quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (19/02/2009)

Cruise, duro de matar

cruise

Para um povo tão patriótico, os americanos adoram colocar seus presidentes em risco de morte nas superproduções. Depois da inovação controlada e plagiada (do clássico “Rashomon”) de “Ponto de Vista”, chegou a vez do veículo presidencial ser alvo de mais tramóias terroristas. A premissa de “Motorcade” é mais simples impossível: a comitiva levando o comandante-em-chefe ianque através da cidade de Los Angeles é a oportunidade perfeita para os grupos terroristas, o que leva  a um estudo das medidas de segurança tomadas nesse tipo de situação. O primeiro tratamento do roteiro de “Motorcade” ficou por conta de Hans Bauer e Craig Mitchell, dupla responsável pelo pesado policial de suspense “Justiça a Qualquer Preço”, estrelado por Richard Gere. Mas parece que o trabalho não agradou, porque agora é o bem mais conceituado Billy Ray (“Quebra de Confiança”) que faz sua revisão do script. Enquanto a versão final não fica pronta, astro e diretor do novo blockbuster já surgem como quase certos. Parado desde que tomou de vez o trono de diretor de ação do momento com “Duro de Matar 4.0”, o americano Len Wiseman, comandante de “Anjos da Noite” e felizardo marido da estrela do filme, Kate Beckinsale, deve sair das férias para comandar a thriller. O nome do diretor foi seguido do anúncio quase certo do renascido Tom Cruise (“Operação Valkíria”) como protagonista. Se ele será o presidente ou um dos seguranças, ainda não foi anunciado.

Perdido na tradução

valkyrie

Parece que de fato o plano para derrubar Hitler no “Operação Valkíria” de Bryan Singer (“X-Men – O Filme”) fez muito bem para a carreira do até então sumido astro Tom Cruise (“Missão: Impossível”), que desde os escândalos com cientologia e o sofá da Oprah (é sério!) parecia pertencer ao limbo dos ex-superastros decadentes. Agora, além do thriller terrorista “Motorcade” do diretor Len Wiseman (“Anjos da Noite”) e tema da nota anterior, o homem do “sorriso Cruise” quer entrar para o filão das comédias românticas, gênero um tanto ausente em sua filmografia. “Lost for Words” pelo menos promete uma trama um pouco mais criativa que o normal. A  paixão da vez é entre um ator britânico e uma cineasta chinesa, unidos por uma filmagem e separados por uma tradutora que insiste em tentar conquistar o astro. Graças a nacionalidade inglesa do personagem, o primeiro ator envolvido no projeto foi Hugh Grant (“Letra & Música”) que, ao contrário de Cruise, não faz questão de esconder a preferência pelo gênero, mas abandonou o projeto alegando as famosas “diferenças criativas”. Agora, é Cruise que assume o papel do protagonista com direito a sotaque caprichado. O roteiro traz uma parceria bem inesperada: Jamie Curtis (“Spice World”) e Dan Mazer (“Borat”) redigem a trama, a ser dirigida por Susanne Bier (“Coisas que Perdemos Pelo Caminho”) e co-estrelada pela sumida chinesa Zhang Ziyi (“Memórias de Uma Gueixa”).

O poder de uma estatueta

joker

Heath Ledger é a única aposta praticamente certa da edição de 2009 do Oscar, que promete ser, sob outros aspectos, imprevisível. Sua interpretaç ão formidável e marcante como o Coringa do fabuloso (e ignorado) “Batman – O Cavaleiro das Trevas” será sem dúvida nenhuma o momento mais emocionante da cerimônia, e provavelmente o mais merecido. Mas quem, afinal, vai receber a estatueta pelo falecido ator? No Globo de Ouro ele foi representado pelo diretor do longa, Christopher Nolan (“Insônia”) e o colega de elenco Gary Oldman (“Drácula de Bram Stoker”) recebeu a homenagem do sindicato de atores, mas o prêmio da Academia tem normas mais rígidas para os prêmios póstumos. O mais recente, entregue ao diretor de fotografia Conrad L. Hall pelo trabalho em “Estrada Para a Perdição”, foi recebido pelo seu filho. As regras dizem que a viúva do premiado ou o filho mais velho devem fazer as honras no palco do Kodak Theatre, mas a família de Ledger tem feito campanha para que a pequena Matilda Rose, fruto da relação do ator com Michelle Williams (“Wendy & Lucy”) receba as honras. Como a garota, de três anos, não tem idade suficiente para assinar o contrato feito para garantir que a estatueta não seja revendida, a atriz e ex-mulher do ator guardará o prêmio até que ela complete seus 18 anos.

Asgard aguarda

thor

Kenneth Branagh (“Frankenstein de Mary Shelley”) pulou a bordo da adaptação dos gibis da Marvel sobre o semideus “O Poderoso Thor” há apenas dez dias, mas parece que o britânico sabe como fazer um projeto acelerar as engrenagens. Hoje pela manhã foi divulgado o casting call, espécie de resumo de exigências feito para atrair atores aos testes para personagens, para o papel principal, que envolve tanto o deus do trovão quanto sua contraparte humana, o doutor Donald Blake. Segundo o site Coming Attractions, o diretor estaria procurando um ator entre 25 e 30 anos, com mais de 1,80m de altura, “fisicamente poderoso, bem apessoado, ocasionalmente egoísta, petulante e selvagem, um guerreiro natural com sacadas charmosas e rápidas que deve ser genuína e severamente humilde antes de se tornar o apaixonado e maduro herói do nosso filme”. As palavras impressionam, mas parece que o diretor tem encontrado dificuldades em aceitar algumas decisões do roteiro de Mark Protosevich (“Eu Sou a Lenda” ), que coloca Blake, originalmente a identidade humana provisória do herói, como um estudante de medicina inseguro que encontra o martelo Mjolnir por acaso.

Bom, pessoal, e por hoje é isso, certo? Vou aproveitar para agradecer a todos os comentários, sempre inteligentes, significantes, o pessoal está mostrando que realmente entende o que lê antes de escrever qualquer coisa! Parabéns a todos nós porque o Carnaval (e o Oscar, é claro) está chegando! E os melhores filmes para todos vocês e até amanhã!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo – As Notícias do Dia (18/02/2009)

Ang Lee, mais um desertor?

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A analogia bélica pode parecer um pouco mais exagerada, mas parece que de fato a adaptação do best-seller canadense “Life of Pi” tornou-se o mais novo pesadelo dos diretores, que desde 2003 embarcam no projeto apenas para em seguida deixá-lo para trás, seja por conflitos de agenda ou simples impotência diante do complicado texto. O primeiro foi M. Night Shyamalan, que saía direto do frustrante (comercialmente) “Corpo Fechado” e quis adaptar a hist ória de um garoto que é resgatado depois de meses à deriva no mar e prossegue viagem em direção ao Canadá em companhia de uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala. Dois anos de nenhuma notícia depois, Shyamalan saiu para realizar o decadente “A Vila” e abriu espaço para o candidato seguinte, o mexicano Alfonso Cuarón, que se propôs a trabalhar no filme ao mesmo tempo em que construía o épico apocalíptico “Filhos da Esperança” e se viu em uma situação complicada de acordo de salários, o que manteve no projeto por apenas seis meses, abrindo caminho para o francês Jean-Pierre Jeunet (“O Fabuloso Destino de Amelie Poulin”), que chegou até a anunciar que usaria os mesmos estúdios de “Titanic” para as seqüências marinhas. A proposta, apresentada no final de 2005, não vingou, e apenas agora, quatro anos depois (oito desde o lançamento do livro), novos rumores surgem: para completar a babel de diretores que já estiveram envolvidos, o chinês Ang Lee (“Hulk”, “O Segredo de Brokeback Mountain”) seria o novo responsável por comandar e supervisar a escritura do roteiro. Resta saber por quanto tempo.

Mudança de diretrizes

scott-crowe

Quando o nome do mestre britânico Ridley Scott (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”) foi anunciado na mais nova e criativa versão da lenda do gatuno Robin Hood, lenda da Inglaterra vitoriana transportada milhares de vezes para o cinema e interpretada por atores que vão de Errol Flynn (“As Aventuras de Robin Hood”) a Kevin Costner (“Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões”), não foram poucos os cinéfilos que comemoraram. O nome que Scott anunciou para o papel do protagonista também animava: Russel Crowe, parceiro habitual do diretor desde “Gladiador”, que rendeu o primeiro Oscar ao ator. Ethan Reiff & Cyrus Voris, co-roteiristas de “Kung Fu Panda”, prometiam uma revolução na velha história: Robin seria tratado como vilão do filme, assumindo a identidade de ser arqui-rival, um xerife de Nottingham transformado em bravo guerreiro, quando este morre em uma batalha. Mas toda a esperança e a expectativa para o lançamento, marcado para o início de 2010, foi colocado por água abaixo pelo próprio cineasta em entrevista ao site da MTV. Não, ele não cancelou o longa (pelo menos não completamente). Para começar, o nome da produção mudou: do criativo “Nottingham” para o manjado “Robin Hood”. A inversão de papéis também foi cancelada, e agora a expectativa de ver Crowe interpretando um homem fingindo ser outro homem (fórmula que rendeu bem com Robert Downey Jr em “Trovão Tropical”), ficou para trás. Segundo o diretor, a trama seguirá a evolução do arqueiro “de ladrão para herói”. E o cargo de vilão não é nada surpreendente: “são os franceses. O vilão é muito maior nesse sentido, mais importante e mais perigoso”.

Smells like... tears?

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“Mais Pesado que o Céu”, do jornalista Charle s Cross, é uma das biografias literárias mais vendidas dos últimos tempos. Lançado no Brasil pela editora Globo, “Heavier Than Heaven” conta com o recorte mais completo da vida e obra de um dos rockstars mais marcantes, carismáticos, problemáticos e inesquecíveis de todos os tempos. Gus Van Sant bem que tentou com seu verborrágico “Últimos Dias”, mas é na adaptação redigida por David Benioff, experiente no complicado processo de transporte de mídias depois de “O Caçador de Pipas”, que o líder no Nirvana Kurt Cobain deve ganhar seu retrato visual definitivo. A história chocante do astro, que passa pela depressão profunda, a complicada relação com a mulher Courtney Love (e as traições da mesma) e pelo tortuoso peso do sucesso para desembocar no final trágico traduzido na forma de suicídio. Uma história que sugere um diretor cheio de estilo visual, poder de chocar, encantar e intrigar a um tempo, alguém como Michael Mann (“Colateral”) ou Baz Luhrmann (“Moulin Rouge! – Amor em Vermelho”). Mas, recém-saído do estouro de bilheteria de “007 – Quantum of Solace” e alvejado de elogios pelas sensíveis obras anteriores, o alemão Marc Forster (“Em Busca da Terra do Nunca”) pode ficar com o comando do projeto, o que pode indicar uma visão bem emocional da trajetória do astro. Se isso é algo ruim ou bom, deixo o julgamento para a percepção de cada um.

É um luxo!

oscar

Digam o que quiserem, mas a produção nunca foi um defeito da Academia. Ano após ano, o refinamento dos cenários e das apresentações na cerimônia do Oscar continua impressionando, seja pela simplicidade (como na certeira execução da indicada “Falling Slowly”, do filme “Apenas Uma Vez”, no ano passado) ou pela ostentação. E parece que os produtores Bill Condon e Laurence Mark, cuja própria escolha foi considerada um passo em direção a mais audiência (a dupla é conhecida por tornar obras um tanto eruditas, como “Chicago” e “Memórias de Uma Gueixa”, em sucessos comerciais), não vão economizar no quesito luxo. A primeira revelação mais destacada sobre a cerimônia aponta que durante toda a noite o palco seria emoldurado por uma brilhante cortina em que estaria contida a impressionante quantidade 100 mil cristais. Segundos os produtores, a extravagância dará um tom mais “esteticamente agradável”, aliviando um pouco no dourado para dar uma sensação mais luminosa a entrega dos prêmios. Outra vantagem da sugestão do arquiteto e designer David Rockwell seria a criação quase mística de uma espécie de arco-íris em miniatura sobre o palco, conforme o direcionamento dos holofotes.

Bom, pessoal, e por hoje é isso… um dia que não me deu muito tempo para escrever, mas eu como sempre dei um jeito de garimpar as notícias para vocês, espero que vocês as apreciem e comentem, sempre, por favor! Agora só me resta agradecer a todos aqueles que o fizeram hoje, realmente é um grande incentivo… Bom, então os melhores filmes para todos vocês e até a próxima!

Controle Absoluto - Vigilância urbana, paranóia e política em Washington


Controle Absoluto (Eagle Eye, EUA/Alemanha, 2008).

De: D.J. Caruso.

Com: Shia LaBeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson, Billy Bob Thornton.

118 minutos.






Há quem diga que cinema é arte, a sétima delas, a combinação perfeita entre imagem, som e movimento, uma orquestração de elementos complexos trabalhando em harmonia para criar experiências únicas. A definição é bonita, o conceito é agradável, é bom para quem gosta pensar assim. Mas a verdade é que, em sua concepção e em sua definição mais enraizada, cinema é entretenimento. Por baixo de todo verniz artístico, o que todos nós buscamos quando vamos ao cinema são duas horas de envolvimento, seja ela provido pelo calvário emocional de algum personagem desafortunado ou pelas explosões e câmeras trepidantes dos blockbusters hollywoodianos. De nada adianta um “filme de arte” que não prenda a atenção do espectador, capture seu olhar e faça-o viajar com a história, de certa forma atrair seus pensamentos para uma realidade diferente, por mais que ela seja parecida com aquela que vemos todos os dias na rua. Um bom filme leva nossa capacidade de apreciação para um nível instintivo, automático, quase primitivo. Percebemos que uma boa atuação é uma boa atuação sem saber porquê, apreciamos uma paisagem conforme ela se encaixa na história, e não como uma pintura pendurada na parede de um museu. Por essas e por outras, o pior pecado que um filme pode cometer é ser entediante. Aquele filme que permite que seu pensamento fuja para outro lugar não merece seu respeito. Muita gente conceituada e respeitada criticou muitos aspectos de "Controle Absoluto", novo filme da parceria de D.J. Caruso e Shia LaBeouf (diretor e ator de "Paranóia"), um thriller de ação que discute uma vez mais os limites da vigilância urbana, missão da qual "Inimigo do Estado" saiu vitorioso dez anos atrás. Mas se o bom cinema é aquele que eletriza, causa impacto e envolve, então há muito tempo que não há blockbuster como "Controle Absoluto". Não é fácil definir um filme como esse. Em termos comparativos, imagine a paranóia de "Inimigo do Estado" elevada ao quadrado, combinada com o realismo fantástico da ação na série "Duro de Matar" e ainda coloque na receita os efeitos especiais mais realistas que você se lembra de ter visto ("Homem de Ferro", talvez). Agora imagine tudo isso diluído em um filme que tem algo a dizer.

Talvez o que salve "Controle Absoluto" do rótulo de “apenas mais um blockbuster” e eleve-o ao patamar de entretenimento de primeira seja o roteiro coeso e certeiro de um quarteto que contraria a regra de quanto menos gente melhor que corre entre os profissionais da área. John Glenn ("Entre a Vida e a Morte"), Hillary Seitz ("Paranóia"), Dan McDermott ("Angela’s Eyes") e o estreante Travis Wright fazem um trabalho exemplar ao não temer a ambição e ainda assim não se perder em meio aos vários temas que sua obra pretende abordar. Para começar, Controle Absoluto é sobre as conseqüências de atos impensados. Jerry Shaw (Shia LaBeouf) escolheu abandonar a família que lhe fazia sentir-se um estranho no ninho e partiu para uma vida de viagens que acabou aportando em um emprego medíocre. Para piorar, seu irmão gêmero morre em um acidente no trânsito e logo em seguida vê seu apartamento misteriosamente cheio de caixas com armas de nível militar e invadido por uma equipe do FBI chefiada por Thomas Morgan (Billy Bob Thornton). Quer destino mais cruel? Rachel Holloman (Michelle Monaghan) deixou de ir com o filho tocador de trompete para um importante concerto em Washington, tudo para não perder alguns dólares. Enquanto festeja a liberdade com as amigas, seu celular toca e uma voz feminina lhe mostra nas telas espalhadas pelas ruas de Nova York o trem em que o garoto viaja, aparentemente seqüestrado. É motivo o suficiente para ela seguir as complicada ordens dadas pela voz, e não demora para seu destino cruzar com o de Jerry, também contatado pela tal entidade, que parece ser capaz de controlar de linhas de trem a sinais de trânsito, passando por câmeras de vigilância e até portas lacradas de carros-forte. Enquanto os dois são perseguidos por uma série de instituições governamentais, o que leva as mais sensacionais cenas de ação do cinema desde "Duro de Matar 4.0", o roteiro passa por uma série de outras discussões que acabam levando a pergunta fundamental: temos nós o direito de passar por cima de nossas próprias leis para “cortar o mal pela raiz”, mesmo que isso signifique a perca de centenas, milhares talvez, de vidas? Ficou curioso com a resposta para tal pergunta, ela te fez pensar?

Pronto, é o bastante para saber que, sob nenhum aspecto, "Controle Absoluto" é blosbuster comum. É claro que simplesmente um bom roteiro não é o bastante para sustentar propostas como as descritas nas linhas anteriores, e é um alívio perceber que nenhum dos envolvidos com essa raridade decepcionou em sua função. D.J. Caruso, que antes de "Paranóia" já havia dirigido suspenses como "Rubando Vidas" e projetos mais descompromissados como "Tudo Por Dinheiro", é provavelmente o artesão de tensão mais habilidoso surgido em nosso século. Desde que David Fincher surgiu em 1995 com seu arrasador "Seven – Os Sete Pecados Capitais" que não se via uma câmera tão sombria e perfeitamente imperfeita, tanto que os âgulos criativos de ambos os diretores funcionam muito melhor à sombra do que em ambientes ensolarados. Se a habilidade é passageira ou estamos diante de um futuro grande diretor, só o tempo dirá. A verdade é que a câmera de Caruso é ainda mais criativa e impressionante quando Shia LaBeouf está em cena, demonstrando o carisma a flor da pele que lhe fez ser “adotado” pela faceta de produtor de Steven Spieberg, que já dirigiu o garoto no nostálgico e delicoso "Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal". O fato é que, se personagens como Jerry Shaw são ensaio e o consolidamento de um estrelato, as perspectivas são boas para o futuro. Shia é o corpo e a alma de "Controle Absoluto", controlador absoluto das cenas em que está presente e centro das atenções duranto o tempo que for preciso. E, para aqueles que apreciam atuações mais profundas, o garoto também não decepciona ao contruir um anti-herói desiludido e fascinante, um trabalho que ofusca os bons desempenhos dos veteranos (cada um a sua medida) como Rosário Dawson ("Sin City") e Billy Bob Thornton ("A Última Ceia"). Assista e tente criticar. Se você conseguir, parabéns. Se não, bem-vindo ao clube.

Nota: 8,0

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (17/02/2009)

Dos robôs aos tribunais

O astro jovem mais badalado do momento, protegido de Steven Spielberg e, é claro, primeira opção dos estúdios que possuem um bom material na mão, seja qual for o gênero. Bilheteria quase garantia, Shia LaBeouf acaba de sair da vigiada continuação "Transformers: A Vingança do Derrotado", que deve ser lançado em 29 de Junho e já tem um novo e potencialmente ambicioso projeto para os próximos anos. Adaptado para o cinema por diretores em filmes com elenco do calibre de John Cusack, Rachel Weisz e Gene Hackman (juntos em "O Júri"), agora a responsabilidade de um dos papéis divididos e complexos de John Grisham, conhecido como “o escritor dos tribunais” e autor da inspiração para alguns dos melhores filmes do gênero em Hollywood ("A Firma", "O Cliente", "Tempo de Matar"), será de LaBeouf. "The Associate" tem o peso pesado William Monahan ("Os Infiltrados") no roteiro e conta a tensa história de um estudante de direito prestes a se formar que aceita um emprego em uma prestigiada firma. É claro que logo os conflitos de interesses surgem, e o rapaz por algum motivo decide ajudar internamente na construção de um processo milionário contra a firma. "The Associate" conta com o veterano Lorenzo di Bonaventura ("Stardust") na produção.

O mundo acabou no meu ontem, seu amanhã

Há uma probabilidade enorme de a bizarra frase do título aparecer em algum momento de "The Day Before", mais nova ficção científica com premissa criativo-absurda da terra do cinema. Quem capitaneia o projeto é o produtor Gianni Nunnatti, que ganhou cacife em Hollywood nos últimos anos com "300" e "Os Infiltrados". O roteiro do estreante Chad St. John é todo baseado na idéia mais estranha das últimas décadas: alienígenas invadem a terra e, ao invés de seguir nossa linha cronológica, voltam no tempo para destruir o planeta de novo e de novo, até matar os pais daqueles que haviam matado anos a frente. O uso prático de tal idéia ainda é desconhecido, mas o fato é que a coisa se complica ainda mais: para acrescentar um elemento humano na trama, o roteirista supôs que um homem estaria a frente dos alienígenas nessa linha cronológica ao reverso, e que ele tentaria convencer a todos que o mundo acabaria naquele dia (e logo em seguida no dia anterior, já que o amanhã já estava destruído há algum tempo). Se o roteirista se perdeu ou não nessa confusão é uma incógnita, mas o fato é que Robert Downey Jr ("Homem de Ferro") já embarcou no projeto, trazendo Reese Witherspoon ("Johnny & June") à reboque e ainda levantando os rumores da possível direção do russo Timur Bekmambetov ("O Procurado").

Orgulho, preconceito e absurdo

Já estava ficando ruim demais para ser verdade. Aqueles que apreciam a literatura clássica da venerável Jane Austen e gostaram dos recentes e líricos "Orgulho e Preconceito" e "Amor e Inocência" ficaram de cabelos em pé ao descobrir que a obra máxima da autora, tema do primeiro filme citado seria profanada por um escritor de comédia desconhecido no livro "Pride and Prejudice and Zombies", que misturaria a história da lindíssima Elizabeth Bennett com uma invasão de zumbis bem ao estilo dos filmes de George Romero. A sátira chegou ao seu momento máximo quando a adaptação cinematográfica foi anunciada e a estrela Natalie Portman ("Closer – Perto Demais") resolveu pagar o aluguel estrelando o filme. Infelizmente, parece que a moda pegou. Sem inspiração nos livros, a próxima profanação da obra de Austen deve ser "Pride and Predators", que também se utiliza da história da nobre inglesa para coordenar a carnificina de um alienígena que vem a terra com uma missão apocalíptica. E mistura ainda tem Elton John na trilha-sonora (é sério!). O filme deve ser dirigido por William Felix Clark (do premiado curta-metragem "Amazing Trousers"), mas ainda não tem data de lançamento.

Jolie sob a mira da arma
Na direção, um ás do suspense e da ação. No roteiro, um dos profissionais mais talentosos da área, nome fundamental para sucessos em que seu nome mal é citado e diretor de um par de pérolas da ficção científica. E o elenco que aos poucos se forma começa a dar indícios de um thriller de espionagem dos bons. "Salt" não tem uma premissa muito criativa: no auge da Guerra Fria, agente da CIA é acusada de colaborar com os russos e precisa fazer de tudo para provar sua inocência. São os nomes envolvidos que impressionam. O primeiro a se falar é Kurt Wimmer, roteirista responsável por pequenas obras-primas e diretor das pérolas alternativas "Equilibrium" e "Ultravioleta", cada um a sua medida, o top da ficção científica do novo século e possível comandante da adaptação "Metal Gear Solid". O tipo de homem que pode transformar o clichê em algo empolgante. Outra promessa nesse sentido é a direção de Philip Noyce, que já assinou grandes sucessos como "Jogos Patrióticos" e "Colecionador de Ossos", um diretor com senso de espetáculo e significância, combinação rara em Hollywood. E a atuação também não fica muito atrás, com a recém-premiada Angelina Jolie ("A Troca") na pele da protagonista e o respeitado Liev Schreiber ("Sob o Domínio do Mal") em um papel ainda não definido.
Bom, pessoal, por hoje é só isso mesmo... mais um dia sem a crítica, tenho que me desculpar, mas amanhã tenho uma prontinha para entregar, certo? Agora eu agradeço a todos os comentários e desejo os melhores filmes para todos vocês! Até amanhã!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (16/02/2009)

Fora da escola

"Johnny Quest" virou um dos clássicos da animação televisiva meio por acaso, em uma reinvenção descompromissada de um fracasso dos anos 60, produzida mais de duas décadas depois do cancelamento da série original. Depois de duradouras temporadas na década de 80, a série ainda ganhou outro remake, no fim da década posterior. As aventuras do garoto detetive que viaja o mundo em suas investigações, sempre ao lado de um cão-mascote e de um agente do governo que faz às vezes de guarda-costas conseguiram superar todos os projetos de adaptações de quadrinhos da Warner como o filme mais esperado da temporada de 2010. O roteiro, entregue quase um ano atrás pelo novato Dan Mazeau, que já está envolvido com "The Flash", também dentro da Warner, acaba de ganhar seu comandante e os prováveis dois protagonistas. Para a cadeira de direção, o escolhido foi Andy Fickman, que se destacou por seus dois trabalhos ao lado do astro The Rock, "Treinando o Papai" e o inédito "A Montanha Enfeitiçada", mas assume sua maior responsabilidade ao aceitar o cargo. Não há nada de surpreendente ao constatar que o diretor já chamou The Rock para o papel do protetor de Johnny, que deve ser interpretado por Zac Efron.

Diretamente da tela da Globo...

O cinema popular brasileiro, ao contrário de sua contraparte musical, vive sendo criticado por tentar ser “vendável demais”. Uma contradição se considerarmos que qualquer um com um mínimo de conhecido de cinema (ou economia) sabe que é o popular que sustenta o artístico. Mas parece que, se depender dos críticos, o cinema brasileiro nunca vai sair... do Brasil. Tanto é verdade que um dos diretores mais criticados do país, Guel Arraes ("O Auto da Compadecida") ficou sem emprego por mais de cinco anos depois de "Lisbela e o Prisioneiro" até encontrar o caminho dos prêmios internacionais (no Brazilian Film Festival) com "Romance". Agora ele parece ter entrado numa maré de sorte, já que embarcou em um dos projetos mais badalados e previamente bem-sucedidos dos últimos tempos. Um dos maiores sucessos da TV brasileira dos bons tempos, "O Bem-Amado" foi inovador para a década de 70 tanto por ser a primeira produção a ser transmitida em cores quanto por ter como protagonista a figura anti-heróica de um político corrupto, incorporado pelo saudoso Paulo Gracindo. E parece que o filme, que o diretor definiu como uma “sátira política e uma crítica a elite que se afasta do povo”, terá a nata do cinema brasileiro: dos jovens Caio Blat e Matheus Nachtergaele, passando pelo veterano Marco Nanini, que assume o manto de Odorico Paraguaçu.

O sangue de Chan

A censura na China é quase ditatorial, e isso não é segredo para ninguém. Como não há classificação etária, todos os filmes devem se adequar para todas as idades, e é impressionante os detalhes a que se atém os censores. O "Memórias de Uma Gueixa" de Rob Marshall, por exemplo, não foi lançado no país por ter atrizes chineses como Zhang Ziyi ("O Tigre e O Dragão") e Gong Li ("Miami Vice") interpretando personagens japoneses, uma comparação que até hoje é considerada uma ofensa em território chinês, graças a invasão japonesa durante a 2ª Guerra Mundial. Tudo bem que para censurar "Shinjuku Incident" não foi preciso uma análise tão meticulosa. O novo filme asiático do astro de ação Jackie Chan ("A Hora do Rush") supostamente contem violência das mais explícitas, com direito a membros despedaçados e sangue jorrando na câmera do desconhecido Derek Yee. O diretor não fez questão de negar que a violência é parte fundamental em seu próprio roteiro, em que Chan interpreta um fugitivo da polícia japonesa que se torna assassino da famosa Yakuza, a máfia chinesa. Ele disse ainda que tentou editar o filme para que ele se adequasse aos padrões da censura, mas ele, Chan e os produtores concordaram que tais cortes “afetariam a integridade do filme”. Fora das terras chinesas, "Shinjuku Incident" deve estrear em 2 de Abril desse ano.

O doce cheiro dos dólares

Hollywood não cansa de classificar, ranquear, ordenar e listar seus astros e estrelas do maior número de formas possível. Apenas algumas semanas depois da curiosa lista de atrizes mais belas do cinema segundo os britânicos, a respeitada (e oportunista) revista Forbes acaba de publicar sua lista anual dos dez atores mais vendáveis da terra do cinema. O primeiro lugar não deve ser novidade para ninguém. O único nome sinônimo de bilheteria garantida em Hollywood e dono da impressionante marca de oito filmes seguidos acima da marca de 200 milhões de dólares na bilheteria (de "Homens de Preto II" até "Hancock"), Will Smith é indiscutivelmente o maior astro de cinema da atualidade, mas está poucos passos a frente de seu vice na lista da Forbes. Johnny Depp só não tem uma seqüência tão impressionante porque tem o sábio hábito de intercalar apelo comercial com prestígio alternativo, seja colaborando com Tim Burton em filmes cada vez mais bem-sucedidos ("Sweeney Todd" foi o maior sucesso comercial da carreira do diretor), um dos melhores atores de sua geração e o protagonista absoluto do filme que quebrou a decadência das bilheterias hollywoodianas: "Piratas do Caribe – O Baú da Morte". A lista é completada por nomes respeitáveis, como o casal Angelina Jolie & Brad Pitt (que pela segunda vez aparecem na lista como uma pessoa só), Tom Hanks, George Clooney, Denzel Washington, Matt Damon e o veterano Jack Nicholson.

Bom, pessoal, e por hoje é isso então... um dia sem críticas, mesmo porque não tive tempo para escrevê-la, mas prometo uma para amanhã... quanto ao nosso especial, ele está andando um pouco mais devagar do que eu imaginava, então ainda não vou contar sobre o que se trata, mas no máximo até o fim de semana ele figurará por aqui... até agora ninguém descobriu... obrigado por todos os comentários, bons filmes a todos e até a próxima!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (15/02/2009)

Mais Langdon

"Anjos & Demônios", prequel de "O Código Da Vinci", ainda nem foi lançado, e o diretor Ron Howard ("Frost/Nixon") já está de olho em mais aventuras do simbologista Robert Langdon, astro dos dois livros representado por Tom Hanks nas encarnações cinematográficas. Espécie de sombra nas duas histórias anteriores, a maçonaria, uma antiga organização “secreta” cheia de símbolos e conspirações deve ser a base de "The Solomon Key" (“A Chave de Salomão”), próxima aventura do professor que não figura nas livrarias desde 2003. "O Código Da Vinci" vendeu mais de 70 milhões de cópias, e o filme foi uma das maiores bilheterias de 2006, sendo batido apenas pela segunda parte da saga "Piratas do Caribe", que ultrapassou a marca do 1 bilhão de dólares. Os rumores do novo livro corriam desde o lançamento do último, seis anos atrás, mas foi da boca do próprio Ron Howard, em entrevista ao Entertainment Tonight direto das filmagens de "Anjos & Demônios", que saiu a confirmação de que o autor teria finalizado a história. Enquanto as duas aventuras anteriores empreendiam uma espécie de tour pela Europa, passando por Inglaterra, Vaticano, França e Suíça, o novo livro será todo baseado na capital americana, já explorada por Brown em "Ponto de Impacto", um de seus livros fora do universo de Langdon. Howard se disse ansioso para adaptar a nova história.

O rei do trash

Ele surgiu para o comercial-independente (sim, isso existe) hollywoodiano com "Jogos Mortais II", continuou na interminável série do assassino Jigsaw por mais dois criticados episódios e logo em seguida escorregou feio no ambicioso musical fantástico trash "Repo! The Genetic Opera", que foi lançado há mais de um ano em solo americano e nem mesmo aportou em terras brasileiras até agora. Mas a bilheteria irrisória (menos de 1 milhão) e a indicação ao Framboesa de Ouro (o que você esperava de um filme com Paris Hilton?) não desanimaram o americano Darren Lynn Bousman (à direita na foto). Agora sob a proteção da Constantin Film, produtora do diretor Paul W.S. Anderson ("Resident Evil"), ele é o comandante de "Akula", suspense de assalto que chama a atenção pela ambientação pouco convencional e potencialmente absurda. Em vez de um banco ou um supermercado, os audaciosos criminosos planejam invadir, sabotar e escapar de... um submarino. O roteiro dos desconhecidos Mark Distefano ("Friends and Enemies") e Alex Litvak ("A Caçada") promete lidar com a aparente armadilha da premissa de forma criativa e, é claro, muito sangrenta. Até agora, o potencial clássico trash do futuro não tem data de estréia e muito menos elenco definido.

Viúva loira

Fã nenhum vai ser capaz de reclamar. Depois da saída irrevogável de Emily Blunt ("O Diabo Veste Prada"), que não teve escolha a não ser atender a chamada da Fox para "As Viagens de Gulliver", a esperança de uma Viúva Negra linda, talentosa e ainda por cima inteligente na continuação "Homem de Ferro 2" parecia morta e enterrada. Mas anúncios recentes deram uma nova esperança aos fãs do herói de armadura e principalmente da espiã russa que pode ou não engatar um romance com o protagonista na nova trama, redigida por Justin Theroux ("Trovão Tropical"). A mais nova candidata a se juntar a Robert Downey Jr, que retorna como Tony Stark, é ninguém menos que a beldade Scarlett Johansson ("Vicky Christina Barcelona"), recém-saída de outra adaptação de quadrinhos, o "The Spirit" dirigido por Frank Miller. A participação ainda está em fase de negociação, mas a probabilidade de ela ser comandada pelo diretor Jon Favreau ("Zathura") é grande, já que nenhuma outra candidata forte ao papel foi anunciada. Do primeiro filme, a continuação já conta com o retorno de Downey, Gwyneth Paltrow como a secretária Pepper Potts e Samuel L. Jackson, que pode fazer mais do que apenas uma ponta na pele de Nick Fury. De novos nomes, foram confirmados Mickey Rourke ("O Lutador") como o vilão da vez (que pode ser o Dínamo Escarlate ou o Chicote Negro) e Don Cheadle ("Hotel Ruanda") substituindo Terrence Howard no papel de James Rhodes.

Rezende polêmico
Um dos poucos cineastas com filmografia regular e financiamento garantido no Brasil, o carioca Sérgio Rezende, que mantém a impressionante média de um filme a cada quatro anos, já planeja seu retorno aos cinemas após o sucesso de "Zuzu Angel". E, dessa vez, ele promete ainda mais polêmica ao contar uma história ambientada durante a rebelião do PCC em São Paulo, um dos fatos mais marcantes do ano passado. "Salve Geral", porém, não ambiciona ser um retrato definitivo, mas um recorte de um ponto de vista sobre o acontecido, no caso o Lúcia, mãe de um dos presidiários que aos poucos se envolve com a organização criminosa, rebatizada de Comando para dar o longa um ar de ficcional. A personagem também é transformada em peça fundamental da rebelião pela advogada do Comando, interpretada por Denise Weinberg ("Linha de Passe"). O papel de Lúcia ficou com uma das atrizes mais presentes no cinema nacional dos últimos anos: Andréa Beltrão, recém-saída do longa-metragem "Verônica" e parte integrante do elenco de outros três filmes nos últimos dois anos. Ela, que também faz as vezes de produtora do filme, apoiou o diretor quando este declarou que "Salve Geral" não é um filme sobre violência, mas sim sobre “a vã tentativa de controlar as coisas”. O filme deve ser lançado em outubro desse ano.
Bom, pessial, e por hoje é isso... como sempre agradeço por todos os comentários, e desejo os melhores filmes (embora eles sejam difíceis de encontrar) para vocês e aceno o meu até amanhã, com mais uma crítica e notícias fresquinhas! O nosso especial está chegando, amanhã prometo dizer sobre o que vai ser.

Noites de Tormenta - O canto do cisne de Nicholas Sparks


Noites de Tormenta (Nights in Rodanthe, EUA/Austrália, 2008).

De: George C. Wolfe

Com: Richard Gere, Diane Lane, Viola Davis, Scott Glenn.

97 minutos.





Nem todo clichê é uma armadilha mortal. De fato, o maior atestado da esperteza de Hollywood é o fato incontestável que algumas das convenções continuam funcionando a perfeição para construir a manipulação de emoções que todo filme se propõe a fazer. O problema é que a terra do cinema tem uma dificuldade histórica para saber quando um acerto está desgastado e quando é a hora de partir para uma inovação. O escritor Nicholas Sparks, nos últimos nove anos, foi adaptado para as telas nada menos que quatro vezes. Seu romance de velha guarda, que usa o ambiente e o cenário como pano de fundo para uma história de amor previsível funcionou bem em "Uma Carta de Amor" e "Diário de Uma Paixão", mas talvez o grande mérito disso tenha sido do elenco, que cumpriu, em ambos os filmes, a missão de humanizar os personagens envolvidos na trama e trazê-los de um plano astral no mínimo utópico para o mundo real. Tanto Kevin Costner & Robin Wright-Penn quanto Ryan Gosling & Rachel McAdams conseguiram fazer de seus filmes experiências recompensadoras, ainda que um tanto enfadonhas em sua concepção. "Noites de Tormenta", o último da fila nas quatro adaptações, é o que poderia se chamar de ponto de quebra quanto a eficiência da narrativa convencional de Sparks. Talvez tenha sido o desleixo de quem se envolveu em sua produção, ou quem sabe o tempo para os clichês do escritor tenha acabado em Hollywood. O fato é que, enquanto "Diário de Uma Paixão" alcançou e ultrapassou a marca dos 100 milhões em bilheteria apenas nos EUA, "Noites de Tormenta" não conseguiu chegar nem mesmo na metade. Aparentemente, não é apenas a crítica que finalmente se cansou da pieguice.

Já que falamos da competência do elenco nas adaptações anteriores da obra de Sparks, então é mais fácil partir para a questão fundamental de "Noites de Tormenta", que marca a reunião do casal Diane Lane e Richard Gere depois do sucesso do apimentado "Infidelidade". Se no filme de Adrian Lyne ("Atração Fatal") eles eram um casal perfeito que aos poucos caminhava para uma crise que culminava na traição da mulher, na nova parceria acontece o contrário: ambos acabam de sair de épocas perturbadas, se encontram, entram em conflito e aos poucos descobrem que podem ter muita coisa em comum. Em um casal como esse, não há dúvidas quem é o mais talentoso. Gere normalmente interpreta o intelectual charmoso que se enreda por um romance que nunca pensaria em viver, papel que quase nunca rende uma boa atuação, principalmente nas mãos desajeitadas do ator. Já Lane tem um currículo variado, que passeia do drama mais pesado a comédia mais descompromissada com desenvoltura, um talento que já foi agraciado com nominação ao Oscar, exatamente pela atuação em Infidelidade. Aqui, porém, a situação se inverte. Ela parece pouco inspirada, recorrendo ao choro fácil e a pieguice quando tem que carregar a trama sozinha, raramente demonstrando algum rompante do brilho de outros tempos, apagado por uma série de produções no mínimo duvidosas ("A Casa de Vidro", "Sem Vestígios") que deveriam tornar seu nome mais vendável, mas acabaram acabando com a boa reputação que tinha entre os críticos. Enquanto Lane fracassa lamentavelmente, Gere brilha mais do que o habitual, entregando uma atuação que não chega ao brilhante, mas sem dúvida nenhuma passa bem as emoções conturbadas de um personagem que só parece fácil de incorporar. É claro que, a bem da verdade, Gere ficou com o personagem mais interessante.

Ele é Paul Flanner, um cirurgião aposentado por um erro fatal que vai para a pequena cidade de Rodanthe, na Carolina do Norte, para reorganizar a vida e acertar as contas com o passado. Ele é o único hóspede de uma pradisíaca pousada a beira-mar, provisoriamente administrada por Adrienne Willis (Diane Lane), mulher recém-separada que tem que lidar com a proposta para reatar o relacionamento com seu ex-marido, Jack (Christopher Meloni) enquanto cuida do lugar para a amiga Jean (Viola Davis). O que vem a seguir é o mais previsível possível: enquanto um furacão se aproxima da cidade e promete derrubar a pousada, ambos resolvem ficar e enfrentar a natureza, o que obviamente acaba levando a uma paixão fulminante. O roteiro erra ao nem mesmo tentar fugir dos clichês, cumprindo cada uma das regras pré-estabelecidas do gênero e descambando em um clímax frio, que não alcança a emoção a que se propõe. O curioso é que os dois roteiristas demonstraram talento o bastante em seus currículos para tornar "Noites de Tormenta" em mais do que mais um romance. A sul-africana Ann Peacock, autora de scripts como "Em Minha Terra" e o primeiro "As Crônicas de Nárnia", não faria mal em colocar uma bem medida pitada de fantasia para temperar a história, e John Romano ("O Amor Custa Caro") poderia ter caprichado mais nos momentos cômicos, ainda que estes sejam o que há de menos entediante no filme. O elenco coadjuvante é o que mais se destaca, nas boas interpretações de Viola Davis, recém-indicada ao Oscar pelo trabalho em "Dúvida" e do veterano Scott Glenn ("Coragem Sob Fogo"). Destaque também para a participação não-creditada de James Franco ("Homem-Aranha"). O diretor George C. Wolfe, egresso da TV, estréia no cinema com uma câmera correta, mas sem personalidade própria, o que apenas torna "Noites de Tormenta" ainda mais ordinário. Nem mesmo os bons trabalhos da cantora Jeanine Tesori na trilha-sonora e do brasileiro Affonso Beato na deslumbrante fotografia tiram o filme da temperatura morna. Vale para quem gosta do gênero e não se importa com a falta de criatividade, mas é uma decepção para quem espera um filme diferente do convencional ou mesmo para quem se guia pela dupla principal. Para estes, nem o final trágico vai ser capaz de emocionar.

Nota: 5,0

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Jogos do Poder - Um filme feito de contradições


Jogos do Poder (Charlie Wilson's War, EUA, 2007).

De: Mike Nichols.

Com: Tom Hanks, Amy Adams, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman.

102 minutos.






Se existe uma palavra que pode definir sem margem para dúvida "Jogos do Poder", essa palavra é contradição. Propaganda enganosa talvez seja uma expressão muito depreciativa, mas não existe outra forma de expressar o equívoco da campanha de marketing feita pela Universal. O novo filme de Mike Nichols ("Closer"), apesar de ter sido lançado em época oportuna para a corrida do Oscar, foi vendido como uma comédia sofisticada, sarcástica, inteligente e peculiar para as fileiras de Hollywood. Não que o filme não mereça todos esses adjetivos (e alguns outros), mas é um grande erro chamar "Jogos de Poder" simplesmente de comédia. E a contradição já começa aí. O título original, algo como “A Guerra de Charlie Wilson”, dá a impressão de um drama de redenção, uma espécie de "Um Sonho de Liberdade" passado no Congresso americano. Já a tradução brasileira, "Jogos do Poder", não deixa margem de dúvida para o espectador mal-informado: ele está a frente de um filme político, cheio de tramóias e reviravoltas, conspirações e maquinações. Nenhuma dessas definições está errada. "Jogos do Poder" é uma mistura surpreendente de tudo isso, com o humor surgindo sutil e inteligência acima da média, sem deixar de ser a história de um ser humano adquirindo consciência do mundo a sua volta e muito menos deixar de lado todas as estratégias que envolvem o trabalho no ramo da política. Em resumo: "Jogos do Poder" só pode ser definido como indefinível. Talvez esse adjetivo levante algumas suspeitas dos espectadores mais populares, já que na maioria das vezes os críticos o usam como sinônimo de filme de raciocínio, de narrativa arrastada e ritmo cadenciado. O que também seria uma impressão equivocada. Ficou confuso com tantas definições para um único filme? Bom, nada mais adequado para a história de três pessoas que vão contra a sua natureza.

Para ir direto ao ponto fundamental de "Jogos do Poder", a melhor forma de desfazer essa confusão é analisar o trabalho do roteirista Aaron Sorkin ("Questão de Honra") adaptando o livro biográfico de George Crile sobre um parlamentar bon-vivant que foi peça fundamental para a queda do Império Soviético. Apenas esse breve resumo dá uma amostra da complexidade de um trabalho roteirístico como esse, mas Sorkin se sai perfeitamente bem, fazendo jus a suas três indicações a melhor roteiro no Globo de Ouro. Ao misturar tiradas geniais e atípicas para um filme político (ou para um drama de redenção) com cenas emocionalmente complexas que não costumam figurar em comédias sofisticadas (ou filmes políticos), ele ainda domina com perfeição as engrenagens políticas que movimentam uma trama como essa. Seus personagens são espirituosos sem ser irreais e seus diálogos conseguem ser engraçados sem nunca perder de vista a gravidade e a amargura inerentes a missão dos protagonistas. O protagonista é Charlie Wilson (Tom Hanks), congressista conhecido pelos escândalos com a imprensa e pela falta de ética assumida, um personagem que não deveria ser carismático ou conquistador, mas de alguma forma concilia a falta de limites com a preocupação genuína com os assuntos graves de sua área de atuação. Como define o agente da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), o congressita é “um homem muito fácil de gostar”. E que outro ator teria a credibilidade, o carisma e o talento necessário para esse papel senão Tom Hanks? Se a escolha foi perfeita, o desempenho corresponde às expectativas com sobras, e o ator compõe uma persona fantasticamente apaixonante, fugindo do caráter etéreo dos heróis clássicos mas nunca se desumanizando o bastante para se tornar repulsivo. É esse congressista ambíguo que se envolve meio que por acaso na luta das guerilhas afegãs contra a invasão soviética, e consegue o apoio financeiro de Joanne Hering (Julia Roberts), uma socialite engajada e fervorosamente religiosa, peça fundamental do jogo para fortalecer as ligações políticas de Charlie e conquistar os progressivos aumentos de orçamento para a assitência americana no Afeganistão.

É claro que até aqui estamos falando da Guerra Fria, o ódio aos comunistas e a operação “secreta” para sabotar a expansão do império soviético. Mas a coisa toda toma outra proporção em uma cena crucial, filmada sem concessões, em que Charlie vai visitar um campo de refugiados e se depara com o desespero de uma população que está lutando a guerra americana no lugar dos americanos. É principalmente nessa passagem que brilha a câmera experiente de Micke Nichols, lendário diretor do igualmente inesquecível "A Primeira Noite de Um Homem" e tantos outros clássicos, que guia com a discrição de sempre, deixando-se levar pela história, mas fazendo concessões a certas ousadias que poderiam aumentar o impacto do filme. Mas qualquer crítico é desarmado quando sua câmera parte do rosto do protagonista para a imensidão desértica a sua frente, coalhada de barracas miseráveis ocupadas por vítimas da invasão soviética. Ao passo em que Nichols abre espaço para alguns desagrados, o elenco não o faz em nenhum momento. Além de Hanks, que também é produtor do filme, o trio principal é completado pelos oscarizados Philip Seymour Hoffman e Julia Roberts. Ele, sensacional em sua caricatura humanizada de um agente da CIA politicamente incorreto, mostrando porque é considerado o ator mais talentoso surgido nos últimos anos e justificando suas até agora três indicações ao prêmio maior do cinema. Ela não chega a tal patamar, mas não por isso deixa de ser cativante e eficiente na pele da persuasiva e curiosa militante, passando bem a sensação de indignação e tornando-se na representação máxima da classe que impregna todos os 102 minutos de "Jogos do Poder". Alguém por aí provavelmente vai sair de sua sessão balbuciando coisas como panfletagem, enganação, clichê e algumas outras profanidades impublicáveis... mas é impossível negar a relevância, a competência e o retrato contundente da deplorável condição humana de solidariedade egoísta. Mais uma contradição? Francamente, querida, eu não me importo.

Nota: 7,5

Bom, pessoal, hoje a crítica demorou para sair porque eu não tive tempo de assistir o filme até agora a pouco, mas aí está. Outra coisa que eu preciso dizer é que teremos mais uma edição do Boletim cancelada, simplesmente porque pouquíssima coisa aconteceu no dia de hoje no mundo do cinema, mas amanhã ele está de volta, é garantido! E o nosso especial ainda está de pé, provavelmente em alguns dias ele já estará por aqui, estou preparando ainda. Bom, agora só me resta agradecer a todos os comentários, e ainda dizer o de sempre: bons filmes para todos vocês e até amanhã!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (13/02/2009)

O tempo passa...

Em meio ao enorme sucesso da série de livros de bolso "Nancy Drew", história de uma detetive adolescente adaptada para o cinema inúmeras vezes, os garotos ganharam seus próprios investigadores infanto-literários. "The Hardy Boys" teve mais de 60 volumes entre 1927 e 1979, assinado por diversos autores, a maioria assinando sob o pseudônimo de Franklin W. Dixon. Continuada em forma de uma igualmente duradoura série em quadrinhos, o fracasso da última adaptação da detetive juvenil não desanimou a 20th Fox a prosseguir com a adiada produção "The Hardy Men", espécie de “atualização” adulta das aventuras dos irmãos, que no original ajudavam o pai, um investigador particular, a solucionar casos que lhe eram trazidos. A idéia do roteirista Ed Solomon, responsável por roteiros como "MIB – Homens de Preto" e "As Panteras", é transformar os adolescentes em adultos e colocá-los resolvendo um caso por conta e risco. A entrada do roteirista no projeto é recente, já que desde 2006 se fala sobre "The Hardy Men", que já teve Simon Kinberg ("Sr. e Sra. Smith") redigindo. Mesmo com a mudança, o diretor Shawn Levy ("Uma Noite no Museu") continua intacto no cargo, assim como seu parceiro Ben Stiller, que ainda pode trazer o astro Tom Cruise a reboque depois da participação hilária do último em "Trovão Tropical".

O homem múltiplo

O diretor e roteirista Curtis Hanson já ocupou praticamente todos os “níveis morais” de Hollywood. Já foi cineasta independente cheio de estilo e potencial comercial ("Sweet Kill", "Losin’ It"). Logo depois, foi tachado como promessa que não vingou e cineasta ambicioso demais para suas habilidades ("Sob a Sombra do Mal", "O Rio Selvagem"). Mudou radicalmente de direção e se tornou o queridinho do Oscar e da crítica por um curto tempo, se tornando uma das promessas para o próximo século ("Los Angeles – Cidade Poibida", "Garotos Incríveis"). Então remou uma vez mais contra a maré e passou a atrair astros para projetos independentes apenas pela honra de ser dirigido por um nome como o dele ("Em Seu Lugar", "Bem-Vindo ao Jogo"). Mas ele parece ter se cansado de lutar contra as tendências, ou alguém pode tirar outra conclusão quando um cineasta com esse currículo assume um projeto problemático do explosivo produtor Jerry Bruckheimer ("A Lenda do Tesouro Perdido")? Pois é o americano de 63 anos o mais forte candidato a comandar "Gemini Man", que trocou de estúdio e roteirista três vezes na desde 2000 e agora descansa sob a guarda da Disney, que contratou o roteirista David Benioff ("Tróia") para desenvolver a história de um assassino caçado por um clone jovem de si mesmo.

O assalto ao metrô pagador

Apenas os nomes envolvidos já fazem os fãs de thrillers de assalto ficarem com água na boca. Na direção, a perfeição técnica e a competência em provocar tensão do inglês Tony Scott ("Jogo de Espiões", "Déja Vu"). No roteiro, a violência bruta e a complexidade psicológica habitual de Brian Helgeland ("O Troco"). Em cena, uma dupla que promete fazer história se confrontando: Denzel Washington e John Travolta, contracenando pela primeira vez, em lados opostos da lei. A trama é absurdamente criativa e potencialmente revolucionária: um grupo de assaltantes armados (comandados por Travolta) seqüestra um trem do metrô e numa atitude completamente inesperada, faz exigências para a polícia, mesmo que aparentemente não haja saída para a situação. Além dos dois astros, o filme conta ainda com James Gandolfini ("Família Soprano"), colaborador habitual do diretor. Ou seja, "The Taking of Pelham 123" tem tudo para ser um dos arrasa-quarteirões mais eletrizantes da temporada 2009. É claro, se não fosse pelo fato que é baseado em outra produção, homônima, de 1974, que tem centenas de fãs maníacos espalhados por aí. Foram eles que postaram comentários de repúdio em relação ao recém-lançado trailer da refilmagem e aconselharam a Deus e mundo que ignorem o novo filme e comprem o DVD do original. Enfim, coisa de fã, mas "The Taking of Pelham 123" continua marcado para estrear em Setembro.

Fora de Wall Street

Em 1987, com a globalização ainda engatinhando, o centro financeiro do mundo era Nova York e sua cobiçada Wall Street, que Oliver Stone retratou com fidelidade e uma boa dose de sarcasmo em "Wall Street – Poder e Cobiça", filme que rendeu o Oscar de melhor ator para Michael Douglas e seu explosivamente carismático Gordon Gekko. Um dos bordões do personagem, usado a exaustão em produções posteriores era "Money Never Sleeps" (“o dinheiro nunca dorme”), que veio a se tornar alguns anos atrás o título de uma suposta continuação da trama. Por muito tempo, foi só boato. Do final de 2007 para cá, Stone lançou o pouco lembrado "W", filme sobre a vida o presidente George Bush, recém saído da Casa Branca. Douglas também deu a volta por cima, com o sucesso-supresa independente "O Rei da Califórnia". O ator já tinha se pronunciado no começo do ano passado, dizendo que adoraria voltar ao personagem, mas precisava ter a certeza de que seria um bom roteiro. Stone, agora envolvido no problemático "Pinkville", disse que por muito tempo pensou em idéias para uma continuação ao lado do roteirista Stanley Weiser ("De Costa a Costa"), mas chegou a conclusão que não poderia lidar com a economia globalizada em um roteiro. Ele declarou ainda que acha que os produtores tem um projeto muito interessante em mais, mas enfatizou que não quer seu nome envolvido em "Money Never Sleeps".
Bom, gente, e por hoje é isso... agradeço a todos os comentários como sempre, realmente é uma grande recompensa escrever o blog para leitores tão atenciosos... bons filmes para todos vocês e até a próxima!

Encurralados - Vidas (e regras) serão quebradas



Encurralados (Butterfly on a Wheel/Shattered, Canadá/Inglaterra, 2007)

De: Mike Barker.

Com: Pierce Brosnan, Maria Bello, Gerard Butler, Nicholas Lea.

95 minutos.





Existe uma convenção na cartilha dos roteiristas de thrillers de seqüestros, uma regra sagrada e inquebrável: a ameaça sempre deve ser real, mostrada em seqüências aflitivas e de preferência reforçadas por alguma espécie de metáfora em relação ao tempo que se passa com a vítima presa em cativeiro. Foi assim com "Encurralada", de Luis Mandoki, e também foi assim com a prisão domiciliar imposta por David Fincher em "Quarto do Pânico". A diferença entre um e outro é óbvia: enquanto Fincher sabe criar tensão e apreensão como ninguém mais em Hollywood hoje, Mandoki é um diretor essencialmente dramático, de câmera estática e pouquíssima vocação para o suspense. Mike Barker não está nem para um extremo nem para outro. Representante menos conhecido da geração versátil de novos cineastas liderada por Marc Forster ("Mais Estranho Que a Ficção"), o diretor de Reese Witherspoon em "Planos Quase Perfeitos" e Scarlett Johansson no drama de época "Uma Mulher Fiel" demonstra nesse novo "Encurralados" (será que todos os títulos brasileiros precisam ser tão derivativos?) que tem competência o bastante para não deixar a tensão cair em nenhum momento. Mas não é isso que mais intriga e agrada no filme estrelado por um surpreendente Pierce Brosnan. Talvez o grande nome de todo o filme seja do estreante William Morrissey, mostrando-se roteirista de mão cheia ao criar um exercício de quebra de padrões.

Embora não acrescente muita ousadia a mistura, o diretor Barker faz um bom trabalho ao manter a tensão e mostrar-se mais uma vez apto para guiar qualquer gênero. Mas o grande segredo de Morrissey é não recorrer as formulas que tornam esse tipo de roteiro mais fácil de ser redigido. Não há o espaço confinado de "Quarto do Pânico", as crueldades forçadas e os recursos cinematográficos baixos de "Violência Gratuita", nem mesmo o heroísmo barato de "Refém". Embora não fuja da estrutura linear, Morrissey demonstra habilidade o bastante para jogar com as percepções do espectador em cenas rápidas e diálogos enganadores. Tudo isso sem esquecer-se de brincar com o psicológico dos personagens, tornando cada palavra de seus diálogos uma parte fundamental para o desenvolvimento da trama. Não há uma cena descartável em "Encurralados", mas não haveria pior injustiça do que chamá-lo de raso ou superficial. Pelo contrário, aliás. A família Randall é muito mais complexa e significativa que boa parte das vítimas que Hollywood costuma colocar em suas tramas caça-níqueis, e provavelmente nunca houve um seqüestrador tão fascinante que o Tom Ryan de Pierce Brosnan. O resultado é que "Encurralados" encanta tanto pelos movimentos do jogo quanto pelos jogadores em si.

Abby Randall é uma personagem ambígua, uma esposa satisfeita e consciente da própria mediocridade. Não é fácil decifrá-la, mas antes de qualquer coisa é preciso pensar que as pessoas reais geralmente não são. Maria Bello traduz com perfeição essa dissimulação de detalhes, numa interpretação irretocável que se converte em uma das grandes forças do filme. O diálogo final de sua personagem é de provocar arrepios. Neil, o marido, interpretado por Gerard Butler, é o tipo de homem que é o melhor no que faz em seu trabalho, mas também é uma pessoa que dá muito valor aos próprios escrúpulos. Não há nada mais afltivo que assiti-lo ultrapassando um por um, ainda que Butler recorra como sempre a um retrato caricato, talvez o menos convincente do trio principal. Para fechá-lo, há o seqüestrador do ex-007 Pierce Brosnan. Há muito tempo que um personagem tão fascinante não aparecia na tela. Sua motivação é tão misteriosa e seus atos parecem guiados por uma lógica tão falha que é impossível não se surpreender no final. Por falar em surpresas, a própria interpretação de Brosnan se converte em uma. Sobrenaturalmente adequado, ele consegue converter as linhas do roteiro de Morrissey em alvo de fascinação. Em outras palavras, é impossível não se pendurar em cada frase de seu personagem. No fim de seus bem-medidos 95 minutos, "Encurralados" só não se converte no melhor filme de seqüestro de nosso século porque carece de uma Jodie Foster para iluminar-lhe as cenas. Ainda assim, é um trabalho que merece uma boa olhada. “Quem esmaga uma borboleta na roda de tortura?”. Há muito tempo que eu não me via tão surpreendido com a resposta de uma pergunta Descubra-a você também.

Nota: 8,0

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (12/02/2009)

O Pistoleiro

Dirty Harry, John Wayne, Jesse James e sua gangue. Ícones do faroeste, personagens (ou atores) de inúmeros filmes e nomes com importância garantida na história do cinema, independente do gênero. Mas todos eles se curvam ante "Jonah Hex". Embora a certa medida seja uma homenagem a todas essas e outras figuras, nunca houve uma obra tão popular como nome atrelado ao western tradicional. Uma das séries em quadrinhos mais cultuadas da história da nona arte, "Jonah Hex" apareceu pela primeira vez em 1972, em uma revista alternativa da DC Comics, o pistoleiro de rosto deformado criado por John Albano e Tony DeZuniga teve um duradouro título próprio de mais de uma década e retornou recentemente com um novo arco de histórias. Com a popularidade renovada de forma tão brusca, não demorou para os estúdios de Hollywood virarem seu olhar para o personagem, e pelo andar da carruagem a produção sairá já no ano que vem. De nomes confirmados, até agora temos o diretor Jimmy Hayward, cujo único trabalho anterior é a co-direção da animação "Horton e o Mundo dos Quem", e o revitalizado Josh Brolin, recém-indicado ao Oscar pelo desempenho em "Milk", como o protagonista. Os boatos ainda sugerem que John Malkovich ("Queime Depois de Ler") pode viver o antagonista de Jonah.

Um prequel para Verne

Depois da “modernização” respeitosa que resultou no pioneiro "Viagem ao Centro da Terra – O Filme", Hollywood parece ter acordado para o potencial financeiro das obras e personagens do escritor francês Júlio Verne, pai da ficção científica. Popular a ponto de estrelar duas obras do mestre francês e ainda aparecer no infame "A Liga Extraordinária", o Capitão Nemo, retratado por James Mason no cult-trash de 1954 intitulado "20.000 Léguas Submarinas", é o próximo que deve ganhar uma nova investida cinematográfica. Embora use oportunamente o nome da obra de Verne no título, "20,000 Leagues Under the Sea: Captain Nemo", é o que os executivos da terra de cinema gostam de chamar de prequel, ou seja, uma continuação que conta eventos que aconteceram antes dos desenrolados no primeiro filme. No caso da história do explorador marítimo, o “filme de origem” irá acompanhar o capitão idealizando e construindo seu célebre navio de guerra, o Nautilus, veículo usado por Verne para explorar o fundo do mar tanto em "20.000 Léguas" quanto em "A Ilha Misteriosa". Saindo do pesado trabalho de pós produção de "Exterminador do Futuro 4", McG deve tocar a produção assim que Justin Marks ("Street Fighter: The Legend of Chun-Li") der os toques finais do roteiro, e já aterrorizou os fãs ao declarar que Will Smith (!) seria sua primeira escolha para o papel.

Genialidade além da animação


A Pixar não deixa cair a produção e já dá sinais que sua entrada no mundo do cinema live-action pode ser arrasadora. Alguns dias atrás, o diretor Andrew Stanton ("Wall-e") foi anunciado como o comandante da adaptação literária cult "John Carter of Mars", que será filmado em estilo quase documental e deve chegar aos cinemas em 2012, logo depois do cauteloso "Toy Story 3". Agora é Brad Bird, o homem por trás de "Os Incríveis" e "Ratatouille", que parte para alçar novos vôos com outro filme baseado em uma história contada na literatura. "1906", livro de mistério e aventura do também roteirista James Dalessandro, conta de forma intrincada a história de um estudante que descobre uma rede de fraudes ao investigar o assassinato de seu pai. Supostamente, tais fraudes teriam deixado a cidade de San Francisco vulnerável ao devastador terremoto ocorrido no ano do título. Bird, que também assina o roteiro ao lado do próprio autor, disse que seu filme pode ser definido como uma “produção romântica, épica, misteriosa e com muita ação”. A Disney deseja um orçamento mais modesto para a produção, o que acabou levando o diretor a reescrever algumas partes de seu script, atrasando o filme para a mesma data aproximada de "John Carter".

A mais bela
Entra ano, sai ano, e centenas de listas de “mais bonitas”, “mais sexys” e afins pipocam feito pragas na Internet, e uma boa parte delas diz respeito às belíssimas atrizes do cinema, americano ou não. Nomes como Angelina Jolie, Catherize Zeta-Jones, Halle Berry, Nicole Kidman, Cameron Diaz, Scarlett Johansson, Charlize Theron, Jennifer Aniston e dezenas de outras são presença garantida (e merecida) nessas fileiras. Elas marcaram presença, como sempre, na classificação feita por meio de entrevistas pelas ruas da Inglaterra, mas todas foram superadas pelos traços delicados de uma mirrada e talentosa belga, nascida há exatamente 80 anos. Mais lembrada pelo carisma que representou em "Bonequinha de Luxo" e pela graça nos movimentos musicais em "Minha Querida Dama", Audrey Hepburn foi a mais lembrada pelos britânicos. Superando todos os nomes ali de cima, ela ainda acabou vencendo a concorrência pesada de Grace Kelly, Marilyn Monroe, Shopia Loren, Elizabeth Taylor e Brigitte Bardot. Além de um dos rostos mais marcantes (e perfeitos) do cinema, Audrey é hoje considerada um ícone fashion, já que foi musa do estilista Hubert de Givenchy, que a descrevia como “um ideal de elegância e uma inspiração”. Na foto aí em cima, uma amostra do sorriso franco da atriz mais bela da história.


Bom, pessoal, assim como ontem tivemos um boletim atrasado, hoje temos um com timing perfeito! Seis e meia da tarde, e já estou aqui terminando meu trabalho. Como sempre, agradeço a todos pelos comentários e mais uma vez ventilo a idéia de um especial que virá em breve, sobre um evento muito importante na agenda de qualquer cinéfilo de verdade (não, não é o Oscar). Bons filmes para todos vocês e até amanhã!

Na Mira do Chefe - Tiros na Bélgica (?) e o Globo de Ouro de Colin Farrell

Na Mira do Chefe (In Bruges, Inglaterra/EUA, 2008).

De: Martin McDonagh.

Com: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy.

107 minutos.







A genialidade é relativa. A mente de cada pessoa é marcada por experiências, histórias e convicções que exercem papel fundamental na avaliação e na formação de opinião sobre um filme, um livro ou qualquer outro material de entretenimento. Dito isso, peço que o leitor não confie cegamente em nenhuma sentença do seguinte texto, uma pura expressão da opinião de um espectador que pode estar buscando coisas completamente diferentes das que você, como apreciador de cinema, gosta de ver. Assim como há gente que acredita piamente que qualquer obra-prima precisa ser datada de antes dos anos 1980, existem espectadores que se deixam levar por qualquer sentimentalismo barato dos roteiristas desleixados da Hollywood atual. E assim como haverá gente julgando "Na Mira do Chefe" como uma comédia grosseira, mal-produzida e ridícula, um pequeno grupo de pessoas será capaz de enxergar nesta estréia de Martin McDonagh na direção de longas (seu curta-metragem "Six Shooter" foi o vencedor da categoria no Oscar do ano passado) a simplicidade genial e o foco inigualável nos personagens, cheios de características grotescas, mas ainda assim soando mais reais que todos os heróis de ação de Hollywood. Esse crítico que vos fala pertence ao segundo grupo, mas meu único verdadeiro conselho para vocês sobre "Na Mira do Chefe" é: assista e tire sua própria opinião. O que vem a seguir é a minha forma de interpretar as sutilezas do filme. Para começar, "Na Mira do Chefe", ao contrário do que o título brasileiro tenta evidenciar, não é uma comédia no sentido mais puro da palavra. O humor surge em doses pequenas, quase inteiramente apoiado no sarcasmo e no natural estranhamento imposto aos personagens frente as situações absurdas do roteiro. Não há tiradas baratas e muito menos humor apelativo ou escrachado. Para falar a verdade, não há nada de especialmente impressionante ou impactante em "Na Mira do Chefe".

Há quem diga que esse seja um dos motivos para o filme ser tão entediante, mas é justamente nisso que reside todo o charme e a genialidade. Trata-se de uma história simples, que ousa não se enredar por conspirações e perseguição e não criar um conflito concreto antes da meia hora final. Para resumir um pouco, "Na Mira do Chefe" é um estudo intenso sobre a culpa, a excentricidade, o preconceito e estranheza, um filme que não deixa o interesse cair por nem um minuto, inserindo pequenas brincadeiras contextuais para incrementar a refeição, mas sem nunca desviar-se do gosto do prato principal: emoções, pensamentos, princípios e, acima de tudo, seres humanos. Os dois protagonistas são exemplos perfeitos disso. Ray (Colin Farrell) é um homem cheio de manias e tomado pela culpa de ter acabado com a vida de uma criança durante um de seus primeiros trabalhos como assassino profissional. A pressão psicológica intensa que o personagem vive é trabalhada com perfeição pelo roteiro, que insiste em incunbir a Ray todas aquelas pequenas contestações que qualquer ser humano deveria fazer em algum momento da vida. “Porque eu mereço viver?”. “Estou fazendo a coisa certa?”. Embora muita gente tenha contestado a vitória de Colin Farrell no Globo de Ouro, sua performance detalhista dá uma tradução perfeita para um personagem complexo que poderia cair na carucatura se fosse encarnado por um ator qualquer. Nas mãos do "Alexandre" de Oliver Stone, Ray acaba por criar uma estranha e desconfiada empatia com o público, e é impossível não se emocionar nos momentos mais cruciais do personagem. O parceiro dele, Ken (Brendan Gleeson) é mais difícil de definir, quase misterioso até que o confronto com o chefe dos dois, Harry (Ralph Fiennes) esclarece um pouco sobre o estranho modo contido de ser do personagem. E o desempenho de Gleeson não é menos que perfeito para o personagem, contrastando de várias formas com Farrell por despir-se da vaidade natural de um ator e entregar a interpretação discreta que o personagem merece. Nada mais natural que Gleeson também ter recebido a indicação para a “prévia do Oscar” (nome ao qual não parece fazer jus, já que nenhum dos dois atores foi lembrado pela Academia).

O elenco ainda é fechado por um anormalmente visceral Ralph Fiennes, que consegue fazer um bom trabalho mesmo com pouco tempo de tela. O mesmo pode ser dito da surpreendente Cleménce Poesy, que mostra os primeiros traços de um futuro promissor ao se despir da candura de suas outras personagens para viver sem muitos precalços uma garota que vende drogas para os astros dos filmes capturados na cidade de Bruges, cenário idílico e medieval em que se passa a história. A cidade, aliás, é ponto fundamental em "Na Mira do Chefe", tanto para contrastar com o clima tenso que impregna a parte final do filme quanto para evidenciar a contemplação apaixonada da câmera de Martin McDonagh. Ousando como poucos cineastas fazem hoje em dia, esse londrino de 38 anos traz para seu primeiro longa-metragem a mesma estética dinâmica e criativa que normalmente se vê nos curtas. Sua câmera não é o enquadramento perfeito e a edição classuda dos grandes mestres, mas uma troca de ângulos mais imprecisa (mas nunca insegura), peculiar e encantadora. No final de seus modestos 108 minutos, "Na Mira do Chefe" conta uma das histórias mais comoventes, chocantes e fascinantes do ano passado, construindo personagens devagar, a moda antiga, um filme que não precisa de explosões e grandes tramas para impressionar. A graça está toda nos detalhes, da lágrima que corre pelo rosto de Colin Farrell até a névoa que encobre a cidade durante a noite. Mas, para todos os efeitos, a genialidade é relativa. E é por essas e por outras que eu não tenho medo de dizer que "Na Mira do Chefe" é relativamente... genial.

Nota: 8,5

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (11/02/2009)

M ergue a voz... e Bond concorda docilmente

A cena descrita no título acima tem se tornado cada vez mais incomum nos filmes do espião inglês, mas isso não impede que aconteça entre os intérpretes dos dois personagens. Como respeitoso neo-astro e gentleman que é, Daniel Craig, intérprete de Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", reforçou as alfinetadas de Dame Judi Dench, que participa da franquia desde "Gondeneye" como a chefe do MI-6, sobre os rumos que um possível "Bond 23" poderia tomar. Numa entrevista recente em que respondeu um descontraído “pode apostar” sobre sua permanência na série, Dench declarou que uma das coisas que mais sente falta de suas primeira experiências com Bond são os personagens Q e Monneypenny e que adoraria vê-los de volta. O primeiro, inventor dos equipamentos usados por 007, foi interpretado pelo comediante John Cleese em "O Mundo Não é o Bastante" e "Um Novo Dia Para Morrer", enquanto a icônica secretária era representada por Samantha Bond (curioso sobrenome, não?) nos filmes estrelados por Pierce Brosnan. Craig retrucou que adoraria viver um romance mais descompromissado na pele do agente secreto. A continuação pode ser lançada em 2010.

Bush para Stone, Lincoln para Spielberg

Cada diretor tem o presidente que merece. Famoso pelas polêmicas e pelo patriotismo exagerado, Oliver Stone retratou os polêmicos Richard Nixon ("Nixon") e George W. Bush ("W."), recém-saído da Casa Branca. Ambos os filmes dividiram a crítica e foram ignorados pelos prêmios. Algo me diz que o mesmo não acontecerá com "Lincoln", cinebiografia de um dos comandantes mais merecidamente célebres dos EUA, que ocupou o poder entre 1861 e 1865, tempo de Guerra Civil e polêmicas medidas da parte do presidente, como a emenda constitucional que aboliu a escravidão. Em gestação desde 2003, quando Tom Hanks era o principal candidato para o papel principal, atualmente o roteiro de "Lincoln", redigido por John Logan ("Gladiador"), passa por uma pesada revisão de Tony Kushner ("Munique"), mas já tem protagonista definido. Mergulhado em pesquisas desde 2006, o oscarizado Liam Neeson, que trabalhou com o diretor em "A Lista de Schindler", parece ser o intérprete definitivo do presidente, enquanto rumores mais recentes sugerem que a veterana Sally Field ("Brothers & Sisters") pode viver a primeira dama, Mary Todd Lincoln. Segundo o produtor, não há a mínima possibilidade do filme sair antes de 2011, mas ele também garante que essa é sua estréia definitiva.

Sacrilégio na cidade do Natal

A Disney parecia ter tomado juízo com a regência de John Lasseter ("Carros"). Mas as aparências podem enganar. Das duas, uma. Ou o diretor Henry Selick está querendo derrubar a concorrência e fazer propaganda de seu "Coraline", ou o estúdio centenário do Mickey está prestes a cometer um dos maiores sacrilégios de sua irregular filmografia. Um dos filmes mais cult da história, "O Estranho Mundo de Jack", dirigido por Selick e produzido pelo inconfundível Tim Burton ("Edward Mãos-de-Tesoura"), devia boa parte de seu charme alternativo a antiqüíssima técnica de animação em stop-motion, que consiste e sobrepor várias fotos de bonecos de acrílico ou massinha para provocar a ilusão de movimento. Selick, um dos únicos representantes dessa forma de arte no cinema atual, disse recentemente que “há alguns anos, a Disney me procurou e disse que se fizéssemos uma seqüência de O Estranho Mundo de Jack, teria que ser em computação gráfica”. Apesar do enfarte prematuro que tal declaração provocou aos milhares de fãs do filme, Selick não demorou a emendar com um “mas não acredito que Tim Burton irá permitir isso”. O diretor, que atuou escrevendo e produzindo a obra, não se pronunciou sobre o assunto, mas sempre há a possibilidade que de fato Lasseter tenha abortado o projeto.

O passo adiante

Depois de se esconder sobre a maquiagem interpretando o Lord Voldemort dos dois últimos filmes de "Harry Potter", ser ofuscado por Kate Winslet em "O Leitor" e ignorado (academiacamente, pelo menos) pelo desempenho fascinante em "A Duquesa", parece que dessa vez vai ser inevitável que Ralph Fiennes ("O Paciente Inglês") ganhe os holofotes. Seguindo os passos de colegas ilustres como Mel Gibson ("Paixão de Cristo"), Clint Eastwood ("Menina de Ouro") e Ed Harris ("Pollock"), ele decidiu ampliar a ambição e estrear na direção em uma história shakespeariana das mais apreciadas. "Coriolanus" é uma peça do bardo inglês que acompanha um soldado orgulhoso que é convencido pela mãe a se candidatar ao Senado, o que acaba o levando a decadência. E, é claro, a tragédia. O personagem, interpretado por atores do calibre de Morgan Freeman e John Nightingale em encarnações independentes, deve ganhar sua primeira encarnação bem-produzida na pele... do próprio Ralph Fiennes. O ator, indicado duas vezes para o Oscar ("A Lista de Schindler" e "O Paciente Inglês"), vai conciliar o trabalho dos dois lados da câmera, e os primeira boatos sugerem que pelo menos um outro grande talento deve estar a sua volta. A veterana Vanessa Redgrave ("Desejo e Reparação") é a concorrente mais forte ao papel materno.

Bom, pessoal, vocês devem ter notado que o boletim veio tarde hoje, mas é que não tive tempo nem para respirar durante essas últimas 24 horas, e podem acreditar que fiz um esforço enorme para arranjá-lo... mas enfim, melhor deixar isso para lá... o dia já acabou, certo? Bons filmes para todos vocês e até amanhã!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Boletim Cinéfilo - As Notícias do Dia (10/02/2009)

Versatilidade a toda prova

Ele alcançou notoriedade pelo drama biográfico-psicológico "Garota, Interrompida", que rendeu a Angelina Jolie o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Desde então, tem testado a própria versatilidade, nunca repetindo gêneros, jamais lançado mão de clichês e não permitindo que a indústria do cinema o estigmatize. A verdade é que da comédia romântica ("Kate & Leopold") até o faroeste revisionista ("Os Indomáveis"), a discrição e sinceridade que o nova-iorquino James Mangold impõe a sua câmera é encantadora. Um estilo que se encaixaria perfeitamente em um filme humano, técnico mas emocional, centrado mais em reações do que em ações. Um filme de tribunal, por exemplo. Agora que o projeto foi anunciado, é quase uma decepção que não tenha acontecido antes. Embora nem título o filme tenha ainda, a trama já foi revelada: acompanharemos dois irmãos advogados processando uma indústria de petróleo pela morte “acidental” de centenas de funcionários em uma plataforma. O roteiro está por conta da improvável dupla Sasha Jenson & Casey La Scala, que já haviam trabalhado juntos na comédia adolescente "Manobras Radicais", mas nas funções de ator e diretor, respectivamente.

Austen e os zumbis
Dupla curiosa a do título, não? Grotesca, para dizer o mínimo. Tenho certeza que os mais fanáticos por literatura clássica sentem um pequeno enfarte só de ler as duas palavras lado a lado. Recomendo que estes parem de ler essa nota agora mesmo e passem para agradável notícia seguinte. O Filme-Pipoca não se responsabiliza por qualquer problema de saúde. Continua aqui? Tudo bem, se você insiste. Jane Austen, a venerável escritora inglesa de clássicos como "Razão e Sensbilidade", vai ser levada uma vez mais para o cinema, e como não poderia deixar de ser a fonte de inspiração será um livro... pena que não de sua autoria. Seth Grahame-Smith, dono de uma curta carreira como roteirista de comédias televisivas fracassadas, é o ator de "Pride and Prejudice and Zombies", uma sátira nem um pouco respeitosa a obra máxima da autora, cuja última versão cinematográfica rendeu a indicação ao Oscar para Keira Knightley ("Desejo e Reparação"). O sacrilégio nem aportou nas livrarias ainda e já é motivo de briga entre os estúdios de Hollywood, que acredita, é claro, no potencial comercial da obra, que mistura a trama original com uma invasão de zumbis na Londres vitoriana.

Dupla de peso

Dois mestres, dois cineastas dos mais polêmicos, um projeto indie até a medula e uma tragédia grega. A equação tem tudo para ser um dos filmes mais aplaudidos, cultuados e interessantes do futuro. O título já denuncia a dramaticidade da trama: "My Son, My Son, What Have Ye Done" é um filme que remonta um caso real espantosamente parecido com a tragédia do grego Sófocles sobre um homem que mata a própria mãe com uma espada (não confundir com a trajetória da lenda de Édipo). Os cinéfilos que se segurem na cadeira porque o drama será dirigido pelo alemão Werner Herzog ("O Sobrevivente") e produzido pelo sempre polêmico e surrealista David Lynch ("O Homem-Elefante"), provavelmente o responsável por convencer o parceiro a utilizar a câmera digital para as filmagens. Já que usou essa mesma estrutura no recente "Império dos Sonhos", Lynch parece também ser o dono da idéia de contar o filme todo como um grande flashback, mesmo que o roteiro seja creditado apenas a Herzog. O elenco anunciado é que garante o status indie do projeto: Michael Peña ("As Torres Gêmeas"), Brad Dourif ("Deadwood"), Michael Shannon ("Apenas um Sonho"), Willem Dafoe ("Homem-Aranha"), Chloe Sevigny ("Amor Imenso") e o veterano Bill Cobbs ("Uma Noite no Museu") já estão confirmados.

A palavra delas
Não se passa um ano em Hollywood sem que pelo menos uma dezena de astros e estrelas adolescentes surjam do nada para fazer uma série de filmes tão esquecíveis quanto seu efêmero sucesso. Enquanto isso, quem sobrevive ano após ano, ressurge fracasso após fracasso e continua no topo do jogo da terra do cinema é aquele grupo seleto de atores e atrizes cujo talento resiste ao tempo e ao que mais vier pela frente. Indiscutivelmente, Meryl Streep e Michelle Pfeiffer, cada uma a sua medida, fazem parte desse grupo. A primeira, redescoberta recentemente com "O Diabo Veste Prada" e indicada ao Oscar mais uma vez esse ano por sua freira moralista de "Dúvida", deu um show de carisma e inteligência nas coletivas para a divulgação desse último, dizendo que tinha uma “responsabilidade para com cada uma dessas mulheres que represento” e ainda declarando que, apesar das dificuldades, sente-se “eufórica” por continuar trabalhando e interpretando mulheres de sua própria idade. Segundo ela, algum tempo atrás atrizes na sua faixa de idade “interpretavam apenas bruxas”. Também lançando seu mais novo filme, "Chéri", onde interpreta uma cortesã parisiense da década de 20, Michelle adota um discurso parecido: admite que as propostas diminuem com idade, mas diz que “os papéis vão ficando mais interessantes, quanto mais velha você é”. Que elas continuem assim por muito tempo.


Bom, pessoal, e por hoje é só isso mesmo... agradeço a todos pelos comentários como sempre. Aliás, preciso avisar a vocês: absolutamente não falharei com o boletim, mas como minhas aulas recomeçaram, talvez não tenha tempo nem para ver filmes, que dirá escrever críticas! Agradeço pela compreensão desde já. Mas o nosso especial misterioso ainda está de pé... apenas preciso esperar uma certa circunstância para que ele aconteça. Será que algum cinéfilo consegue advinhar? Bons filmes para todos vocês e até a próxima!