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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (23/02/2009)

Erro fatal

 

Os fãs da franquia animada da Dreamworks Animation sobre o ogro verde que vem emplacando sucessos desde 2001 terão um ano para comemorar depois da relativa decepção do terceiro capítulo. Em 2010, além do já aguardado ansiosamente “Gato de Botas”, com o personagem do astro espanhol Antonio Banderas (“A Máscara do Zorro”) alçando vôos solos, a continuação da trama principal promete estrear no mesmo ano, meses depois para aproveitar a empolgação em torno do spin-off. O título original, “Shrek Goes Fourth”, é uma alusão mais do que clara a expressar americana “go forth”, que pode ser traduzida como “seguir adiante”. Como o trocadilho não funciona em nossa língua, é bem provável que o filme acaba se chamando apenas “Shrek 4” por aqui. O comando da série trocou de mãos uma vez mais depois do estreante Chris Miller não manter o nível de trabalho de Andrew Stanton, diretor das duas primeiras aventura se subseqüentemente do primeiro “As Crônicas de Nárnia”. O dono da cadeira de direção da vez é Mike Mitchell, diretor de comédias como “Gigolô por Acidente” e do premiado curta-metragem animado “Herd”. Ele retorna ao mundo digital para filmar o novo roteiro de Josh Klausner, que também redigiu a terceira aventura e já atraiu de volta todos os nomes principais do elenco, de Mike Myers (Shrek) a Cameron Diaz (Fiona), passando por Eddie Murphy (Burro) e, é claro, Antonio Banderas (Gato de Botas), que segundo os rumores ainda se juntariam ao hiper-ativo Tom Cruise, que promete tomar de assalto o mundo do cinema nos próximos anos. O astro do thriller “Operação Valkíria” viveria o vilão da vez, um aproveitador barato que engana o protagonista com promessas de uma vida mais tranqüila em uma espécie de dismensão paralela para tomar o trono do casal de ogros. O filme já tem até data de estréia marcada: 21 de Maio de 2010.

Entre os gigantes, o quarto

Enquanto “Batman – O Cavaleiro das Trevas” escalava com velocidade impressionante nas bilheterias durantes meses a fio no ano passado e as críticas mais que positivas explodiam imprensa e internet afora, não foram poucos aqueles que acreditaram que a fantástica continuação engendrada por Christopher Nolan (“Insônia”) entraria para o seleto grupo de filmes cuja bilheteria ultrapassou a decididamente impressionante marca de 1 bilhão de dólares. Acabou não acontecendo por ínfimos 3 milhões de dólares, e “O Cavaleiro das Trevas” fechou as contas como a quarta maior bilheteria mundial e a segunda americana, somando no total pouco mais de 997 milhões de dólares. É claro, o Oscar chegou e desde o lançamento, “Cavaleiro das Trevas” era um dos favoritos a revoluconar o prêmio da Academia. Para promover o filme e garantir algumas indicações a mais além das garantidas (estratégia que não funcionou as mil maravilhas, diga-se de passagem), as salas IMAX em terras americanas receberam de volta o estrondoso sucesso, que confirmou o prazo de validade durarouro ao finalmente arrebanhar os milhões que faltavam para a histórica marca. A posição nos rankings não mudam, mas “Batman – O Cavaleiro das Trevas” agora faz parte do mesmo honroso grupo que inclui o recordista “Titanic” (1 bilhão e 835 milhões), “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (1 bilhão e 129 milhões) e “Piratas do Caribe: O Baú da Morte” (1 bilhão e 60 milhões). A entrada no carinhosamente apelidado “clube do bilhão” finalmente coloca “O Cavaleiro das Trevas” definitivamente na história do cinema. É esperar para ver se o épico urbano de Nolan envelhecerá tão bem quanto seus companheiros.

Polêmica na tradução

“Milk – A Voz da Igualdade”, fábula de Gus Van Sant (“Dogville”) sobre o primeiro político gay a ser eleito a um cargo público em terras americanas já foi lançado, digerido, e escolhido para seus modestos dois prêmios da Academia (melhor roteiro original para Dustin Lance Black e melhor ator pars Sean Penn), mas continua causando a polêmica que prometeu desde os primeiros rumores sobre a produção. Dessa vez, porém, o chamariz não vem de protestos ou piquetes em terras americanas, mas uma simples desistência, e em território brasileiro. Marco Ribeiro, dublador conhecido por inúmeros trabalhos como a voz tupiniquim do comediante Jim Carrey (“Sim, Senhor”) e do ator Tom Hanks (“Forrest Gump”), é também a voz oficial de Sean Penn, protagonista do filme, no Brasil. Marco, que além da atividade em dublagem é também pastor de uma Igreja Evangélica, se disse “desconfortável” para fazer o trabalho de adaptação do roteiro de “Milk” para o português. A coordenadora da dublagem do filme defendeu a decisão de Ribeiro, dizendo que não se trata de preconceito da parte do dublador, mas sim graças a algumas pessoas que “confundem sua profissão como ator com o lado religioso”. Segundo ela, para aqueles que conhecem a voz do pastor, seria estranho ouvi-la dando voz a um político homossexual, principalmente nos moldes polêmicos e concisos do diretor Van Sant e do roteirista premiado com o Oscar Dustin Lance Black. Penn será dublado agora pelo ator Alexandre Moreno, voz do ator Adam Sandler (“Click”) na maioria de suas produções e do Gato de Botas na série animada “Shrek”.

Bom, pessoal, e por hoje é isso, o fim de um dia completo! Tivemos Oscar previsível mas inovador, tivemos notícias sobre uma continuação, quebra de recordes e uma polêmica de leve para fechar o dia… Quem poderia pedir mais? Bom, quero agradecer uma vez mais a todos os comentários e desejar só os melhores filmes para todos vocês. Até amanhã!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Grande Dave - Eddie Murphy ataca novamente (mas dessa vez sem maquiagem)


O Grande Dave (Meet Dave, EUA, 2008).

De: Brian Robbins.

Com: Eddie Murphy, Elizabeth Banks, Gabrielle Union, Scott Caan.

90 minutos.







Eddie Murphy é um caso a ser estudado pelos psicólogos mais gabaritados. Nova-iorquino do Brooklyn, ele surgiu para o mundo na década de 1980 com a participação no elenco do "Saturday Night Live" por quatro temporadas, e seguiu carreira no cinema como o rei da comédia (eventualmente com pitadas de ação) sob o comando de gente como John Landis ("Trocando as Bolas", "Um Príncipe em Nova York"), Walter Hill ("48 Horas"), Tony Scott ("Um Tira da Pesada II") e até Wes Craven ("Um Vampiro no Brooklyn"). O que ele estava pensando ao embarcar em um remake suicida de um clássico de Jerry Lewis voltado para crianças é um mistério até hoje. Depois do fatídico "O Professor Aloprado", Murphy insistiu em se esconder por tras de quilos de maquiagem em filmes infantis que faziam cada vez menos dinheiro conforme os anos passavam. O auge da decadência veio com o retumbante naufrágio de "As Aventuras de Pluto Nash", superprodução que misturava comédia e ficção científica de 100 milhões de dólares que não passou dos cinco (!) nas bilheterias do mundo inteiro. Foi o que bastou. Depois de mais uma aparição em uma aventura da Disney ("A Casa Mal-Assombrada"), Murphy pareceu ter recuperado a consciência e o talento, entrando como um sério concorrente na corrida do Oscar 2007 por seu desempenho explosivo no musical "Dreamgirls". A lição parecia ter sido aprendida. Ledo engano. Dois anos depois da performance de sua vida (não vamos nem falar sobre "Norbit", por favor), Murphy retorna com… uma aventura cômica espacial. Só mesmo Freud para entender.

Brincadeiras a parte, "O Grande Dave" está anos-luz (desculpe o trocadilho) acima de "Pluto Nash". Só para começar, o script dos desconhecidos Rob Greenberg & Bill Corbett não joga no terreno perigoso da sátira aos clichês. Pelo contrário, prefere investir na criatividade de uma trama esperta e nas situações absurdamente engraçadas a que ele pode levar. O texto não perde a graça e a desenvoltura em momento nenhum, não há lapsos de inspiração ou momentos contrangedores em "O Grande Dave". Acompanhamos aqui a jornada de uma nave espacial projetada para parecer-se com um de nós, dentro da qual se encontram centenas de alienígenas que não passam de versões diminutas (e racionais como um vulcano) dos seres humanos. O objetivo da expedição: encontrar um pequeno orbe de pedra que deve drenar toda a água da Terra e envia-la para seu planeta natal, que se encontra perigosamente perto do fim de seus recursos. Murphy interpreta tanto o capitão dos alienígenas (sem maquiagem nenhuma, graças a Deus) quanto a nave em si, uma cópia perfeita em tamanho maior de seu comandante. É claro que a tal raça de pequenos aliens não demora a se identificar cada vez mais com os humanos, que até então eles pretendiam destruir. Não é realmente muito difícil prever o rumo da trama, mas as boas piadas sustentam com competência os clichês e não deixam "O Grande Dave" ficar parecendo um produto de estúdio.

Pelo menos não totalmente. O filme possui uma quantidade saudável e bem-aplicada de efeitos especiais, especialmente nas seqüências inicial (a queda do tal orbe em nosso planeta) e final, sobre a qual obviamente não falarei para não estragar a surpresa. O que importa é que toda a ação é guiada com uma insuspeita e bem-vinda habilidade (mas não ousadia) de Brian Robbins, que apesar de ser mais lembrado pelo terrível trabalho em "Norbit", também já foi diretor de comédias passáveis como "Nota Máxima". O fato é que Murphy parece ter simpatizado com o diretor, já que os dois já têm mais um projeto juntos agendado para outubro desse ano, o intrigante "A Thousand Words". O que nos leva a peça-chave de "O Grande Dave": Eddie Murphy. O astro entrega, mais na pele da nave do que na do capitão, um desempenho cômico que há muito tempo não se via em sua carreira. As ações da nave, especialmente no começo do filme, causam estranheza ao mesmo tempo em que fazem rir com eficiência. Para todos os efeitos, Murphy entrega uma interpretação perfeita, seja no sorriso artificial de Dave (o nome adotado pela nave) ou em seus atos desajeitados e porte rígido, é possível perceber o homem por trás das melhores comédias de décadas atrás pela primeira vez em muito tempo. Assistir "O Grande Dave" é como ver Eddie Murphy começar voltar para casa. Que ele não fique pelo caminho como certo E.T. da década de 80…

Nota: 7,0