempo pensou em idéias para uma continuação ao lado do roteirista Stanley Weiser ("De Costa a Costa"), mas chegou a conclusão que não poderia lidar com a economia globalizada em um roteiro. Ele declarou ainda que acha que os produtores tem um projeto muito interessante em mais, mas enfatizou que não quer seu nome envolvido em "Money Never Sleeps".
Bom, gente, e por hoje é isso... agradeço a todos os comentários como sempre, realmente é uma grande recompensa escrever o blog para leitores tão atenciosos... bons filmes para todos vocês e até a próxima!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Coragem Sob Fogo - Patriotismo, culpa e a "estrutura Rashomon"

Coragem Sob Fogo (Courage Under Fire, EUA, 1996).

De: Edward Zwick.

Com: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamon Phillips, Matt Damon, Scott Glenn.

117 minutos.








Reconhecidamente uma das narrativas mais intrincadas e criativas da história do cinema e também um dos filmes mais influentes do século passado, "Rashomon", filme de 1950 do mestre nipônico Akira Kurosawa, contava a história de um crime sob quatro diferentes pontos de vista, que em suas contradições levavam o espectador sutilmente à verdade (ou parte dela, pelo menos), tendo como cenário o Japão do século XII. O filme e sua forma de conduzir a história foram tão inovadores e abriram tantas possibilidades que desde então se cunhou o termo “estrutura Rashomon”, que diz respeito a qualquer filme que se utilize de várias formas de ver um determinado acontecimento, sempre guiado por uma linha mestra com um personagem na busca pela verdade. Até hoje, roteiristas mundo afora se apropriam da idéia do mestre para tecer tramas de mistério que vão do mais intrigante ao mais dispensável. Como se trata apenas de uma estrutura, um modelo de narrativa e não de tema, a “estrutura Rashomon” normalmente é usada para tornar mais instigante uma história que pode ser embalada das mais diversas maneiras. Para citar um exemplo recente, "Ponto de Vista" optou por usar oito diferentes visões para dar certo frescor a uma história contada milhares de vezes antes (atentado ao presidente americano). Já "Coragem Sob Fogo", dirigido por Edward Zwick no ano de 1996, prefere discutir até onde deve ir o patriotismo, explorar os mecanismos da culpa, e ainda tocar na delicada questão da quebra de preconceitos apressada e muitas vezes pouco fundamentada. Discutir assuntos assim tão sérios em um filme realizado dentro da “estrutura Rashomon” pode ser uma armadilha mortal, afinal tanto pode acontecer de a forma passar por cima do contudo quanto de a criativa narrativa ficar aqpagada por discussões muito maçante.

Kurosawa obviamente era perfeitamente capaz de passar por cima dessas dificuldades, tanto como diretor quanto como roteirista, e o resultado foi o clássico que hoje enfeita o “apelido” da estrutura. Embora não domine tanto a área quanto seu inspirador, Patrick Sheane Duncan ("Tempo Esgotado") não faz um mau trabalho ao guiar a história através dos relatos de quatro soldados presentes em um marcante acontecimento durante a operação Tempestate do Deserto. Para quem não sabe, a operação consistiu em uma violenta e decisiva invasão empreendida pelos EUA ao Kwait, visando livrar o país da ocupação das tropas iraquianas e dando início a primeira Guerra do Golfo. Embora filmes contundentes sobre as polêmicas decisões políticas e diplomáticas tomadas nessa época façam falta, "Coragem Sob Fogo" escolhe (com inteligência) trilhar outro caminho. O acontecimento que levanta toda a investigação e os relatos contraditórios se dá depois da batalha, quando um helicóptero comandado por Karen Walden (Meg Ryan) é abatido ao tentar eliminar alguns poucos soldados iraquianos que estariam atacando um outro helicóptero, acidentado na areia do deserto. Uma noite passa-se no deserto, e o resultado no dia seguinte é o resgate de todos os tripulantes, menos Karen. Um ano depois, Nat Serling (Denzel Washington) é designado para investigar a concessão de uma medalha de honra póstuma para a pilota, que seria a primeira mulher a recebê-la. Mas o que o exército quer não é uma busca meticulosa, mas uma breve revisão para ratificar a verdade (ou não) e oficializar o ato que poderá levantar a moral do povo americano, descrente em seu próprio país. Nat, porém, tem seus motivos para ser obcecado pela verdade.

Durante a mesma operação, ele comandou um tanque de guerra que por engano acabou abatendo um veículo aliado onde estava um de seus melhores amigos. Ele se considera culpado, mas seu superior quer que ele seja absolvido, e encontra uma maneira de manipular os fatos. Para ele, já basta a mentira que ele mesmo terá que suportar. Em conflito consigo mesmo e dono de uma jornada que caminha paralela com as descobertas no caso de Karen, é incrível a habilidade com que o personagem é construído, criando uma ligação forte e emocional com o espectador que se mostra fundamental ao final do filme. Excelente ator como sempre foi, Denzel encarna a culpa de Serling com facilidade, transmitindo numa atuação sutil e contida toda uma série complexa de emoções. Desempenho, como sempre, acima da média. Já surpresa é a interpretação de Meg Ryan, diferenciando com habilidade extrema as duas “Karen’s” que figuram nas contraditórias histórias de seus quatro subordinados. Dos coadjuvantes, destaque para a participação já marcante de Matt Damon como um dos mais fundamentais “contadores de história” e o veterano Scott Glenn ("O Silêncio dos Inocentes"), perfeito na pele de um repórter que se junta a Serling na busca pela verdade. A difícil tarefa de quilibrar drama, batalhas (em pequena ou grande proporção) e o natural suspense da trama é desempenhada com méritos por Edward Zwick, que desde "Tempo de Glória" tem demonstrado a Hollywood como fazer épicos com coração. Embora seja pouco conhecido, talvez por causa de seu estilo discreto de guiar, é quase sempre o nome de Zwick que está por trás dos grandes filmes emocionais da terra do cinema. Vale a pena ser descoberto, seja pela estrutura ou pelo conteúdo, seja você americano ou não. Afinal, o ressentimento e o orgulho por vidas humanas é e sempre foi universal.

Nota: 8,0