quarta-feira, 11 de março de 2009

RocknRolla: A Grande Roubada – Guy Ritchie está de volta, e com cara de franquia

RocknRolla: A Grande Roubada (RocknRolla, Inglaterra, 2008)

De: Guy Ritchie

Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Mark Strong, Toby Kebbell

114 minutos.

 

 

 

 

  Sexo, drogas e rock n’roll. Receita bem-sucedida (pelo menos comercialmente) de tantos filmes que é impossível citar todos em um único texto sem se arriscar a soar como alguém no mínimo obsessivo. Para dar um exemplo relativamente recente e elogiado pelos críticos, talvez seja melhor resumir a ladainha toda em “Quase Famosos”. Primeiro filme do diretor Cameron Crowe após o sucesso definitivo de “Jerry Maguire”, o musical rocker conquistou público e crítica, pagando o próprio custo (com uma margem apertada, é verdade) e figurando anos depois nas listas de filmes mais importantes do começo do nosso século. A história de uma banda underground que ascendia a fama com rapidez vertiginosa e descia de volta ao poço na mesma levada contava com as tiradas pop de sempre do diretor para conquistar o espectador e levá-lo em uma viagem recompensadora por ritmos, sensações e imagens. Em resumo, utilizava a música como pretexto para cinema de primeira. Deu certo naquela oportunidade e em algumas outras (“The Commitments”, “Fama”), e desde então se estabeleceu um padrão para os filmes que por ventura quisessem tratar do mesmo assunto. Não é difícil imaginar o que se passava nas cabeças dos produtores “espertos” espalhados pela terra do cinema: um subgênero bem-sucedido a mais para explorar, sem riscos. Como de costume, Hollywood não foi menos do que cega e estúpida ao prender os filmes do estilo a uma forma que foi cansando com rapidez impressionante. Afinal, quem procurou por “Quase Famosos” quando este foi lançado buscava um pouco mais do que simplesmente um filme ordinário, clamava por inovação, originalidade, entretenimento diferente do usual. Embora tenha sido uma grata surpresa para muita gente, não é preciso pensar muito para perceber porque “RocknRolla”, novo filme do britânico Guy Ritchie (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”), não foi apenas a anunciada ressurreição do diretor, mas um ar completamente novo para o gênero que põe em prática a tríade sagrada que figura na primeira frase deste texto. E isso sem precisar apelar para a cantoria maçante em nenhum momento. A verdade é que, sob muitos aspectos, “RocknRolla” é diametralmente oposto a “Quase Famosos”. Ritchie não utiliza um contexto musical para fazer cinema, mas o ritmo de uma trilha-sonora excepcionalmente bem selecionada para dar levada, alma e inovação a um filme que poderia cair em outro estigma caso não possuísse esse diferencial. Embora sempre proporcione momentos interessantes, o gênero de gângsteres, criminosos e afins já anda esgotado há algum tempo. Com a música e os toques de humor do roteiro do próprio Ritchie, esse esgotamento é preenchido com folga e dá mais levada a trama bem intrincada que consegue passar por todos os 114 minutos de “RocknRolla” sem deixar o interesse cair um minuto sequer. O que o diretor fez foi combinar inteligentemente elementos de dois gêneros mal-vistos, adicionar uma dose cavalar de diversão e piadas que vão do sarcástico ao grosseito, tudo para criar um filme que não cai em nenhum dos estigmas que poderia e ainda deixa uma continuação engatada. A esperteza e o talento para orquestrar tramas, pelo menos, Ritchie não perdeu com o passar dos anos.

Como sempre autor do próprio roteiro, ele faz um trabalho notável ao dar brilho e sofisticação a cada frase proferida por seus personagens, arrancando alguns momentos de puro brilhantismo cômico e ainda fazendo subir aquele arrepio inconfundível pela espinha do espectador. Em certo ponto de seu filme, quando o mafioso Lenny Cole (Tom Wilkinson) toma uma lição de brutalidade de seu “concorrente”, é impossível não se emocionar, contra todas as expectativas, ao ouvir a perfeitamente sincronizada reflexão do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell). Não é fácil para um roteirista fazer duas cenas paralelas possuírem uma ligação tão lógica e forte, mas Ritchie o faz com maestria. O protagonista aqui é One Two (Gerard Butler), um ladrão barato que tem aceitado alguns trabalhos oferecidos pela insinuante contadora Stella (Thandie Newton), que age em nome do russo Uri Omovich (Karel Roden), que por sua vez é o concorrente mais sério de Cole, um mafioso a moda antiga, com seus segredos e manias, incluindo a existência de Johnny, um roqueiro irresponsável que ele tomou por filho adotivo assim que sua esposa, mãe do garoto, morreu. O problema é que ele, para desespero dos empresários e furor da imprensa, sumiu do mapa pela quarta vez em um ano, levando consigo uma preciocidade que pode colocar o padrasto em apuros: o “quadro da sorte” emprestado justamente de Uri, com quem ele tentava firmar um acordo pelo domínio da cidade. A primeira vista, pode soar como uma história banal, mas é aí que reside a habilidade de Ritchie ao redigir o roteiro. Embora não seja uma trama de grandiosidade, “RocknRolla” encanta pela proporção intimamente fundamental em que se desenrola a história, estudando as conseqüências de um ato impensado ao mesmo tempo que não se esquece de proporcionar diversão das boas recheada com o melhor do estiloso modo de filmar do diretor. Embora predominantemente use câmeras estáticas e cortes em certa medida previsíveis, a câmera de Ritchie de alguma forma consegue agradar aos olhos sem distrair os ouvidos de cada palavras que sai da boca dos personagens. É como a combinação perfeita entre visual e conteúdo: o roteiro é o astro principal, mas isso não impede que as luzes da cidade e os bizarros comportamentos de gente igualmente pouco usual não promovam duas horas da boa e velha diversão.

Talvez por isso Gerard Butler pareça tão adequado, adjetivo que nunca exatamente se encaixou nas interpretações caricatas do escocês revelado em “O Fantasma da Ópera” e elevado ao patamar de astro pelo Rei Leônidas de “300”. Aqui, ele é deixado a vontade para exercitar a canastrice e o carisma que essa forma de atuar traz atrelada pode surpreender muita gente que nunca se indentificou muito com as interpretações do ator. Como One Two, Butler encontra o personagem perfeito para seu (relativo) talento, agindo mais como peça atuante do que como centro de todos os acontecimentos. Esse posto é ocupado com competência por Toby Kebell, o “RocknRolla” do título, um termo que só pode ser descrito nas palavras de Ritchie (brilhantes demais para serem descritas nesse humilde texto). O que importa é que o ator, conhecido pelo trabalho como coadjuvante em filmes como “Alexandre” e “Controle”, traduz a perfeição a genialidade contida entre as paredes das drogas que Johnny Quid representa. Ele é um touro indomável, um rebelde convicto, um homem que de muitas formas foi conduzido para onde está, mas acima de tudo um ser humano complexo, cativante e um dos anti-herói mais perfeitos que já figuraram no cinema. Ele brilha mesmo ao lado de uma interpretação tão marcante quanto a de Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”), colocando a caricatura para funcionar (no melhor dos sentidos) e contruindo uma figura única para o mafioso, confirmando-se como um dos melhores atores em atividade. Mas quem realmente impressiona é Mark Strong (“Stardust – O Mistério da Estrela”), fundando os alicerces de um personagem que ainda pode render muito mais conforme a familiaridade do público aumentar. Archie, o “capanga” do mafioso, é sem sombra de dúvida a maios fonte de brilho de um filme que não carece dele. Guy Ritchie está de volta dos mortos, e pronto para abalar as estruturas da terra do cinema mais uma vez com o vindouro “Sherlock Holmes”. Mais um filme com a marca do frescor de um cineasta que nunca se torna ultrapassado. E que tem muito o que ensinar a Hollywood.

Nota: 8,5

terça-feira, 10 de março de 2009

Boletim Cinéfilo Especial – Dias 06/03/2009 a 10/03/2009

Tome a pílula vermelha... uma vez mais

Hollywood não deixa para trás uma idéia antes de tê-la esgotado completamente. Talvez por isso tenha sido uma surpresa, depois do sucesso estrondoso de um pequeno filme cult chamado “Matrix” em 1999, que uma tonelada de outros filmes sobre realidades alternativas e filosofia simplificada não aportassem no cinema. Em um primeiro momento, as obras dos Irmãos Wachowski influenciaram mais pelo visual do que propriamente pelo conteúdo ou pelo tema, que de fato não era tanta novidade assim para aqueles estudiosos de certo filósofo grego chamado Platão. Séculos antes, ele havia idealizado o Mito da Caverna, uma parábola publicada no sétimo volume de sua obra “República” que idealizava uma sociedade em que os homens vivessem uma grande caverna, uma projeção infiel da realidade, representada pelo que havia fora da caverna, cuja entrada era bloqueada por um muro altíssimo, pelo qual só se podia enxergar através de um pequeno vão entre seu pé e o chão. Talvez o termo certo para descrever o que os irmãos cineastas realizaram seja uma “radicalização” do que disse o filósofo, implantando brincadeiras contextuais para agradar os críticos e ação das mais arrebatadoras para conquistar o público. E lá se vai quase uma década desde que “Matrix”, o original, foi lançado nos cinemas, aplaudido no mundo inteiro e elevado rapidamente ao status de novo criador de tendências. Pois parece que esse foi o tempo que a terra do cinema precisou para digerir tanta informação e seguir o mesmo caminho, buscando o mesmo êxito em todos os sentidos. Marcado para estrear em 2010, “The Adjustment Bureau” será o primeiro projeto a tentar repetir o fenômeno com um tom menos fantasioso. O roteiro de George Nolfi (“Doze Homens e Outro Segredo”, “Sentinela”) estava a procura de um estúdio até pouco tempo, quando foi acolhido pela Universal. Ao que parece, o filme será uma adaptação de um conto homônimo de Philip K. Dick, escritor conhecido pelos tomos de ficção científica paranóicos que chegaram a inspirar “Blade Runner”, e já tem Matt Damon (“O Ultimato Bourne”) como o protagonista, um congressista que descobre as misteriosas identidades que controlam nosso planeta artificial ao investigar quais circunstâncias o separam da bailarina Elise Sellas, o amor de sua vida.

Gringos de sorte

O filme é facilmente um dos mais esperados dos próximos anos, especialmente para os amantes do cinema de ação, e ainda mais para os brasileiros. Com tamanho atrativo, é de se esperar que a maioria dos que se dão ao trabalho de se informares em nossos boletins já ouviram falar do elenco estelar comandado por Sylvester Stallone (“Rocky Balboa”) no vindouro “The Expendables”, o filme que pretende reunir o elenco dos sonhos para um filme de ação e até agora conseguiu com louvor. E tudo isso tendo como cenário os paradisíacos (ironia é mesmo uma arte) morros cariocas, os mesmos que Edward Norton (“O Ilusionista”) percorreu em “O Incrível Hulk”. Além do homem que eternizou o boxe no cinema, que como de costume assume também a direção e o roteiro, os nomes escalados impressionam pela seletividade. Jason Statham (“Carga Explosiva”) está lá para representar o legítimo astro de ação do século XXI, enquanto gente como Jet Li (“O Reino Proibido”), Dolph Lundgreen (“Soldado Universal”) e Mickey Rourke (“O Lutador”) garantem a ligação com o saudoso passado do gênero. Já para elevar o nível geral de atuação, Stallone não se furtou em recrutar dois atores que podem não estar no auge, mas sem dúvida nenhuma fazem diferença em um filme: Forest Whitaker (“O Último Rei da Escócia”) e Eric Roberts (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”), atuando supostamente como o contratante e o alvo, respectivamente, do grupo do título, mudado para “Os Mercenários” no Brasil (uma tradução mais fiel seria “Os Dispensáveis”). As grandes notícias para os brasileiros em relação ao filme giravam, além das filmagens, em torno de uma atriz tupiniquim contracenando com os astros gringos como a integrante latina do grupo. A primeira a disputar o papel foi Cléo Pires (“Meu Nome Não é Johnny”), mas parece que a sempre vilanesca Rede Globo não a liberou das filmagens do folhetim “Caminho das Índias”. Semanas depois da notícia, veio uma confirmação repentina e uma grata surpresa: a atriz brasileira em “The Expendables” será Gisele Itié, conhecida pelo trabalho na novela global “O Profeta”. É quase impossível definir quem é mais sortudo, ela que sem dúvida nenhuma vai dar um mega-pulo na carreira ou eles que terão um colírio como esse perambulando pelos sets.

Fora dos rótulos

Hugh Grant pode ser tudo, menos burro. O londrino, que vai completar meio século de vida no ano que vem, já tem mais de duas décadas de carreira, um número invejável de sucessos comerciais, e ainda tem a oportunidade de contracenar com uma nova beldade de Hollywood a cada filme. Só para listar as últimas que se renderam ao carisma do ator nas telas: Drew Barrymore em “Letra & Música”, Sandra Bullock em “Amor a Segunda Vista” e Renée Zellweger nos dois filmes da série “Bridget Jones”. Em comum entre todos, o prolífico gênero da comédia romântica, uma das especialidades da terra do cinema. Como toda fórmula lucrativa, não é difícil cair na mesmice nesse tipo de filme, e ao contrário do que muita gente pensa o trabalho de um diretor ao manter o interesse do público para a velha história da paixão acidental não é exatamente a mais fácil. De qualquer forma, o nova-iorquino Marc Lawrence, diretor dos dois primeiros filmes citados na lista acima, parece sempre se sair bem na missão, seja se utilizando de uma levada mais tranqüila, quase européia, ou da comédia rasgada e deliciosamente caricata que povoa alguns momentos de ambos os filmes. Mais conhecido como roteirista de filmes como “Miss Simpatia”, Lawrence pode se tornar o primeiro diretor com três obras no currículo e o mesmo protagonista em todas as três. A bola da vez é fugir sem volta das amarras do gênero para criar um filme que agrade aos olhos e ouvidos, e ainda seja capaz de provocar tensão como um suspense criminal. “Did You Hear About the Morgans?” é o recém-divulgado título do projeto, que como de costume traz o script do próprio Lawrence. Dessa vez, ele centra a história em um casal já estabelecido de classe alta que, em meio aos conflitos de relacionamento, se vêem envolvidos em uma trama abrangendo assassinatos, julgamentos e até o programa de proteção a testemunhas. Venhamos e convenhamos, Sarah Jessica Parker (“Sex and The City”) não é exatamente um modelo de beleza perto das parceiras anteriores do ator, mas ainda assim deve garantir uns trocados a mais para o filme, que pode ser o retorno do inglês as grandes bilheterias depois do pouco notado “Tudo Pela Fama”. Ainda não há data de estréia para o filme.

Voando alto (demais?)

A grama do vizinho é sempre mais verde. Bastou a editora de quadrinhos Marvel, maior fonte de idéias para a Hollywood de hoje, se tornar um estúdio independente e assinar contrato com a Paramount para a distribuição do mais que bem-sucedido “Homem de Ferro” e os outros estúdios, donos por direito dos personagens que ganharam vida em seus corredores, quererem imitar a fórmula. Só soa estranho que justamente a 20th Fox tenha sido a primeira a anunciar oficialmente suas “reinvenções” para se adaptar ao universo de realismo fantástico que editora vem impondo em suas produções próprias. Seria até compreensível se o alvo prioritário fosse o equivocado (mas de certa maneira injustiçado) “Demolidor”, um fracasso de sucesso e público que estourou no colo do estúdio quase sete anos atrás, mas parece que os executivos da Fox resolveram partir justamente para a mais bem sucedida franquia do estúdio no campo das adaptações de quadrinhos. Lançado em 2005 como uma esperadíssima adaptação dos heróis originais da editora, “Quarteto Fantástico”, dirigido por Tim Story (“Táxi”) não exatamente satisfez as expectativas, mas acabou por ganhar um lugar de honra nos admiradores desse novo gênero que se consolidava em Hollywood graças a diversão familiar que proporcionava e, é claro, aos mais de 300 milhões de dólares que o filme rendeu ao redor do mundo. A continuação não foi assim tão bem vista pela crítica, mas ainda assim pagou seu orçamento com sobras e não deixou dúvidas de que um terceiro filme seria mais do que possível. Isto é, até a “reinvenção” surgir. Segundo o estúdio, a super-equipe será completamente repaginada sob o comando de um novo diretor e com novos atores desempenhando os papéis principais. No original, Ioan Gruffud (“Rei Arthur”) era o Sr. Fantástico, Jessica Alba (“Sin City”) encarnava a Mulher Invisível, Chris Evans (“Celular”) cuidava da ação como o Tocha Humana e por fim Michael Chiklis (“The Shield”) atuava na pele do grotesco Coisa. Ao que parece, nenhum deles está envolvido na nova versão da equipe, assim como o diretor Tim Story, atualmente finalizando o drama “Hurricane Season”, estrelado por Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia”).

Astros em polêmica

 

Foi como um surto epidêmico dos mais terríveis, facilmente traduzido por Hollywood em um de seus filmes apocalípticos genéricos. Dois dias, quatro astros (dos recém-nascidos aos mais experientes) e quatro declarações que de uma forma ou de outra causaram comoção entre a imprensa e o público. Promovendo o trabalho no thriller de espionagem “Duplicity”, em que contracena com Clive Owen (“Rei Arthur”), a maior estrela do pavilhão americano, Julia Roberts (“Jogos do Poder”), soltava o verbo quando uma afirmação um tanto auspiciosa saiu de sua tão fotografada boca sorridente. Segundo ela, não havia absolutamente diferença entre trabalhar com Owen e contracenar com gente como George Clooney e Brad Pitt, parceiros de cena em “Onze Homens e Um Segreo” e suas continuações. Não querendo deixar uma impressão de frieza que já derrubou várias estrelas bem-formadas, ela logo emendou: “Temos um senso de humor semelhante, a nossa lista de prioridades das nossas vidas não são diferentes, somos ambos felizes com a família e vivemos uma vida normal”. Então, menos de doze horas depois, falando sobre sua sensual personagem na adaptação de quadrinhos mais esperada do ano e muito provavelmente do século (“Watchmen”, é claro), a atriz sueca Malin Akerman (“Vestida Para Casar”) comparou seu figurino de látex apertadíssimo com... uma camisinha. Nas palavras dela: “Quando experimentei a roupa, conclui que era extremamente desconfortável. E o cheiro? Quando tirava a roupa, parecia que tinha vestido uma camisinha do tamanho de um ser humano!”. A partir daí, a epidemia começou a estourar de vez, chegando a um dos mais sensatos e brilhantes atores da terra do cinema, o experiente Dustin Hoffman (“Rain Man”) que parece ter resolvido dividir seu tempo entre a atuação e tardias aulas de piano. Enquanto divulgava a comédia romântica “Last Chance Harvey”, Hoffman disse que: “Prometi a mim mesmo que, antes de me aposentar, quero me tornar um músico de jazz decente. O cara que está me dando aulas disse que isso pode ocorrer depois de um ano de treinamento. Se Deus me desse um tapinha no ombro e me fizesse escolher entre a atuação e o piano, tomaria minha decisão rapidamente”. Enquanto ele quase se debandou para o outro lado, a sempre contida Charlize Theron (“Hancock”) mostrou-se mais envolvida do que nunca na sétima arte ao declarar em entrevista ao jornal espanhol El País que é impossível interpretar sem estar “apaixonada pelo personagem”. Disse ela: “Eu acho que ator tem que amar seu personagem e amor não é algo fácil de explicar. Nenhum ator deveria interpretar um personagem pelo qual não sinta algo de muito forte”. Ela viaja pela Europa promovendo do drama “The Burning Plain”, primeiro filme dirigido pelo roteirista mexicano Guillermo Arriaga (“21 Gramas”).

Mais Riddick

Tudo começou com um pequeno filme de 2000 chamado “Eclipse Mortal”. Para uma produção tão modesta com seu orçamento de 23 milhões de dólares, o barulho provocado por essa pérola escondida (e descoberta por acaso) da ficção científica não foi pouco. De lá saiu gente que dá o que falar até hoje na terra do cinema, incluindo o carismático e talentoso Vin Diesel, que quatro anos depois, no auge do sucesso de filmes como “Velozes e Furiosos” e “xXx – Triplo X”, resolveu trazer de volta das cinzas o personagem que lhe rendeu a fama e o título até então incontestável de “astro de ação do século XXI”. É estranho como o destino pode ser irônico em Hollywood. “As Crônicas de Riddick”, a continuação das aventuras do personagem-título pelos estranhos mundos criados pela mente do diretor David Twohy (“Submersos”), teve o efeito diametralmente oposto ao da primeira investida da franquia dos cinemas. Lançado em larga escala, com ares e publicidade de superprodução, um orçamento inflado de 110 milhões e um roteiro mal-resolvido que deixava para o protagonista toda a responsabilidade de carregar a história e lhe dar algum sentido, “As Crônicas de Riddick” deixou a Universal com um déficit de mais de 30 milhões de dólares. Desde então, a carreira de Diesel despencou ladeira abaixo com filmes cada vez mais mal-sucedidos que só encontrou uma nova esperança no novo “Velozes & Furiosos”, o retorno de seu personagem a franquia, a ser lançado em Abril. Quem pensou que ele havia aprendido a lição se enganou feio. Pelo menos a teimosia ele não perdeu, e a franquia inconstante do anti-herói acaba de ganhar, juntamente com um novo jogo para os videogames da nova geração, a esperança de uma terceira aventura. Nada está confirmado ainda, mas Diesel parece entusiasmado com o projeto: “Talvez ainda estejamos muito quietos sobre o próximo Riddick, mas na época do lançamento do jogo vocês vão começar a ouvir sobre o filme. Está sendo desenvolvido”. É esperar para ver se alguma coisa ele aprendeu com o fracasso.

Investimento garantido

 

Até hoje, não houve sequer um filme da série “Jornada nas Estrelas” que tenha deixado o estúdio no prejuízo. Afinal, como uma franquia tão cheia de fãs poderia decepcionar nas bilheterias, onde os fanáticos tem o momento máximo de ver sua paixão na tela do cinema? Até o criticado “Nemesis”, última investida da franquia no cinema, lançado em 2002, amealhou seus quase 70 milhões de dólares ao redor do mundo, um número baixo para a série, mas aceitável para os padrões do gênero. Resumindo um pouco toda a ladainha, um filme de “Jornada nas Estrelas”, por baixo de toda a paixão e o fanatismo, ainda é fundamentalmente um investimento garantido. Com o orçamento girando em torno dos 150 milhões de dólares, a reinvenção da franquia nos cinemas comandada por J.J. Abrams (“Lost”) pode estar almejando um pouco mais que alguns milhões guardados no cofre da Paramount. Pelo menos é isso que o estúdio demonstrou ao montar uma campanha de marketing massiva para não apenas colocar os fãs da série em polvorosa, mas atrair novos espectadores para o filme, com data marcada para 08 de Maio desse ano. O filme, que causa tanto empolgação quando desconfiança aos assim chamados trekkies graças a sua estratégia um tanto duvidosa de reiniciar toda a linha cronológica da franquia em uma espécie de “Star Trek Begins”, já gastou a impressionante quantia de 150 milhões de dólares apenas com a divulgação de seu produto para todo o tipo de público. Os gastos incluem a turnê mundial de todo o elenco e equipe de produção para as primeiras sessões com cerca de 20 minutos do filme prontos para serem exibidos(que já passou por Roma, Madri, Paris, Londres, Nova York e Seoul), uma nova linha de brinquedos que deve sair em breve e atrair o público infantil, afastado da série pelo seu próprio caráter pomposo e uma promoção com a rede de lanchonetes Burger King. A própria realização de tanta estardalhaço pelo novo filme da franquia já incute a estranheza nos fãs, que não deixaram de ir verem sua série favorita no cinema mas podem entrar em sua sessão com um pé atrás. A partir daí, é com Abrams.

Bom, pessoal, aí está! Tiramos o atraso, finalmente, sete notícias fresquinhas (algumas mais quentes, na verdade), mas o que importa é que a partir de amanhã voltamos a normalidade, ou seja, uma crítica e um boletim por dia! E esperemos todos que a Santa da Internet não permita que meu computador pare novamente… Enfim, os melhores filmes para todos vocês e até amanhã!

Explicações, desculpas e resoluções

Bom, talvez pouca gente tenha notado (que triste, não?), mas o Filme-Pipoca acaba de passar por uma inimaginável fase de quatro dias absolutamente parado, quebrando a minha própria promessa de publicar todas as notícias do mundo do cinema e ainda colocar a disposição minhas opiniões sobre os filmes que vejo. Sei que desculpas para quem acompanha o blog nunca vão ser o bastante, mas vou tentar me explicar. Foi como um roteiro de cinema, uma progressão lenta que rapidamente chegou ao desespero para alcançar um clímax surpreendentemente rápido. Quinta-feira, 05 de Março, os primeiros problemas mais sérios em meu Internet Explorer começaram a se manifestar logo depois de eu ter publicado as notícias do dia. Nem mesmo pude esperar pelos comentários, tamanha era a lentidão do navegador. E então, como quem não queria nada, os primeiros passos da pane total do meu computador começaram na sexta-feira, dia 06, quando eu nem mesmo pude conseguir as notícias nos sites de costume, afinal até a simplesíssima página do Google meu navegador se recusava a abrir. Enfim, então veio o sábado, e mais uma vez as circunstâncias jogaram contra mim, e a entidade maligna que é o virús de computador (esqueci o nome, mas deixa isso para lá) acabou impedindo meu Speedy de conectar! O auge do desespero (e da falta do que fazer, diga-se de passagem) veio no domingo, quando o computador nem mesmo ligou (!!!), permanecendo em uma tela preta e imutável por horas a fio. Enfim, apenas na segunda-feira o técnico foi finalmente chamado para dar um jeito na coisa, e em uma passageira meia hora tudo estava resolvido! Mais uma vez peço desculpas, mas prometo (tentar) tirar o atraso fenomenal que aconteceu nesse fim de semana. Hoje ainda não teremos uma crítica, mesmo porque já vou publicar isso, mas tenho pelo menos cinco resenhas prontinhas na minha cabeça para figurarem por aqui a partir de amanhã. Quanto ao Boletim Cinéfilo, a edição de hoje vai ser especialíssima, gigantesca com todas as notícias dos quatro dias! Quem quer ficar informado não pode deixar de ler. Enfim, vou trabalhar em dobro hoje, começando por agora, para coletar todas essas novidades!

Bom, aproveito aqui para agradecer a todos os comentários que encontrei esperando por mim quando voltei e também aos quatro (!! :D) selos que recebi da Nat Valarini, de um blog muito legal chamado Garota Pendurada (http://garotapendurada.blogspot.com/). Tentarei publicá-los assim que possível, quando tudo tiver voltado ao normal, certo? Bom, então era isso que eu precisava falar, desde já agradeço a compreensão de todos vocês, e agora vou voltar ao trabalho! Certo? Até a noite, com o Boletim Cinéfilo especial! Ah, e é claro (como eu estava com saudades de escrever isso): só os melhores filmes para vocês!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (05/03/2009)

Música para as massas

A década de 70 não foi apenas a do auge do paz e amor, e a produção musical do período pode ser usada como o exemplo mais perfeito disso. Para a arte do ritmo, a década que hoje nos surge distante em quase quarenta anos foi tempo de revolução, do surgimento do punk rock e da liberação geral nas regras do rock n’ roll certinho que se via nas décadas anteriores. Uma das bandas que mais inovaram o ritmo foi a The Runaways (numa tradução livre, “As Fugitivas”), o primeiro grupo de hard rock formado apenas por mulheres, três americanas e um inglesa roubando o primeiro lugar das paradas por breves e meteóricos quatro anos. A herança delas, separadas pelo dinheiro, são músicas como “Cherry Bomb”, figura certa em trilhas de musicais-rock como o “Jovens, Loucos e Rebeldes” de Richard Linklater (“Escola de Rock”). Com seis álbuns lançados em período extremamente curto de tempo (1975-1979), a banda ficou ainda mais conhecida pelos influentes projetos paralelos da vocalista/guitarrista Joan Jett (a primeira à esquerda da foto), incluindo a parceria com a banda The Blackhearts que rendeu a lendária “I Love Rock n’ Roll”. A partir daí já dá para deduzir que é a líder da banda que deve ser o foco da cinebiografia da banda para a tela, e os fãs de certa saga vampírica adolescente já podem comemorar. Depois da Isabella Swan de “Crepúsculo”, Kristen Stewart assume um papel de destaque e prestígio garantido ao encarnar a lides da banda no filme dirigido e escrito pela italiana Floria Sigismondi, dona de uma larga experiência na direção de videoclipes para gente como David Bowie (“Little Wonder”), Sheryl Crow (“Anything But Down”) e White Stripes (“Blue Orchid”). Os rumores mais recentes ainda dão conta da menina-prodígio Dakota Fanning (“Guerra dos Mundos”), que parece querer embarcar em todas depois do thriller heróico “Push”, ainda inédito no Brasil, ao lado da possível companheira de Lua Nova. Ela seria a tecladista da banda, Cherie Currie (a garota loira abaixada), que deixou a música após três discos com o The Runaways para se dedicar ao... cinema, onde chegou a contracenar com Jodie Foster em “Gatinhas e Gatões”.

A Idade das Trevas

Não é fácil imaginar toda a glória que “...E o Vento Levou” foi para os filmes sobre a Guerra Civil Americana, um filme completo e acima de tudo com uma ligação emocional complexa que se ligava com o espectador de forma plena. Não querendo comparar dois clássicos (um da fase áurea e um de pouco tempo atrás), mas também não é simples pensar na imensidão de significado que “O Resgate do Soldado Ryan” teve para os filmes sobre a Segunda Grande Guerra, ou quem sabe possamos falar de “Platoon” para a época marcante e a ferida aberta do Vietnã. Filmes que definiram eras e momentos importantes na história americana e, oras porque não, mundial. Agora, imagine um filme assim para definir de uma vez por todas o assim chamado Período das Trevas, quando a humanidade passou séculos a fio sem sequer uma produção artística relevante, mergulhado na ignorância de uma Igreja Católica rígida e dominante. Nessa época, já tivemos fantasias animadas (“A Espada Era a Lei”), filmes de artes marciais cheios de impacto visual com suas acrobacias impossíveis (“O Tigre e O Dragão”), milhares de filmes sobre cavaleiros cuja honra e bravura mudaram o mundo (“Rei Arthur”), até mesmo alguns épicos vikings, violentos e profanos, mas indiscutivelmente divertidos (“Outlander”). Mas o cinema ainda não produziu uma obra definitiva para retratar a época medieval. Não por coincidência um dos projetos mais disputados dos últimos anos em Hollywood tem como título exatamente “Medieval”. Arrebatado pela New Regency Productions pela bagatela de 1 milhão de dólares, o roteiro dos estreantes Alex Livtak e Michael Finch foi descrito com o “Doze Homens e Uma Sentença dos filmes medievais”. Isso porque, assim como o faroeste de 1957, reúne todos os elementos da época para compor uma história de armações, raciocínio e destino, é claro. A colagem de um cigano com um ladrão, um cavaleiro, um samurai, um monge, um árabe e um viking pode ser comandada por McG, embora este já esteja envolvido com “Exterminador do Futuro 5”, mesmo que o quarto episódio da franquia nem mesmo tenha sido lançado.

No auge da loucura

Ele já foi um agente secreto que acerta sempre graças aos erros mais hilários do cinema em muito tempo. Um chefe autoritário e convicto sob todos os aspectos que é um exemplo de vida para seus funcionários. Um homem comum que chega aos 40 anos sem nunca ter experimentado os prazeres carnais dessa vida. Também encarnou um Noé dos tempos modernos, com direito a barba e arca de madeira pura, gigantesca. Há algum tempo atrás, vestiu-se com afetação para viver um homossexual com tendências suicidas que se converteu no personagem mais inesquecível de um filme cheio deles. Para fechar a galeria de personagens, envergou com habilidade para o lado dramático com um homem de meia-idade cheio de carisma e contraditória baixa-estima que se apaixona pela primeira vez em anos... apenas para descobrir que o alvo de sua paixão é a namorada do irmão. “Agente 86”, “The Office”, “O Virgem de 40 Anos”, “A Volta do Todo Poderoso”, “Pequena Miss Sunshine”, “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”. Filmes (e série) essenciais para entender o enorme talento desse americano de nome Steve Carell, o atual Coringa (não o vilão, a carta de baralho) de Hollywood e um dos nomes mais certeiros para bilheteria ao lado de ilustres companhias como Johnny Depp (“Piratas do Caribe”) e Will Smith (“Eu Sou a Lenda”). Pois parece que depois de momentos tão memoráveis nas telas de cinema, Carell ainda precisa alcançar seu auge, o ponto definitivo de sua carreira, e passar por ele sem maiores complicações para prosseguir a brilhante trajetória. O projeto escolhido para tal missão é “Hi-T”, uma comédia dramática que promete explorar toda a capacidade e as facetas do ator ao contar a história de um homem que começa a desenvolver mudanças incontroláveis e drásticas de humor após receber injeções de testosterona para curar uma lesão. A roteirista de “Hi-T” é Kim Barker (“Linceça Para Casar”), mas o filme ainda não possui diretor ou data de estréia definidas.

Bom, pessoal, e por hoje é só isso mesmo… é esranho como as coisas acontecem, ontem tivemos notícias demais e hoje tivemos de menos… mas enfim, é a vida. Os melhores filmes para todos vocês e até amanhã!

A Guerra de Hart – O filme errado na hora errada… oportunismos de Hollywood

harthart A Guerra de Hart (Hart’s War, EUA, 2002)

De: Greogory Hoblit.

Com: Bruce Willis, Colin Farrell, Marcel Iures, Terrence Howard.

 

 

 

 

 

 

1944. A Segunda Guerra Mundial, desde o início um perigoso jogo de estratégia e números, estava sendo vencida pelo sangue e suor de soldados que de tudo fizeram por sua pátria e por tudo aquilo que ela representava. Ou talvez eles estivessem apenas tentanto sobreviver em meio a toda a confusão entre pessoas e princípios que eles nem mesmo conheciam verdadeiramente a fundo. A cada dia a luta entre a Alemanha nazista, já com dezenas de territórios anexados, e as forças Aliadas lideradas pelo exército americano se tornava mais brutal e se desencadeava em uma série interminável de ataques e contra-ataques para decidir quem tinha o potencial de destruição maior, quem provocava mais barbaridades. E, é claro, qual seria a cultura preconceituosa que dominaria o mundo pelo próximo século. Corte brusco para 2002. A produção cinematográfica americana baseada nos horrores do holocausto passava por um momento de definição. Depois de obras-primas produzidas no final dos anos 1990, com “O Resgate do Soldado Ryan” e “Além da Linha Vermelha”, o público começava a dar sinais de cansaço para o gênero. Mesmo com diretores do calibre de Jean-Jacques Annaud (“Círculo do Fogo”) e John Woo (“Códigos de Guerra”) lançando suas próprias visões ambiciosas do fatídico período, a linha descendente da bilheteria era incontestável. Dos quase 500 milhões de “Ryan” para os menos de 100 da investida do diretor chinês no subgênero, a queda era clara e a cada novo lançamento a gota d’água parecia mais e mais próxima. “A Guerra de Hart” foi o filme certo na hora errada. E acabou servindo perfeitamente na posição de bode expiatório para o recado final da platéia para o estúdio, que viu seu filme não pagar nem mesmo o próprio orçamento. Injustiça monstruosa para um filme contundente? Talvez não, mas é interessante observar como as coisas acontecem em Hollywood. Tudo é timing na indústria do cinema, e é do oportunismo que as grandes obras tomam formas. Com o falhou nesses dois quesitos, “A Guerra de Hart” foi considerado o mais descartável de uma série de filmes que se encaixariam perfeitamente nessa definição. Se tivesse sido lançado alguns anos antes, no auge da comoção cinematográfica em torno da Segunda Guerra, talvez tivesse se tornado um grande sucesso. Um pouco mais além, talvez o nosso presente fosse uma oportunidade melhor para um filme como esse, uma época em que preconceito racial em todos os níveis da sociedade virou tema popular nas produções cinematográficas. Isso sem contar que quase tudo em “A Guerra de Hart” parece precipitado.

A começar pela parceira no roteiro, reunindo dois nomes que poderiam causar furor entre os críticos atualmente, mas não passavam de roteiristas pouco notáveis, com poucos trabalhos verdadeiramente louváveis em 2002. Billy Ray e Terry George fazem um bom trabalho, mas o estilo dos dois não entra em sintonia em nenhum momento. É quase como se víssemos dois filmes. O primeiro, um suspense cheio de intrigas e personagens ambíguos, obra sem dúvida de Ray, que ficou conhecido no mundo do cinema apenas meia década depois, com o superestimado “Quebra de Confiança”. O outro, uma discussão pretensamente densa sobre os méritos da guerra, que vai além da simples dissertação sobre o preconceito para adentrar em um terreno mais complexo, marca incontestável do homem que nos presenteou com um épico humano de protesto e emoção, “Hotel Ruanda”. Juntos, eles desconstroem a novela-base de John Katzenbach (“Justa Causa”) em uma obra que não deixa nunca perder a vista a própria dualidade, funciona em alguns momentos e se mostra falha em outros, mas acima de tudo passa longe de merecer o destino que lhe foi fatalmente incutido. Acompanhamos aqui o ponto de vista do Tenente Thomas Hart (Colin Farrell), um estudante de direito filho de um senador que se alista no exército, mas é obrigado a desempenhar funções burocráticas graças a proteção do pai. Insatisfeito com a própria estagnação enquanto os soldados enfrentam o inimigo na linha de frente, ele conhece o horror da guerra ao ser capturado por um grupo de alemães e levado para um dos campos de concentração para prisioneiros de guerra, onde enfrenta uma situação no mínimo peculiar. Sob o comando falsamente compreensivo do Coronel Werner Visser (Marcel Iures), é permitido a realização de uma corte de justiça para investigar a morte de um dos prisioneiros americanos, uma possível retaliação pelo assassinato a sangue frio de um dos primeiros oficiais negros mantido sob cárcere no lugar. É claro, as suspeitas recaem no ex-companheiro do morto, Lincoln Scott (Terrence Howard), e é partir daí que as duas vertentes do filme se dividem claramente entre a racionalidade e a denúncia. Coincidência ou não, a primeira alcança mais eficiência que a segunda, construindo cenas de tribunal e simples diálogos que chegam a um nível de tensão impressionante. “A Guerra de Hart” funciona melhor como entretenimento descompromissado e um tanto irrealista do que como um filme-denúncia que expõe a deplorável situação de preconceito dentro do próprio exército americano. Não que o filme não levante questões importantes, é claro. Faz pensar se realmente o lado vitorioso foi aquele que menos levantava preconceito sem precisar glorificar o nazismo para isso. Toma uma posição de imparcialidade impecável, chega até mesmo a impressionar o quanto a imagem estereotipada de lados bem definidos na Segunda Guerra é desmistificada. Mas nunca consegue manter a regularidade, carecendo de um pouco mais de densidade para atingir em cheio o raciocínio do espectador e, quem sabe, mudar realmente alguns dos conceitos mais arraigados em nossas mentes. Em suma, fica no meio do caminho em busca de inovação.

E, é claro, tem uma série de outros equívocos técnicos. A começar pelo diretor Gregory Hoblit (“Um Crime de Mestre”), fora de seu terreno de seuspense, no qual nem mesmo é tão bom assim, e escorregando a cada take pelo andamento acelerado em demasia ou a tentativa forçada de criar uma estética marcante para um filme que deveria impressionar pelo conteúdo. Se até hoje Hoblit é um daqueles diretores que ainda não encontraram seu ritmo certo, seis ou sete anos atrás essa definição seria um mero eufemismo para as deficiências do texano. A despeito do comandante, o elenco se sai bem com seus personagens definidos em sombras e insinuações. Colin Farrell protagoniza, e vê-lo atuar é como observar uma pedra preciosa brilhar por trás de um vidro embaçado. Um pouco antes da maturidade (que veio completamente em “Na Mira do Chefe”), o ator é totalmente dependente do roteiro para dar a sua interpretação de Hart algum sentido. O resultado é um desempenho que, assim como o script, varia entre o notável e o entendiante. Terrence Howard (“Homem de Ferro”) é outro que ainda não havia encontrado sua forma peculiar de incorporar personagens na época, entregando uma atuação que dá pistas fortes de um grande futuro, mas nunca decola completamente. É nesse ponto que os veteranos Bruce Willis e Marcel Iures se destacam, representando os dois elemenos realmente bem escolhidos de um filme cheio dos prematuros. O último, um dos atores romenos mais destacados da atualidade, conhecido pela participação na trilogia “Piratas do Caribe”, surge envelhecido e sereno para emprestar fascinação as palavras do roteiro. Já Willis, conhecido pelos anti-heróis cativantes, se despe do carisma para se encher de ambigüidade e se tornar o personagem mais marcante e o único verdadeiramente comovente em uma galeria de outrso nem tão memoráveis. Tanto é assim que ele é o pivô do clímax do filme e o olho do furacão, um coadjuvante que rouba a cena do protagonista para trazer o filme para si e dar a história um elemento de referência. Em um mundo sem hipocrisia, “A Guerra de Hart” receberia mais atenção apenas por essa interpretação, essencial para entender uma carreira e esquecida por muita gente. É uma pena que tais circunstâncias sejam tão impossíveis.

Nota: 6,5

 

quarta-feira, 4 de março de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (04/03/2009)

Intervalo cerebral

Jogos mentais não são estranhos ao diretor e roteirista Christopher Nolan. Afinal, foi com eles que o americano ganhou fama, assumindo o comando dos independentes e inovadores “Amnésia”, uma fábula violenta contada de trás para frente, e mais tarde “Insônia”, cheio de pressões psicológicas e suspense no melhor estilo Hitchcock e com o bônus de ainda ter Al Pacino no elenco. Foi de lá que ele foi para a escuridão do perturbado herói de “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas”, entre os quais armou outra sinfonia de inveja e raiva no brilhante “O Grande Truque”, o resultado sensacional do primeiro “intervalo entre blockbusters” do diretor. Agora que já completou a obra-prima do Morcego e vê ainda um pouco longe o terceiro filme da franquia, é hora de Nolan retornar a seu verdadeiro terreno e jogar com os pensamentos do espectador uma vez mais. Tudo bem, dessa vez ele radicalizou. Dando um tempo também na parceria com o irmão Jonathan, ele assume sozinho o roteiro original de “Inception”, que é descrito no primeiro esboço de sinopse como “uma ficção científica de ação ambientada dentro da própria arquitetura da mente”. Estaríamos diante de um novo “Cubo”, o filme de terror sem motivo mas cheio de criatividade que virou cult em 1997? Talvez seja melhor confiar na gritante diferença de talento existente entre Nolan e Vincenzo Natali, que depois do fatídico filme se limitou a títulos pouco significativos. Ou para os mais desconfiados seja uma prova melhor dizer que Leonardo DiCaprio (“Foi Apenas um Sonho”), um dos astros com escolhas mais sábias nos últimos anos, já embarcou no novo projeto do diretor, que deve sair em 2010. Enquanto isso, o terceiro Batman recebeu confirmação apenas de Christian Bale (“Os Indomáveis”) de volta no papel principal.

Mickey sem animação

Não, as bilheterias dos filmes da Disney não sofreram uma queda drástica, como pode sugerir o título. A animação é mesmo uma referência ao traço dos artistas que definiram o personagem símbolo do estúdio. Em seu primeiro e último papel em um filme lançado nos cinemas da produtora, o rato protagonizou o encantador curta-metragem “Aprendiz de Feiticeiro”, um dos segmentos presentes no clássico “Fantasia” e no comemorativo “Fantasia 2000”. A história todos já devem conhecer, mas não custa relembrar: escolhido por seu mestre, um grande bruxo, para realizar algumas tarefas domésticas, Mickey tenta usar seus dons de aprendiz para terminar mais cedo e partir para se encontrar com sua amada secreta. É claro, nem tudo sai exatamente certo e acaba conduzindo a junta de notas musicais e animação em cores vivas que marcou o estúdio. Como tal história pode vir a se tornar um longa-metragem, e em live action, certamente é uma pergunta que os produtores estão tentando responder. Isso porque os nomes envolvidos na refilmagem em carne e osso de “Aprendiz de Feiticeiro” continuam aumentando, e ainda assim não há sequer um roteirista anunciado. David Berenbaum (“A Casa Mal-Assombrada”) já tentou e desistiu da missão, e desde então o interesse de gente como Nicolas Cage ressuscitou o projeto. O astro arrastou consigo para o projeto o diretor Jon Turteltaub, seu comandante nos dois “A Lenda do Tesouro Perdido”, e nos últimos três meses o elenco do filme ganhou mais três adições no mínimo respeitáveis. Primeiro, o comediante Jay Bucharel, um dos comandados de Ben Stiller em “Trovão Tropical”, embarcou para interpretar o papel principal. Depois, foi a vez de Teresa Palmer (“Um Verão Para Toda a Vida”) assinar para viver o interesse romântico do protagonista e Alfred Molina (“Homem-Aranha 2”) repetir a dose de vilania e se tornar o antagonista da trama. Apesar da falta de notícias no roteiro, parece que as filmagens do longa terão início ainda no próximo mês.

Das prateleiras do Brasil para as telas americanas

 

Já há algum tempo que se escuta boatos sobre alguns projetos hollywoodianos baseados em livros do autor brasileiro mais lido do mundo, Paulo Coelho. Já se falou em “Veronika Decide Morrer” com Kate Bosworth (“Superman – O Retorno”) no papel principal e em Laurence Fishburne (“Matrix”) estreando como diretor e roteirista em uma adaptação de “O Diário de Um Mago”. Até pouco tempo, também era ele que estava envolvido em “Onze Minutos”, o projeto com o nome do brasileiro que tinha mais chances de realmente vingar. A história, publicada em 2003, soa mesmo como um drama conceitual americano: Maria é uma prostituta brasileira que parte pelo mundo atrás de seu ideal de amor, a união plena entre corpo e alma. Encontra em um pintor bêbado essa figura, mas precisará passar por cima de muitos obstáculos invisíveis para conquistar esse grande amor e o direito de finalmente viver livre do fardo de pobreza que sempre carregou. Em 2005 nomes significativos foram anunciados para o projeto, que iam desde o produtor Gianni Nunnari, parceiro de cineastas como Martin Scorsese (“Os Infiltrados”) e Oliver Stone (“Alexandre”), até a possível presença de Jack Nicholson (“Melhor é Impossível”) no elenco. Logo após a saída de Fishburne, em 2007, o ator foi cotado também para dirigir o filme, assim como fez com “A Chave do Enigma”, continuação do clássico “Chinatown”. É claro, se estamos aqui é porque os planos mudaram, e agora é o iraniano Hany Abu-Assad (“Paradise Now”) quem dirige a adaptação, trabalhando com o roteiro do brasileiro Marcos Bernstein (“Zuzu Angel”) e atraindo para o elenco nomes bem respeitáveis, tais como Alice Braga (“Eu Sou a Lenda”), Mickey Rourke (“O Lutador”) e o francês Vincent Cassel (“Senhores do Crime”), um apaixonado assumido por nosso país. Ainda não há previsão para o lançamento de “Onze Minutos”.

Morrer ou viver... eis a questão?

Como você se sentiria se soubesse que foi concebido apenas para salvar a vida de outra pessoa e sacrificar a sua vida por outra? Não estamos falando de destino, que fique bem claro, mas pura intenção humana. Se sentiria amedrontado, mas enfrentaria a missão? Ou talvez revoltado por ter sido usado como uma cobaia sem ser avisado sobre isso? Não é um dilema fácil de encarar. Agora imagine tudo isso para uma garota de nove anos que nasceu com a missão de salvar a irmã mais velha, acometida de câncer, ao custo da própria vida. É em uma situação delicada como essa que “My Sister’s Keeper” encontra seu cenário. O livro, publicado pela americana Jodi Picout em 2004, mostrava a luta dessa garota, concebida pela fertilização in vitro, para possuir o direito de fazer com seu corpo o que ela bem entendesse. Em resumo, era a história de uma cobaia clamando (na justiça) por emancipação, enfrentando uma mãe ex-promotora e um dilema dos mais perigosos. No início de 2007, quando surgiram as primeiras notícias sobre a adaptação cinematográfica, o filme chamou a atenção dos cinéfilos em geral graças aos boatos de que poderia reunir as irmãs Dakota & Elle Fanning, que nunca haviam contracenado a despeito de terem interpretado a mesma personagem, em épocas diferentes, em “Uma Lição de Amor”. Mas aos poucos os nomes das duas foram sendo afastados da produção, que acabou ganhando suas protagonistas nas figuras de Abigail Breslin (“Pequena Miss Sunshine”) e Sofia Vassilieva (a Ariel da série “Médium”), enquanto gente do calibre de Cameron Diaz (“As Panteras”) como a mãe ex-promotora, Alec Baldwin (“30 Rock”) como o advogado da protagonista e Joan Cusack (“Escola de Rock”), cujo papel ainda não foi revelado, embarcavam no projeto ao lado do diretor e roteirista Nick Cassavetes (“Alpha Dog”). Ele, aliás, provocou polêmica recentemente ao assumir que modificou o final do livro para a adaptação. A autora pareceu não ficar muito satisfeita: “Mudar o final muda a mensagem. Entretanto, estou animada para assistir o filme e tirar as minhas conclusões”.

Crise até na fantasia

Um pouco de bizarrice nunca é demais, principalmente em tempos de falta de criatividade na terra do cinema. Mas se Spike Jonze acertou na medida anos atrás com “Quero Ser John Malkovich”, será que Alexander Payne não está exagerando um pouco em sua nova fábula dramático-cômica, “Downsizing”? Pensando bem, é difícil enxergar algo de dramático em uma trama como a que vem nas próximas linhas: um casal em dificuldade financeiras decide cortar as despesas... diminuindo de tamanho! E não para por aí, já que ela desiste em um último instante e deixa o marido minúsculo, sozinho e obrigado a desfrutar da péssima companhia de um arrogante espanhol que teve a mesma idéia e acabou ficando do tamanho de uma lata de refrigerante. Para piorar um pouco mais, este último é perseguido por seu irmão gêmeo, ainda em tamanho normal, e tudo isso sem sequer uma palavra sobre a forma como o milagre do encolhimento poderia acontecer. Caso ninguém tenha notado, a sinopse soa como uma tentativa um tanto grotesca de engodo fantástico no contexto da crise financeira mundial. Mas parece que mesmo com tamanho exagero, Payne ainda continua o mesmo ímã de astros cool tentando fazer nome no cinema independente-comercial (não é a primeira vez que uso  esse termo por aqui). Os nomes da vez são Reese Witherspoon e Paul Giamatti, que já trabalharam com o escritor-diretor há algum tempo em “Eleição” e “Sideways – Entre Umas e Outras”, respectivamente. Enquanto eles encarnam o pouco convencional casal, o comediante Sasha Baron Cohen, o Borat, deve interpretar o espanhol e seu irmão obcecado. O título do projeto é uma brincadeira ambígua entre um jogo de palavras (down – abaixo, size – tamanho) e uma expressão técnica empresarial que tem sentido de “corte de pessoal”.

Bom, pessoal, um dia cheio de notícias para o cinema! Acho que há algum tempo que não tínhamos mais de quatro notícias em um mesmo dia… de qualquer forma, o que me resta é agradecer a todos vocês pelos comentários e pela atenção a esse humilde blogueiro tentando falar de sua paixão maior, o cinema. Obrigado mesmo, é ótimo ver este trabalho dando resultado… Valeu e até amanhã!

Manifesto Jovens que Pensam – O terceiro selo do Filme-Pipoca!

jovens

E mais uma vez o agradecimento aqui vai para o Renan Barretos, do genial blog de humor Melhor Opinião (http://melhoropiniao.blogspot.com/), não custa nada lembrar, um dos mais inteligentes da blogosfera. E é claro que quero dizer que estou mais orgulhoso do que de costumo por esse selo, principalmente por seu simbolismo. Como blogueiro, eu sempre procuro publicar um conteúdo que mereça ser lido, algo que não vejo muitas vezes por aí. É sempre bom perceber que há gente me considerando bem-sucedido nessa missão. Enfim, esse é mais que um selo, é um Manifesto, ou seja, uma imagem e uma corrente que pretende dizer alguma coisa, chamar a atenção dos leitores para os blogs que possuem um conteúdo mais inteligente, relevante em questão de inovação ou de conteúdo, não importa. O importante é mostrar que existe vida inteligente na blogsofera, e só por essa definição já dá para perceber o quanto é uma honra recebe-lo. Bom então vamos ao que interessa, que como sempre é publicas as regras para que a corrente possa ser repassada.

1º) Exiba a imagem do Manifesto e explique do que se trata.

2º) Poste o link do blog que te indicou.

3º) Indique 10 blogs de sua preferência para fazer parte do “Jovens Que Pensam”

4º) Avise seus indicados.

5º) Publique as regras.

6º) Confira se os blogs indicados repassaram as imagens e as regras!

Bom, então aqui vai minha lista de indicados, alguns repetidos do último selo, mas todos merecidíssimos: Além do Lide (http://alemdolide.blogspot.com/), Sonhos e Delírios (http://sonhosdelirios.blogspot.com/), Cinemania (http://blogcinemania.blogspot.com/), É só o Vento… (http://esovento.blogspot.com/), Poesia Inconstante (http://poesiainconstante.blogspot.com/), Clube do Camaleão (http://clubedocamaleao.blogspot.com/), Bones-cinema-TV (http://bones-cinema-tv.blogspot.com/), Farofa Apimentada (http://farofaapimentada.blogspot.com/), Garota Pendurada (http://garotapendurada.blogspot.com/) e o recé-começado, mas já acompanhado TV & Cine (http://tvecine.blogspot.com/). Pronto aí está, bem-feito, feito! Certo? Até mais pessoal, com as notícias do dia!

terça-feira, 3 de março de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (03/03/2009)

Moby Dick por trás das cortinas

Há quem diga que todo artista tem sua inspiração, que cada obra é resultado de uma espécie de colagem de referências que pode funcionar ou não aos olhos do espectador ou leitor. Publicado em 1851 como um criticado romance do já consagrado americano Herman Melville, “Moby Dick” foi aos poucos ganhando status de clássico entre a literatura norte-americana, tendo sido adaptado ao cinema cen tenas de vezes, a mais conhecida em 1956 sob a direção de John Huston (“O Tesouro de Sierra Madre”). Naquela oportunidade, Gregory Peck (“Cabo do Medo”) era o intérprete do Capitão Ahab, um lobo-do-mar com direito a perna de pau e todo o resto da parafernália, obcecado por uma baleia gigante que teria atacada um barco em que era marujo, muitos anos atrás. Ahab seria capaz de dar a própria vida para capturar Moby Dick, e é esse dilema dele e de seus marujos que a história se alimenta até caminhar, é claro, para um final trágico. Ao que parece, até mesmo Melville teve sua fonte de inspiração, o caso de um navio baleeiro que naufragou em 1820 após ser quebrado ao meio por um cachalote. Mesmo abandonados a deriva, os mais de vinte marinheiros encontraram tempo para jogarem-se aos barcos salva-vidas e navegar até chegarem a uma ilha. Depois de muito tempo, a maioria decidiu prosseguir viagem e tentar retornar para casa. Reza a lenda que apenas oito homens foram encontrados, e eles diziam que haviam chegado ao extremo de praticar o canibalismo e decidir na sorte quem seria o desafortunado da vez. Se Edward Zwick (“Diamante de Sangue”) pretende fazer um filme de terror, acertou na escolha. O inglês embarcou no projeto como diretor e roteirista ao lado de Marshall Herskovitz (“O Último Samurai”) para o filme, cujo título provisório é “The Heart of Sea” e deve começar a ser filmado ainda esse ano.

Dos tabuleiros para as telas

E a Hasbro pretende mesmo fundar de uma vez o gênero (se é que se pode chamar assim) de jogos de tabuleiro levados para o cinema. Como se não bastasse o anúncio muito próximo do potencialmente bizarro “Ouija”, baseado no ritualístico jogo de um copo sobre a mesa formando palavras supostamente ditadas por espíritos, a companhia de produção de brinquedos também já disse que pretende levar outros de seus três jogos mais conhecidos para as telas. O primeiro a sair deve ser “Banco Imobiliário” (conhecido como “Monopoly” em terras americanas e lançado recentemente por aqui com esse nome), e desde o final de 2007 já havia surgido a possibilidade do envolvimento do mestre inglês Ridley Scott (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”) no projeto, já que ele se pronunciou dizendo que “o universo do jogo é fantástico, divertido e direcionado para a família”. Notícias recentes deram conta do roteirista Pamela Peter (“A Noiva-Cadáver”) redigindo o roteiro, que provavelmente deve ganhar referências a crise mundial. Apesar das poucas esperanças, o produtor Brian Goldner, também presidente de Hasbro, se declarou recentemente muito animado com o projeto. Segundo ele: “Ridley Scott consegue construir grandes mundos de imaginação. Combine isso com um ótimo roteiro que Pamela está escrevendo sobre pessoas reais em uma versão de verdade do “Banco Imobiliário” – não o jogo do tabuleiro – e você pode ter uma idéia de como a história pode fazer sentido”. Os outros projetos ainda não receberam muitas confirmações, mas se basearão nos jogos “Detetive” (“Clue”, em inglês), que aliás já foi adaptado para o cinema em 1985 em um filme que recebeu o título de “Os Sete Suspeitos” no Brasil, e “Batalha Naval”.

Confusão dos anos

Das duas, uma. Ou Terrence Malick (“Além da Linha Vermelha”), que nunca foi a pessoa mais equilibrada do mundo, enlouqueceu de vez ou a ganância dos estúdios engoliu-o definitivamente. Como a primeira hipótese é muito mais provável no caso de um homem considerado gênio nos anos 1970 com apenas dois filmes (“Cinzas do Paraíso” e “Terra de Ninguém”) que passou quase vinte anos sem filmar e continua impondo dolorosos intervalos entre suas realizações, é melhor esperar que a loucura dê certo. Quatro anos depois de seu último filme, “O Novo Mundo” (que por sua vez foi feito sete depois do anterior), parece que “Tree of Life”, anunciado já há algum tempo, está pronto para entrar em processo de pós-produção. E das pesadas, embora isso não seja normal para um diretor tão naturalista quanto ele, conhecido por seus longos planos contemplativos e construídos como quadros instantâneos da natureza a volta de seus personagens. Mesmo com toda a aura de mistério em torno do filme, o especialista em efeitos especiais Mike Fink, um dos encarregados da pós-produção, deixou escapar em uma entrevista que está trabalhando em seres jurássicos para a produção. O estranho é que, além de não ser adepto de efeitos extravagantes, a sinopse de “Tree of Life” não parece exigir tal feito. Afinal, como diabos dinossauros se encaixariam em uma trama sobre um jovem do meio-oeste americano que se torna um adulto desiludido e tenta encontrar seu lugar no mundo e na existência humana? Tudo isso na década de 1950! É claro, há sempre a possibilidade do imprevisível Malick ter mudado o projeto e “esquecido” de avisar a imprensa, que já levanto u a hipótese do diretor estar revivendo um velho sonho: “Q”. Desde que completou “Cinzas do Paraíso” em 1978 que ele tenta realizar o filme, descrito na época como “um drama de vários personagens ambientado no Oriente Médio durante a Primeira Guerra”, que teria um período pré-histórico aludindo a ficção de Kubrick em “2001: Uma Odisséia no Espaço”. Se de fato for verdade, os nomes de Brad Pitt (“Benjamin Button”) e Sean Penn (“Milk”) continuam envolvidos e o sexagenário Charlie Bluhdorn, consultor de efeitos de filmes como “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, deve sair da aposentadoria.

Bond volta a moda

Algumas semanas depois das polêmicas declarações de Judi Dench, a M dos filmes de “James Bond” sobre o quanto seria ótimo ter alguns personagens de volta para o terceiro filme de Daniel Craig (“Invasores”) como o protagonista e a concordância enfática do mesmo (para quem não sabe, estamos falando do Q de John Cleese e da famosa secretária Monneypenny), parece que o “Bond 23”, que ainda não tem nem mesmo uma data de lançamento acertada, virou o projeto da vez para os nomes mais badalados do mundo do cinema. Ainda que esteja em filmagens da comédia “The Baster” ao lado de Jason Bateman (“Hancock”), Jennifer Aniston, recém-afirmada como boa atriz no drama cômico “Marley & Eu”, declarou que o grande sonho de sua vida é ser uma Bond-girl. Até aí, nada demais, mas leia bem e reflita um pouco sobre as palavras da atriz: “Adoraria fazer um filme de ação. James Bond! Glamour! Daniel Craig! Seria muito divertido”. Alguém reparou que ela fez referência direta ao atual intérprete do agente 007, e afinal essas palavras não soam como um oferecimento tentador? Afinal das contas, não seria nada mal ver Jennifer como a paixão da vez do agente, e ela ainda já mostrou ter talento o bastante para continuar a tendência de complexidade imposta por Eva Green (“Cassino Royale”) e Olga Kurylenko (“Quantum of Solace”). Boato um pouco mais fundado é o que dá conta de um recém-premiado com o Oscar para a direção do 23º filme do espião de Vossa Majestade. Segundo o tablóide inglês The Sun, o candidato da vez seria Danny Boyle, recém-saído do multipremiado “Quem Quer Ser um Milionário”. Ainda segundo a publicação, a produtora Barbara Broccoli, guardiã dos direitos da obra de Ian Fleming após a morte de seu pai, teria se interessado pelo trabalho do diretor por achar que “poderia funcionar perfeitamente para o novo visual de Bond”.

Bom, pessoal, e por hoje, é isso… bom, eu ganhei mais um selo hoje (estou explodindo de orgulho, acreditem), mas como há algum tempo estava devendo um dia completinho para vocês, resolvi deixar para amanhã a publicação dele, certo? Mais uma vez, obrigado a todos os comentários e até a próxima! Ah, e só os melhores filmes para vocês, é claro!

Encontrando Forrester – A Europa em Hollywood… equívocos de um filme recompensador

forresterEncontrando Forrester (Finding Forrester, EUA, 2000)

De: Gus Van Sant

Com: Sean Connery, Rob Brown, F. Murray Abraham, Anna Paquin

136 minutos

 

 

 

 

 

O mundo em que vivemos é estranho, uma terra inóspita criada por nós mesmos cheia de hipocrisias e normas sem sentido absolutamente nenhum. Por exemplo, porque diabos o homem inventou a crítica? Será que realmente causa algum prazer impor uma barreira entre o autor e o público, julgar cada detalhe e bater o martelo inflexível para consagrar ou condenar uma obra de arte? Afinal, o cinema e qua lquer outra forma de arte é puramente e primitivamente uma forma de expressar os pensamentos de um grupo de artistas, algo para ser julgado por quem vê, não por quem é pago para isso. “Escritores escrevem para darem aos leitores algo para ler”. Poderia haver uma definição tão simples, óbvia e ao mesmo tempo tão esquecida? Afinal, quantas pessoas d eixam de ver um filme ou ler um livro porque os comentários espalhados pelos meios de comunicação são negativos? Ou, ainda o contrário, fugir de uma obra simplesmente porque as mesmas descrições parecem ser metafóricas demais? Se me permitem a metalinguagem e um pouco de falta de modéstia, é sempre bom lembrar que a crítica não deixa de ser uma forma de arte, um exercício de dissertação para expor um ponto de vista e acima de tudo instigar a apreciação. Por incrível que pareça, um filme não precisa ser uma obra-prima para merecer ser assistido, e não há melhor exemplo disso que “Encontrando Forrester”, drama cheio de pequenas lições que valem a pena serem escutadas, mas repleto de pequenos equívocos que acabam resultando em um filme que marca mais pelo que ensina do que pelo que provoca emocionalmente ao espectador. Para começar, é bom avisar que não é a toa que Gus Van Sant, diretor de filmes tão díspares quanto “Um Sonho Sem Limites” e a refilmagem de “Psicose”, é freqüentemente chamado de o diretor americano mais europeu da atualidade. “Encontrando Forrester” reflete essa faceta de seu comandante no ritmo, cheio das cadências típicas das produções do velho continente, levado de maneira oscilante, quase como um acaso planejado, um improviso delimitado cuidadosamente com algumas regras. É quase irônico que um filme como esse encontre seu defeito mais notável justamente onde as produções européias verdadeiramente se destacam: a climatização da história. Não se trata de um trabalho ruim do diretor, mas talvez constitua em um conjunto de pequenos detalhes equivocados no texto de Mike Rich, então um estreante que posteriormente escreveria “Meu Nome é Rádio” e um par de outras obras pouco notadas. Ele é não menos que brilhante em seus diálogos, construindo debates verbais intrigantes e usando a racionalidade e a rigidez de seu personagem principal para criar pérolas que certamente entrariam para as grandes frases do cinema caso o ambiente de toda essa história não fosse tão maleável, indecisa quase.

Em alguns momentos, parecemos estar em frente a um filme-denúncia que versa sobre preonceito, com direito a um amor impossível e discriminação social. Em outros, a história adquire uma dramaticidade intensa, quase como um suspense com suas sombras e as luzes ofuscantes da câmera do diretor. Nos melhores momentos, “Encontrando Forrester” é um drama com levadas irônicas e pílulas de sabedoria encantadoras, ingredientes que, se se mantessem durante todas as mais de duas horas de projeção, fariam do filme uma obra essencial. Mas a irregularidade e a vontade clara de triunfar em tantas vertentes acaba por diminuir o impacto da trama e torna-la quase banal ao lado de linhas tão geniais de diálogos e construção tão habilidosa de personagens. Sem a emoção que teoricamente deveria provocar, “Encontrando Forrester” deixa de ser um filme apaixonante para se tornar uma viagem prazerosa, mas puramente esquecível, embora não seja banal em seu conteúdo. E é realmente lamentável ter que dizer que a falta de um material emocional verdadeiramente impactante é o pior pecado que uma trama como essa poderia cometer. Isso porque “Encontrando Forrester” é, em sua essência mais fundamental, uma história sobre paixão. A de Jamal Wallace (Rob Brown) é escrever. Uma exceção em meio a falta de oportunidades no pobre cenário do Bronx da década de 90, ele é obrigado a sufocar essa obsessão para ser aceito entre os jovens de sua idade, que preferem admirá-lo pela habilidade no basquete. Quando um exame de qualificação que ele fez em segredo retorna juntamente com a boa impressão dos donos de uma conceituada escola, e sua bolsa de estudos é liberada, ele conhece um novo mundo. Povoado por todo o tipo de gente, daqueles que aceitam sua presença ali por mérito, representados pela própria filha do proprietário, Claire Spence (Anna Paquin) até outros que não possuem tanta facilidade assim em assimiliar a idéia de que um negro de classe baixa possa ser tão talentoso quanto ele demonstra em suas redações. Seu principal opositor é o professor de literatura, Robert Crawford (F. Murray Abraham), um escritor pracassado que se recusa a acreditar nos dons do garoto. Paralelo a tudo isso, assistimos ao surgimento e crescimento de uma amizade no mínimo improvável, começada de maneira bem inconvencional. William Forrester (Sean Connery) é um escritor recluso e brilhante que foi premiado com o Pulitzer em sua estréia e nunca mais deu ao mundo outra obra. A partir de uma brincadeira entre os amigos, os destinos do apaixonado pela escrita e daquele que perdeu essa paixão há muito tempo se cruzam sob circunstâncias bem criativas.

O personagem de William é tão bem construído que é impossível não se encantar, cheio de excentricidades e uma visão dura de mundo que aos poucos vai ganhando razão e ocupando um espaço cada vez maior na trama. Se ela não fosse tão indecisa, não era de se duvidar que o personagem entrasse para o hall da fama do mundo do cinema. Principalmente com a simbólica e cativante interpretação de Sean Connery, em seu último filme antes das “férias” marcadas por produções esporádicas e entregando uma atuação para coroar a carreira, cheia de detalhes ricos e emblemática como sempre. O James Bond por excelência não se despe da petulância que marcou sua persona, mas passa por cima dela para desempenhar seu papel com a compreensão de um verdadeiro mestre. O restante do elenco também entrega performances eficientes, mas nunca passa disso. Mesmo o jovem Rob Brown (“Stop-Loss”), tão comentado na época da estréia do filme, não impressiona muito ao encarar os dilemas do protagonista acompanhado de gente já oscarizada como Anna Paquin, premiada por “O Piano”, mas mais conhecida pela Vampira de “X-Men”. Experiente, F. Murray Abaham (“Amadeus”) se limita a criar o antagonista padrão, amargurado, sem limites e inflexível como é mostrado pelo roteiro. Comandanado as câmeras, Gus Van Sant faz o trabalho louvável de sempre, um pouco mais cuidadoso com os modismos que os tornaram famoso, mas genial como sempre ao capturar a alma dos personagens, ainda que o mundo que há em volta deles não chegue a envolver. Antes de seu lançamento, “Encontrando Forrester” foi dado como o retorno do diretor aos grandes filmes depois de escorregão em “Psicose”. O público ainda tinha na memória a obra anterior a este, “Gênio Indomável”, e não faltou comparações entre os dois pela trama pretensamente inspiradora e mentoria convencional, estilo Sessão da Tarde. Talvez a repetição tenha afujentado o público, mas o fato é que “Encontrando Forrester” acabou invertendo as expectativas e encerrando de maneira pouco louvável a fase mainstream desse que já foi considerado um dos mestres do cinema dramático. Mesmo que seja só pela ruptura que representou, a verdade é que “Encontrando Forrester” é um filme que vale ser visto, mas vai sumir da memória em breves horas, ainda que Sean Connery nunca tenha brilhado tanto. Confira e me diga você mesmo.

Nota: 7,0

 

segunda-feira, 2 de março de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (02/03/2009)

Mais risadas filosóficas com Reitman

Para o filho de um diretor consagrado entre as comédias descompromissadas (Ivan Reitman, mais conhecido por “Caça-Fantasmas”), Jason Reitman tem embarcado em projetos que, apesar de não abandonarem o lado cômico, encontram grande repercussão ao discutir temas relevantes. Primeiro foi a indústria assassina do tabaco no contundente “Obrigado por Fumar”, e em seguida ele mirou sua cr ítica a falta de compromisso dos jovens com o doce e encantador “Juno”. Ao que parece, agora é a vez de Reitman dar sua visão sobre o conformismo e a mediocridade. “Up in The Air” conta a história de um daqueles homens de classe média que se contentam com pequenas realizações em uma vidinha medíocre e entediante. Esse é Ryan Bingham, um profissional que ganha a vida assessorando empresas na hora de demitir seus funcionários, um emprego deprimente que ele deixa para trás para mergulhar em um misterioso novo trabalho na Austrália, procurando chegar a sua meta de vida maior: acumular 1 milhão de milhas áreas viajadas em toda a sua vida. Assim como fez com sua estréia na direção, Bateman não apenas movimenta as câmeras desta adaptação de um best-seller de Walter Kirn (“Impulsividade”) como também escreve o roteiro, que já atraiu alguns astros para os complexos papéis do escritor. O personagem principal deve ser interpretado por George Clooney, saído outra adaptação, “Fantastic Mr. Fox” (baseado na novela de Roald Dahl, o mesmo de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”), e o politizado astro contracenará com gente do calibre de Vera Farmiga (“Os Infiltrados”) e o comediante Jason Bateman, que trabalhou com o diretor em “Juno” e contracenou com Will Smith no divide-opiniões “Hancock”. “Up in The Air” deve sair ainda no final desse ano.

Monstro duradouro

“Cloverfield”, mesmo depois de um ano de seu comentado lançamento, continua sendo o filme mais cult do nosso século. Um cult planejado, é verdade, e minuciosamente. Afinal, quem poderia resistir a tantos mistérios e tão poucas respostas de verdade, um modo de filmagem tão “revolucionário” (ainda que “A Bruxa de Blair” o tenha usado uma década atrás) e a idéia de um “Godzilla” americano, um filme de monstro para mobilizar e representar o país no gênero? E a receita ainda incluía o melhor dos efeitos especiais hollywoodianos, usados com tanto cuidado que seria impossível não aplaudir de pé! A receita deu certo para o diretor estreante Matt Reeves e para o produtor J.J. Abrams (“Lost”), que viram seu filme ser destrinchado na Internet meses antes do lançamento e o resultado final ultrapassar a barreira da centena de milhões de dólares apenas em terras americanas. Nesse meio tempo, o formato virou moda adotada por gente do calibre de Brian DePalma (“Redacted”) e George Romero (“Diário dos Mortos”), e a partir daí não é preciso ir muito longe para imaginar que “Cloverfield” já ganhou continuação garantida. Os primeiro nome confirmado, é claro, foi o do produtor, que acertou com a Paramount para a distribuição da seqüência produzida por seu próprio estúdio, o Bad Robot. Ao que parece, o acerto é mais complicado para o diretor Matt Reeves, que tenta negociar um salário para um contrato único dando conta de dois filmes. Além da continuação, Reeves dirigiria “The Invisible Woman”, descrito como “um thriller hitchcockiano sobre o desespero de uma mulher ao ver sua família ameaçada”. Mas assim que o contrato for fechado Reeves assumirá o comando do roteiro, mais uma vez escrito por Drew Goddard (“Buffy”), que disse ter idéias para uma continuação pouco convencional, que se cruzaria com a história do original em poucos pontos apenas para mostrar o destino dos personagens que sobreviveram.

Menina-prodígio

Considerada por muitos a mais talentosa do trio de protagonistas da série “Harry Potter”, a parisiense (acreditem ou não, ela só se mudou para a Inglaterra aos seis anos) Emma Watson, intérprete da prodigiosa Hermione Granger nos filmes da série, parece ter herdado a inteligência excepcional que marcou sua personagem entre os fãs. Perto de completar dezenove anos neste 15 de Abril e dona já de dois créditos como atriz fora da série (o televisivo “Ballet Shoes” e a animação “O Ratinho Desperaux”), os últimos meses foram de estudos para a atriz, que já se declarou indecisa sobre seu futuro como atriz. Por via das dúvidas, ela resolveu usufruir da riqueza garantida pelos até agora cinco filmes da série e fez sua inscrição para a prova qualificatória nas inglesas Harvard e Cambridge, além das americanas Yale e Brown, algumas das mais conceituadas do mundo. Mesmo prestando para o concorrido curso de direito, os primeiros retornos das faculdades foram positivos, e justamente nas duas mais difíceis da lista. Aceita em Yale até ela já admitiu que foi, em seu Twitter, mas os rumores dizem que até mesmo a conceituadíssima universidade Cambridge se impressionou pelos resultados da garota, que estaria em um dilema mortal entre duas das mais difíceis e respeitadas faculdades do mundo. Yale, é claro, tem seus atrativos a mais, principalmente para alguém envolvido na área do cinema. Foi lá, na acadêmica cidade de New Heaven, em Connecticut, que se graduaram gente como Meryl Streep (“O Diabo Veste Prada”), Jodie Foster (“O Silêncio dos Inocentes”), Sigourney Weaver (“Alien – O Oitavo Passageiro”) e Edward Norton (“O Ilusionista”).

Direto da gaveta

O projeto parecia morto e enterrado, e não havia poça gente dando graças a Deus por isso. Afinal, será que o pobre Alfred Hitchcock não havia sido profanado o bastante quando Gus Van Sant (“Gênio Indomável”) manchou seu nome com a equivocada refilmagem de “Psicose”, um fracasso de crítica e público? Afinal, será que era preciso mesmo mais uma refilmagem? Ao que parece, a Universal acha que sim e está decidida a refazer mais um dos clássicos absolutos do mestre do suspense. O alvo agora é a visão do alemão dos filmes de monstros, o perturbador “Os Pássaros”, lançado em 1963 quando o nome de Hitchcock já era o mais falado no mundo de Hollywood. As primeiras notícias eram um pouco encorajadoras pelos nomes envolvidos, mas não havia santo que convencesse alguém com o mínimo de bom senso de que algo de bom poderia sair dali. Quase um ano sem notícias e projetos paralelos de todos os envolvidos foi o bastante para que os cinéfilos dessem o assunto por encerrado e os sites de cinema retirassem seus arquivos sobre a refilmagem, provavelmente com um grande sorriso no rosto. Mas eis que Brenna Lee Roth, filha do roqueiro David Lee Roth e atriz de um par de filmes de terror trash tirou o roteiro de dentro da gaveta e fez a refilmagem voltar as notícias após dar uma entrevista dizendo que “havia conversado com os produtores” e descoberto que eles pretendiam realizar o projeto em 3D, a tecnologia do momento. Ao que parece, o novo filme pode ser uma adaptação mais fiel do conto de Daphne Du Maurier, de onde o diretor tirou sua inspiração. Os nomes de Martin Campbell (“007 – Cassino Royale”) para a direção e George Clooney (“Conduta de Risco”) e Naomi Watts (“King Kong” ) no elenco continuam envolvidos.

Bom, pessoal, e por hoje é isso… um par de notícias bombásticas nessa segunda-feira calorenta, outras duas nem tanto, mas é isso aí… obrigado como sempre pelos comentários e pelo selo, é claro, mais uma vez. Bom, então os melhores filmes para todos vocês e até amanhã!

Selo Laranja – O segundo do Filme-Pipoca!

laranja[1] 

É, pois é, o tempo passa, o blog evolui, cada vez mais comentários e mais seguidores… e quando tudo parecia ter chegado ao auge, nos vem mais uma surpresa! Sério, adorei saber que havia sido indicado para um selo tão legal quando esse selo Laranja, que se destina a figurar nos blogs mais criativos da blogsofera. Bom, seguindo já a primeira das simples regras do selo, vou linkar quem me indicou, que foi o Renan Barreto, que escreve um dos blogs de humor mais inteligentes por aí, o Melhor Opinião (http://melhoropiniao.blogspot.com/). Entrem mesmo, vale a pena. Agora, como sempre, vou publicar as regras do selo, para que os meus indicados possam passá-lo adiante:

1-) Exiba a imagem do selo “Laranja” que você acabou de ganhar!

2-) Poste o link do blog que te indicou.

3-) Indique quantos blogs você quiser que você considera criativo.

4-) Escreva quatro formas que você usa para expressar sua criatividade.

Bom, então vamos lá, primeiro eu vou colocar aqui uma lista dos meus indicados: Clube do Camaleão (http://clubedocamaleao.blogspot.com/), Galeria Virtual (http://wagner-lopes.blogspot.com/), Poesia Inconstante (http://poesiainconstante.blogspot.com/), Cinemania (http://blogcinemania.blogspot.com/) e É Só o Vento… (http://esovento.blogspot.com/).

Agora, quatro formas de expressar minha criatividade. Vamos ver: fazendo críticas de filmes que vejo, tentando dar uma abordagem diferente as notícias que publico no blog, escrevendo alguns pequenos contos que permanecem impublicados (por enquanto) e tentando sempre adicionar algo de realmente interessante a esse mundo rico que é o do cinema, minha paixão maior. Certo? Aí estão, não muito diferente do normal. Mas enfim, mais uma vez quero agradecer ao Renan pelo selo, obrigado mesmo por ele e pelos comentários sempre concisos aqui no blog. É sempre bom saber que seu trabalho está sendo reconhecido! Agora, tenho que ir (estudar para as provas que se aproximam…). Valeu mais uma vez e até mais!

domingo, 1 de março de 2009

Sociedade dos Poetas Mortos – Emoção, revolução e um filme inesquecível

   Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA, 1989)

De: Peter Weir.

Com: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Hansen.

128 minutos.

 

 

 

 

  Não é fácil descrever, colocar em palavras as idéias e mensagens de um filme como este “Sociedade dos Poetas Mortos”. Afinal, como expressar a repercussão de um filme que expressa através da forma de arte mais perfeita a ânsia mais primitiva de qualquer ser humano? Talvez as palavras de Henry David Thoreau sejam melhores do que as de qualquer outro para essa missão. “Eu fui à floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido”. Viver cada dia como se fosse o último, nunca hesitar diante a decisões que podem mudar sua vida e o mundo ao seu redor, fazer o possível e o impossível para alcançar o destino que queremos, não aquele que nos é imposto. Tomar o “caminho menos percorrido”, sua própria estrada em direção a algo que você espera, não teme. Mudar o mundo, quem sabe, mas acima de tudo fazer a vida valer a pena a cada amanhecer e viver cada minuto como se fosse o melhor de toda a sua vida. Assim, quem sabe, todos eles realmente possam ser, e não haverá arrependimentos no final porque tudo o que você fez foi para alcançar aquilo que você vive. Carpe Diem, sussurra um professor, um guia e um capitão por mares singrados apenas em sonhos, um homem que vai tornar a vida extraordináeira e inspirar a revolução de cada um e a construção mais profunda das personalidades mais diferentes. Duas palavras, uma idéia, atos que mudariam para sempre o mundo ao redor e a trajetória de cada uma daquelas pessoas. Simples assim, da teoria para a prática. Tudo começou com palavras que eles não escreveram, e evoluiu devagar para aquelas que vinham do fundo mais verdadeiro do coração de cada um. Pode parecer piegas, pode parecer uma idéia que já se desgastou, pode parecer a maior válvula de escape jamais concebida pelo cinema, mas o fato é que “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme inspirador, transformador, emocionante e inesquecível. Um filme que renova aquela vontade expressada por Thoreau em cada espectador e eleva cada um de nós a categoria de únicos, extraordinários, pequenos milagres que merecem aproveitar cada dia e viver de forma plena e notável. Soa como um engodo, algo feito para massagear o ego da platéia e conquistar cínicos milhões para a indústria de Hollywood. Mas como muita coisa nesse mundo, a primeira impressão é enganadora, e “Sociedade dos Poetas Mortos” acaba por se tornar justamente o oposto de tudo isso, um quebrador de corações e um filme para poucos com uma teoria para as massas que triunfou graças a sua maravilhosa forma de nos convencer que palavras e idéias podem mudar o mundo. Acha essa idéia um tanto quanto irreal para a sociedade em que vivemos? Pois imagine tal teoria se colocando em prática cinco décadas atrás, quando o mundo era mais rígido e as regas mais infelxíveis, quando a prisão era mais estreita e os destinos eram traçados sem o consentimento de ninguém. Sorriu com a idéia? Pois grave esse sorriso no rosto, ele virá com as lágrimas durante todas as duas horas de “Sociedade dos Poetas Mortos”.

O que companhamos aqui não é apenas mais uma história colegial de alunos rebeldes inspirados por um professor a darem um jeito em suas vidas. De fato, é quase o contrário. A Academia Welton não admite rebeldes em suas fileiras, mas garotos cujos destinos estão traçados desde cedo pelos pais, ricos o bastante para pagar pelo ensino e rígidos o bastante para não permitirem a seus filhos a liberdade de escolha. Nesse ambiente, John Keating (Robin Williams) chega para ensinar inglês após a aposentadoria do antigo professor e não demora para causar estranheza com seus métodos de ensino pouco convencionais, suas aulas quase ritualísticas e seu carisma tranqüilo de homem que aprendeu a viver plenamente sem ser condenado por isso. Ele é o inspirador para um processo contrário ao convencional, implantando uma revolução pessoal em cada um dos alunos e encorajando-os a desafiar o mundo ao redor e lutar pelo que querem com seu desejo mais profundo, para que suas vidas valham a pena. Cada um deles capta a mensagem de sua forma, e juntos eles fazem renascer uma antiga organização da qual o professor fazia parte em seus tempos de escola, a Sociedade dos Poetas Mortos, dedicada a tornar em verdade as palavras de Thoreau. Neil Perry (Robert Sean Leonard) é um jovem carismático, popular e submisso a vontade do pai, que lhe incutiu a idéia de seguir carreira na medicina. É ele quem recebe os conselhos de Keating com mais furor, enxergando ali a forma de seguir suas verdadeiras vontades, deixar tudo o que o acorrenta para trás e se tornar o ator que povoa seus sonhos. Todd Anderson (Ethan Hawke), é de certa forma o oposto de seu colega de quarto, tímido ao extremo e quase ignorado pelos pais, que o colocam na Welton puramente para não precisarem lidar com ele no dia a dia. É nele que o exemplo de Keating inspira a maior revolução, quase uma mudança total e irrevogável, um descobrimento completo que parecia impossível para alguém como ele, aos seus próprios olhos e de quem está a sua volta. Knox Overstreet (Josh Charles) é um sonhador apaixonado por uma garota que, além de distante de seu mundo limitado, ainda tem um namorado popular. Terreno fértil para os conselhos do professor repercutirem em ações mais enfáticas e determinadas para conseguir o que se deseja. Para fechar o círculo principal de poetas, Charlie “Nuwanda” Dalton (Gale Hansen) é o rebelde incorrigível de bom coração e carisma incontestável, que passa dos limites e representa com perfeição a confusão ente viver plenamente chocar o mundo a sua volta.

Mesmo operando tantas tranformações em uma galeria tão variada de personagens, o roteiro do então estreante Tom Schulman (“Nosso Querido Bob”), dono do único Oscar concedido pelo filme, nunca se perde em ambições demais por descompromisso de menos, regendo com habilidade uma sinfonia de emoção e raciocínio mais fortes do que nunca, unidos para transformar “Sociedade dos Poetas Mortos” em um filme que marca, inspira e transforma, independente de cinismos ou de críticas, uma obra tocante de magistral, uma aula de bom roteiro e de controle de trama que funciona as mil maravilhas comandada pela câmera de Peter Weir (“O Show de Truman”). Ele, um dos grandes mestres da direção americanos, é quem tranforma a obra redigida por Schulman em uma poesia em forma de cinema, arrancando suspiros com sua forma de filmar simplista e tirando proveito das lindas locações para construir tomadas no mínimo deslumbrantes. Os truques e as manhas de Weir transformam cada cena em algo inesquecível, respeitam as descrições do roteiro ao mesmo tempo que adicionam algo a mais com ela. Seja utilizando sombras (em uma das cenas mais tensas da história do cinema), filmando de maneira quase teatral ou girando ao lado de seus personagens para mostrar o momento de descoberta de um jovem, Weir mais uma vez mostra o quanto é um absurdo um diretor como ele ter angariado seis indicações ao Oscar sem nunca vencer uma. Se Weir dá forma ao filme com maestria, o elenco faz o mesmo ao conferir alma a cada um daqueles personagens. Robin Williams mostra o quando pode ser doce a mistura de drama e comédia para entregar uma interpretação carismática mas sempre contida, entoando versos imortais com a mesma habilidade que pronuncia os diálogos mais simples e fazendo do professor Keating mais que apenas um capitão, uma lenda e um dos personagens mais marcantes do mundo do cinema. O elenco jovem não deixa a desejar, atuando ao lado do mestre com habilidade invejável: Robert Sean Leonard (o Dr. Wilson de “House”) exala carisma radiante e conquista o público com facilidade em uma atuação irretocável, adjetivo que pode muito bem ser aplicado a Ethan Hawke (“Antes do Amanhecer”) e Josh Charles (“SWAT”), eficientes em seus papéis. Já Gale Hansen, que pouco se destacou depois do filme, é carisma e honestidade a flor da pele para constuir o poeta mais inesquecível de todo o filme. Há muito mais do que primor técnico em “Sociedade dos Poetas Mortos”, há algo especial que existe dentro de cada um de nós e há um antídoto irrevogável contra o conformismo. Ingredientes perfeitos para um filme que renova a esperança que nós precisamos ter... em nós mesmos.

Nota: 10