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domingo, 26 de julho de 2009

Coração de Tinta – Magia dos dois lados da tela

ink

Coração de Tinta (Inkheart, Alemanha/Inglaterra/EUA, 2008).

De: Iain Softley.

Com: Brendan Fraser, Eliza Bennett, Paul Bettany, Andy Serkis, Helen Mirren, Jim Broadbent, Sienna Guillory, Jennifer Connelly.

106 minutos.

Os leitores vorazes que por ventura estiverem passando os olhos por essas linhas devem concordar comigo que não raro há um gosto especial nos mundos que surgem em nossa mente durante a leitura. Tão especial que, muitas vezes, mesmo que por breves instantes, desejamos com todas as nossas forças viver aquela história por nós mesmos. O mundo de papel pode ser muito mais atraente que o de carne e osso que vemos e vivemos todos os dias, e cada criação humana e tão única em suas palavras que é impossível evitar um desejo, por mais secreto que seja, de que tudo aquilo se torne em verdade. Mesmo preso no mesmo mundo da ficção do qual tira personagens bem familiares ao espectador e ao leitor, Coração de Tinta deve a maior parte do envolvimento e fascinação que causa a esse antigo e arraigado sonho humano, romantizado pela escritora alemã Cornelia Funke na novela infanto-juvenil de fantasia e aventura homônima lançada em meados de 2003, tudo por meio do esperto e de certa forma antigo conceito de “Língua de Prata”, espécie de rara habilidade nata que leva as pessoas a materializar aquilo que lêem em voz alta. Sempre cuidadosa com a própria escrita, Funke construiu em papel uma ode a literatura e uma deliciosa aventura cheia de encantamento e povoada por personagens construídos com esmero digno da apreciação de qualquer crítico exigente ao mesmo tempo em que a fez movimentada por um ritmo dinâmico e peculiar capaz de prender o leitor mais casual. Em meio a tudo isso, ainda ganhávamos de graça uma leitura lúdica, quase escapista, que usava uma premissa por si só interessante para explorar criações próprias de uma forma no mínimo incomum. Mesmo quando eram tirados de um “livro dentro do livro”, os personagens de Funke tinham alma, vida própria e, portanto, não deixavam dúvida ao leitor de sua capacidade de sair do mundo da ficção. Feito meia década depois de o livro explodir mundo afora e até ganhar uma continuação, Coração de Tinta, o filme, prefere um caminho mais arriscado e mais visual ao transformar esses mesmos personagens em caricaturas que povoam um mundo mais do que real e podem se provar tão perigosas quanto as ameaças das quais fugimos ruas afora. A força da palavra escrita ainda é o cerne da trama, mas de alguma forma a tradução visual das peculiaridades do material original pediu adaptações que podem ou não agradar aqueles que viveram a experiência literária de forma mais marcante. No final das contas, porém, o filme deixa intacto o caráter escapista e a fascinação natural que a trama tem, criando um universo que tem brilho próprio e apoiando-se em um elenco sólido para representar bem aqueles personagens que estavam nas palavras de Funke, enquanto o roteiro se preocupa mais em dar ao espectador a sensação de estar embarcando em uma aventura tão verdadeira quanto fantástica. O equilíbrio é complicado, de fato, mas Coração de Tinta consegue se aventurar entre o humano e o ficcional com competência notável e acaba sendo acima da média para as recentes investidas cinematográficas no terreno da fantasia. Real ou não, aqui estamos nós diante de mais um mundo que merece nossa atenção, seja em papel ou em imagens.

Obviamente, quando falamos na criação de um mundo atraente e o assunto é cinema, a imensa maioria dos créditos deve ir ao roteiro, que precisa buscar o equilíbrio entre a caracterização do cenário e a relação entre os personagens, sempre quesito fundamental em qualquer trama que ambicione envolver seu espectador. No comando desse barco, é admirável a audácia do americano David Lindsay-Abaire, mais conhecido pelo texto da animação Robôs e futuro autor do roteiro de Homem-Aranha 4, que escolhe a rota mais turbulenta para administrar tão complexa gerência e se aproveita do tempo limitado de que dispõe para focar em um grupo concentrado de protagonistas e torná-los no símbolo quase vivo daquele conceito arraigado que se torna em magia na trama. Os coadjuvantes são meras caricaturas, cuja ficção está naturalmente estampada em seus rostos, mas de alguma forma se tornam ingredientes indispensáveis para uma receita ousada que prova dar certo em meio a soluções bem-armadas de roteiro. São eles, as caricaturas, que formam a sólida base e muitas vezes fazem o papel de alavanca para que um trio inusitado de protagonistas venha a se tornar justamente o tipo de personagem que desejamos mais profundamente que se tornem em realidade. Ironicamente, o texto de Abaire faz de tudo para que por breves instantes eles sejam, criando diálogos que soam reais sem precisar recorrer ao caminho fácil do exagero melodramático e montando situações que colocam sob uma perspectiva diferente o caráter e os objetivos que movem cada um desses personagens. A mistura resulta em um texto de profundidade rara no gênero a que pertence. É a pura magia que está incutida na trama sendo transferida para o espectador, e de alguma forma é nessa inesperada transferência que o texto de Abaire prova que, ao menos dessa vez, a rota mais arriscada pode ser a correta, triunfando em um clímax que consegue emocionar, liberar adrenalina e gerenciar com cuidado o destino de cada um dos personagens, substituindo a surpresa baseada em um único conceito que movimentava a novela pela de um final que pouca gente espera nos dias cínicos por que Hollywood está passando. Sim, aqui estamos nós diante de um fim de conto de fadas, mas de certa forma esse conceito tão ultrapassado serve como uma luva para o mundo de tinta que se tornou em imagem pelo texto de Abaire, uma espécie completamente diferente do de Funke, e não por isso menos encantador. Coração de Tinta, o filme, é centrado em Mortimer “Mo” Folchart, um encadernador com a rara habilidade de trazer ao mundo real os personagens dos livros que lê em voz alta. Como tudo nessa vida tem um preço, em uma noite sua esposa é levada para o mundo da obra de fantasia que dá nome ao filme, enquanto os vilões da história saem das páginas para o mundo real. Quando finalmente encontra um cópia do raro livro e se prepara para trazê-la de volta, porém, ele é encontrado por Dedo Empoeirado, um maleável cuspidor de fogo que também foi arrancado do mundo de ficção e é capaz de tudo para retornar para sua família e sua mulher, inclusive se reunir ao vilão Capricórnio, líder de uma enorme rede de capangas, que por sua vez não tem interesse nenhum em voltar a sua vida medíocre do livro e vai atrás de Mo e de sua filha, Meggie, para obrigá-lo a trazer tesouros para ele das obras de ficção.

Para uma trama que a bem da verdade vai muito além disso em ramificações e pequenas surpresas, Coração de Tinta conta bastante com o elenco para segurar as pontas e dar mais força aos momentos-chave, levando muitas vezes a decisão ousada do roteiro nas costas e fazendo-o funcionar infinitamente melhor. Começando, é claro, por Brendan Fraser, um pouco fora de seu estereótipo aventureiro de A Múmia para incorporar o personagem que, segundo a própria autora do livro, foi escrito com sua atuação em mente. Ele não tem tanto espaço para exercitar seu poder dramático, mas não chega a decepcionar quem conhece seu talento na construção lenta e elaborada de personagens levados por carisma, transformando Mo em um protagonista complexo, humano, falho e encantador a um único tempo, trabalhando bem sua voz, elemento fundamental na trama, e usando-a aliada com a força de uma interpretação segura para corresponder a todas as expectativas nas cenas em que o dom do personagem é exigido. Por sua vez, a jovem Eliza Bennett, que já havia mostrado talento interpretativo na ação O Agente, segue acima da média e atua na pele de uma Meggie consideravelmente mais dotada de personalidade do que aquela do livro, concedendo a segunda protagonista da trama um pouco mais do que o puro simbolismo dos “olhos do espectador” e estrelando alguns dos momentos mais encantadores e mais aflitivos do roteiro com competência invejável. Por fim, o trio de protagonistas é fechado por um excepcional Paul Bettany, conhecido como o albino Silas da adaptação de O Código da Vinci, que encarna com fidelidade todo o mistério que envolve Dedo Empoeirado no livro e ainda concede a ele o rosto ambíguo e fascinante de um homem com um objetivo que não deixa nada nem ninguém, sejam vilões ou heróis, entrarem em seu caminho. Em última instância, Bettany o torna em um relutante anti-herói numa transição suave da dúvida para uma quase certeza, já que de claro mesmo só há paixão daquele homem, daquela aberração, pelo seu mundo. Isso Bettany sabe traduzir perfeitamente, seja por puro talento ou pela sábia escolha de Jennifer Connelly (O Dia em que a Terra Parou), esposa do ator na vida real, para interpretar sua Roxanne, a mulher do personagem, em um par de cenas idílicas. É claro que a escolha de elenco não para por aí, e ainda temos uma Helen Mirren estranhamente adorável na pele de Elinor, a tia-avó de Meggie que relutantemente se envolve na trama após sua amada biblioteca ser destruída pelos capangas de Capricórnio. Pode parecer estranho para uma atriz de tamanho potencial dramático se tornar um alívio cômico, mas versátil como é, ela faz o trabalho com gosto e justamente por isso surpreende o próprio espectador. Quem faz papel semelhante é Jim Broadbent, que se encontra mais no papel pitoresco do escritor do Coração de Tinta ficcional do que na recente parte que tomou na série Harry Potter, tornando Fenoglio a espécie de mais do mesmo que, nas mãos de um bom ator, se torna o mesmo com um pouco a mais. Por fim, os destaques se fecham com Andy Serkis, o homem por trás do Gollum de Senhor dos Anéis, que faz de Capricórnio uma caricatura ao mesmo tempo repulsiva e compreensível, exagerando quando o exagero lhe é exigido pelo roteiro e fazendo-se mais realista nos momentos finais, quando o verdadeiro e mais arraigado medo de seu personagem é exposto de forma espetacular. Sua atuação é essencial, para a trama e para o clímax, mas é mesmo o trabalho do diretor Iain Softley, mais conhecido por trabalhos conceituais, como o drama de ficção K-PAX, que faz do universo de Coração de Tinta algo tão atraente e realista quanto o descrito por Funke. Sua câmera é equilibrada, sabe quando se servir de alguma histeria e quando acalmar as coisas com cortes elegantes, seu trabalho com os atores é exemplar e a forma como conduz as cenas repletas de efeitos especiais é notável pela fluidez, sem precisar de cortes e ângulos múltiplos para usar a pirotecnia a seu favor e criando um ritmo crescente que agrada aos olhos e a interpretação a cada minuto mais instintiva do espectador. Curto em seus 106 minutos mas bem-amarrado o bastante para não parecer apressado, Coração de Tinta chega a seu final como um dos mais notáveis exemplares de fantasia dos últimos tempos, fora do esquema das grandes séries, e ainda consegue trazer-nos integralmente a sensação de realidade fantástica que, mais do que nunca, cai como uma luva para personagens de mentira que parecem tão reais. Uma pena que os créditos tenham que vir para acabar com a festa, mas a memória vai ficar por muito mais do que meras duas horas de diversão.

Nota: 7,5

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Dia em que a Terra Parou – Remake na beira do precipício

 

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, Austrália/Canadá/EUA, 2008)

De: Scott Derrickson

Com: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Kathy Bates, Jaden Smith

104 minutos

Em 1951, o mundo vivia em medo. A cada dia a tensão entre Estados Unidos e União Soviética aumentava e a iminência do início de uma nova guerra tão pouco tempo depois do final da mais devastadora delas deixava cada cidadão bem informado em um estado de nervos quase insustentável. Mas o mundo seguia em frente. As fábricas continuavam a funcionar, os carros continuavam a rodar e o capitalismo continuava a todo o vapor. Por mais a beira do precipício que fosse a situação, a verdade é que nossa sociedade era forte o bastante para resistir. A tudo, ou pelo menos era isso que passava pela cabeça de quem viveu naquela época. Nesse contexto, faz todo o sentido contar a história de um alienígena que vem a Terra para nos convencer a viver em paz, do contrário seríamos destruídos pelo bem dos outros mundos. “O Dia em que a Terra Parou” foi o filme certo na hora certa, e embora não tenha feito muito além de mexer com o psicológico de seus espectadores e oferecer uma dose saudável de divertimento, pelo menos fez sentido dentro se seu tempo. Agora, o que Klaatu teria para nos dizer em pleno século XXI? A resposta é tão óbvia nas movimentações do cinema nos últimos anos que chega a parecer incrível que ninguém tenha pensado nisso antes. Com filmes ambientais explodindo por todos os cantos e aventuras apocalípticas mostrando conseqüências nem tão absurdas do que estamos infringindo ao planeta, o que melhor do que trazer um alien benevolente para despertar-nos da nossa imobilidade com muita conversa e paciência? Ou talvez não. O Klaatu de “O Dia em que a Terra Parou”, o remake mais comentado dos últimos anos, não é o mesmo que nos apareceu meio século atrás. Não há intenção pacífica em sua visita, e pensando melhor talvez seja realmente mais adequado dessa forma. Em compensação, há muita urgência. Quase como se uma sirene cada vez mais alta o acompanhasse por onde fosse, como se tudo dependesse de suas decisões e não das nossas. Como se Klaatu fosse um fiscal e nós fossemos os fiscalizados. Bem que tentamos passar uma boa impressão. Mas o que fica mesmo é a ignorância, e o fato de que ela e a arrogância prevalecem sobre todos os nossos instintos de sobrevivência só nos mostra se realmente merecemos a chance de salvar a nós mesmos. Só mudamos quando o precipício a frente é alto demais e perto demais. Talvez também seja tarde demais.

O fato de esconder todo esse significado em sua história não significa que “O Dia em que a Terra Parou” é uma obra-prima, e ainda menos o filme revolucionário que vai acordar-nos para a situação do mundo a nossa volta. Mas pelo menos consegue convencer de que há, eventualmente, uma boa razão para se fazer um remake. Quando um filme tem algo a dizer, é sempre bom parar para escutar. E durante boa parte de seus 104 minutos, o filme de Scott Derrickson (“O Exorcismo de Emily Rose”) consegue fazer esquecer de que, em um passado distante, aquela história já foi contada. A sensação só funciona, é claro, graças ao trabalho exemplar de David Scarpa (“A Última Fortaleza”) no script. Baseado no original de Edmund H. North (“Patton”), ele prova que fidelidade só funciona de verdade quando aliada a criatividade e constrói todo um novo envoltório para mostrar que aquilo passando a nossa frente, mais do que “um remake de um clássico”, é um novo “O Dia em que a Terra Parou”. Trata-se de um trabalho mais complicado do que a maioria deve imaginar, mas Scarpa cumpre a missão sem muitos tropeços pelo caminho, colocando Klaatu no centro do furacão e tecendo ao redor dele uma teia de tensão e eminência conduzida por uma linha narrativa sólida o bastante para segurar o pouco mais de uma hora e meia de filme. A bem da verdade, em alguns momentos a trama idealizada por ele se ramifica um pouco além do necessário, jogando com cenas desnecessárias e pouco desenvolvimento de verdade. Especialmente no miolo do filme e nas cenas protagonizadas pela estereotipada Secretária de Defesa interpretada por Kathy Bates (“Titanic”), a fraqueza do conceito básico se torna transparente e durante alguns breves minutos, a sombra da estagnação paira sobre o roteiro. Nada que não posse ser recuperado com um clímax emocionante e envolvente, é claro. A premissa é bem fiel a original: o alienígena humanóide Klaatu (Keanu Reeves) vem ao nosso planeta para salvar o que ele descreve como “um dos poucos lugares no universo com suporte para vida” da ação da espécie dominante que chama, equivocadamente, aquele mundo de seu. Ele encontra uma relação ambígua ao se aproximar quase que por acaso da Dra. Helen Benson (Jennifer Connelly), uma astro-biológa que é obrigada a deixar o enteado rebelde (Jaden Smith) em casa para atender a convocação do governo quando uma esfera gigante, a nave espacial de Klaatu, pousa em pleno Central Park. A partir daí, o filme é um entrelaçamento de acontecimentos que aos poucos formam um plano geral bem interessante.

Prezando pela sinceridade, o estilo confuso de Scott Derrickson não ajuda muito a melhorar o resultado final de “O Dia em que a Terra Parou”. Muito falado a época de seu assustador suspense de possessão demoníaca “O Exorcismo de Emily Rose”, Derrickson não chega a impressionar no panorama visual e tampouco inova na maioria dos ângulos de câmera. Apenas quando encontra um objeto a revelar e, por conseqüência, as raízes de seus talentos, que sua câmera verdadeiramente se integra ao roteiro para criar uma experiência mais completa. Lidando com grandes efeitos especiais e mesmo na grande e impressionante tomada mostrando todas as esferas ao redor do mundo, a câmera do diretor se furta de inovações e não raro se mostra hesitante, quase indecisa. Algo que decididamente não contribui para um filme que deveria ser acima de tudo envolvente, o que só acaba funcionando no clímax, esse sim filmado, escrito e atuado com habilidade ímpar e fascinação visual e conceitual completa. Talvez o maior trunfo de “O Dia em que a Terra Parou” para aos poucos superar tantos pequenos erros seja a interpretação surpreendente e mais do que adequada de Keanu Reeves, um homem com credencial para falar da nova ficção científica, protagonista do inovador “Matrix”. Por concentração, inspiração ou puro acaso, a verdade é que Keanu e Klaatu se unem em uma única persona construída com a habilidade única do ator em criar personagens icônicos. Trabalho de intérprete de ponta que surpreende por ter vindo exatamente de alguém que passava longe da lista dos melhores atores da atualidade. De esperado em “O Dia em que a Terra Parou” só mesmo a combinação irresistível de beleza, talento e estranheza que é Jennifer Connelly (“Hulk”). Talentosa como sempre, a atriz quase consegue ofuscar o parceiro de cena ao construir uma Dra. Benson milhares de vezes mais crível e interessante do que a anacrônica dona de casa dos anos 1950, que não resisitiu ao passar do tempo. Talvez o modelo moderno e independente construído pela atriz também não faça sentido daqui há meio século, mas o que importa é que se mescla a narrativa atual de forma não menos que perfeita. Coadjuvantes de peso, os veteranos Kathy Bates e John Cleese (“007 – Um Novo Dia para Morrer”) dão um pouco mais de brilho a dois personagens que pouco tem a fazer dentro da narrativa. A presença de cena de ambos mal é sentida de fato, mas é sempre válido citar o trabalho de gente que conquistou crédito, e muito, no passado. Passado este que passa longe de “O Dia em que a Terra Parou”, o remake, um filme que mostra que nem toda refilmagem precisa ser feita em estilo caça-níqueis e, apesar dos pesares, chega ao final como uma obra que vale a pena ser vista e refletida. Afinal, estamos cada dia mais perto do precipício.

Nota: 7,0

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Boletim Cinéfilo Especial – As Notícias do Feriado

Chapéu de feiticeiro

nic cage

Há algum tempo que rola por Hollywood o rumor de que uma versão live-action e adaptada para atualidade de “Aprendiz de Feiticeiro”, famoso média-metragem da Disney, eternizado nas sinfonias do clássico “Fantasia”, de 1940. Protagonizado pelo símbolo do estúdio, o camundongo Mickey, a trama o colocava como o tal aprendiz do título, que tenta usar seus pouco precisos poderes mágicos para cumprir a dura tarefa deixada por seu mestre, a limpeza do castelo. É claro, as coisas não dão muito certo. Como essa premissa deve chegar aos cinemas de uma forma plausível e com atores de verdade é uma incógnita, mas o fato é que o produtor mais esperto da Hollywood de hoje, Jerry Bruckheimer (“Piratas do Caribe”) colocou a produção em sua agenda e já acelerou o andamento da carruagem contratando o diretor Jon Turteltaub (“A Lenda do Tesouro Perdido”), que por sua vez trouxe a reboque o astro Nicolas Cage (“Presságio”) como o mestre do protagonista e produtor executivo do projeto. A produção aos poucos foi ganhando detalhes e o número de nomes no elenco foi crescendo. Primeiro foi o jovem comediante Jay Bucharel, um dos soldados/atores de “Trovão Tropical”, que embarcou para o estrelato completo ao aceitar o papel do protagonista. Sorte a dele, afinal não é todo dia que se faz par romântico com uma beldade como Teresa Palmer (“Um Verão Para Toda a Vida”), que embarcou como o interesse do protagonista quase ao mesmo tempo em que Alfred Molina (“Homem-Aranha 2”) assinava para ser o vilão de mais uma superprodução. Elenco definido e produção encaminhada, a Disney tratou de colocar sua aposta para uma data no mínimo explosiva: 16 de Julho de 2010, em rota de colisão com o esperado suspense “Inception”, nova obra de Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”). Enquanto a produção crescia de tamanho e de expectativa entre os fãs dos clássicos animados do estúdio, as primeiras fotos do set foram divulgadas pelo site Just Jared (a imagem de Nic Cage caracterizado você vê aí em cima) e outro jovem talento, o britânico Toby Kebbell (“RocknRolla”) entrava para o jogo como o ilusionista comparsa do vilão.

Convergência de astros

nine

Trevas e adrenalina, juntas. A princípio, não faz muito sentido, mas o resultado de verdade só vai poder ser visto em 09 de Setembro em terras americanas e sabe-se lá quando no território brasileiro. Em produção desde 2005, “9” ou “Nine”, o filme em questão, é o fruto de uma das parcerias mais improváveis dos últimos tempos. Primeiro, melhor explicar do que se trata. Ganhador do prêmio de melhor curta de animação no Oscar 2006, o “9” original contava a história de um cachorro raivoso contratado para enfrentar um demônio que tem aterrorizado um bairro inteiro roubando a alma das pessoas. Com direção do estreante Shane Acker, o curta-metragem agradou tanto que surgiu aquela vontade de expandir aquele universo fantástico maior e mais ambicioso. Embora a idéia já tivesse surgido na mente do diretor, o primeiro a adotar o projeto e se dispor a bancar a brincadeira foi Tim Burton (“A Noiva-Cadáver”), o homem capaz de transformar trevas em algo vendável e bem-sucedido. Com a moral do diretor na terra do cinema empurrando o projeto, Acker desenvolveu o novo roteiro ao lado de Pamela Pettler (“A Casa Monstro”) e a dupla ainda convenceu Burton a abandonar a técnica stop-motion que costumava em todas as suas produções animadas em virtude de um visual mais sofisticado e feito por computador. Foi quando entrou na equação o nome do russo Timur Bekmambetov, diretor de “Guardiões da Noite” e “O Procurado”, que se juntou a Burton na produção e atraiu de uma vez por todas atenção para o projeto. A partir daí, “9”, o longa-metragem, ganhou um elenco estrelado como poucos no ramo da animação. E quem duvida da capacidade comercial de um filme que nomeia seus personagens com números e nada mais? Agora, ainda o cão guerreiro do curta é trocado por um humano parecido com um boneco de pano, e a ameaça íntima é substituída por uma mais global. É a sobrevivência de uma humanidade a beira da extinção que está nas mãos de 9, o protagonista, a ser dublado pro Elijah Wood (“O Senhor dos Anéis”). Ele recebe a missão de escavar a Terra e encontrar a fonte de um misterioso mal que tem atingido o povo. Ao lado dele, o veterano de guerra 1 com a voz de Christopher Plummer (“A Casa do Lago”), o inventor 2 dublado por Martin Landau (“Cine Majestic”) e a guerreira 7 vivida por Jennifer Connelly (“O Dia em que a Terra Parou”). É esperar e rezar para que os cinemas brasileiros não considerem “alternativo demais”.

O céu não pode esperar

the lovely bones

Fala-se a tanto tempo de “Uma Vida Interrompida”, o novo filme de Peter Jackson, que a adaptação já se tornou uma espécie de lenda urbana do século XXI nas fileiras da terra do cinema. Antes mesmo da estréia da versão do diretor de “O Senhor dos Anéis” para o clássico “King Kong”, o rumor era que o neozelandês apostaria em um clima mais intimista para adaptar o best-seller de Alice Sebold publicado em 2002. Algo mais próximo de “Almas Gêmeas” do que da trilogia aventuresca. Antes mesmo da estréia de “O Retorno do Rei” o nome do diretor estava atrelado ao projeto, abandonado as moscas quando este preferiu realizar o sonho de sua vida ao refazer o filme do gorila gigante. Estrado, aplaudido, esquecido, “King Kong” passou e Jackson se disse mais uma vez interessado em dirigir a história de uma garota de 14 anos que é brutalmente assassinada e passa os anos seguintes observando a forma da família lidar com seu pesar, de seu paraíso particular. A expectativa do visual montado por Jackson para tal locação era de dar água na boca, mas o diretor não se importou com a ansiedade dos fãs e construiu aos poucos seu filme enquanto resolvia a encrenca judicial com “O Hobbit” e a New Line. Em 2007, o elenco foi escalado e já contava com Saoirse Ronan (“Desejo e Reparação”) e Rachel Weisz (“A Múmia”), respectivamente como a protagonista e sua mãe, além da sempre eficiente coadjuvância de Stanley Tucci (“O Diabo Veste Prada”) na pele do vizinho da família e principal suspeito do crime. Outra que embarcou na época foi a veterana Susan Sarandon (“Speed Racer”) como a avó da protagonista e Michael Imperioli (“The Sopranos”) na pele do investigador policial do caso. Já o papel do pai da protagonista foi, digamos assim, mais polêmico. Primeiro, era Ryan Gosling (“Um Crime de Mestre”) o escolhido do diretor, mas parece que as famigeradas “diferenças criativas” tiraram o ator do projeto, sendo substituído por Mark Wahlberg (“Max Payne”). Uma série de adiamentos depois e algumas declarações controversas do elenco, o filme foi finalmente agendado para 22 de Janeiro de 2010 no Brasil, com o novo título de “Um Olhar do Paraíso”. Muita confusão? A primeira foto do esperado paraíso de Jackson aí em cima faz valer a pena. Nos vemos em Janeiro, Senhor Jackson!

Monstros adiantados

Hollywood não deixa passar nenhuma mania para fora de suas fronteiras. Foi só a literatura adolescente ressuscitar (de novo) com “Crepúsculo”, suas continuações e seus filhotes, e a terra do cinema já lançou o olho grande na seu pedaço do bolo de dólares que anda saindo do forno dessa receita. Veja a própria saga vampiresca originada dos livros de Meyer, por exemplo, que anda em um ritmo de produção frenético dentro da Summit Entertainment, que busca desesperadamente aproveitar enquanto a moda não fica para trás. “Crepúsculo”, o primeiro da franquia, acabou de aportar nas locadoras depois de uma carreira vitoriosa nos cinemas americanos e mundiais e já vem com toda uma bagagem de expectativa para as continuações. “Lua Nova” já está bem adiantado para estrear em Novembro desse ano, e vem com a direção de Chris Weitz (“A Bússola Dourada”) para capitanear alguns novos nomes do elenco. Com Dakota Fanning (“Guerra dos Mundos”) confirmada há algum tempo, na última hora a produção ganhou a adesão de Michael Sheen (“Frost/Nixon”) e Cameron Bright (“Obrigado por Fumar”) e entrou em processo de pós-produção. Enquanto isso, “Eclipse”, a terceira parte da saga, continua com sua epopéia de diretores cogitados e confirmados... como possibilidades. O cargo já passou perto do espanhol Juan Antonio Bayona (“O Orfanato”) e do americano Paul Weitz (“Tudo Pela Fama”), mas parece que agora é oficial. David Slade, que tem experiência com vampiros no brutal “30 Dias de Noite”, deve comandar o terceiro filme da série, que chegará aos cinemas em 30 de Junho de 2010. Mas o ataque de Hollywood a literatura de suspense teen não para na série de livros escrita por Stephenie Meyer. Anunciado há algum tempo, “Beastly” ganhou as primeiras novidades no elenco e no cargo de direção essa semana. Baseado no livro de Alex Flinn, o filme é descrito como “uma versão moderna de A Bela e A Fera” e se concentra em Kyle Kingsbury, um adolescente de 17 anos considerado o par perfeito pela maioria das garotas de seu colégio, que causa uma confusão maior do que esperava ao dispensar uma delas, na verdade uma bruxa. Transformado em uma criatura bestial, ele deve encontrar o amor verdadeiro para quebrar o feitiço... e sem a ajuda do MySpace. É de se sorrir com uma premissa dessas. Agora resta confiar no diretor e roteirista Daniel Barnz (“Phoebe in Wonderland”) para comandar o espetáculo, a ser interpretado por Alex Pettyfer (“Alex Rider Contra o Tempo”) e Vanessa Hudgens (“High School Musical”).

O outro lutador

Não foi por acaso que Darren Aronofsky seguiu o ambicioso em excesso “Fonte da Vida” com o emocional “O Lutador”. Lembrado no ano passado por selar o retorno de Mickey Rourke (“Sin City”) ao primeiro nível de astros, o filme de Aronofsky foi na verdade uma segunda chance para o diretor. A verdade é que desde 2007, logo depois da estréia de seu épico através do tempo protagonizado por Hugh Jackman (“X-Men”), o diretor estava envolvido em um filme para contar a história de, veja só, um lutador da vida real. “Irish” Micky Ward percorreu um trajeto cheio de obstáculos sociais e financeiros para ascender de um fenômeno do boxe amador para uma inesperada revelação dos mais altos níveis do esporte. Foi só depois de 15 anos de carreira, já veterano, que Micky sentiu o gosto da vitória sobre o italiano Arturo Gatti e vestiu seu primeiro cinturão de campeão, se tornando exemplo de perseverança e um símbolo do orgulho americano. Tudo isso com a ajuda do meio-irmão, Dicky, um ex-lutador que se tornou técnico do irmão depois de se envolver com drogas e o submundo do crime. A emocionante história, a princípio seria protagonizada por Matt Damon e Mark Wahlberg, que haviam acabado de contracenar no violento “Os Infiltrados”, ganhador do Oscar daquele ano. Isso até o roteiro passar por versões de Paul Attanasio (“Donnie Brasco”) e Lewis Colick (“Céu de Outubro”). A altura em que este passou o bastão para a versão final de Scott Silver (“8 Mile – A Rua das Ilusões”), Damon já estava fora da produção e Brad Pitt (“Benjamin Button”) estava cotado para substituí-lo. As filmagens chegaram a ser anunciadas para Outubro do ano passado, mas chegada a data, o filme não contava mais com Pitt, enquanto Aronofsky ameaçava abandonar o barco. O que ele acabou eventualmente fazendo, abrindo espaço para David O. Russell (“Três Reis”) tomar o leme do projeto e colocá-lo nos trilhos de uma nova pré-produção e outra revisão de roteiro. Enquanto o processo se repete e a aparência é que dessa vez o filme chega as vias de fato, Christian Bale (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”) foi anunciado oficialmente como o definitivo intérprete do irmão do protagonista, ainda com Mark Wahlberg garantido.

Bom, pessoal, muitas notícias nesse feriado que passou e muitas explicações para dar a vocês. Nesses últimos dias o Filme-Pipoca anda meio desatualizado, mas eu juro que estou tentando ao máximo conseguir tempo para postar. Acontece que estou em semana de provas, o que me deixa com a responsabilidade de estudar e terminar os trabalhos a ser entregues essa semana. Mas enfim, coisas de quem ainda tem que estudar… Daqui a pouco passa. Amanhã é possível que eu tenha mais um pouco de tempo, então acho que pode pintar outro Boletim e, quem sabe, uma filmografia ou uma crítica (eu disse quem sabe). Por enquanto deixo vocês por aqui, agradecendo aos comentários e as visitas nesses dias. Então é isso mesmo. Os melhores filmes para todos vocês e até mais!